Chape

O que move nossos corações?

A vida é palco repleto de inserções enigmáticas em meio ao roteiro racionalista que lhe traçamos ou lhe tentamos traçar. Por mais que nos preparemos para o esperado fim deste espetáculo é o transcurso que nos traz as maiores recompensas. Nesse transcurso, são os grandes espíritos que nos tocam, nos fazem sonhar, nos motivam e inquietam. Os grandes espíritos são os que vivem a vida, vivem-na, mais do que apenas vivem. Esse viver de verdade que às vezes até zomba da morte, noutras a encontra antes do esperado.

É mais fácil ficar em casa, ter um emprego regular, ganhar salário e cumprir horário. É mais fácil não ter ideologia nem ambição, olhar televisão e conhecer o mundo pela internet. É mais fácil ir na igreja aos domingos e pedir que o Criador nos acalente o coração ou ir na balada de sábado, tomar tequila e terminar a noite suado.

Sair ao mundo atrás dos seus sonhos não é pra qualquer um. Alguns saem para conseguir fortuna, outros fama ou reconhecimento. Alguns fogem de casa porque não querem o que seus pais quiseram, outros fogem de casa para conseguir o que eles sempre sonharam.

A vida daqueles que vão atrás dos seus sonhos é sempre muito mais arriscada.

Quisera fosse apenas um time de várzea disputando seus torneios operários ou, quem sabe, um bom time da série intermediária do campeonato catarinense. Quisera não tivesse ascendido tão rápido da série D à final da Copa Sulamericana. Quisera nem fosse um time de futebol profissional, fosse apenas um clube de eventos esportivos aberto à comunidade chapecoense.

Quisera isso ou só isso e não estaríamos com o mundo consternado nesse momento.

Mas a vida é assim. Um dia o sonho de alguém se tornou o sonho de outro alguém e se criou um time. O time cresceu e moveu uma cidade. Maduro, sonhou sonhos mais altos e atingiu o continente, surpreendendo e mobilizando profissionais e torcedores de todo um país.

O futebol é o nosso grande circo. Move paixões, desejos, rivalidades, dinheiro. A Chape estava no seu auge desse mundo onírico.

O mundo dos sonhos está aí para nos encantar, nos tirar da mesmice, nos tornar melhores. Quando alguém que sai de baixo atinge seus ideais todos ganhamos, todos nos encantamos. Um time de futebol toca milhares (ou milhões) por causa dessa força mobilizadora que nos abarca e nos remete a um desejo existencial remoto e latente ao mesmo tempo.

Quem de nós não era Chape nessa final?! Ela é o que todos queremos ser na vida: um pequeno entre gigantes com chances reais de vencer. Tinha em seu elenco brasileiros de todos os cantos, histórias que se cruzam com a nossa.

O que move nossos corações são nossos sonhos, às vezes através de um time de futebol. Realizados ou não, um dia viram saudade e voltam ao mundo onírico onde pertencem. E nós que os guardamos torcemos para que nunca os deixemos de sentir.

 

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“Estamos lutando por nossos direitos”

Tenho um filho de quatorze anos que pede regularmente de tudo que se possa imaginar. Tem muita coisa que ele me pede que gostaria realmente de poder lhe dar. Noutras vejo seu devaneio juvenil, sua imaturidade e falta de senso de realidade, compreensível na sua idade.

Quando eu era adolescente também pedia algumas coisas aos meus pais que não ganhava. Não era lá muito a minha ficar pedindo, mas tinha duas ou três coisas em que eu era bastante repetitivo e persistente. Uma delas, em especial, consegui. Nós jovens temos tempo pra lutar por nossos direitos.

Hoje os jovens tem ainda mais tempo. Comecei a trabalhar com quatorze anos, mas hoje só se pode depois dos dezesseis. “Jovem tem é de ir pra escola”. Ok. Foi assim comigo também. Seis meses antes de fazer vestibular, aos dezesseis, parei de trabalhar e fui prum cursinho (aliás, onde aprendi 60% da matéria, pois minha escola era muito ruim).

Ei fico aqui pensando se existisse na minha época esses movimentos de protesto, o que eu faria… “Estamos lutando por nossos direitos”. É direito dos jovens estudar? Sim. Com qualidade? Claro. E é direito deles se divertirem? Sim. E não trabalhar antes dos dezesseis? Com certeza, direito constitucional.

Puxa, mas eu fui um jovem violentado pela sociedade e pelo sistema. Fui humilhado, tendo de trabalhar desde os quatorze anos para ajudar meu pai. Fui submetido a uma escola pública opressora da minha enorme capacidade latente, que não conseguiu sequer me repassar o conteúdo básico de vestibular, muito menos fazer com que eu o aprendesse.

Como meus pais me deixaram passar por tamanha opressão e constrangimento?! São pais irresponsáveis, permissivos, tolerantes com as mazelas desse sistema opressor e limitador de capacidades.

Absurdo.

Me formei aos vinte um anos. Esse sistema realmente explora a juventude. Como é possível permitirem que um jovem em tão tenra idade tenha de assumir uma profissão graduada!?

Que país explorador da juventude esse.

Ainda bem que hoje temos jovens que não aceitam isso tudo. Trancam ruas, ocupam escolas, põe fogo em pneus. Estão lá lutando pelos seus direitos. Não se submetem a esse mundo capitalista que exige esforço e trabalho do operário para sustentar o patrão explorador, que paga impostos, dá emprego e produz apenas para explorar as pessoas porque é um ser humano desprezível, egoísta e nefasto. Patrão nasceu para ser mau. Porco-capitalista!

Esses jovens têm futuro garantido na política. Representam milhões de indignados com essa absurda exploração da sociedade.

Esses jovens de hoje são bem diferentes daqueles meus amigos pobres que tinham de trabalhar de dia e estudar de noite. Que moravam em casas simples, criados só pela mãe. Iam na missa de domingo e jogavam bola no campinho que nós mesmos fazíamos em terrenos baldios, até que fossem vendidos e tivéssemos que fazer novo campo em outro lugar. Esses meus amigos, quase todos, hoje homens maduros, vivendo na classe média, criando seus filhos e levando a vida.

Que absurdo! Como puderam vencer tamanha opressão.

Ainda bem que o nosso futuro, com essa juventude indignada, politizada e mobilizada, está garantido.

 

 

 

Estado Mínimo x Constituição

O Rio Grande do Sul tem um déficit fiscal de R$ 2,35bi. O Brasil, superior a R$ 170bi. O Rio de Janeiro e outros Estados atrasam salários e não pagam fornecedores há meses. Resultados de décadas de desajustes, de administrações desregradas, de concessões de benefícios fiscais a empresas e de direitos a servidores desprovidos de suficientes estudos/contraprestação/possibilidade, e de muitas outras estripulias que resultam da despreocupação com a efetividade da atuação estatal.

Diante de todo esse quadro calamitoso se vê algum esforço em dar um curso possível ao Estado e, por outro lado, a resistência dos estadistas, que dizem que os capitalistas/liberais/direita querem o Estado Mínimo e não se preocupam com nada além do seu lucro e da redução de direitos.

O primeiro reparo que sugiro é a reflexão sobre a possibilidade de haver Estado Mínimo no Brasil. Ela não existe. A Constituição estabelece o tamanho do Estado, suas funções, objetivos, seus órgãos para tal, os direitos que há de fazer cumprir e respeitar. Esse conjunto de princípios, normas e atribuições está longe de ser mínimo e, historicamente, cada Constituição brasileira aumentou o Estado, do que se extrai que Estado Mínimo não é um risco efetivo para o Brasil.

Depois, avaliemos de onde vem esse balaio que coloca capitalistas, liberais e a direita juntos?

Não vem da China… lá o capitalismo é de esquerda e oposto aos liberais (que nem existem por lá). Olavo de Carvalho disse que o Marxismo leva ao capitalismo mais voraz que existe: o capitalismo estadista. A China é o exemplo disso.

Não vem dos EUA tampouco. Lá o liberalismo é esquerda.

Nem vem da Europa, onde a direita é estadista, nacionalista e avessa ao liberalismo.

Digo tudo isso para afirmar que as teses de oposição às reformas estruturais que precisamos são imprecisas, demagógicas e antigas. É esse pensamento, essa mentalidade, que nos trouxe até aqui.

O Estado brasileiro tem a característica primeira de se proteger de tudo, a qualquer custo, para se manter e se expandir. Há décadas a única atribuição estatal que funciona é o respeito aos direitos mínimos dos servidores, pois todas as demais atribuições estatais falham. E agora este último baluarte ruiu. O Estado não consegue nem mais sustentar seus quadros, demonstrando de forma inequívoca e inquestionável que algo precisa mudar.

A sociedade civil paga os veículos, o combustível, a telefonia-internet, a eletricidade e os bens manufaturados dos mais caros do mundo justamente em razão da carga tributária altíssima, que existe para manter essa paquidérmica máquina de cargos e direitos exclusivos. E não se venha dizer que chegamos aqui só por culpa dos políticos, pois nunca se avançou no debate das reformas que nos são necessárias justamente pelo corporativismo e protecionismo que sempre vencem e se mantém.

Quem ainda sonha aqueles sonhos estadistas do Século XX precisa acordar. Nossa sociedade não tem mais interesse em pagar tão caro para manter uma estrutura que só se preocupa consigo, que existe para si.

As reformas necessárias precisam ser feitas. Elas permitirão que o Estado cumpra seus objetivos e, de lambuja, farão com que todos tenham direitos e obrigações mais realistas e igualitários. O que, aliás, já deveria ser intrínseco aos efetivos objetivos estatais.

Coincidências existem, mas…

Não posso falar todos os detalhes da história que vou contar, porque ela é real e envolve pessoas. Mas passados dez anos e olhando para um monte de outras coisas que, agora, acontecem ao meu redor com outras pessoas, acho pertinente mostrar que coincidências existem. A vida as criam para que as coisas aconteçam como deveriam acontecer… e só a vida vai mostrar os seus porquês.

Eu tive uma estagiária pouco mais velha que começou a me mandar emoticons eróticos pelo antigo MSN. No início tratei aquilo como uma grande brincadeira, até que dias depois comecei a cobrá-la de algumas tarefas importantes que estavam sendo descumpridas e tudo começou a se esclarecer. Certa vez, enquanto visitava um cliente, liguei para o celular dela e perguntei sobre determinada tarefa que não vinha sendo cumprida há semanas. Ordenei:

– Fulana, vai agora lá no Fórum e busca estes documentos, pois estou aqui com o cliente e ele precisa disso imediatamente – falei de forma taxativa, mas sem qualquer alteração.

– Tu não grita comigo assim, não adianta… nada vai mudar.

– O que tá acontecendo?! Tá falando com quem Fulana?!

– Não adianta, não grita comigo, para de me ofender… – ela respondia do outro lado, aos gritos, parecendo fingir estar chorando.

Totalmente surpreso desliguei o telefone. Fiquei ali tentando entender o que estava acontecendo. Liguei para o meu sócio, sem conseguir falar com ele.

Como sempre, no outro dia fui o primeiro a chegar no escritório. Ouvi chegar a secretária e fui falar com ela. Ela me disse o que a Fulana havia narrado sobre a história. Me aconselhou a não falar com a estagiária. Voltei pra minha sala e ouvi, pouco depois, chegar ao escritório a Fulana. Ela e a secretária conversavam e resolvi tentar escutar o que falavam. Fingi ir até a prateleira do corredor buscar um livro que peguei sem olhar, pois meu único foco era a conversa. Elas falavam sobre mim.

Quando meu colega chegou (até então eu o tinha como amigo) disse a ele que precisávamos dispensar imediatamente a Fulana, pois ela não era normal. Sabíamos que ela era impedida de ver o filho por ordem judicial e, agora, eu começava a entender as razões que poderiam ter levado o seu ex-marido a buscar tal medida.

– Nada disso, – disse meu colega – já sei de tudo que está acontecendo.

– Como assim?! – perguntei, tentando entender.

– A Fulana me disse que tu está pressionando para sair com ela há algum tempo e agora, como ela disse que não quer, tu iria demiti-la.

– E tu acredita nessa merda? – Perguntei sem acreditar.

– Claro. Olha o livro que tu tá lendo!

Olhei para aquele livro que peguei na prateleira enquanto tentei ouvir a conversa: “Assédio Sexual e Assédio Moral”.

Era difícil acreditar que tanta coisa acontecia ao mesmo tempo: uma louca fingindo que eu dava em cima dela, meu amigo e sócio desconfiado de mim, minha secretária idem e agora o livro na minha mesa. Narrei para o meu sócio o que tinha acontecido e, mais incrédulo, percebi que ele não acreditava em mim. Sabia que ele tinha seus motivos e isso não vem ao caso agora. Rompemos a sociedade e minha vida mudou bastante.

Resolvi contar essa história porque percebo as coincidências novamente ao meu redor envolvendo outras pessoas, que insistem em dizer que não acreditam em coincidências.

Acredite, elas existem. Talvez não sejam coincidências tão aleatórias assim… a maldade inteligente sempre usa as tuas fragilidades para te atingir. Mas a vida cria sim situações em que parece que somos o que não somos, que fizemos o que não fizemos.

É nessas horas que descobrimos quem é nosso amigo de verdade, em quem podemos confiar. Coincidências existem, mas elas têm propósito.

 

Crise de Segurança

Quando morei em minha última casa, em Viamão, costumeiramente era acordado com algazarras na esquina feitas por uma gurizada que se reunia ali para fumar maconha e brincar. Era gente dos 15 aos 40 anos. No início, como eu conhecia de vista a maioria deles, eu pedia que eles saíssem dali para que pudéssemos dormir e para que parasse o cheiro de maconha dentro do quarto dos meus filhos e eles atendiam prontamente, até me pediam desculpas. Mas passou o tempo, o grupo foi aumentando, foram chegando adultos e a coisa foi saindo do controle.

Um dia estacionaram dois caminhões guincho, desses que trabalham para o DETRAN, e um taxi. O grupo devia ter umas 25 pessoas. Era um dia de semana comum, perto das 2h da madrugada. Eu abri a janela do quarto dos meus filhos e pedi que eles fossem para outro lugar pois precisávamos descansar, além do cheiro estar forte. Alguns que eu conhecia responderam que sim. Fechei a janela. Mas ouvi uns que eu não conhecia falar: “quem é esse imbecil? Ele que vá…”. Eles não saíram. Liguei para a PM diversas vezes, nem me atenderam.

No outro dia, sem ter ajuda do Estado, sem ter outra forma de lidar com o problema se não deixar as coisas se agravarem, fui eu mesmo procurar um jeito de resolver isso. Na moda antiga, velho oeste americano. Tive sorte, consegui. Mas podia ter dado tudo errado. E tudo porque uma gurizada começou a fumar maconha na esquina da minha casa.

A crise na segurança pública não é à toa. E não é só culpa do governo, da polícia, do Judiciário, nem das leis, embora sejam estas instituições que podem resolver o problema. No Brasil, insistimos em acreditar que nosso comportamento não faz diferença para resultado de mundo que temos. O tráfico de drogas é uma mazela mundial. Destruiu a Colômbia, a Bolívia, o Peru, a Venezuela, o México. Destruiu a periferia do Rio de Janeiro, de São Paulo e está destruindo a nossa em Porto Alegre. Liberar o uso recreativo da maconha pode até ser uma forma de lidar, mas evidentemente não vai resolver o problema, pois o tráfico pouco se importa se a droga é vendida legalmente ou não. Mesmo que se criem regras de uso, é evidente que o tráfico vai continuar pois é mais vantajoso a venda fora da legalidade.

Leio diariamente incontáveis críticas a todo tipo de autoridade e instituições, muitas bastante articuladas e precisas. Mas ninguém ter coragem de apontar o usuário como participante desse lixo de situação? Seria como dizer que se eu compro um celular roubado, que custou a vida do seu legítimo proprietário, a culpa é da polícia e do governo?

O Brasil tem uma forma tão ridícula e infantil de enfrentar seus problemas que é desanimador pensar a respeito. As pessoas acham, por exemplo, que é possível lidar com a maior crise financeira da história brasileira sem cortar gastos! As pessoas lutam contra o levante anti-corrupção iniciado nos últimos anos porque atinge quem idolatram! As pessoas debocham dos poucos que efetivamente produzem e colocam no mesmo saco tudo e todos que podem para que, ao final, ninguém tenha moral de mudar nada.

Mas voltando à questão da segurança pública…

Enquanto tiver toda uma geração que cogita a extinção da polícia militar, que debocha das pessoas que se preocupam com a preservação de valores morais – mesmo que sejam divergentes -, enquanto não começarmos a valorizar as pessoas que fazem algo de bom e buscam melhorar a sociedade através das suas posturas, não haverá estrutura pública que dê conta de tanta falcatrua.