Haters gonna hate

Ódio é uma fonte inesgotável de maldade. Só há maldade sem ódio em psicopatas. Eles não sentem nada mesmo. Mas no resto, a maldade precisa do ódio.

Toda vez que nos manifestamos agressivamente contra uma pessoa, um comportamento ou um tipo de ideia estamos extravasando um pouco do nosso ódio e potencialmente fomentando o ódio alheio, a favor e contra nossa posição. O ódio é desses combustíveis mentais que vai inflamando… e é tão potente que, muitos de nós, achamos que precisamos odiar os que odeiam. É uma metástase racional do ódio. Um jogo de argumentação, onde nos convencemos de que esse ódio que sentimos do “mau” é bom.

Cresci numa família de caçadores. Em certa época da infância de meu pai, caçar era necessário para sobreviver. Convivi toda a minha vida com armas, por quase todos ao meu redor. Lá com meus dezoito anos, achei que não era mais necessário ter armas… dizia pra mim mesmo que não teria. Casei com 23 anos e com 24 fui morar numa casa com um grande pátio. Ali começaram meus problemas com a minha rejeição ao uso de armas. Várias vezes me acordei com barulhos no meu pátio. Comprei um cachorro. Criei mecanismos de defesa para me alertar se alguém tentasse entrar na minha casa. Ligar pra polícia, sem chance… duas viaturas para atender 100.000 pessoas na madrugada; era o que ouvíamos. Por um bom tempo tentei manter minha ideia de que não era necessário eu ter uma arma. Um dia eu estava a 130km de Viamão (eu morava lá) e um cara entrou no pátio enquanto minha ex-esposa estava tomando banho e tentou entrar em casa para violentá-la. Liguei pra polícia (nada, como sempre) e liguei para um tio que, por não estar em casa, não estava com sua arma… mas ele pegou um bastão e correu para a minha casa.

Não podemos viver de ideologias. A maturidade exige que saibamos olhar para a nossa realidade, participarmos da sua evolução mas não nos submetermos às suas maldades. Ter arma não faz alguém melhor ou pior que outro e pode sim resultar numa tragédia durante um surto de ódio.

Se tentou impedir que nós, brasileiros, tivéssemos armas por isso. Se disse que a arma é a responsável pelo imenso números de mortes violentas (cerca de 50mil todos os anos) no Brasil. Acontece que a maldade não precisa de armas e isso é fácil de se constatar. A arma é o último recurso que pode restar entre uma pessoa frágil e um agressor forte.

Nós precisamos perceber que as armas matam porque as pessoas querem matar. Armas não amam e não odeiam.

Um dia, quando tivermos uma polícia altamente preparada, uma sociedade mais participativa, honesta e pacífica, poderemos reavaliar a necessidade de se dispor de armas. Não é impedir o uso de armas que irá nos proteger da maldade humana. É impedir o uso da maldade que o fará. E isso depende da mudança de muitas coisas… nas pessoas.

Odiar é odioso. Só acredito na cura dessa onda de ódio que existe se nos dedicarmos a falar das coisas que funcionam, que dão certo, que podem mudar pra melhor. Reverenciar as coisas boas dos nossos adversários, dos nossos oponentes, dos nossos rivais, das nossas. Quanto mais falarmos que brancos odeiam negros, que muçulmanos odeiam ocidentais, que odiamos o vizinho, mais alimentaremos essa vibe. Deixemos nossas armas que atiram no ódio e na maldade coldreadas e travadas, para só a utilizarmos como defesa de quem as engatilhou, em último caso.

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