Privilégios

Uma sociedade precisa escolher o que quer para si. Para fazer escolhas maduras precisa avaliar com maturidade a sua realidade. Por exemplo: precisa saber quem sustenta quem. Outro exemplo: precisa saber quem pode efetivamente pagar determinada conta. Não se pode viver de campanha eleitoral, muito menos de discurso politicamente correto. Uma sociedade madura precisa enfrentar seus problemas, executar políticas nem sempre agradáveis e cortar direitos excessivos quando isso entrava o seu desenvolvimento.

A ideia de que é possível construir um país desenvolvido com derrame de direitos para todos os lados é juvenil. Ridícula. Não há sociedade civil que consiga se manter com direitos desproporcionais a sua realidade. E nem estou falando de direitos absurdos como o Auxílio Moradia que servidores de primeiro gabarito recebem. Esses são absurdos, mas são considerados absurdos pela maioria – se é que isso serve de algum consolo.

Estou me referindo a direitos que não tem fundamento fático para existirem. Não há correlação entre a vida e a sua existência. Há apenas a imposição de uma mentalidade, uma ideologia, sobre a sociedade civil.

Vamos a alguns deles: Gratificação Natalina, o famoso 13º salário. Há fundamento fático para que uma lancheria pague 13º salário aos seus funcionários? A lancheria não ganha uma renda adicional para tal, não há 13 meses no ano. Além disso, o funcionário trabalha apenas 11 meses no ano, sendo que no 12º mês a lancheria o pagará para ter um descanso (justo, muitas vezes) com um acréscimo de 1/3 do salário. Isso não basta? No raciocínio brasileiro comum é justo uma empresa pagar 13 salários para um trabalhador trabalhar 11 meses.

Outro exemplo: Estabilidade do Servidor Público. Alguém tem alguma dúvida de que a grande diferença dos serviços públicos e privados reside neste benefício, que faz com que a imensa maioria das atividades públicas sejam mal desempenhadas em comparação com a iniciativa privada?

Nós queremos olhar para estes e outros tantos privilégios como benefícios, direitos que estão integrados de forma definitiva a nossa realidade. Como “coisas boas”. Lamento, amigo, mas isso não está certo. Não ao menos a nossa realidade.

Toda vez que criamos barreiras ao desenvolvimento, estamos privilegiando os grandes e espremendo os pequenos. Explico: com a imensa carga tributária e social para um empreendedor ter seu negócio, ele provavelmente só se manterá com muito preparo e, claro, dinheiro para sobreviver aos momentos iniciais. Quem tem preparo e dinheiro?

É difícil perceber que se fosse literalmente mais barato ser empreendedor, muito mais pessoas teriam seu próprio negócio? E que mais pessoas tendo seu próprio negócio, mais empresas existiriam? E que mais empresas existindo teríamos mais empregos, tributos, competitividade, marcas, mercado, melhores preços, etc.? Isso é óbvio aos países desenvolvidos, mas é ainda um tabu nos que tentam se desenvolver.

É impossível a um país crescer se o esforço da sua sociedade reside em manter privilégios. É impossível a sociedade se desenvolver se ela existe para sustentar o Estado e alguns privilegiados.

Nós precisamos ter humildade e maturidade para enfrentar estas questões. Chega de dizermos apenas o que é politicamente bonito. Precisamos enfrentar isso ou não teremos sociedade economicamente forte para garantir nada no futuro.

A pobreza maior não é a que sentimos no bolso. Essa o trabalho cura. A pobreza maior é a que mantemos na mente.

A mentalidade de quem quer ter estabilidade, quer ter privilégios, quer viver bem a vida inteira sem correr riscos é uma mentalidade avessa ao desenvolvimento. É uma mentalidade aristocrática, como um nobre que quer receber sem avaliar se isso pode ser suportado pelos vassalos.

Os ricos tendem a ser indiferentes a estas questões. Eles têm condição intelectual e financeira de se adaptarem. Mas todo o resto da sociedade depende do desenvolvimento social.

Precisamos deixar de sermos um país que mantém um Estado, para sermos um país que é regulado por um Estado. Precisamos deixar de vender direitos para começarmos a comprar desenvolvimento.

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