A traição

Trair é errado. Ponto.

Dito isso de forma peremptória, quero dizer que trair às vezes é necessário. Bom seria que não fosse. Bom seria que, quando se errasse, se conseguisse falar a respeito. Mas o mundo e nós não estamos tão preparados assim…

Existe a traição que reforça os sentimentos, que salva a relação. Tenho certeza disso, tanto pelo que já vi na vida profissional como advogado de família, como pelo que presenciei como amigo e confidente. Repito: não é o certo. Mas às vezes trair é necessário para não se jogar no lixo um sentimento e um relacionamento de verdade.

Trago dois exemplos reais.

Cara noivo de uma guria bonita e inteligente, me diz que vai romper o noivado faltando poucos meses pro casamento. Parecia estar engraçado por uma colega de trabalho. Ele já beirava os trinta, mas estava visivelmente iludido com essa paixonite, meio coisa de guri, que costuma acontecer com os certinhos que tiveram poucas experiências e sequer cogitam a possibilidade de trair sem um grande sofrimento interior. Saímos pra beber e conversar e eu, constrangido, disse claramente pra ele não romper o noivado. Que saísse com a colega e depois decidisse. 

Não deu outra. Saiu com a guria e se arrependeu. Criou a convicção de que a noiva era o amor da sua vida. Se tivesse rompido o noivado teria jogado no lixo uma história de amor que hoje se transformou numa família sólida e feliz.

Anos antes, cinco horas antes do seu casamento, outro cara me liga: “Leco, não vou no meu casamento… Tô aqui com a Fulana (uma amante). Tô apaixonado. Não quero casar”.

Eu sabia que ele andava saindo com essa guria, que as coisas tinham passado do ponto. Não tinha certeza se ele gostava lá tanto da sua noiva, com quem estava há anos, mas sabia que ela não merecia tamanha decepção. Eu, brabo e enfático, respondi: “Cara, sai agora daí. Vai pra tua casa te arrumar e esteja na igreja no horário. A Beltrana (noiva) não merece isso. Daqui a uma semana tu decide o que fazer”.

Estão casados desde então. Parecem felizes.

Imagino como teria sido suas vidas se meus conselhos fossem outros. Se o conselheiro fosse outro.

Trair é errado. Ponto. Mentir é errado. Errar é errado. 

Mas e a vida serve pra que?! Se não for ao menos para aprendermos e nos melhorarmos, errando e aperfeiçoando, perdoando e sendo perdoado, com certeza a felicidade possível não será alcançada. 

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