Minha casa da infância

Com quase cinco anos de idade deixei a zona sul de Porto Alegre, onde até então tinha morado com meus avós maternos e a família de minha mãe, e fui morar em Viamão, onde morava meus avós paternos e a família de meu pai.

A minha casa nova era velha, de madeira, erguida sobre fundações de tijolos e pedras que deixavam um porão raso por baixo do piso de tábuas. Número 814. Tinha as cores da Mangueira, verde e rosa, o que fez eu criar uma identificação afetiva com a escola da samba. A cozinha e o banheiro, no meio da casa, eram de alvenaria e separavam o quarto dos meus pais e a sala, na frente, dos dois quartos dos fundos. Pra mim essa distância equivalia a um quilômetro. Morria de medo de dormir no meu quarto. Tinham baratas, aranhas, barulho de madeira. No banheiro, uma vez, sentei no vaso sanitário e uma perereca grudou em mim. Aprendi a sempre olhar primeiro pra ver se não tinha sapo na água da patente. No quarto dos fundos as janelas eram altas do chão e, numa delas, minha irmãzinha de dois anos caiu nos assustando. Ficou tudo bem, fora o fato de que ela deve ter batido a cabeça e ficado meio pancada.

A minha casa era cercada por muros de alvenaria verde claro e, na frente, tinha um grande portão de ferro gradeado preto, que eu usava como escada para subir no muro. Isso dava uns três metros de altura. Dentro desses muros construí um mundo fantástico com meus cachorros, meus brinquedos, meus playmobils e meu falcon. Até cavalos, galinhas e patos passaram por ali.

Fora desses muros tinha a vila, que se tornou a minha vila. Fiz amigos, aprofundei laços com meus primos-irmãos. Foi maravilhoso.

Na mesma rua em que eu morava ficava a casa dos meus avós. Meu avô, sempre na janela lateral, cuidava o movimento da rua e me transmitia a sensação de que eu estava seguro. Nos fundos da casa dele, eu e meus amigos limpamos um terreno baldio e fizemos um campo de futebol que se tornou o ponto de encontro da gurizada por muitos anos. Em junho, ali era realizada a Festa Junina dos moradores, com uma grande fogueira, bandeirinhas, quintão e casamento na roça.

Na cerca de arame dos fundos da casa de meu avô meu primo me mostrou o que era uma galena. Era fantástico que se pudesse ouvir rádio sem energia, sem pilhas, apenas com um mecanismo simples ligado a uma cerca (tempos depois, meu pai me disse que se criou ouvindo rádio pela galena e isso fazia que viajasse daquele mundo!).

Naquele campinho fiz meu primeiro gol de pelada e briguei pela primeira vez (de muitas). Apanhei, claro, como se dizia que devia ser o resultado da primeira briga pra gente não ficar se achando.

Não muito longe dali ficava a casa dos meus primos, a entrada pelos fundos do Parque Saint Hilaire, a faixa que levava pra cidade. Tomava café na casa das minhas tias, ajudava meus amigos nos temas, nos encontrávamos para ouvir (isso, ouvir em fita cassete) o filme StarWars. Aquele era meu mundo e me sentia bastante seguro ali.

O tempo passou, o campinho de futebol virou uma casa, as festas juninas foram pras escolas, os amigos e primos casaram. Meus avós faleceram. Aquilo tudo que vivemos, no entanto, nunca mais deixa de existir em nosso coração e as amizades tampouco. É da amizade que vou falar numa próxima vez, quando dezenas de estudantes de outra escola foram até a minha para brigar comigo mas meu amigo, ali da vila, me salvou.

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4 comentários em “Minha casa da infância

  1. Leco, gostei da recordação! Muito bom recordar o tempo que vcs brincavam.Tu lembras do jornal que tu escrevia? Relatando os acontecimentos da vila? Teu avô adorava ler.

    Curtido por 1 pessoa

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