Por que o estadismo faliu?

Quando acabou o muro de Berlin, em 1989, muito se disse que aquele era o fim do socialismo e isso não entrava na minha cabeça. Eu não conseguia entender porque a queda do muro poderia significar o fim de um sistema político-ideológico em que a prioridade era o bem comum, o social. O socialismo voltou para minha vida com toda a força durante a faculdade de Direito. É sabido que o ambiente universitário brasileiro é apaixonado pelos ideais socialistas, em subversão a este “monstro demoníaco do imperialismo americano!”. Com dezessete anos eu estava na faculdade estudando Marx e Engels e filiado ao Partido dos Trabalhadores. Com dezenove eu já sabia que aquilo tudo na prática era muito diferente do que eu lia.

O conteúdo ideológico de um socialista – leia-se socialista, no Brasil, igual a marxista – parte do princípio de que o Estado é melhor que a iniciativa privada. Então, dar esmolas na sinaleira é errado: você deve doar o dinheiro a uma entidade ou ao Estado para que cuide dos necessitados. Ter armas em casa é ruim. Só os policiais podem tê-las, pois são mais preparados e honestos no seu uso. Cobrar impostos é necessário pois o Estado cuida de todos e a nobreza da vida cidadã está justamente em partilhar parte da sua riqueza com o Estado para que ele cuide dos mais necessitados. O socialista-marxista vê o Estado como um religioso vê a Deus, como algo maior, mais nobre, mais necessário, mais virtuoso.

Este pensar cria uma série de derivados. Por exemplo, trabalhar para o Estado é mais nobre do que trabalhar para si. Outro exemplo: enriquecer é desvirtuoso porque explora o trabalho e o dinheiro alheio para fins particulares. Mais uma: o Estado precisa ser o ente mais forte do país.

Com base nessa mentalidade criam-se as bases estatais, os direitos e deveres que cada um deve ter, pois o Estado não é nada sem as pessoas.

Um dos resultados dessa mentalidade é que ela transfere muito da mão-de-obra capacitada para os quadros estatais. Ali você terá uma série de benefícios e prestígio incomparáveis. E se acomodará.

Só que, ao contrário do que essa ideologia prega, o Estado não é mais virtuoso que a sociedade civil. Nem mais, nem menos.

O Estado é formado por pessoas como as outras. Se a sociedade é corrupta, o Estado o será. Se a sociedade é mal preparada tecnicamente, idem o Estado. Se o cidadão está desestimulado com a vida, o servidor provavelmente estará.

Ver o Estado como algo superior é eleger um salvador que não nos salvará.

O fortalecimento de um país é o fortalecimento da sua sociedade civil, que produz, gera empregos, paga impostos, cria tecnologia, forma pessoas, cultiva alimentos. Existe sociedade civil com Estado mínimo, mas jamais existirá Estado com sociedade civil mínima… a não ser que queiramos voltar ao Absolutismo e ao Feudalismo.

Nós precisamos mudar nossa mentalidade o quanto antes. O mundo já deu incontáveis exemplos de que isso é necessário, sob pena de sucumbirmos ao mesmo que muitas outras nações sucumbiram.

Pergunte-se por que o posto de saúde não atende melhor que a clínica particular, por que a escola particular ensina melhor que a pública e verá a resposta na sua frente com facilidade. Não é culpa das pessoas, é culpa dessa ideia antiga e ridícula que pulveriza sonhos, que acomoda o esforço, que zanga pela insuficiência, que mata pelo descaso, que se perde num labirinto que jamais deveria ter sido construído. Essa ideia gera acomodação, despreparo, desmotivação, ineficiência.

As pessoas sempre viverão melhor se colherem o fruto do seu trabalho. As pessoas sempre viverão melhor com liberdade e proporcionalidade.

O Estado, como ente indispensável que é, deve ser exemplo de líder: que apoia sem gerar acomodação; que ensina com o exemplo; que motiva e cobra; que gasta o necessário; que trata com igualdade; que é rigoroso com os outros como é consigo.

O Estado não é o servidor, o hospital, a delegacia. O Estado somos você e eu. Investidos em cargos ou não, todos o sustentamos e o representamos de alguma forma. O estadismo não faliu e não falirá, mas precisa ser repensado e redimensionado, sob pena de tornar-se igual ao pai fumante que morreu de câncer no pulmão e punia os filhos que fumavam. O que faliu foi esse socialismo criado por filhos de burgueses intelectuais que nunca suaram a camisa para trabalhar e que criaram um mundo de ideias para poderem viver na mesma mordomia que viviam quando eram sustentados pelos pais.

Estadismo não é socialismo. E enquanto uma coisa estiver associada a outra nosso caminho não nos levará ao destino que buscamos.

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