O governo do melhor discurso

É comum vermos opiniões que ridicularizam a classe política, apontando as mais variadas críticas aos nossos representantes e aos pretendentes a cargos eletivos. Vai-se desde a cobrança de que todos tenham curso superior até a ideia de que deveriam ser proporcionais a quantidade de candidatos e vagas à quantidade de negros, mulheres, deficientes e outras classificações. Com todo respeito às opiniões divergentes, tudo isso é antidemocrático. 

Exigir curso superior, por exemplo. É rescaldo do nosso elitismo, fruto de uma construção idealizada e infundada de que a democracia representantiva é técnica. No outro extremo, a ideia de que devemos ter exatamente o número de vagas e candidatos das infindáveis divisões que são possíveis no tecido social. Imagine se, por termos 1.000.000 de advogados no país, criássemos uma regra que obriga a ter pelo menos um representante da OAB em cada órgão eletivo.

A democracia, como governo de representantes e representados, não é formada pelo rigorismo da técnica nem pela exata proporcionalidade. Democracia é feita pelo resultado eletivo do melhor discurso em concordância ao cumprimento das obrigações constiucionais e legais.

Vejamos o PT, protagonista dos maiores escândalos de corrupção da história republicana. Conseguiu se reeleger e consegue expressivas manifestações de apoio ao seu projeto ideológico. E isso é democrático. Ao menos do ponto de vista eleitoral e representativo.

A discussão pertinente é justamente essa: basta, para legitimar a democracia, que o governo tenha sido eleito ou precisamos de uma adequação mínima ao projeto e ao ideal proposto em campanha e exigido pelas normas?

O Brasil vive um momento frágil politicamente, resultado de batalhas ideológicas que se travam muito mais no plano discursivo que técnico. O acirramento do debate deveria enfrentar a efetividade do que se propôs e do que se concretizou em cada governo, valorizando conquistas e reprimindo abusos e ilegalidades, ponderando o que cada governo contribuiu para o bem e para o mal. Mas não… O debate é sempre meramente político-ideológico, estilo terra arrasada, e isso demonstra a imaturidade da nossa política-democrática.

Felizmente as instituições (leia-se nossos representantes em cada uma delas) estão consguindo se impor frente ao apelo demagógico, mesmo com todas as suas fragilidades.

Quiçá seja a demonstração de que nossa democracia larga a predominância da via discursiva demagogica e passa a efetivar e fortalecer quem a sustenta, que é o voto com respaldo institucional.

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