Tese: por que somos assim

Todo mundo tem a sua, então aqui vai minha tese de por que nós, brasileiros, somos como somos.

Até 1808 o Brasil era o quintal português. Saiu daqui mais madeira, ouro, especiarias, cana-de-açúcar e café do que jamais a Europa tinha tido contato. Tornamos Portugal um país riquíssimo, mas que nunca deixou de ser visto pelos demais vizinhos como corrupto e provinciano. No livro “O império dos homens bons”, o autor português Tiago Rebelo fala dessa postura cultural durante a ocupação portuguesa das colônias africanas e até da dificuldade em se relacionar com outros colonizadores daquele continente em razão disso. É uma história real, vale a leitura.

Em geral, em praticamente todos os países do mundo, a liderança fora constituída por pessoas que se destacavam socialmente, seja por produção, seja por liderança. Então temos, na imensa maioria dos lugares, que aqueles que trabalhavam de forma mais eficaz ou aqueles que criavam ou inventavam algo eficaz ou ainda aqueles que desbravavam novos horizontes, enfim, estes conquistavam condições sociais de liderança e estabilidade.

Não era fácil ser nobre em terras disputadas. Não era fácil ser colonizador em terras inóspitas. Não era fácil ser agricultor em picadas e nem ser artesão em terras industrializadas. Historicamente a aristocracia deixou de ser um título meramente sanguíneo e passou a ser uma herança dos meios de produção. A cultura humana deixou de valorizar a árvore genealógica e passou a dar mais valor a quem realizava algo, efetivamente.

Mas no Brasil as coisas não se deram exatamente assim. Com o bloqueio continental napoleônico de 1808, a nobreza portuguesa inteira veio para o Brasil e deixamos de ser uma colônia para nos tornarmos um império. Aqui, para se impor perante os nativos, passaram a exibir seus títulos e sua condição social, sem precisar de qualquer contraprestação a isso. Enquanto a Europa incorporava gradativamente a cultura de produtividade da era industrial, toda uma casta aristocrática real trazia para nosso país a ideia de que era o sobrenome e os títulos o mais importante e não a sua habilidade em desenvolver ou criar riqueza. Todas as terras daqui, todos os meios de produção, tudo era da aristocracia real portuguesa.

Não é à toa que fomos dos últimos a extinguir a escravidão, a adotar o modelo republicano, a substituirmos o modelo agrário pelo industrial. A cultura elitista a que fomos submetidos tinha como interesse a manutenção de tudo que havia antes da era industrial. A própria investida napoleônica se fundava – ao menos ideologicamente – na ideia de igualdade, liberdade e fraternidade, valores muito distintos daquilo que a coroa portuguesa transmitiu aos brasileiros colonizados.

No mundo, a riqueza se tornava algo decorrente da atividade burguesa, da produção. Mas é óbvio que os antigos aristocratas da realeza não queriam que isso os atingisse aqui. Ser elite num mundo produtivo era muito mais trabalhoso do que sê-la num mundo de títulos e sobrenomes.

Pois bem, ao logo do tempo nossa elite sempre foi dotadas de privilégios inalcançáveis aos demais do povo. Mas isso obviamente não poderia ser assim para sempre. Um dia esses privilégios teriam de acabar, porque é evidente que as transformações do mundo não permitiriam tamanha desproporção entre aquilo que era concedido a uns e outros dentro da mesma sociedade.

Foi aí que o jeitinho luso-brasileiro criou algo absolutamente inédito no mundo: ao invés de acabar com os privilégios, vamos distribui-los ao maior número de pessoas que pudermos e, assim, evitamos que nossas mordomias elitistas acabem.

Sim! Genial!

Então passamos gradativamente a abrir o grupo daqueles que chamamos elite e a distribuir direitos e mais direitos a todos os que conseguiam nele ingressar e, depois, a todos os demais.

Em nenhum país do mundo existem tantos direitos sem lastro como no Brasil. Aqui achamos realmente que o Estado é um ser divino, onipotente e onisciente, que tudo poderá por nós. Essa ideia de girico é integrada ao que acreditamos do mundo e tudo que se tenta fazer para desconstituí-la é tratado como “perda de direitos” ou “exploração”. Nos acostumamos de tal forma aos nossos direitos que se tornou absolutamente irrelevante o custo social necessário para mantê-lo. É como se algo, para existir, bastasse estar determinado numa norma e… pummmm…. que assim seja!

Um dia acordaremos desse nosso sonho que já dura mais de duzentos anos. Até porque o despertador já está tocando há muito tempo… e a tecla snooze já gastou.

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Minha casa da infância

Com quase cinco anos de idade deixei a zona sul de Porto Alegre, onde até então tinha morado com meus avós maternos e a família de minha mãe, e fui morar em Viamão, onde morava meus avós paternos e a família de meu pai.

A minha casa nova era velha, de madeira, erguida sobre fundações de tijolos e pedras que deixavam um porão raso por baixo do piso de tábuas. Número 814. Tinha as cores da Mangueira, verde e rosa, o que fez eu criar uma identificação afetiva com a escola da samba. A cozinha e o banheiro, no meio da casa, eram de alvenaria e separavam o quarto dos meus pais e a sala, na frente, dos dois quartos dos fundos. Pra mim essa distância equivalia a um quilômetro. Morria de medo de dormir no meu quarto. Tinham baratas, aranhas, barulho de madeira. No banheiro, uma vez, sentei no vaso sanitário e uma perereca grudou em mim. Aprendi a sempre olhar primeiro pra ver se não tinha sapo na água da patente. No quarto dos fundos as janelas eram altas do chão e, numa delas, minha irmãzinha de dois anos caiu nos assustando. Ficou tudo bem, fora o fato de que ela deve ter batido a cabeça e ficado meio pancada.

A minha casa era cercada por muros de alvenaria verde claro e, na frente, tinha um grande portão de ferro gradeado preto, que eu usava como escada para subir no muro. Isso dava uns três metros de altura. Dentro desses muros construí um mundo fantástico com meus cachorros, meus brinquedos, meus playmobils e meu falcon. Até cavalos, galinhas e patos passaram por ali.

Fora desses muros tinha a vila, que se tornou a minha vila. Fiz amigos, aprofundei laços com meus primos-irmãos. Foi maravilhoso.

Na mesma rua em que eu morava ficava a casa dos meus avós. Meu avô, sempre na janela lateral, cuidava o movimento da rua e me transmitia a sensação de que eu estava seguro. Nos fundos da casa dele, eu e meus amigos limpamos um terreno baldio e fizemos um campo de futebol que se tornou o ponto de encontro da gurizada por muitos anos. Em junho, ali era realizada a Festa Junina dos moradores, com uma grande fogueira, bandeirinhas, quintão e casamento na roça.

Na cerca de arame dos fundos da casa de meu avô meu primo me mostrou o que era uma galena. Era fantástico que se pudesse ouvir rádio sem energia, sem pilhas, apenas com um mecanismo simples ligado a uma cerca (tempos depois, meu pai me disse que se criou ouvindo rádio pela galena e isso fazia que viajasse daquele mundo!).

Naquele campinho fiz meu primeiro gol de pelada e briguei pela primeira vez (de muitas). Apanhei, claro, como se dizia que devia ser o resultado da primeira briga pra gente não ficar se achando.

Não muito longe dali ficava a casa dos meus primos, a entrada pelos fundos do Parque Saint Hilaire, a faixa que levava pra cidade. Tomava café na casa das minhas tias, ajudava meus amigos nos temas, nos encontrávamos para ouvir (isso, ouvir em fita cassete) o filme StarWars. Aquele era meu mundo e me sentia bastante seguro ali.

O tempo passou, o campinho de futebol virou uma casa, as festas juninas foram pras escolas, os amigos e primos casaram. Meus avós faleceram. Aquilo tudo que vivemos, no entanto, nunca mais deixa de existir em nosso coração e as amizades tampouco. É da amizade que vou falar numa próxima vez, quando dezenas de estudantes de outra escola foram até a minha para brigar comigo mas meu amigo, ali da vila, me salvou.

O elitismo

Das certezas que tenho na vida, uma das principais é de que o Brasil é um país elitista. Mais do que o racismo, o machismo, do que as divergências religiosas e políticas, do que o excesso de paternalismo, somos treinados, informados, repetitivamente ensinados a aceitar naturalmente as diferenças de classe e seus privilégios. Não de classes sociais… elas não dizem exatamente quem é elite ou não. Os nossos privilégios são para as classes dominantes, as que exercem efetivamente algum tipo de poder, seja pelo cargo, seja pela imposição social ou financeira.

Vamos a alguns exemplos que são tratados como naturais.

O policial civil ingressa na corporação mediante concurso público. Trabalha a vida inteira lá e atinge a função de Comissário de Polícia. Quem manda na corporação?! Delegados de Polícia. Estes ingressam no cargo por concurso público. Por que isso é elitista?! Porque para ingressar neste cargo, nosso sistema entende ser mais importante o conhecimento teórico do que o prático. Conhecimento teórico bom precisa ser bem pago e dispor de tempo para preparo. Quem tem maiores condições disso?!

E nas corporações militares, seja nas forças armadas ou forças auxiliares?! Idem. Não se começa como soldado e chega a oficial comandante jamais. Não é a carreira e o trabalho que te elevam. É aquilo que você pode fazer na juventude, no início da vida laboral que determina onde você chegará. Para ser general, por exemplo, só com AMAN. Quem tem condições de entrar na AMAN?!

Olha a diferença de direitos entre trabalhadores da iniciativa privada e do serviço público. Olha a diferença de estrutura e remuneração entre os professores que dão aula nas escolas públicas e os que dão nas universidades públicas (quem estuda nas escolas públicas e nas universidades públicas?). Olha o foro “privilegiado”. Olha as punições que existem para certas funções públicas e as que existem para seus superiores, pela prática dos mesmos tipos criminais. Olha os benefícios que existem para as altas cúpulas estatais. Olha a quem mais prejudica o sistema de tributação sobre consumo e não sobre a renda que temos.

Elitismo é institucional no Brasil. A nossa própria Constituição prevê privilégios elitistas, ao invés de promover efetiva igualdade.