Discriminação

Discriminar é muito mais fácil do que parece. Costuma ser definido como uma atitude de exclusão em razão da diferença. Não basta excluir e não basta ser diferente. Vejam que o preso é excluído do convívio social porque é considerado diferente, em suas atitudes, daquilo que a sociedade aceita. A sociedade discriminou-o? Resposta difícil, mas conceitualmente sim. Ou foi ele quem escolheu ser diferente?

As políticas governamentais brasileiras combatem algumas discriminações discriminando. Os exemplos são tantos – e alguns até politicamente incorretos – que me soariam desnecessários referir por evidentes, mas é justamente sobre o quão absurdo é a nossa não percepção disso que escrevo.

Sou contra a pena de morte, mas isso não me permite desrespeitar quem é a favor. Sou contra o aborto, mas isso não me permite desrespeitar quem é a favor – embora eu vá me mobilizar sempre que puder para que não seja aceito o aborto. Sou contra a diminuição da maioridade penal no Brasil neste momento, mas respeito as opiniões contrárias. Sou a favor da liberação da maconha, mas acho valiosos muitos dos argumentos pró-proibição. Apoio o casamento homoafetivo, a adoção internacional, o assentamento de terras não produtivas e devolutas. Não apoio o regime de cotas em universidades, as invasões de terras, o livre direito de greve, o livre direito de manifestação. Acho que a privatização ajuda mais do que atrapalha e sou contra o monte de privilégios que os servidores de primeiro escalão têm que o resto de nós jamais alcançará.

Por que escrevo tudo isso? Porque você aí deve ter se identificado comigo em alguns pontos e em outros não. Nós, seres humanos, somos assim. Sempre teremos algo parecido e diferente uns dos outros. A diferença é o que nos faz humanos.

Não devemos jamais discutir a discriminação sob o aspecto da diferença. Devemos discuti-la unicamente sob o aspecto do respeito recíproco. Não faz diferença absolutamente qualquer aspecto da vida humana para que o ser humano seja respeitado como é, sendo totalmente desnecessário estabelecer que ele deve ser respeitado por ser gay ou evangélico ou negro. Toda vez que sinalizarmos uma diferença estaremos criando uma divisão. Para os mais relutantes em mudar isso significa aderir a um dos grupos distintos.

Outro erro nas campanhas anti-discriminatórias é exigir respeito sem respeitar a divergência culturalmente estabelecida. Como posso exigir que minha avó católica de 80 anos aceite novos valores muito diferentes dos quais cultivou a vida inteira? Como posso exigir que um grupo de religiosos receba em seu templo os elementos de veneração de outra religião? Como posso determinar que uma pessoa receba em sua casa outra pessoa com valores diferentes dos seus?

A discriminação é alimentada quando exigimos que um grupo suporte outro no seu ambiente de convivência exclusiva. Assim como não posso entrar num bordel com uma bíblia buscando catequizar o público, não posso tolerar uma passeata pela liberação da maconha dentro da igreja! As pessoas têm direito de serem diferentes e exercerem a sua diferença no seu ambiente íntimo e exclusivo.

A exigência deve ser sempre o respeito. Nos lugares comuns, no trato pessoal, na vida em geral devemos todos respeito uns pelos outros. Não porque somos simpatizantes do que o outro é ou pensa, mas porque somos todos humanamente respeitáveis.

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