Crise? Que crise?!

Gosto de história e gosto de pensar em como as coisas já foram no passado. Vamos pegar o século XIX, por exemplo. População quase totalmente rural, sem estrutura estatal quase nenhuma, sem escolas públicas, sem hospitais públicos, sem pedágios, sem segurança, sem sindicatos, sem televisão. Se você precisasse de algo deveria fazer. Se você precisasse de assistência médica teria de procurar uma das Santas Casas ou um curandeiro. Se você precisasse de segurança deveria se armar e solicitar o apoio dos seus vizinhos… e eles fariam o mesmo.

E o início do século XX? Duas grandes guerras, radicalização política, fraudes eleitorais e praticamente todos os problemas do século passado.

Vou pular pros dias de hoje. Claro que enfrentamos uma crise econômica. O título é provocativo. É a segunda maior crise econômica que conheci, a primeira como adulto. Como empresário e autônomo, me esforcei muito para manter os negócios e os empregos dos meus colegas. Não tenho conseguido tudo a que me propus. Estou fazendo escolhas difíceis. Meu patrimônio e minha paciência andam bastante prejudicados.

A provocação que empenho no título vem de uma entrevista que acompanhei à nobreza indiana (eu não sabia que ela existia!). Como sabemos, a Índia é um país maior que o nosso, mais populoso e mais pobre. Então o entrevistador pergunta:

– Vocês têm estes lindos palácios, riquíssimos e, do outro lado da foto, uma pobreza gigantesca. As pessoas aqui não se revoltam com essa disparidade?

– Não. Elas sabem que estes palácios foram construídos por gerações e gerações de famílias que lutaram para defendê-los. E sabem que a riqueza adquirida por estas famílias foi usada ao longo dos séculos para construir hospitais, escolas, habitações para auxiliar nos problemas das pessoas daqui. As pessoas sabem que sua vida seria pior sem os nobres.

Pensei comigo que esse mundão é muito grande e muito diferente mesmo…

Vivo num país que cobra tributos de mais de um terço de tudo que produzo (não estou falando em lucro, estou falando “produzo”!). É um país que tem uma boa rede de assistência pública, mas os serviços infelizmente não conseguem atender a contento. É um país que, como vimos no resumo histórico, já foi pior. Já tivemos nobreza e hoje temos algo parecido, se pensarmos que há grupos que são sustentados pela arrecadação de valores da sociedade sem que retribuam a altura este esforço. Com nossas características, boas e más, pensamos nossa relação com o Estado e tudo o mais de forma absolutamente distinta desta manifestada na entrevista.

Nossa crise financeira é severa, mas nossa crise de valores e referências é gigantesca. Não sabemos para que trabalhamos, para que pagamos tantos impostos, para que respeitamos tantas regras, para que compartilhamos nossos espaços. Somos reféns de uma falta de identidade que nunca foi devidamente abordada. Nunca houvi no Brasil falarmos algo diferente de crise. Crise disso e daquilo.

Há nações que vivem para guerra, outras para o trabalho. Nós, parece, vivemos para o futebol. Se é verdade que toda a crise é passageira espero que em breve eu sofra uma crise de risos.

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