O chega

O intelectual prega valores racionais. Luta pela democracia porque vê no sistema uma solução aos conflitos de interesses sociais que almejam o poder. Especialmente o intelectual urbano acha que seus interesses são comuns a todos, em qualquer lugar, porque são bons, inteligentes, legítimos. A intelectualidade orgulha-se da sua opinião.
Acontece que há tantas opiniões quanto são as pessoas…
Sempre achei o Estatuto do Desarmamento inconstitucional. Minha opinião.
Em 1988 a Constituição limitava juros em 12% ao ano. Se entrasse na justiça para revisar um contrato em 1989, ganharia a redução, numa sentença que sairia lá por 1992. Aí o banco recorria ao TJ. Depois ao STJ e STF. Esse, o Guardião constitucional, dizia não ser auto-aplicável a regra de 12% e derrubava, uns 7 anos depois, a demanda. Era estranho ler algo expresso na Constituição e o STF dizer que não valia. Opinião do STF. E decisão definitiva.
A democracia exige respeito às instituições. Se não, voltamos à lei do que grita mais, bate mais, mata mais. Essa lei justifica o terrorista, o vândalo, a guerra. É simples assim. Na democracia a discussão termina ao final do processo. Salvo se outro meio legítimo houver.
Foram 14 anos de petismo. Muitas mudanças no país e no mundo. Várias positivas. Várias negativas (minha opinião). Nós que finalmente vencemos a iniquidade ideológica precisamos respeitar o luto dos seus apoiadores. Já passamos por isso.
A democracia é assim. E como a nossa gente não é lá muito democrática (uns lutaram pela ditadura do proletariado e dizem-se anti-ditadura) é prudente festejar o fim do petismo respeitando a dor alheia.
Da minha parte, espero o nascimento de uma nova esquerda, menos rançosa, menos fragmentadora, mais século XXI. E espero que surja uma direita no Brasil, direita de verdade, não essa que a esquerda marxista diz existir que é, se muito, um grande centrão. Quem sabe surgindo opostos ideológicos efetivos, consigamos, enfim, aprender a respeitar as regras de equilíbrio de forças e extinguir a mera imposição, aplicada aqui desde o Império mas demagogicamente chamada de democrática.

Anúncios

Segurança x Balela

A desigualdade social diminuiu. A população civil foi desarmada. O uso de entorpecentes foi flexibilizado. A educação superior chegou a todas as classes sociais. O trânsito se tornou mais rigoroso. E nada disso jamais participou de qualquer redução nos índices de criminalidade. Por quê?

Seria porque desgualdade social, ao contrário do que se pregava, não é justificativa para a falta de transferência e de exigência de valores?

Seria porque o desarmamento só atingiu quem respeita a lei e serviu para aumentar a sensação de poder dos que vivem de impor medo à cidadania?

Seria porque a educação superior desprovida de qualidade e sem o devido vínculo vocacional serve apenas para vender diplomas e criar mão-de-obra barata?

Seria porque, no trânsito, regras rigorosas sem fiscalização e punição servem, quando muito, para capitalizar cofres públicos?

Nós brasileiros costumamos responsabilizar os políticos pelas nossas mazelas, muitas efetivamente resultantes da sua incompetência. Mas quando se fala de segurança pública, o caminho é bem mais longo e complexo.

Para existir um criminoso falhou, primeiro, a família. Depois dela a escola. Depois ainda a inserção no mercado de trabalho, que é ditada pela política econômica. Falhou também os modelos assistencialistas da sociedade civil, sejam religiosos, sejam culturais. Depois falhou o policiamento ostensivo e a inteligência policial. Falhou o sistema judicial. Falhou o sistema prisional. É complexo, dinâmico, temporal. Por isso, precisamos de regras e valores claros e definidos, fáceis de serem compreendidos e representados pela cultura social.

Quando a polícia age com rigor e, até, com violência contra deliquentes precisa ser apoiada. Critiquem-na quando ultrapassar os limites com inocentes. Assim estaremos dizendo de forma simbólica e direta a todos os delinquentes que esse é o resultado socialmente aceito. Quando o judiciário receber um delinquente trate-o como tal, não como um potencial injustiçado social e processual. 

As teses, deixem-nas com os advogados, com os filósofos, com os sociológos.  Quem tem de agir deve fazê-lo.

Nossa crise de segurança pública no Rio Grande do Sul é tão grande que vejo pessoas que viveram a vida sustentando o mundo do crime com compras e aquisições ilegais refletindo finalmente sobre sua conduta. Só há o caos quando a sociedade, como um todo, se permite sucumbir.

Sucumbimos à balela marxista. Sucumbimos à idiotia garantista. Nos curvamos a teorias que nunca deram certo em parte alguma do mundo sobre educação, economia, sociedade, valores. Estamos quebrados enquanto Estado e enquanto sociedade porque investimos no que não pode nos dar retorno e o que pode – a atividade produtiva, a educação vocacionada,  o serviço público com metas – é tratado como lixo, idiotia, pelos lixos idiotas que cagam sua ideologia pela boca.

Não há mais o que ser dito. Passou da hora de cada um fazer a sua parte para acabar com o predomínio dos criminosos sobre a sociedade. Faça o máximo que puder, não se renda, não se acomode… porque a água já bateu no queixo.

Ciclos de Progresso

Quando somos assalariados nos vinculamos a um ciclo produtivo que representa o período entre a produção e o próximo dia do pagamento. Às vezes, faz parte deste ciclo outros subciclos, como o período de cumprimento de metas, o período de elaboração de projetos e tantos outros. Mas, de uma maneira geral, nossa relação com a produção e a contraprestação do que produzimos costuma ser mensal.

Quando se sai dessa relação temporal entre trabalhar e receber, onde o que se trabalha é relativamente estável e o que se recebe também, o sentido da palavra produção ganha outra relevância, especialmente quando se empreende. Primeiro, porque empreender é assumir o risco. É significativamente diversa a relação entre trabalho e produção do assalariado e do empreendedor, porque o empreendedor não tem nenhuma garantia de que, com sua produção, irá receber o que pretende ou prevê. Segundo, porque empreender é precisar resolver e superar o maior número possível das adversidades que surgirem. Se não o fizer, não recebe ou, se receber, não será suficiente.

No capitalismo há dois conjuntos de capital que interessam: o dinheiro e o saber. Quando se tem um, naturalmente se busca o outro. Quando se tem os dois se enriquece. Nos países mais desenvolvidos, este conjunto é valorizado através de regras, de costumes, de benefícios que naturalmente se sustentam. Se você tem dinheiro, a atividade produtiva lhe procura. Se você tem know-how, idem. Nosso país trata isso de forma diferente. Se você tem o capital financeiro, você é incentivado a ser investidor, não produtor. Aqui produzir é caro e extremamente arriscado. Se você tem capital intelectual, é incentivado a trabalhar para os grandes contratantes, que costumam ser o Estado e as grandes empresas. Crescer como empreendedor, neste ambiente, é muito adverso. Esse sistema tende a se proteger, criando um ciclo de repetição onde quem está em cima lá fica e tudo o mais continua como está. Essa, uma das razões porque não se geram grandes empresas facilmente por aqui. Flexibilizar regras contratuais, facilitar financiamento, desburocratizar o sistema estatal não são condições que ajudarão os grandes… são elementos indispensáveis para que os pequenos cresçam e surjam novos pequenos, num novo ciclo de crescimento.

Cada empreendedor é uma espécie de agricultor urbano. Ali, diariamente, planta o que almeja colher em breve. Mas a colheita depende, assim como na agricultura, de fatores adversos ao seu domínio. Por isso tão importante se preparar antes de empreender (plantar). Uma das adversidades mais comuns do empreendedor é que os ciclos não são mensais, como suas obrigações. O que investe no início do negócio, por exemplo, pode levar anos para retornar. Uma única oportunidade de negócio perdida pode representar meses de negociações e investimentos. Costumeiramente, o empreendedor trabalha no prejuízo em ciclos mensais, vindo a conseguir equilíbrio nos ciclos semestrais e lucros em ciclos bianuais. São relações que demandam muita maturidade, persistência, estudo e dedicação.

Essa cultura de valorização do empreendedor é incipiente em nosso país. Olhamos para os pequenos empresários e não vemos o conjunto de esforços que se têm para ali estar. Costumo dizer que, quando se abre uma empresa, se criam algumas certezas: o governo vai receber seus impostos, os empregados vão receber seus salários, os fornecedores vão receber por seus produtos e serviços, os donos do prédio vão receber o aluguel, o banco vai receber pelo financiamento, o franqueador vai receber seus royalties, o cliente vai receber seu serviço ou produto… e o empreendedor, se sobrar.

Sempre que puder, conheça os pequenos negócios da sua região e valorize aqueles que têm algo a lhe oferecer. Dê seu feed-back. Cobre o que não ficou a contento. Não desista daquele prestador se percebes um bom profissional. Bons prestadores nem sempre atendem bons clientes, mas bons clientes formam bons prestadores, porque lhes enriquecem no campo do dinheiro e do saber, bases do capitalismo.

Cada vez mais ouvimos falar das empresas socialmente comprometidas. Valorize-as, sem dúvida. Mas seja você também socialmente comprometido com as empresas que merecem continuar no cenário social. Elas dependem de você mais do que pensa. Os ciclos de progresso dependem de um conjunto de atitudes que vai muito além do prestador, do empregado, do governo, do professor, do policial, do cliente… e abrange todos estes e todos mais.

Lembra sempre que para cada servidor de primeiro escalão (juízes, delegados, deputados) precisamos dos impostos de cerca de dez empresas com três empregados cada. Considerando dois sócios, são cinquenta pessoas que trabalham para manter aquele servidor. Para cada escola, quantas precisamos? Para cada quartel da polícia militar ou delegacia, quantas empresas e trabalhadores estão produzindo?

As sociedades modernas e justas são movidas pelo empreendedorismo. E empreender denota condição pessoal e aceitação social. Se o único critério para comprar produtos e serviços for o preço, estaremos sempre à mercê do que de mais rasteiro o capitalismo oferece. Valorize o que há de mais valoroso e todos colheremos os resultados dos novos ciclos de progresso.

 

 

 

Ciclos

Num belo domingo de sol duas irmãs param o carro na sinaleira e são abordadas por dois jovens que recém chegavam de um trabalho realizado no interior. Eles mandam elas saírem do carro. Sem saber ao certo se tenta arrancar para fugir ou se movimenta o carro involuntariamente com o susto, um dos rapazes dá três tiros que vitimam a motorista. Eles retiram-na do carro e fogem, roubando-o. Horas depois o veículo é encontrado queimado, com o documento de um deles dentro. Já não servia para o desmanche ou para a clonagem, porque os receptadores não gostam de receber veículos que estão sendo procurados pela polícia. A morte foi em vão, como são todas. A vida fez com que deixassem cair a carteira que os identificaria.

Ser assaltante é pior que ser traficante. O usuário escolhe sua condição de vítima do tráfico, na maioria das vezes. O assaltado não. A morte por vício costuma ser lenta, à prestação. A morte por tiro é à vista.

Hoje ainda recebi pelo WhatsApp um vídeo de uma jovem que mora distante mas tem alguma relação comigo, onde ela está fazendo sexo com dois homens. Ela tem apenas 18 anos, certamente só pensava em se divertir e não fez nada de tão absurdo assim… mas a sociedade vai cobrar dela esse deslise para sempre. Se for médica ou fisioterapeuta, seus pacientes lembrarão. Se for advogada, juíza, policial, seus investigados lembrarão. Se for vendedora, cabeleireira, diarista, seus clientes lembrarão.

Recentemente um amigo sofreu um sequestro relâmpago e ficou cerca de uma hora e meia refém de dois ex-presidiários. Me disse ele que não sentiu raiva, até se compadeceu, de certa forma, do fato de que eles diziam precisar roubar porque não conseguiam trabalho. Estranhei. Sempre o achei severo com tais atitudes. O carro dele não foi recuperado. A seguradora já lhe deu um novo.

Julgamos e somos julgados a todo instante. Tomamos decisões e nos omitimos a toda hora. Ciclos constantes de ação e reação, atitude e espera, plantio e colheita.

Temos nos iludido com tantos discursos falsos sobre o comportamento humano que nos falta a convicção do certo e do errado para as coisas mais básicas socialmente. O bom e o ruim já não são unânimes como foram por séculos de humanidade. E isso tem lá seu lado bom, é inegável. O que não se pode jamais é deixar de lado aquilo que norteia a vida social.

A moralidade não deve ser construção ideológica. Certo e errado podem ser ideologicamente maleáveis, mas o bem e o mal não. A vida necessita que o que lhe faz bem seja valorizado e repudiado o que lhe faz mal. 

O ciclo da vida é acertar e errar. O que se faz e o que acontece depois que se erra é que nos diferencia como pessoas e como sociedade. Aceita-se, perdoa-se, tolera-se, pune-se, entende-se, regenera-se. Ou nada acontece, ao menos aparentemente.

Se estás atento ao teu redor, o universo explica muita coisa. Em cada dor, em cada alegria, em cada perda. A vida está sempre neste balançar e não deixa de pedir e dar a cada instante, a cada um de nós. Não estamos livres de nada disso.

Vou falar uma banalidade ocorrida comigo. Quebrou uma prótese dentária minha ontem à noite. Típica coisa chata, que incomoda. Enquanto me lamentava disso lia algumas postagens no Face e me compadeci com uma que pedia doação a um jovem com câncer. Fiz uma pequena doação. Bem, hoje pela manhã tentei alguns dentistas conhecidos para corrigir meu problema. Acabei encontrando horário com um senhor que nunca tinha visto nem ouvido falar, sem qualquer referência. Ele me atendeu prontamente. Me explicou uma série de coisas, pediu raio x, colou a prótese. Ao sair lhe agradeci e perguntei o valor. Ele me respondeu: nada. Foi apenas uma colagem, não vou lhe cobrar.

Vencer!

Veni, vidi, vici… parece fácil, para quem apenas lê, a conquista de Júlio César. Algo como “cheguei, gostei e peguei”. Vencer é o objetivo humano mais remoto, depois de sobreviver. Quiçá sobreviver seja vencer a morte, ao menos por hoje.

O que é vencer? Derrotar, ganhar, obter vitória diz o léxico. Vencer é, portanto, atingir um objetivo. Quando pensamos em vencer pensamos em que? Esporte? Conquistas profissionais? Superar um trauma, uma doença? Receber um dinheiro decorrente de um negócio?

Vencer é o resultado do mérito. O mérito decorre de uma conotação social (ou relacional) e de uma conotação íntima. As duas conotações formam o valor do mérito.

Nos dias de hoje, associa-se a ideia de vencer ao liberalismo capitalista porque, afinal, neste regime o desejo de conquistar é inerente. Se não houver desejo de conquista não haverá o capitalismo. Tal associação criou uma dissociação: a de que a busca pelo mérito, pela vitória, cria desigualdades. É um ledo engano, fomentado e multiplicado por conveniência.

O ser humano que não tem objetivos existenciais não está existindo. O ser humano mais desprovido de condição, de saúde, de meios, sempre estará buscando algo, nem que seja viver (ou sobreviver). É da natureza humana atingir objetivos. Quando se prega a ausência do mérito se está lutando contra a condição humana. É irracional, insensível, até malévolo.

Vencer não é superar o outro apenas. É ser melhor que você mesmo. E se for superar o outro, que seja. Perder faz parte da próxima vitória, eis que nenhuma vitória é perene. E se nenhuma vitória persiste, toda vitória faz parte da próxima derrota. Cabe ao ser humano aprender a vencer e perder, neste eterno ciclo… mas jamais negar ou afrontar a necessidade de buscar seus objetivos e aprender quando não os consegue.

Por que perdemos nosso tempo discutindo mérito no sentido ideológico? Porque se imaginou um mundo impossível brotado de um bem original, de um ser humano ideal que nasce pronto e não transpassa a estrada evolutiva, um ser que não se materializa jamais. Esse mundo impossível prega a mudança do que há pelo que deveria ser, mas exige que esse objetivo se cumpra através de regras impraticáveis, regras que não são praticadas sequer por quem as defende. Como fazer um profissional ser eficiente e eficaz sem o risco de perder o emprego em caso de fracasso? Como dizer que um aluno está pronto sem avaliá-lo? Como não bonificar um êxito se é o êxito que todos precisamos? Como distribuir a riqueza alheia sem distribuir as obrigações que geraram tal riqueza?

A vida sem méritos é a contemplação dos méritos alheios.

A vida em sociedades que se perdem em debates impraticáveis é a contemplação da vida nas sociedades alheias.

Vencer é necessário. Aprender a perder é necessário. Ajudar os outros a vencer é necessário. Ajudar os outros quando perdem é necessário. Viver vencendo e perdendo é viver.

No fundo a vida é mais simples do que tentamos fazê-la e vencer pode ser, simplesmente, atingir um melhor viver.

O direito de ter direito

A lei escrita mais antiga conhecida é o Código de Hamurabi, datado de mais de 1700 anos antes de Cristo, lá da Mesopotâmia (Irã). É uma lei que trata de diversos direitos, como escravidão, família, dívidas, homicídio. Todos estes temas são regrados até hoje e não foi pela existência de uma lei que deixaram de ser desrespeitados nas relações sociais. Por quê? Lei é letra morta. O que lhe dá vida é o que vem antes e depois. Antes, pelo aspecto cultural: se a lei determina algo diverso daquilo que o costume pratica ou possa praticar, tenderá a ser desrespeitada. Depois, pelo aspecto funcional: é princípio jurídico que a lei que não impõe sanção ao seu descumprimento é inócua. Portanto, sanção não aplicada é atuação estatal (e legislativa) inócua.

Acreditou-se, por exemplo, que restringir legislativamente o uso de armas de fogo diminuiria a criminalidade no Brasil, como o fez na Inglaterra e Japão. Não foi feito nada além disso. É óbvio demais, mas o óbvio também precisa ser dito: só quem cumpriu a lei foram as pessoas que respeitam a lei e a sociedade. Os criminosos continuaram andando armados e, pior, se sentindo mais poderosos frente à certeza de que as chances de reação diminuíram consideravelmente.

Essa característica mental que faz acreditar que basta editar uma norma para que a sociedade se torne o que ela propõe deriva de uma imaturidade difícil de ser admitida e que, sob argumentos intelectuais relativamente bem articulados, conquista apoiadores ingênuos e bem intencionados. Quem dera dizer que homicídio é severamente punido pela lei para que os homens deixassem de se matar. Os homens deixam de se matar, primeiramente, porque tem medo. Só os mais evoluídos (e não há outra palavra, infelizmente) é que, por respeito ao outro, lhe poupariam a vida num momento grave.

Bem, há países quebrando mundo a fora porque se acreditou que bastava distribuir direitos que eles automaticamente seriam implementados. Porque a Noruega consegue dar licença maternidade de 35 semanas, acham que é só criar uma lei igual para distribuir o mesmo benefício… e quem pagará por isso? Como pagará?

Além disso, porque a Noruega dá este benefício, se trata como se o mundo civilizado fizesse o mesmo… o dito mundo civilizado trata de forma muito diferente questões como aborto, maconha, adultério, homicídio, greve, serviços públicos, impostos, etc. Há argumento pra todo o lado.

A DIFERENÇA É QUE O MUNDO CIVILIZADO SE PREPARA MELHOR PARA O QUE PRETENDE GARANTIR EM TERMOS DE DIREITOS!

Restringe o uso de armas porque oferece segurança pública. Onde não consegue oferecer, permite que o cidadão se proteja.

Oferece saúde gratuita porque tem base produtiva que paga impostos capazes de manter isso. Onde não tem base, cobra caro pela saúde, pois saúde é caro.

Oferece longa licença maternidade onde as empresas têm contrapartida, não sendo sobrecarregadas pela falência do sistema estatal e transferência de obrigações ao sistema privado.

Nós não. Aqui o negócio é distribuir direitos. É ranço da monarquia, só pode (se bem que há muitos países monárquicos que não tem a mesma cultura de privilégios). Aqui, ser do setor público ou do setor privado significa direitos muito diferentes. A começar pela estabilidade. O servidor só pode ser dispensado se cometer um ilícito… tá, mas e se o cara trabalha numa escola que não precisa mais existir? Ou se ele está num departamento que não consegue atender à função proposta? Não interessa. A culpa não é dele. É sempre do governo. O governo que mude alguma coisa e faça funcionar. Mas não pode mudar a remuneração, nem a carga horária, nem o plano de saúde, nem impor metas, nem a contribuição previdenciária, nem o tipo de trabalho, nem os direitos funcionais, nem a ajuda de custo, nem os adicionais, nem a forma de eleição das diretorias… então, melhor deixar assim, sem funcionar mesmo. A gente aumenta um pouquinho o imposto esse ano e abre outro setor pra ver se ajuda a dar certo. Se não der, ano que vem fazemos outro setor de apoio e aumentamos mais um pouco os impostos. E vamos culpando os empresários, esses gananciosos sonegadores da direita reacionária que enriquecem explorando o povo.

Queremos mudar o Brasil? Não.

Se quiséssemos acabaríamos com os privilégios. Não só o tal foro privilegiado (que nem é tão bom assim). Há muitos, muitos… muitos outros privilégios por aí.

Entra num estabelecimento privado e lê a placa: você está protegido pelo Código de Defesa do Consumidor. Exija a apresentação do mesmo para consultá-lo.

Estra num estabelecimento público e lê a placa: desacato é crime.

Olha a lógica disso: no estabelecimento privado, que o cara entra se quiser e normalmente é bem atendido, você tem direitos a exigir. No estabelecimento público, que o cara entra porque precisa e não costuma receber atendimento satisfatório, você está proibido de reclamar disso. Mesmo que sua mãe esteja morrendo na maca do corredor. Mesmo que o assaltante que lhe tomou o veículo esteja rindo da sua cara no lado de fora.

Sou filho de servidor público. Admiro o serviço público prestado por alguns abnegados, especialmente na segurança, saúde e magistério. Mas não há como negar que esse problema não tem solução mantendo as coisas como estão. E como é impossível mudá-las, prezados, preparem-se para os próximos vinte anos: eles lhes trarão muito mais direitos, mas muito menos possibilidades. E isso tudo vai ser culpa do governo e dos empresários.