Ocupação nas Escolas

Eu estudava no terceiro ano do ensino médio quando o Collares (governador gaúcho de 1991 a 1994) implantou o maldito “calendário rotativo”. Era janeiro, verão gaúcho beirando os 40°C, e nós em sala de aula. Aula sem ventilador, com janelas lado leste. Minha escola era considerada das melhores do ensino público técnico, mas era muito, mas muito… mas muito abaixo da qualidade que eu gostaria que fosse. A qualidade era tão ruim que me permitia gazear aula, não estudar pras provas e passar por média, fácil fácil.

Nunca fui de colar, sempre gostei de ler, mas o que eu mais gostava na escola eram os jogos de vôlei. Ah… o vôlei do Protásio era muito bom. E meu colégio ficava ao lado do Tesourinha, que é o ginásio público de Porto Alegre. Então era comum sairmos da aula e ir ver os times de vôlei local treinar.

Eu morava em Viamão, a 20km da escola. Trabalhava numa banca de revistas à tarde a partir das 13h30min, no Centro de Viamão, que fica a 30km da escola. Saia literalmente correndo da aula às 11h45min – porque a minha parada de ônibus ficava a 1km – para chegar em casa às 12h45min e sair às 12h55min pro trabalho. Se eu perdesse o ônibus que passava às 11h50min esculhambava todo esse ciclo. Mas normalmente eu adorava tudo isso.

Em 1991 era época do Collor. Collor foi o primeiro presidente eleito pós regime militar, um empresário de direita que não tinha o menor interesse em fazer um governo de coalizão. Fui cara-pintada. Participei de algumas manifestações e quem participa dessas manifestações, mesmo com 16 anos, têm noção de que a gandaia é muito maior do que o envolvimento político efetivo. Claro que não se vai admitir isso, né!

Enfim, quis dizer que me achava politicamente consciente, envolvido. Tanto que com 17 anos comecei a participar do Partido dos Trabalhadores.

Não existe a menor possibilidade de um diálogo político que não seja de esquerda na escola pública. Não existe a menor possibilidade de se apresentar soluções que demandem participação privada ou empresarial, muito menos de se debater ideais libertários ou progressistas. Não se cogita que o estudo público possa ser cobrado, mesmo que em valores irrisórios de quem puder – eu disse de quem puder – pagar. Quando adulto, criei o Projeto Cresço para apresentar esse debate nas escolas públicas. Funcionou otimamente por três anos até o governo do PT de Viamão descobrir e proibir nosso trabalho. Hoje são contra o “escola sem partido” (também sou), mas na prática só aceitam discutir na escola o que seu partido manda.

A escola pública é formadora ideológica, nos dias atuais, como foi a escola católica nos séculos XVIII e XIX. O esquerdismo marxista aprendeu que é assim que se forma uma cultura. E isso tem dado absolutamente certo na América Latina, ao menos do ponto de vista ideológico.

Do ponto de vista educacional é péssimo (ao contrário do que aconteceu com as escolas católicas referidas). O aluno se acostuma com uma mentalidade rasteira, reivindicatória, onde a responsabilidade é sempre do Estado e o vilão é sempre a iniciativa privada. Estudar é algo que se torna menor na escola. O mais importante é a frequência, são as amizades, é o canudo.

Ocupação de escola é a falência da mentalidade progressista. É o atestado de que a única forma que se conhece de produzir algo, no Brasil, é fazendo protesto para que os políticos façam algo, porque se depender de atitudes efetivas, morrem de fome. São os eternos adolescentes que, crescidos, se tornam dependentes do Estado ou do sindicato.

Querem melhorar a educação, gurizada!? Estudem. Aí no teu celular tem mais informação do que todas as gerações anteriores tiveram acesso em todas as bibliotecas do Brasil. Se tu não tem acesso à internet no teu celular, procura empresários que queiram bancar a internet na tua escola, tu vai achar. Com acesso à internet, vocês podem enriquecer as aulas, os debates científicos, os gráficos e os mapas de geografia, as formações moleculares da química, as fotos dos seres mais sinistros em biologia.

Criançada, vocês estão perdendo um tempo valioso discutindo política. Vocês não sabem ainda, mas vocês não estão prontos pra esse debate. Essa época da vida é a época de descobrir o mundo, de conhecer a história, de dominar as línguas, de aprender a raciocinar. Vocês estão jogando no lixo um tempo que não volta. E o aluno da rede privada está fazendo a parte dele. Daqui a 30 anos vocês vão estar na rua protestado para aumentar o teu salário ou o imposto que o aluno da rede privada vai ter de pagar através da sua empresa que gera emprego, sustenta o Estado e produz.

Querem debate social pertinente à juventude? Debatam os efeitos da maconha na adolescência. Debatam os efeitos do tráfico na sociedade. Debatam o aborto, a pena de morte, a laicidade, a sexualidade na adolescência. Debatam em sala de aula, não na rua, não com ocupação.

Ocupação de escola, gurizada, é coisa de guri mimado.

Agora aos professores que apoiam a ocupação: vocês deviam ter vergonha de incentivar esse tipo de demanda. O Estado remunera mal, dá poucos recursos materiais. Sabemos. O Estado falha em quase tudo que faz. Mas não é esse tipo de atitude que vai mudar essa realidade, professor. Ensina teu aluno a resolver seus problemas se preparando intelectualmente, se capacitando, debatendo. Ensina teu aluno a sonhar sonhos de grandeza, de cura, de soluções. Mostra pra eles como usar as ferramentas que eles dispõe na palma da mão, mostra as fontes mais interessantes da tua disciplina na internet, apresenta tuas aulas no Youtube para teu aluno rever em casa. Se não sabe ensinar isso, professor, pede pra sair. Tu não nasceu pra ensinar. Para de ensinar esse pensamento rasteiro que mantém a América Latina na latrina do mundo.

A vida tem ciclos: nascemos, aprendemos, trabalhamos, ensinamos, cuidamos, olhamos, morremos. Respeitem a fase educacional da vida dos seus alunos. Não quero que meus filhos nem os filhos de ninguém tenham de sustentar o mimimismo de quem foi ensinado a sentar e chorar até ganhar papá.

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