Desgovernos em série

É difícil saber quando começaram os desgovernos no Brasil. E é difícil porque a maior parte das nossas análises nunca foi técnica, foi sempre parcial e interessada. Vejamos o segundo império, por exemplo. Pouco se fala do esforço de Pedro II em abolir a escravatura e da sua constante preocupação com a educação e as finanças do império. Pedro II devolvia regularmente, ao final do ano, para o caixa da União aquilo que sobrava no orçamento da família real. Costumeiramente investia do seu próprio bolso no estudo de jovens carentes.

Largou-se o império para implantarmos a tão badalada “República”, a “solução dos nossos problemas”. Vivemos mais de trinta anos na República Café com Leite, famosa pela concentração de interesses e pelas fraudes eleitorais.

Aí veio um golpe promovido por Getúlio Vargas e jogou-se pro alto todos aqueles argumentos iluminados sobre a República. Décadas depois, voltando a democracia, um clima de grande instabilidade política e institucional fez o Brasil chegar a mais uma intervenção, dessa vez pelos militares, em 1964. Tão malfalada, nos alçou à nona  economia do mundo, na época.

Passaram-se mais duas décadas e volta a democracia. Sarney, Collor/Itamar, FHC, Lula, Dilma/Temer. Se é verdade que as instituições brasileiras vem se fortalecendo, seja pela profissionalização dos seus quadros, seja pelo amadurecimento institucional propriamente dito, também é verdade que nossos problemas pouco mudaram. A corrupção, a falta de prioridades estatais efetivas, o desperdício de dinheiro público, o elitismo, o desapego aos interesses públicos e o aparelhamento do Estado continuam em pauta.

Não há sistema que corrija nossos problemas culturais a curto prazo. O mundo tem bons exemplos sociais em países monárquicos, democráticos, parlamentaristas, presidencialistas e, segundo alguns, até em ditaduras (vide Cuba e China). É evidente demais que nossos problemas passam pela nossa baixíssima capacidade educacional. Educação é, na mais das vezes, um quadro, giz, um bom professor e alunos interessados. Muito mais difícil é entregar saúde e segurança, que precisam de outros recursos físicos ainda mais caros e complexos.

Não sou do tipo que se identifica com teorias da conspiração, mas é evidente que alguém não nos quer diferente, melhor. Só não acho que sejam os americanos, nem os comunistas, tampouco os narcotraficantes. Nosso desgoverno é fruto da ausência de lideranças que consigam se impor sobre esse marasmo moral e essa superficialidade existencial que nos permeia. Aqui as grandes cabeças se esforçam duas vezes na vida: passar no vestibular e no concurso público… depois podem relaxar por cinquenta anos. E essa ideia é interessante na nossa cultura, porque enriquecer na iniciativa privada é tido como imoral… o “explorador”, o “ganancioso”. Aqui o elitismo é institucionalizado. O policial nunca será delegado, pois para ser delegado você precisa faculdade e concurso específico para isso. Então, um Comissário de Polícia com trinta anos de carreira é considerado menos preparado para ser delegado que um jovem saído da faculdade de direito que passa no concurso.

Nosso desgoverno é esse apego ao elitismo, ao fácil, à vida aristocrática.

Vamos mudar quando todos – na iniciativa privada e no serviço público – receberem as mesmas exigências e dispuserem dos mesmos direitos. Quando deixarmos pra trás esse ranço de tratar melhor os mais abastados, de sustentar quem não se esforça, de violentar os serviços mais essenciais com parcos salários e estruturas falidas (como pode um hospital não ter ar condicionado e um departamento qualquer o ter?!).

O Brasil tem cura. Mas o remédio é tão amargo que toda uma estirpe e toda uma mentalidade deixariam de existir.

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