Dia Internacional da Paz

Que mundo, não é?! Precisamos de um dia para lembrarmos de valorizar as mulheres, os negros, os médicos, as secretárias, os estudantes, os professores… e até a paz!

No caso do 21 de setembro – que até parece o 1º de janeiro, mas este é Dia Mundial da Paz e aquele Dia Internacional – chama a atenção que com experiência civilizatória de mais de 15.000 anos ainda precisemos lembrar que vale a pena viver em paz.

A paz não é uma construção fácil, sabemos. Depende, para existir e ser mantida, de uma série de fatores que demandam muito esforço pessoal e social. Porque toda pessoa que se sente agredida se legitima a revidar a agressão, normalmente com outra agressão. E o enfrentamento sobre a primeira agressão e a segunda, suas razões, a intensidade, a forma, tudo é fator de desequilíbrio da paz e acirramento da agressividade. A injustiça é o fermento e a agressividade é o forno da discórdia, que são os primeiros destruidores da paz.

Creio que o mais maduro é que resolve os problemas. Quanto mais centrada, mais equilibrada, mais interessada for uma das partes, mais fácil de ser resolvido será o problema. Dois desequilibrados quebram o pau com certeza. Dois equilibrados, ainda que se sentindo injustiçados, contêm-se e buscam o diálogo. Uma sociedade violenta como a nossa resulta dessa falta de maturidade, de civilidade. E não é que não existam os maduros e centrados entre nós… não é isso. É que no confronto violento entre o equilibrado e o desequilibrado, este costuma levar vantagem. Aquele hesita, este não. Aquele quer algo além do que este quer. Eis uma constatação civilizatória importante: sem um mediador eficiente, o desequilibrado e mais violento domina os demais.

Essa a primeira função do Estado. A mais importante, a única que não pode ser transferida, embora possa ser compartilhada. Dar segurança e promover a paz social é a base civilizatória. Nada há antes disso que não seja a luta pela aquisição dos interesses individuais.

Toda vez que vemos quem desafia a paz social com depredação, agressão, violência, imposição dos seus interesses, estamos vendo uma postura anti-civilizatória que, evidentemente, coloca em risco a paz. Contra o violento adianta o diálogo?

Na condição histórica em que nos encontramos não interessam as ideologias nem as justificativas subjacentes: se o exercício de tais posturas atenta contra a paz, não serve. Porque depois que se desequilibra a estabilidade do sistema social, será a força que irá se impor. E o uso da força é comprovado historicamente como cheio de efeitos colaterais.

Veja o assaltante. Ele impõe-se frente ao proprietário de algo que lhe interessa usando da violência ou grave ameaça. A lei que proíbe tal conduta falhou em conter sua vontade. A partir do momento em que ele age com violência autorizou, mesmo que inconscientemente, que se lhe contenham com a violência. Pode ser contido por sua vítima, pelo Estado, pela sociedade. Para o ser humano racional é óbvio que o risco de ser violentado não vale o permitir-se violentar. Mas…

Alguns, menos conscientes, dirão que não é justo conter um assaltante que visa um bem material tirando-lhe a vida, por exemplo. Também acho, em tese. Mas constato que no momento em que ele ameaçou a vida de alguém, permitiu deduzir-se que é violento e que, para ser contido, pode ferir. Isso é óbvio, mas ainda precisa ser dito.

A humanidade é isso, a mistura dos mais e menos humanos. Quando desprezamos as instituições que existem para promover a estabilidade social, estamos fomentando o que nos retira a humanidade. Por mais nobre que achemos ser a nossa causa.

Quem não aprendeu a viver com a civilização atenta contra ela. E, nessa luta, é o Estado que media e impõe. A paz é, por assim dizer, o primeiro ideal estatal e o principal elemento da base social.

Sejamos nós, nesse mundo tão conflitante, a paz que desejamos, como nos ensinou Gandhi, o homem que representa a luta sem desrespeito à paz.

 

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O governo do melhor discurso

É comum vermos opiniões que ridicularizam a classe política, apontando as mais variadas críticas aos nossos representantes e aos pretendentes a cargos eletivos. Vai-se desde a cobrança de que todos tenham curso superior até a ideia de que deveriam ser proporcionais a quantidade de candidatos e vagas à quantidade de negros, mulheres, deficientes e outras classificações. Com todo respeito às opiniões divergentes, tudo isso é antidemocrático. 

Exigir curso superior, por exemplo. É rescaldo do nosso elitismo, fruto de uma construção idealizada e infundada de que a democracia representantiva é técnica. No outro extremo, a ideia de que devemos ter exatamente o número de vagas e candidatos das infindáveis divisões que são possíveis no tecido social. Imagine se, por termos 1.000.000 de advogados no país, criássemos uma regra que obriga a ter pelo menos um representante da OAB em cada órgão eletivo.

A democracia, como governo de representantes e representados, não é formada pelo rigorismo da técnica nem pela exata proporcionalidade. Democracia é feita pelo resultado eletivo do melhor discurso em concordância ao cumprimento das obrigações constiucionais e legais.

Vejamos o PT, protagonista dos maiores escândalos de corrupção da história republicana. Conseguiu se reeleger e consegue expressivas manifestações de apoio ao seu projeto ideológico. E isso é democrático. Ao menos do ponto de vista eleitoral e representativo.

A discussão pertinente é justamente essa: basta, para legitimar a democracia, que o governo tenha sido eleito ou precisamos de uma adequação mínima ao projeto e ao ideal proposto em campanha e exigido pelas normas?

O Brasil vive um momento frágil politicamente, resultado de batalhas ideológicas que se travam muito mais no plano discursivo que técnico. O acirramento do debate deveria enfrentar a efetividade do que se propôs e do que se concretizou em cada governo, valorizando conquistas e reprimindo abusos e ilegalidades, ponderando o que cada governo contribuiu para o bem e para o mal. Mas não… O debate é sempre meramente político-ideológico, estilo terra arrasada, e isso demonstra a imaturidade da nossa política-democrática.

Felizmente as instituições (leia-se nossos representantes em cada uma delas) estão consguindo se impor frente ao apelo demagógico, mesmo com todas as suas fragilidades.

Quiçá seja a demonstração de que nossa democracia larga a predominância da via discursiva demagogica e passa a efetivar e fortalecer quem a sustenta, que é o voto com respaldo institucional.