O veículo ideológico

Os projetistas do veículo ideológico marxista tinham boas intenções. Creio que boa parte deles tinha boas intenções. Queriam que embarcássemos no seu veículo e chegássemos ao destino da sociedade justa e equilibrada. Contavam que este veículo se alimentaria do senso comum e do esforço comum, entregando o mesmo conforto e o mesmo tempo de viagem a cada um dos passageiros.

Contudo, o veículo não possui acentos iguais (há os da janela e os mais apertados) e precisa ser dirigido ora por uns, ora por outros. Nem todos os que dirigem sabem conduzi-lo. Os que sabem guiar, nem sempre sabem o caminho. Os que conhecem o caminho costumeiramente são alertados de que outros caminhos há mais rápidos ou mais seguros.

O projeto deste veículo ideológico considerava que distribuindo riqueza se chegaria ao destino social desejado. A riqueza seria um problema quando concentrada e sua criação era vista como impossível: a solução seria dividi-la.

No início era um projeto preconceituoso, xenófobo, misógino, racista. Com o passar dos (d)anos o número de passageiros interessados em viajar neste veículo diminuía e se entendeu por bem captar aquelas minorias antes desprestigiadas, que nada tinham de relação ao projeto original. Isso dificultou ainda mais a compreensão do projeto e sua implementação falhou em todas as tentativas ao longo da história.

O veículo ideológico que achava que distribuindo renda distribuiria justiça deixava de considerar que a renda é o resultado de um trabalho, às vezes de gerações. Deixava de considerar que o dinheiro não é sujo ou limpo, que é apenas o resultado de algo. Deixava de considerar que cada um de nós é responsável pela nossa trajetória e que o Estado é apenas mais um dos passageiros desta viagem, não o seu condutor.

O veículo ideológico causou mais mortes que qualquer outro veículo da história, inclusive dos veículos de guerra todos juntos somados.

Além disso, o veículo ideológico jamais captou o apoio dos religiosos por verdadeira incompatibilidade e, com isso, atestou sua contrariedade a todo e qualquer credo. Era mais uma das suas oposições. Opor-se sempre foi sua principal orientação.

De quando em quando aliava-se a ideais mais racionais, mais efetivos, mais humanos. Mas a falta de orientação e de efetividade sempre acabava por resultar em algum acidente desastroso.

O veículo ideológico hoje está fadado ao ferro velho e só não foi aposentado porque há muitos condutores e passageiros saudosistas e entusiastas que não se dão por derrotados. Ainda que jamais tenha conduzido qualquer de seus passageiros ao destino, teimam que um dia o fará

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A Intervenção no RJ

Presidente Michel Temer decretou a intervenção militar na área de segurança pública no estado do RJ. Hoje (19/02/18) o Congresso deverá autorizar a medida.

O Rio de Janeiro é um estado em guerra urbana há décadas. A ausência de Estado que hoje existe nos presídios brasileiros existe há décadas nas favelas e/ou comunidades fluminenses. O que se pode imaginar em termos de políticas públicas já foi testado por lá. Escolas de tempo integral, polícia pacificadora, intervenção militar e policial, a própria permissibilidade e tolerância ao tráfico. De tudo. Tem mais ONG no RJ do que nas outras regiões brasileiras. A renda média do fluminense também é uma das maiores do Brasil. E é inegável que há um abismo social entre a zona sul e as demais regiões cariocas. Assim como é inegável que a classe média carioca e os turistas são os principais financiadores do crime por lá.

Há premissas que se pode exarar sobre a realidade fluminense:

  • leis de restrição ao uso de armas são inócuas para a cultura e a realidade brasileira
  • a corrupção sistêmica instala-se também na cultura e no tecido social
  • o tráfico é o grande gestor da criminalidade e atrai pessoas de todo espectro social
  • não há tropa e estrutura suficiente para combater o que é socialmente tolerado
  • a inteligência das forças de segurança está limitada pela capacidade operacional

Dito tudo isso para afirmar que não há dúvidas de que uma intervenção militar é das poucas (se não a última) alternativa para começar a resolver o problema.

Mas não essa intervenção fajuta deste governo de raposas.

Michel Temer é o Presidente brasileiro com menor aceitação que se conhece. Tão comprometido moralmente como seus antecessores, tem a pecha de golpista e consegue desagradar gregos e troianos, ainda que tenha devolvido a economia brasileira aos trilhos. Temer poderia, com seus resultados econômicos, ser visto como um reconstrutor das ruínas deixadas pela bomba petista, mas não consegue simplesmente porque pertence ao grupo que tem dominado o país há décadas e que soube ardilosamente se livrar dos seus marionetes quando estes passaram dos limites da roubalheira e do idealismo. Assim, desagrada trabalhadores, imprensa e a classe média.

Tudo é tolerado por dinheiro no Brasil. Até a ideologia oponente é tolerada.

Pois Temer percebeu que ia perder a reforma da Previdência Social (outra necessidade brasileira, mas não essa reforma Frankstein) e está cansado de não ser reconhecido como gostaria.

Temer percebeu que há um movimento nacional de apoio aos militares, que chega ao ponto de pedir que se faça um golpe ou uma intervenção.

Temer sabe que Bolsonaro (um direitista) tem reais chances de ir a um segundo turno nas eleições presidenciais.

Temer e seus cabides sabem que a esquerda (a qual pertencem) está comprometida moralmente aos olhos do povo, mas ainda assim o brasileiro se identifica com medidas populistas.

Voulà! Soa como uma ideia genial para seus apoiadores transferir o poder de gestão da segurança do lugar mais deflagrado do país aos militares. Se der certo tornam-se os salvadores da pátria. Se der errado (e vai dar) a culpa será dos militares (como no passado) e se ganha mais uma década de embates entre direita e esquerda (detesto estes esteriótipos, mas é o que se usa).

O Exército Brasileiro vai exercer o melhor possível seu papel neste teatro, tenho certeza. Torço para estar errado quanto aos resultados desta operação, como torci para estar errado com os governos petistas. Mas, ao final, não estava.

Fases literárias

Terminei de ler recentemente um livro entitulado “A Vida Mística de Jesus”, escrito na década de 1920 pelo norte-americano Harvey Spencer Lewis. Concomitante a este, terminei um livro sobre os Templários e estou finalizando “A Reinvenção do Conhecimento”. Este último estou lendo lenta e vagarosamente há meses. Embora seja um livro interessante (realmente interessante) sobre a evolução da formação do conhecimento e sua transferência aos outros, minha leitura não deslancha.

Ler também tem fases. É a lição que tiro quando reflito sobre isso. Por certo, nem sempre um assunto nos interessará por mais interessante que seja. E, em outro momento, poderá se tonar absolutamente bom.

Comprei dois livros “de esquerda” (risos – não gosto muito destas rotulações): “Karl Marx – Grandeza e Ilusão”, de G. S. Jones e “O Homem Que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura. Não é coincidência.

As pessoas que buscam centrarem-se ficam constantemente reequilibrando a sua balança. Vejam que recentemente li obras de caráter hitórico-religioso, depois histórico-científico e agora vou pra algo histórico-materialista (o marxismo é chamado de racionalismo materialista). É uma tendência que nossas escolhas literárias sejam equilibrantes quando valorizamos o equilíbrio.

Depois conto como foi.

O auxílio moradia

Fico pensando nas diaristas que conheço. Se tem greve de ônibus, elas não ganham aquele dia. Se tem passeata com manifestação do que quer que seja elas se atrasam e podem ter descontado valores na féria. Se adoecem, se precisam fazer um curso, se acompanham o filho no posto de saúde, enfim, se não trabalham, não recebem. Elas provavelmente moram num lugar bastante simples e é inimaginável receberam qualquer benefício em razão disso. E isso acontece também com o pedreiro, com o mecânico, com o advogado, com o dentista, com o médico, com o vendedor de pastéis na feira, com o agricultor e com todas as pessoas do mundo que vivem do que produzem no trabalho.

No Brasil alguns benefícios se tornam direitos e, depois, se tornam privilégios e são incorporados à cultura. O 13º salário é um exemplo. O trabalhador não precisa de nenhum outro critério a não ser estar empregado para ter tal direito. O empregador, por outro lado, paga treze meses de salário para dispor do trabalho por onze meses. É um cálculo que nunca fechará na matemática financeira e é óbvio que será o cliente que pagará este custo de alguma forma; se não pagar, a empresa quebra.

Seria mais barato socialmente que não tivéssemos tantos benefícios em forma de direitos. Veja o passe livre para estudantes, que chega a tornar as passagens de ônibus até 30% mais caras em Porto Alegre… e quem anda de ônibus não são os ditos privilegiados. Veja o FGTS que veio para substituir a estabilidade, ambas coisas incompreensíveis no mundo real (fora do mundo dos benefícios incorporados ao direito e à cultura) que é custo financeiro pago por todos os usuários e cliente brasileiros, incorporados aos preços de produtos e serviços. E tudo mais é assim.

Fico tentando imaginar como um servidor que ganha subsídio (o conceito jurídico de subsídio é avesso a penduricalhos salariais) em faixa superior a R$ 25.000 pode precisar de ajuda financeira para morar. Se ele precisa, o professor que ganha R$ 2.000 não precisará? O PM não precisará, ele que enfrenta eventualmente o bandido no próprio lugar onde mora?

É um absurdo desnecessariamente existente o Auxílio Moradia para qualquer serviço ou atividade que não seja eventual e transitório. E é desnecessariamente debatido porque é irracional e imoral.

Ler-se que o Auxílio Moradia do Judiciário (e MP e outros) é superior à renda de mais de 90% dos brasileiros é de corar frade. Algo que deveria mobilizar a classe judiciária imediatamente pela total falta de sentido e justiça.

Os primeiros escalões dos serviço público (e judiciário) merecem ser bem remunerados. Precisam ser bem remunerados. Entram nesta lista os policiais, os médicos, os enfermeiros, os professores. Dito isso, para ficar claro que não é uma luta contra a boa remuneração, olhemos para a situação dos demais servidores abaixo da linha dos privilégios e vejamos se é necessário qualquer tipo de articulação para deixar claro que o Estado não tem condição de manter tais privilégios. Olhamos para os demais servidores? Agora olhemos para os demais brasileiros, que têm direitos e garantias ainda menores!

Há momentos em que o olhar sobre nossa gente entristece. De quem se espera a guisa evolucionária e exemplar, até desses, há o egoísmo e o interesse próprio a pesar consideravelmente e nebular o que deveria ser claro e direto. Nossas lideranças públicas são como os pais que dizem para os filhos não fumarem segurando um cigarro aceso. Aqui é sempre do outro a obrigação de fazer o certo e o erro alheio é sempre a defesa do meu.

Eta cultura complicada essa brasileira.