O auxílio moradia

Fico pensando nas diaristas que conheço. Se tem greve de ônibus, elas não ganham aquele dia. Se tem passeata com manifestação do que quer que seja elas se atrasam e podem ter descontado valores na féria. Se adoecem, se precisam fazer um curso, se acompanham o filho no posto de saúde, enfim, se não trabalham, não recebem. Elas provavelmente moram num lugar bastante simples e é inimaginável receberam qualquer benefício em razão disso. E isso acontece também com o pedreiro, com o mecânico, com o advogado, com o dentista, com o médico, com o vendedor de pastéis na feira, com o agricultor e com todas as pessoas do mundo que vivem do que produzem no trabalho.

No Brasil alguns benefícios se tornam direitos e, depois, se tornam privilégios e são incorporados à cultura. O 13º salário é um exemplo. O trabalhador não precisa de nenhum outro critério a não ser estar empregado para ter tal direito. O empregador, por outro lado, paga treze meses de salário para dispor do trabalho por onze meses. É um cálculo que nunca fechará na matemática financeira e é óbvio que será o cliente que pagará este custo de alguma forma; se não pagar, a empresa quebra.

Seria mais barato socialmente que não tivéssemos tantos benefícios em forma de direitos. Veja o passe livre para estudantes, que chega a tornar as passagens de ônibus até 30% mais caras em Porto Alegre… e quem anda de ônibus não são os ditos privilegiados. Veja o FGTS que veio para substituir a estabilidade, ambas coisas incompreensíveis no mundo real (fora do mundo dos benefícios incorporados ao direito e à cultura) que é custo financeiro pago por todos os usuários e cliente brasileiros, incorporados aos preços de produtos e serviços. E tudo mais é assim.

Fico tentando imaginar como um servidor que ganha subsídio (o conceito jurídico de subsídio é avesso a penduricalhos salariais) em faixa superior a R$ 25.000 pode precisar de ajuda financeira para morar. Se ele precisa, o professor que ganha R$ 2.000 não precisará? O PM não precisará, ele que enfrenta eventualmente o bandido no próprio lugar onde mora?

É um absurdo desnecessariamente existente o Auxílio Moradia para qualquer serviço ou atividade que não seja eventual e transitório. E é desnecessariamente debatido porque é irracional e imoral.

Ler-se que o Auxílio Moradia do Judiciário (e MP e outros) é superior à renda de mais de 90% dos brasileiros é de corar frade. Algo que deveria mobilizar a classe judiciária imediatamente pela total falta de sentido e justiça.

Os primeiros escalões dos serviço público (e judiciário) merecem ser bem remunerados. Precisam ser bem remunerados. Entram nesta lista os policiais, os médicos, os enfermeiros, os professores. Dito isso, para ficar claro que não é uma luta contra a boa remuneração, olhemos para a situação dos demais servidores abaixo da linha dos privilégios e vejamos se é necessário qualquer tipo de articulação para deixar claro que o Estado não tem condição de manter tais privilégios. Olhamos para os demais servidores? Agora olhemos para os demais brasileiros, que têm direitos e garantias ainda menores!

Há momentos em que o olhar sobre nossa gente entristece. De quem se espera a guisa evolucionária e exemplar, até desses, há o egoísmo e o interesse próprio a pesar consideravelmente e nebular o que deveria ser claro e direto. Nossas lideranças públicas são como os pais que dizem para os filhos não fumarem segurando um cigarro aceso. Aqui é sempre do outro a obrigação de fazer o certo e o erro alheio é sempre a defesa do meu.

Eta cultura complicada essa brasileira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s