A arte de errar

Muitos de nós se esforçam arduamente para não errar. Seja por orgulho, por comprometimento, por autruísmo, o esforço de acertar costuma preencher nosso tempo. Ainda assim, com nosso máximo preparo, com nosso total empenho, com todo nosso interesse, nem que seja eventualmente erraremos.

Errar é humano, diz o dito popular. Errar nos faz humanos, é verdade. Os sistemas não erram. Seus operadores ou criadores sim. E os sistemas que estão em erro continuam em erro, não se corrigem automomamente (eis o sonho da inteligência artificial). Consertar erros é uma tarefa da razão, mas não depende só dela.

Se você olhar bem pra uma pessoa, não vai demorar em encontrar seus pontos falhos. A arrogância, o despreparo, a falta de iniciativa, o destempero. Sempre haverá algo a se criticar. São nossos interesses e nossos sentimentos que nos incentivam a tolerar ou nos compelem a condenar, a revidar ou nos afastar dos (defeitos) outros.

Cada um tem sua régua sobre isso. Alguns exigem a perfeição dos outros, não toleram falhas. Eu as procuro porque gosto de ver como as pessoas lidam com elas. É o modo como a pessoa lida com seus defeitos que me faz respeitá-la. Ou me afastar.

Virtudes e defeitos são erros de dosagem. Ser autoconfiante é bom, mas se você exagerar vai querer enfrentar adversários que provavelmente não possa bater. Ser medroso é ruim, mas se você não arrisca nunca, nunca se machucará. Ser inteligente ou ser muito bonito são das mais perigosas virtudes. Parecem bastarem-se. Costumam podar o desenvolvimento de outras virtudes. Até a humildade e a caridade, virtudes que admiro muito, são nocivas quando mal dosadas.

Sobre a vaidade intelectual, Goethe ensinou que não se envergonhava de contradizer-se porque não se envergonhava de raciocinar. Não deixava de ser, ao mesmo tempo, uma confissão de arrogância intelectual e uma demonstração de humildade. A razão é assim, não se basta por si.  Se você não estivesse em frente ao filósofo alemão ou não contextualizasse a premissa, não saberia se foi uma coisa ou outra. A razão precisa de suporte afetivo e contexto para fazer-se devidamente compreendida.

A emoção não… é autoexplicativa. A raiva, a paixão, o temor. Pronto, se bastam, já entendemos.

Por isso, quando erramos por vacilos racionais e queremos nos justificar, contextualizamos. Quando erramos por motivos afetivos, depende… precisamos saber qual a afinidade do interlocutor ao nosso patrimônio emocional. Se for distante ou desinteressado, racionalizamos.  Se for mais chegado, falamos dos nossos sentimentos.

Errar ensina o que acertar jamais fará. Acertar é o objetivo, mas para atingi-lo precisamos aprender primeiro a errar e corrigir nossos erros. E isso pode ser complicadíssimo. Costuma ser uma lição decorrente do exemplo. Está acima do racional e do emocional, num canto interior que usa elementos de intuição e de sensibilidade. Acertar decorre mais da maturidade que da inteligência. Como na oração de São Francisco, onde pede força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode e sabedoria para distingui-los.

É possível perceber quem resolverá os problemas, do trabalho, da família, do país. Os que os enfrentam são os que os admitem. Não ficam apontando pros outros, nem fingindo estar tudo bem quando não está. A arte de errar é um reflexo, um eco. Errar é humano, persisitir no erro é humano. Conserta-lo é divino.

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