Estabilidade de Emprego – o túmulo do êxito

Por muitos anos o mundo ocidental viveu sem a possibilidade do divórcio. Numa sociedade comandada por homens, as famílias não eram diferentes. Os homens podiam viver como quisessem e jamais suas esposas teriam ousadia de pedir divórcio, pois isso representaria a pecha de “desquitadas”, uma posição social abjeta. Os homens tinham a sua estabilidade matrimonial garantida e isso lhes dava alforria para serem como quisessem. Alguns, os mais depravados ou descompromissados, abusavam dessa condição porque isso não lhes afligia de nenhuma forma.

Mas veio a condição jurídica e social do divórcio e as mulheres passaram a exigir outro comportamento do seu companheiro… se não, tchau! Foi o nascimento da meritocracia matrimonial, o início da busca do êxito nas relações afetivas.

Não é à toa que nosso serviço público seja tão desprovido de efetividade. Há os abnegados e vocacionados servidores e há os que se escoram nesses. É a estabilidade e a cultura comodista do brasileiro que produzem boa parte disto.

Estagiei no Setor de Seguro Desemprego do Ministério do Trabalho. Ali havia cerca de vinte atendentes ao público que ia encaminhar o pedido de seguro desemprego. Sem exagero, cinco pessoas trabalhavam pelo setor inteiro. O resto batia ponto, tomava café e, entre uma conversa e outra, chamava alguém para atender. Na minha sala, uma das minhas colegas ficava o dia inteiro sentada lendo jornal e atendendo telefone, que tocava umas cinco vezes ao dia. Era algo que exigia muito esforço pessoal para não morrer de tédio (um dia vou contar como os estagiários desse setor resolviam os problemas de todos os gaúchos que aguardavam seguro desemprego).

No Brasil de hoje temos um grande número de profissionais de alto quilate que, para viver uma vida mais tranquila, entram nos quadros do serviço público. Ali, o ritmo mais calmo e menos cobrado do serviço tornam a busca pelo êxito, pela excelência, um ideal inatingível e, por isso, esquecido. E começa, depois disso, uma série de reclamações (muitas vezes pertinentes) para justificar a inoperância do setor.

É impossível o desenvolvimento sem o risco, sem a cobrança, sem o “colocar o meu na reta”. É impossível. Esse é só mais um dos motivos pelos quais pagamos tantos impostos e não recebemos serviços públicos satisfatórios. E isso não é culpa do servidor, pois a qualquer pessoa que estivesse nesta condição ocorreria o mesmo. Isso é cultural, é sistêmico e institucional. Para mudar, muita coisa tem de deixar de existir.

Estamos em vias de iniciar uma reforma trabalhista. Nossas leis laborais são retrógradas, paternalistas, protecionistas e antidesenvolvimentistas. Como achamos normal que alguém trabalhe 11 meses e receba 13,33 meses de trabalho? Como achamos bom existir recolhimento de FGTS com a pior taxa de remuneração do país? Como lidar com uma carga tributária de praticamente 30% sobre o faturamento? Isso é bom pra quem além dos acomodados e das corporações? Não é óbvio que seria mais interessante se receber mais e gastar menos com pinduricalhos que sustentam os acomodados de plantão?

Tenho um parente que é professor universitário no Chile. Ele trabalha nas universidades de março a dezembro. Em janeiro e fevereiro não tem aula, os alunos não precisam pagar por isso. E ele não recebe também.

Tudo que se garante em termos de Direito Trabalhista é pago pela sociedade. Por isso tudo nos é caro no Brasil. E é pago pela doméstica, pelo pedreiro, pelo zelador, pelo pintor. Pago inclusive por quem não tem o mesmo direito.

Aliás essa é uma das características do Brasil: muitas diferenças entre os trabalhadores das mais variadas categorias e setores. Nos tornarmos mais iguais nos fará mais jutos.

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Marijuana Libre, chegou a hora

É evidente que boa parte da estrutura de repressão estatal se mobiliza para obstar a circulação da maconha e, mesmo assim, há cada vez mais usuários, pessoas de todas as classes sociais, idades, origens. É resultado da falência de muita coisa, principalmente do discurso contrário ao uso.

Criamos, assim, um mundo paralelo e hipócrita e jogamos nesse mundo uma penca de gente que está a financiar constante e pesadamente o submundo do crime organizado. Além de financiá-lo, criam laços com este mundo e tornam a vida marginal interessante e tolerável.

A maconha é tratada com tabu e falo por experiência própria, pois cresci onde alguns viviam de vendê-la e não eram as melhores pessoas da vizinhança. 

Uma das formas de se avaliar a maturidade é o pedido. Sua forma, seu momento, do que vem acompanhado. A sociedade está pedindo a liberação. Boa parte do que a ciência informa dá conta de que o efeito entorpecente e viciante (que serviu de justificativa pro banimento e repressão) não difere de outros agentes legalmente aceitos. É chegado o momento. Temos de nos permitir tratar esse assunto com maturidade.

Que seja um período inicial de teste, com prazo para reavaliar-se o resultado. Cinco anos? Parece um bom prazo. Veremos socialmente e pessoalmente se liberar atinge os propósitos ditos e se há muito do não-dito que merece atenção especial.

Cessar o financiamento do crime organizado, que corre cada vez mais violento e mobilizado, já seria um bom motivo. É evidente que o tráfico ganha com a legalização, mas ganhará também quem tem efetivamente chances de combatê-lo: o comerciante legalmente tutelado. Mesmo porque o traficante não faz o que faz por ideologia, nem por convicção.

Outro bom motivo é dar chance a quem defende a legalização de provar sua tese. Viu-se com o desarmamento que as teorias expostas como argumento de implantação eram balelas.

E há a questão da liberdade, um valor pouco relevante culturalmente no Brasil. Precisamos respeitar o direito das pessoas maiores e capazes de usarem o que quiserem, desde que respeitem a liberdade e os direitos alheios. 

Chegou a hora de enfrentarmos esse debate com maturidade. Uma maturidade que, infelizmente, não tem nos acompanhado.

Machismo

Por séculos a educação coube à mulher. Milênios. O machismo dominava e os homens não se envolviam no que parecia – apenas parecia – uma tarefa menor. Mulheres rainhas e plebeias ensinavam seus filhos a repetirem, por gerações e gerações, as mesmas condutas dos seus antecessores.

Então algumas corajosas, eventualmente, por decorrência da fatalidade dos seus pares provavelmente, assumiam postos de comando, seja em casa, seja na sociedade. Professoras, industriárias, enfermeiras, rainhas. Reconhecidas ou não pela comunidade, lá estavam exercendo seu mister com protagonismo.

Ainda assim apenas lentamente iam conquistando seu espaço rumo uma desejada igualdade. Que igualdade se buscava? Liderar, é tão importante assim? Decidir? Ascender profissionalmente? Não… com certeza não. Ser respeitada. Ser valorizada. Ser independente. Ser quem quiser ser.

Como tudo que envolve mudança houve (e há) muita resistência. Inclusive das próprias mulheres, pois o machismo não tem gênero. Aliás, “machismo” é um subjetivo que valoriza desproporcionalmente as características masculinas em detrimento das femininas. Mas quais são as características femininas? Sensibilidade, passividade, emotividade? É isso que prega o contra-machismo feminista? Seria o “feminismo” a vacina contra o “machismo”?

Por incrível que possa parecer, foi a independência sexual que permitiu à mulher efetivamente libertar-se. Não foi educar-se, trabalhar, enriquecer, comandar. Decidir quem seria seu parceiro (ou sua parceira) mudou o mundo. E tudo se intensificou graças à pílula anticoncepcional. Esse fato histórico nos mostra a relevância do sexo (ato sexual) no contexto histórico pessoal e social. As sociedades que menos mudam, menos liberdade sexual oferecem à mulher.

E a independência feminina não serviu apenas para trazer a mulher onde apenas antes o homem habitava. Serviu para levar o homem onde antes apenas a mulher havia. O homem passou a educar o filho, a cuidar da casa, a ser subordinado profissionalmente à chefa, a tolerar, a fragilizar, a receber.

Nesse contexto evolutivo, o feminismo virou um pós-feminismo. Antes, lutando pela igualdade e liberdade. Hoje buscando a dominação. Objetivos distintos, quase antagônicos, como são os ideologismos que saem do centro e caminham em direção ao extremo, seja à direita ou à esquerda.

O machismo está passando, lentamente. Homens e mulheres são cada vez menos machistas. Mas os erros do machismo estão sendo perpetuados e revestidos com novos protagonistas.

A solução ao império machista não é o império feminista. É o exercício efetivo das igualdades, das liberdades e do respeito de gênero. A mulher, como todo aquele que se submeteu, também precisa aprender ao seu novo encargo, sem ser uma machista revestida de pós-feminista.

Os Irmãos Karamazov

Também não sei porque demorei tanto para ler Dostoiévski. Na verdade, comecei “Crime e Castigo” na faculdade, mas não terminei, não lembro porquê. Contudo, em “Os Irmãos Karamozov” a história me predeu desde o início. Não que a trama seja desde cedo envolvente, mas não é difícil presumir que, tendo três irmãos personalidades tão distintas, algo de  muito interessante haverá de acontecer… e acontece.

Como em “Dom Quixote de La Mancha”, neste livro percebe-se a profundidade das reflexões que o levam a tornar-se um clássico da literatura, atemporal e perpetuamente influenciador.

O autor russo escreveu essa obra no final do século XIX, numa Rússia que lutava contra a monarquia e estava em ebulição com grande influência do Marxismo. Na história, um pai devasso e imoral tem três filhos: o mais velho, militar e imponente; o do meio um intelectual, ateu e influenciado pelo marxismo; e o mais novo um seminarista religioso. Cada um vive diferente do outro, com seus desejos e afinidades.

A trama desenvolve o destino dessas diferentes personalidades, o que cada jeito de viver e de construir suas relações produz existencialmente. Freud comparou a obra a Hamlet e a Édipo Rei, provavelmente devido à reflexão profunda das relações entre pai e filho que o livro faz.

Impressiona como Dostoiévski fala de uma Rússia de 130 anos atrás, mas poderia estar se referindo a cada núcleo familiar da sociedade brasileira nos dias de hoje, onde há grupos que atacam os intelectuais de esquerda por serem excessivamente teóricos e materialistas, em oposição aos direitistas e aos religiosos. Quem se identifica com as reflexões sobre a influência ideológica, a necessidade de mantermos uma postura construtiva e que valoriza as virtudes que se deve buscar não pode deixar de lê-lo.

E, por favor, depois me diga o que achou.

 

Ah, essas mulheres…

Essas que acordam cedo pensando na agenda, no almoço, na reunião da escola do filho, no mercado, nas unhas, na consulta dentária.

Essas que elaboram teses de pós-graduação depois de estender a roupa, que leem o livro infantil e o romance antes de dormir, que ouvem e tocam a música da Galinha Pintadinha.

As guerreiras que enfrentam a agressão, a desconfiança, o abuso. As maternais. As providenciais. As médicas, as domésticas, as policiais.

Todas essas que abriram seu espaço e o espaço das demais. Que superaram a si e se fizeram iguais. Que fizeram melhor o futuro sem deixar de olhar pra trás.

As, essas mulheres…

Elas merecem o mundo e muito mais.