Leituras que eu li

Sou um apaixonado pela leitura. Embarcar no mundo de alguém, conhecer seus sonhos, medos, reflexões de uma outra vida, de outros corações. Costumo dizer que os leitores reconhecem quem lê. A leitura é, para a intelectualidade, como o tempero para a culinária. Ler dá mais técnica e sensibilidade ao ser.

Por causa disso, vou compartilhar aqui algumas das minhas melhores leituras. Não apenas indicando esse ou aquele livro, que é algo que se consegue em qualquer catálogo, mas dizendo o que mudou em mim depois de apreciar cada uma das obras sugeridas.

E pra começar, trago quatro livros que valem muito a leitura:
O Monge e o Executivo eu li há mais de dez anos, quando os conceitos e as habilidades sobre liderança se tornaram necessidades. Essa obra baliza um momento histórico onde ficou bastante claro a distinção de chefe e líder, com ideias que hoje se tornaram efetivas no mundo corporativo. É leitura básica pra qualquer um que trabalha e, principalmente, gerencia pessoas. 

O Caçador de Pipas é um dos dez melhores livros que já li. Em 2007, passava por um momento de grandes mudanças na minha vida, pessoal e profissionalmente. Ler sobre amizade e traição, sobre a lealdade e a deslealdade que podem estar a qualquer instante nos visitando, fez muito significado. Foi um dos livros que me fizeram chorar e me repensar. Se passa no Afeganistão, o que, por si, já é interessante pela diversidade cultural envolvida. Você provavelmente vai devorar as 360 páginas em alguns poucos dias.

Eckhart Tolle é o pseudônimo de um alemão que se formou em Londres e mora no Canadá. Em certo momento da vida, ele foi dominado pela depressão e fugiu para o oriente em busca de respostas que não conseguia na lida científica ocidental. O resultado disso é a criação de uma obra grandiosa, que ocidentaliza muitos conceitos filosóficos e religiosos orientais, especialmente budistas, tornando-os mais acessíveis e até críveis para nós. Também na lista dos dez melhores que li, este livro representou o upgrade dos meus conceitos religiosos.

Por indicação da professora Lisi Szeckir, da ADVB de Porto Alegre, conheci esta obra da brasileira Dulce Magalhães, que é Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Colúmbia. Um livro de apenas 115 páginas, mas com uma profundidade ímpar na reflexão do quanto a disciplina e o autoconhecimento nos permitem melhorar e sentir felicidade. Foi o primeiro livro que quis reler na vida.

Se você já leu algum desses, me diz como foi a experiência.  Até a próxima!

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A Burguesia

De origem francesa, a palavra designa a classe social dos detentores do capital. Na Wikipédia está que surgiu nos séculos XI e XII na Europa e por volta do século XVIII no ocidente. Marx usou o termo para classificar a classe social “materialista” que detém os meios de produção e esse conceito é até hoje referência de boa parte dos ideários políticos da esquerda brasileira.

Só que o mundo mudou muito nestes 150 anos posteriores a Marx…

Nas comunidades mais simples do Brasil, onde a antiga dona de casa passou a vender comida em forma de marmita para os vizinhos que trabalham no comércio.

Para a cabeleireira que atende na sua garagem e subcontrata uma manicure.

Para o trabalhador da roça que se mudou para a cidade, começou a vender lanches e abriu um restaurante.

Com o pedreiro que passou a trabalhar por conta e, diante da demanda, subcontrata outros pedreiros e serventes.

Com o antigo pequeno agricultor que, ano após ano, arrendando as terras vizinhas e obtendo êxito no plantio, adquiriu novas terras e enriqueceu.

Para a confeiteira que abriu uma rede de cafeterias.

Para o retirante nordestino que se tornou metalúrgico, sindicalista e depois presidente do país.

A burguesia merece esse novo conceito. Que leva em consideração que, nos dia de hoje, o esforço e a competência resultam em êxito. Que ser pequeno ou ser grande depende mais da sua capacidade que do seu bolso. Que há tantas relações profissionais, sociais, negociais, emocionais e pessoais no mundo, que avaliá-lo com conceitos de quase dois séculos atrás é discutir no campo teórico o que já foi discutido, elaborado, constatado, demonstrado e extinto.

Pra quem não percebeu, a burguesia move o mundo. Cura doentes, abre ruas, produz alimentos, constrói casas, distribui trabalho e renda. Só há sociedades ricas e aproximadamente iguais em oportunidades e direitos onde a burguesia se expandiu. A burguesia é tão eficaz que até criou o Estado para ajudá-la a construir um mundo melhor.

Que sejamos todos burgueses…

 

Patrão e Empregado

Até poucos anos o mundo era absolutamente patriarcal. Foi assim durante milênios e ainda é em muitos lugares. O patriarcado não foi mera imposição do homem sobre a mulher e a prole. Foi modelo familiar vertical marcado pela imposição da força, que resultava num mundo hierarquizado, repercutindo em toda a estrutura social. Não era, como alguns gostam de bradar, uma imposição maléfica. Era uma realidade daqueles tempos em que a razão se rendia à força porque ainda não tínhamos maturidade social e individual para valorizarmos outro modelo. Ninguém nasce sabendo, nem as sociedades nem as pessoas.

Se é verdade que os homens dominavam o mundo, e uns sobre os outros, também pagavam mais com a vida que as mulheres. Há evidências de que, em época de guerras, a população feminina chegava a ser cinco vezes maior que a masculina nas áreas envolvidas. Talvez por isso os homens começaram a se preocupar em criar regras, sistemas de governo, tribunais e outros mecanismos que resolvessem os conflitos sem uma espada e sangue.

As relações patronais decorrem desse modelo. Surgiram pouco depois do feudalismo (onde o senhor feudal era praticamente dono dos vassalos) e quase concomitantes ao fim da escravatura. Nasceram totalmente imersas nessa influência hierárquica e quase absoluta de poder.

Graças aos céus, tudo evolui. As relações patronais hoje sofrem interferência de sindicatos, leis, fiscais, mercado, capacitação, meios de produção e um sem fim de fatores.

Se é verdade que o empregado já foi um semi-escravo do patrão no século XIX, hoje goza de tamanha proteção estatal (ao menos em nosso país) que sequer tem o direito de renunciar boa parte dos seus direitos. 

Nesse novo mundo, o empregado tornou-se quase um sócio do negócio. Na empresa todos dependem um do outro. A existência de hirarquia, sempre necessária, diz mais à necessidade de se manter claras as funções e responsabilidades do que à importância de cada um no sistema.

Empregados comprometidos e competentes são muito valorizados. Passam a integrar o capital mais valioso do negócio. Essa visão do mundo, onde o trabalhador tem uma importância fundamental na empresa, é incipiente e desestimulada. Ainda é mais fácil olhar pra essa relação de um jeito vertical e polarizado. Esse olhar mantém estruturas que se extinguiriam se evoluíssemos. 

Imaginemos fosse difundida a ideia de que cada indivíduo é fundamental na empresa. De que a sua capacitação e seus resultados influenciariam diretamente no êxito do negócio. O mundo teria de dar passos adiante, deixando pra trás uma serie de estruturas desnecessárias. Patrões teriam de remunerar melhor, empregados teriam de se responsabilizar mais. O estado teria menos poder de influência e os sindicatos seriam referidos em livros de história. 

Nessa nova etapa das relações trabalhistas, o avanço e a produção dependeria muito mais do esforço, da competência, da afinidade dos envolvidos. Esse modelo já existe, está por aí em diversas empresas. Mas como é distante da mentalidade média de nossos educadores e antagônico aos nossos padrões culturais, ainda é desprestigiado e desrespeitado. Afinal, a quem interessa um mundo melhor de verdade e não apenas no discurso!?

Com certeza o que se discute em termos ideológicos é tão somente a manutenção de velhos padrões sob novas vestimenta. Já estamos prontos para ir adiante, mas isso exige mais de ambos os lados.

Uma nova cultura

Taylor, antropólogo britânico, ensinou que cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Portanto, a cultura é resultado humano que forma novos humanos. Por sua vez, os novos humanos influenciados pela cultura recebida poderão influenciar a cultura… e assim caminha a humanidade.

É como o ar: mesmo que não a conscientizemos ela nos permeia. Estamos inseridos nela e somos constantemente influenciados por ela. Ainda que apresentemos resistência à cultura, será uma resistência cultural de alguma forma. As disputas de ideias são disputas de influência cultural e de influência na cultura.

Você reconhece uma cultura tipicamente brasileira quanto ao comportamento social? Com suas experiências, você elencaria quais elementos como integrantes da cultura nacional no aspecto comportamental?

Quando acreditamos que estacionar no local proibido por alguns minutos não é problema…

Quando realizamos protestos em vias públicas que prejudicam o deslocamento (e os compromissos inadiáveis e irrecuperáveis) de milhares de pessoas…

Quando contratamos um serviço e não pagamos…

Quando usamos milhares de argumentos para justificar um erro confesso, ao invés de pedir desculpas e reparar os danos…

Quando queremos mudar o mundo para que caiba dentro dos nossos desejos pessoais…

Que tipo de cultura é essa?

O Brasil não gosta de cultuar boas lideranças. Gostamos dos demagogos, dos atalhadores, dos que resumem o mundo para que fique simples no papel. Estamos rodeados de boas pessoas, mas gastamos tempo e esforço criticando as que não prestam. Tivemos incontáveis líderes que produziram obras magníficas, mas procuramos os que superarão Cristo em influência, porque as pequenas realizações positivas não nos captam mais atenção do que as grandes bobagens.

Veja nosso debate político… é ridículo. Criam-se apelidos para denegrir porque evidentemente fica difícil ofender e depreciar uma pessoa que é visivelmente capaz, séria e producente.

Veja nosso comportamento esportivo, onde ludibriar a autoridade é considerado normal e onde a imposição do nosso talento se dá mais por exibição que pelo resultado. Afinal, meritocracia (vencer, atingir objetivos) é o menos importante, não é?!

Veja nosso comportamento nas relações jurídicas e pessoais. Nossa produtividade. Nossos serviços públicos.

Isso tudo é cultura.É tudo resultado de uma proposta de vida falida, mas da qual não nos cansamos de tentar e tentar manter.

Como crianças morais e comportamentais que somos, queremos tudo. Queremos que o novo seja imposto sobre o velho. Queremos drogas sem crime. Queremos democracia com representações exclusivamente nossas. Queremos dinheiro para tudo sem a obrigação de trabalhar proporcionalmente. Queremos isso e aquilo e aquilo lá também.

Admiro culturas de respeito ao passado, como fazem os orientais. Admiro cultura de respeito às lideranças, como fazem os norte-americanos. Admiro a cultura de respeito às diferenças que se vê na Europa. Admiro o esforço e a simplicidade do nosso povo brasileiro. Admiro a religiosidade e a vida familiar dos latino-americanos. Admiro a alegria frente à adversidade dos africanos. Admiro a capacidade de se inovar e receber o diferente dos australianos. Aprendermos o que admirar, quem sabe, faça parte de uma nova cultura… uma que viva de algo além de reclamar, protestar, denegrir e querer mudar o mundo com o esforço dos outros.

 

 

O assistencialismo

Você acha que a maioria das pessoas não querem ver os outros viverem uma boa vida, que não estão nem aí se o governo vai ajudar a conseguir moradia, estudo e saúde? Se você acha, pode parar a leitura por aqui. Essa reflexão é pra quem acredita que o ser humano, de maneira geral, gosta de estar bem e ver os outros bem.

Nós que queremos ver as pessoas ao nosso redor viverem bem, terem acesso ao estudo, ao emprego, à moradia, à felicidade, nós somos pessoas tendentes a concordar com as políticas assistencialistas. Afinal, o assistencialismo é uma forma de permitir que se realize esse nosso desejo, acreditamos.

Nós que achamos aceitável pagar impostos superiores à média mundial porque isso ajuda a sustentar a máquina que permitirá distribuir oportunidades e renda e isso, afinal, faz parte de um plano maior de igualar as pessoas desprivilegiadas, nós pagamos literalmente para que isso ocorra.

O assistencialismo, afinal, é a prestação de assistência a quem precisa. E basta olhar ao nosso redor para percebermos que muitas pessoas precisam.

Ora, é inegável que o Bolsa Família dá renda a pessoas que não tinham meios de atingir aquela renda. É inegável que as políticas cotistas dão vagas a quem não tinha a oportunidade de tê-las. É inegável que uma política fundiária de distribuição de terras vai permitir que famílias de agricultores pobres consigam finalmente a sua propriedade para trabalhar.

E isso é bom, não é?! Não.

O assistencialismo é como o analgésico. Ele é melhor que a dor, mas é pior que a cura. Faz parecer que é a solução para o problema, mas ataca somente a parte mais traumática e urgente.

O primeiro mito que precisa ser encerrado de uma vez por todas é o de que apenas as políticas públicas ajudam a resolver as desigualdades sociais. Isso é balela, é só procurar e verá. O Estado é mais uma das entidade que a cultura humana elaborou. Se é verdade que não visa o lucro – e isso não é mérito nem demérito – também é verdade que, mesmo sob a pecha de “público”, pode servir perfeitamente a interesses privados. Um botequeiro que dá emprego a um vizinho executa uma política social importante (mesmo que não tenha consciência disso) e essa relação é privada.

As políticas assistencialistas que enfrentamos, embora tenham um discurso inclusivo, são demagógicas. Não significa que não consigam proporcionar melhoria na vida de algumas pessoas, significa que não produzem o efeito que pretendem e acabam servindo de elemento de aprisionamento mental, ao invés de servirem de fonte de libertação pessoal.

Quando você estabelece uma cota universitária, por exemplo, está confessando que o sistema educacional predecessor falhou. Aí você coloca uma cota de inclusão na universidade e diz que isso equilibra os estudantes. É uma inverdade. Claro que haverão estudantes cotistas brilhantes, óbvio. Acontece que, como sempre, a grande maioria será engolida por uma rotina educativa inédita e desproporcional ao que conhece. Salvo se aquela universidade se adaptar a esta nova realidade diminuindo a sua exigência, o que prejudicará o sistema. Ou se algum projeto outro de compensação surgir. Por que não melhorar o sistema educacional?!

O Bolsa Família… chega a atender 50.000.000 de pessoas! Um quarto da população! Olha pro lado aí onde você está. Imagina que a cada quatro pessoas ao seu redor, uma recebe valores com a contra-prestação de manter filhos na escola. Essa escola que não forma adequadamente e, depois, dependerá de cota universitária para receber o aluno desprivilegiado. Agora imagina isso sistemicamente. Imagina daqui a 20 anos um aluno que estudou por dinheiro sendo ingresso na universidade porque é pobre. Você entendeu?! Você entendeu que não é mais necessário esforço, mérito, vontade, superação?! Você percebe que pessoas que não estão acostumadas a enfrentar a sua realidade com a vontade de vencer são pessoas que dependerão de alguém?! Nem que seja do Estado?! E que depender de alguém, nem que seja do Estado, não é ser livre?! Não é ser adulto!?

A sociedade é construída a partir dos valores que cultivamos. Quando se diz a uma pessoa que ela precisa se superar para atingir seus objetivos, estamos criando uma sociedade de pessoas que transformam suas dificuldades em motivação para algo melhor. Quando dizemos a uma pessoa que ela é uma coitada e que não se preocupe que iremos ajudá-la, mesmo ela tendo condição de ajudar-se por si, o que estamos construindo!?

É óbvio que desejo que o Estado atenda as pessoas que necessitam. Que dê comida e dê abrigo a miseráveis, que transfira conhecimento a todos. O que não quero é que o Estado pode a principal força de aprimoramento humano que é a autodeterminação. O Estado não pode substituir os sonhos da pessoa, sua capacidade de olhar ao seu redor e identificar-se como parte do problema e da solução. O Estado não pode olhar para 1/4 dos brasileiros e achar que são incapazes, dependentes dos outros 3/4, pois eles podem acreditar nisso. E isso é mentira.

Uma política de inclusão séria desenvolveria o país. Faria com que oportunidades, trabalho, vagas em hospitais e universidades, fossem construídas. Isso é inclusão real, quando as pessoas vão, passo a passo, interagindo com seu ambiente, absorvendo experiências que lhes serão úteis e retornarão à sociedade com a sua contribuição pessoal.

Você já pensou por que existe tanto interesse em fazer as pessoas serem dependentes do Estado?! O Estado, por acaso, é melhor que você e eu?!

O ser humano não pode ser tratado como coitado. Não pode admitir-se o coitadismo. O Estado que transfere recursos de quem produz e trabalha para pagar a segurança, a educação, a saúde básica, a infraestrutura de uma nação, e faz isso plenamente, cumpre o seu papel. Um Estado que não consegue fazer o básico das suas obrigações e poda a capacidade dos seus de se desenvolver, seja porque espreme demais uns ou porque entrega demais a outros, é como o pai que exige demais de um filho e mima o outro. Cedo ou tarde a família estará desunida, com o filho mimado cada vez mais dependente e o outro trabalhador cada vez mais capacitado e calejado.

Enquanto não for valor efetivo o trabalho, a autodeterminação e a liberdade pessoal (liberdade, aqui, aquela em que não dependemos), as políticas assistencialistas ideologizadas servem apenas para mover a roda do populismo e da demagogia.