Advogar na Geração Z

Erasmo disse que ninguém nasce homem; torna-se homem. Isso foi lá por 1.500. Veio Serge Hefez, no seu recente livro “Homens no Divã”, e confirmou isso. A história humana tem sido assim ao longo dos últimos milênios, uma sucessão de valores e conceitos que se somam e tornam-se algo novo a partir do que eram antes. Penso que sempre seremos assim.

A psicologia social já identificou que as gerações não são mais avaliadas a cada período de 25 anos, como ocorria até algumas décadas atrás. Hoje a cada 10 anos temos alterações comportamentais relevantes, ao ponto de que nos últimos 40 anos temos catalogadas as gerações X, Y e Z. Não pretendo discorrer sobre suas características e diferenças… há vasto material na rede. Pretendo usar estas premissas preliminares para avaliar o que precisamos fazer para continuar exercendo a advocacia – quiçá sendo operadores disto que hoje chamamos Justiça – num futuro não muito distante.

Vou listar algumas evidências iniciais, que não podem ficar de fora da nossa avaliação:

  • a internet mudou a forma de nos comunicarmos, nos relacionarmos e satisfazermos nossas necessidades
  • a resolução dos conflitos de interesses não é mais uma exclusividade do Estado
  • a sociedade gosta de atender suas necessidades com o maior conforto e brevidade possível
  • as novas gerações têm valores e interesses diferentes das gerações que criaram os sistemas estatais aos quais estamos submetidos
  • o mundo muda rápido porque as pessoas mudam mais rápido hoje em dia

Dito isso, creio que aceito de forma genérica por nós todos, listo o padrão clássico das características do sistema jurídico:

  • formalidade e estabilidade
  • procedimentalidade
  • impessoalidade
  • hierarquia
  • autoridade

São evidentemente características distintas as listadas neste e no rol anterior. Por isso acredito que este sistema judicial irá acabar.

Cada vez mais as pessoas e as empresas estabelecem relações com vínculos diretos. Para você reclamar do atraso de um voo, por exemplo, pode postar algo no Twitter a respeito e receberá em alguns minutos um retorno da companhia aérea. Para solicitar um táxi, faz check in em determinado aplicativo e ele lhe informa o nome, o prefixo e em quanto tempo chegará o taxista. As relações humanas naturalmente se transformarão para algo deste tipo em todas as esferas e aquilo que não estiver a contento será detectado pelos interessados.

Vê-se que a única relação que tende a não se contagiar com tais evolucionismos é a relação com o Estado. O Estado, especialmente em países em desenvolvimento, ainda é muito parecido com o estado monárquico do passado. É dotado de privilégios, exige o que não faz e distribui direitos aos seus que não contempla aos demais. Essa postura haverá de mudar, mas certamente mudará mais lentamente que as relações privadas.

A advocacia precisa escolher se cumprirá o caminho das evoluções privadas ou estatais. Tem-se colocado de uma forma muito conservadora e corporativa diante das inovações, especialmente porque se compara com o modelo estatal. Claro que usando este paradigma tenderemos a nos refrear. Acontece que este paradigma não é o único disponível e podemos (e devemos) escolher outros mais eficazes.

Parece-me que o advogado precisará antes de tudo ser localizado com mais facilidade e, com isso, apresentar-se através daquilo que pensa e faz. O advogado precisará ter ideias e características disponíveis aos interessados. Além disso, precisará poder exercer sua atividade em mais de um lugar, pois a dinâmica “nas nuvens” obrigará que clientes, advogados e judiciário tenham plataformas de integração virtuais. O mais chocante, contudo, é a ideia de que advogados não serão mais tão necessários como o são hoje. A tendência de encurtamento das relações entre clientes e prestadores naturalmente desenvolverá métodos de resolução de conflitos autônomos, com SACs e ouvidorias mais atuantes e mais preocupadas com a imagem da empresa perante o grande público. A advocacia precisará aprender a inserir-se nestas relações de forma a-judicializada ou lhes restarão apenas os dissídios em que o Estado é parte.

O mundo caminha naturalmente para uma era em que as pessoas serão o que desejam. Precisamos nós todos operadores do Direito escolhermos com maturidade e clareza o que desejamos.

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