Meritocracia

Meritocracia – predomínio numa determinada organização daqueles que têm mais méritos – virou ponto de ideologização. Como tudo mais no Brasil. Não entendo porque perdemos tanto tempo discutindo certas coisas… mas vamos lá.

Se vamos formar um time de futebol do condomínio para disputar o campeonato municipal, vamos convocar quem: (a) os mais simpáticos; (b) os mais bonitos; (c) os que jogam melhor?

Se vamos colocar nosso filho numa escola, vamos escolher qual: (a) a mais perto de casa; (b) a maior; (c) a melhor?

Se vamos escolher nosso próximo emprego, escolheremos: (a) o mais perto de casa; (b) o mais fácil; (c) o melhor?

Se vamos tratar doença grave, escolheremos: (a) o tratamento mais barato; (b) o tratamento mais rápido; (c) o melhor tratamento?

Ok. Chegamos no primeiro estágio de reflexão. Já sabemos que praticamente sempre escolheremos o melhor quando tivermos essa opção. A melhor cerveja, a melhor rua para morar, a melhor praia para passar férias. Portanto, o que vai diferir é o que compreende o conceito de melhor para cada um de nós.

Estágio 2. Na Meritocracia é a mesma coisa. Podemos discutir qual é o mérito que vai ser valorado, mas nunca impedir que exista critérios de merecimento para a formação das relações e organização. É óbvio demais, mas vamos continuar.

Se não for pelo critério do mérito, qual será?

Quem ganhará a partida de futebol se não for por ter conseguido fazer gol?

Como se demonstrará melhor conhecimento acadêmico se não for realizando um teste?

Onde você irá trabalhar se não for onde se preparou para fazê-lo eis que, afinal, preparar-se é justamente cumprir o “mérito” para exercer a função?

Reitero a pergunta: se não for por mérito, qual será o critério? Pelo parentesco, pelo partido, pela religião, pela cor da pele, pelo gênero.

O mundo é melhor quando construído a partir do êxito. Isso exige esforço. Não significa que todos devamos ser iguais, nem competitivos, nem gênios. Significa que todos precisamos descobrir aquilo em que somos bons e o que temos a acrescentar. Não podemos nos permitir a mediocridade e a acomodação, pois é isso que cria a desigualdade. Não podemos pedir que as pessoas brilhantes parem de brilhar porque somos opacos. Temos sempre que nos enfrentarmos, nos superarmos, nos melhorarmos para que o sentido existencial não se contente em adquirir superficialidades como objetivos.

Meritocracia é isso, simples e natural. Sempre acompanhou a humanidade. Mas virou tema ideologizado porque, afinal de contas, para uns, se o mundo não é do meu jeito, que mude o mundo.

Discutir a meritocracia e não os seus critérios é coisa de fracassado. Faz parte daquele pacote de ideias que prega o que não faz, que imagina o que não pode ser materializado, que desorganiza porque desagrada. Se nos permitirmos viver nesse mundo de fracassados mentais, somos igualmente fracassados. E aí, o mérito por termos atingindo a mediocridade será de todos nós.

 

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Direitos Humanos

O Brasil é um país que tem um nação refém de balelas midiáticas e ideológicas porque nos contentamos em não saber. Nossa ignorância não é suficiente para nossa vida: pegamos emprestada a ignorância dos outros também. E uma das mais repetidas, seja para o lado da intolerância quanto do paternalismo, é a ideia sobre o que são direitos humanos.

Uns acham que representa o excesso de tolerância que temos com a bandidagem – e às vezes essa ideia é tão batida que se torna um efetivo comportamento estatal. Outros, com base na mesma ideia, veem como um porto seguro que lhes garante que, mesmo não respeitando os direitos alheios, devem ter respeitados os seus. É mais ou menos como as pessoas que não têm moradia se permitirem invadir a moradia alheia sob o fundamento de que precisam de lar, sem se importar de retirar o lar dos outros.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 é um conjunto de garantias mínimas para que o ser humano possa viver em sociedade. São direitos fundamentais, inseridos nas principais legislações do mundo para que todos tenhamos meios de exercer nossa vida, liberdade, igualdade, cultura, religião e intelectualidade.

Direitos Humanos não são proteção a vagabundos para que continuem na vagabundagem. Nem a malandros para que continuem na malandragem. São o direito de não ser violentado, não ser injustamente preso, não ser reprimido pelo que pensa ou defende. Portanto, sim são direitos de todos, incluindo você e eu, sejamos nós quem formos. São direitos que competem a policiais e bandidos, a servidores estatais e trabalhadores privados, a ricos e pobres, gays ou heterossexuais.

Aqui não pretendo falar do direito que se dá a refugiados de guerra, nem a vítimas de violência estatal ou familiar, tampouco a garantias personalíssimas essenciais das pessoas de bem. Isso tudo é óbvio que deve ser defendido ardorosamente pela grandeza que representa.

Falo do indivíduo que se permite exceder os seus limites de direitos e violentar o direito dos outros. Ele deve ter a noção mínima de que, na defesa dos seus direitos legítimos, a sociedade poderá eventualmente cometer abusos da mesma ordem. Isso não é institucional, é humano (e errado), como humano (e errado) é desrespeitar o direito dos outros. Existe uma régua moral que não pode ser exigida unicamente de quem é bom e justo porque ela importará na sobreposição dos bons e justos pelos injustos que se permitem qualquer coisa.

Eu sei, eu sei… se defendermos isso poderão ocorrer injustiças demasiadas. Poderão, por exemplo, surgir vinganças, pré-julgamentos, erros de análise. Por isso que é importante deixar unicamente aos canais competentes, respeitado o devido processo legal, a tarefa de julgar. Mas não é isso que estou querendo dizer. Não é isso que estou defendendo.

Estou defendendo a ideia de que não permitamos que os direitos invocados sejam exigidos por quem flagrantemente não os respeita. Mesmo estes direitos humanos mínimos. Desculpem, mas isso é o que penso sobre a vida.

O cara que se permite atirar num pai de família para roubar o seu carro escolheu, de forma tácita, renunciar ao pacto sobre direitos humanos. Ele está dizendo que não acredita nisso, não quer isso. Está dizendo que os seus direitos são maiores que os direitos humanos, na sua régua de valores. E está permitindo, portanto, que a régua usada contra si não seja essa que as pessoas de bem convencionaram. É uma opção dele, não nossa.

A partir do momento em que ele assim opta e age nossa opção precisa reconsiderar isso. E temos de escolher se vamos ser peremptórios ou vamos continuar nos submetendo aos seus critérios. Vamos nos iludir que sendo permissivos com quem não respeita os nossos direitos humanos eles um dia aprenderão a respeita-los? Vamos apostar a vida dos nossos filhos nisso?

Falando mais cruamente. Não estou dizendo que quero que os policiais linchem os bandidos. Estou dizendo que entendo os eventuais excessos dos policiais contra bandidos que vivem cometendo excessos. E estou dizendo que os policiais que vivem cometendo excessos um dia serão tratados com esse mesmo excesso por alguém, pois acabam se tornando bandidos. Vejam, a um limite claro do que é direito humano e não é.

Direitos não são premissas individuais. Direitos são sempre premissas coletivas, que servem à vida em sociedade. O indivíduo sozinho no pico da montanha não precisa do estado democrático de direito se lá permanecer. Portanto, quem renuncia as premissas que regulam a vida em sociedade deve ter a maturidade mínima de saber que, na defesa de direitos legítimos, o ser humano também pode se exceder. Só isso. Isso não permite vingança, linchamento ou maldades. Mas também não permite que se viva à mercê de quem não respeita ninguém.