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Pra que serve a ideologia?

Me diga uma coisa: se você está numa mesa de cirurgia e descobre que seu médico é um radical de esquerda, isso faz diferença? Você compra pão todos os dias na padaria da esquina e descobre que o dono é ativista ultra-direitista. Vai deixar de comprar lá? 

Se a sua resposta for “sim” a qualquer das duas perguntas, você é um radical. A grande reflexão é: pra que serve a ideologia?

Desde que as disputas ideológicas emergiram no cenário mundial, lá nos primórdios do Século XX, nunca se teve tanta clareza da inutilidade destas ladainhas filosóficas quanto temos hoje. Saber se uma pessoa é socialista, comunista, capitalista, liberal ou ultra-conservadora é algo tão útil quanto saber a sua religião, cor ou orientação sexual. Sabe por quê? Porque a orientação ideológica não diz exatamente quais são os valores e as intenções daquela pessoa, apenas qual é a sua disponibilidade cultural e prática frente à sua realidade. A ideologia política de alguém é mais ou menos aquilo que essa pessoa conseguiu perceber como resposta aos problemas sociais. À medida em que vai amadurecendo vai se rendendo a outras ideias e outras ideologias, vai se completando como ser humano. 

O fato de termos partidos políticos tão frágeis ideologicamente no Brasil vem justamente da nossa fragilidade ideológica. A verdade é que sabemos tão pouco como funciona verdadeiramente a vida que discutir os caracteres de ideologia política relacionados a isso soa pouco útil. É mais ou menos como discutir Deus a nível religioso ou discutir o amor a nível poético.

Não estou dizendo que é inútil discutirmos Deus, nem o amor, tampouco a ideologia. Estou afirmando que isso é menos importante do que viver a religiosidade, o amor e a política. Discutir conceitos só é relevante a quem vive apenas no mundo da teoria. 

É muito mais útil perdermos nosso tempo buscando as soluções dos nossos problemas do que debatendo se o discurso de A ou B é de direita ou de esquerda. Sei que isso soa idiota aos radicais de ambos os lados, mas isso pouco me importa. Se ainda me fosse importante agradar a quem põe a vaidade intelectual ou o orgulho partidário a frente das atitudes, eu ainda seria um adolescente. Adolescentes é que gostam de reclamar dos outros, de fazer drama demasiadamente e a achar que o resto do mundo é que está errado.

O Estado não é Deus

A relação interessante entre a ideia que temos de Deus e a que temos do Estado.

Se a gente prestar um pouco de atenção às organizações sociais humanas, vamos perceber que quase todas as sociedades criaram uma relação muito próxima com o Estado daquilo que sentem pela figura divina. Em países onde se reverencia Deus de forma mais madura, acaba-se desfrutando de uma relação mais madura entre os cidadãos e o Estado. Aqui no Brasil, onde se tem uma ideia paternalista da divindade, olha-se para o Estado como um cuidador, um solucionador geral de problemas e um infinito provedor.

Parece que isso é assim mesmo! A figura divina, como objeto da cultura humana, não tem como ser dissociada daquilo de mais próximo do divino que o homem criou: o Estado.

Eu, cristão, sou imerso numa cultura divina onde Deus é provedor e cuidador. Deus é pai. Para que eu não transfira exatamente as mesmas características da minha idealização divina para o ente estatal, precisei, com muita reflexão, amadurecer minha ideia sobre a divindade. Passei a perceber que a manifestação divina depende da atuação humana: Deus usa o homem como instrumento da sua obra!

Vixi, mas o Estado também não usa?!

Depois de muita reflexão, percebi que quanto mais maduro somos, menos pedimos à divindade e mais agradecemos a ela.

Puxa, mas não é exatamente assim na relação com o Estado?!

Vejam, não tem jeito… Dissociar o divino da ideia de Estado e da relação que temos com um e outro é uma tarefa interna complicada. E isso é tão visceral que muitas pessoas que trabalham para o Estado sentem-se superiores aos demais, como deuses. E outras se sentem tão comprometidas com o próximo, tão responsáveis pela sua atribuição funcional que a veem como uma missão. Será que a relação destes diferentes tipos de servidores com a divindade não é exatamente da mesma forma divergente?!

Volto ao início. Não tem jeito. Melhorar o Estado também é melhorar a relação das pessoas com a divindade, porque a maturidade mostra que seja o Estado, seja o Criador, precisam do homem como instrumento da sua manifestação para com o homem.