Deuses úteis

Carl Gustav Jung ensinou que todos temos crença divina, ainda que sejamos ateus. Nossos deuses são aquilo que idealizamos ao mais, aqueles valores que reverenciamos, aquelas entidades ou aqueles seres que buscamos imitar e contemplamos. Nossos deuses podem ser entidades, espíritos, uma montanha, o sol, o Freddie Mercury, a Madre Tereza.

Quando as religiões entregam um conceito divino, estamos diante de uma racionalização, de um instrumento didático de conscientização desta reverência. Se a religião A diz que a divindade é punitiva, aqueles que valorizam o castigo se identificam. Se a religião B diz que a divindade é amor idem. E por aí vai…

Diante desta visão, a ideia “deus” possui uma utilidade, como já disse Luis Felipe Pondé, que é dar ao ser humano uma média de valores e referências e, com isso, estabelecer limites. O ser humano médio que não reverencia nada corre o risco de tornar-se altamente destrutivo, porque tudo lhe é aceitável e as consequências de seus atos dependerão de um contexto meramente ambiental.

Há ateus com uma carga de valores mais forte que outros crentes. No conceito junguiano, acreditam em um deuses que representam tais referências, eventualmente personagens históricos, antepassados seus ou mesmo ideais.

Talvez aqui resida um indicativo do fanatismo que algumas ideologias despertam em seus seguidores. Tratam seus dogmas e ideais com verdadeira fé, com vínculos afetivos que se vestem de razões e de conceitos, ainda que a efetividade destes conceitos seja facilmente percebida como diferente do que propõe. Um exemplo é a ideia de que a criminalidade resulta de problemas na distribuição de renda. Se isso fosse verdade, nas últimas duas décadas o Brasil deveria ter diminuído seus índices criminológicos, mas ocorreu o contrário.

Este que escreve acredita na divindade. Revelo isso por transparência e respeito ao leitor que, imagino, compara o que lê ante seus valores, como eu o faria. A divindade é pra mim consciente e existe alheia ao meu desejo, ainda que se manifeste em todos, inclusive em mim. O Deus que trago em meu coração é a potência máxima que alcanço em termos de retidão, de inteligência, de bondade, de justiça e, principalmente, de amor.

Fico feliz de conscientemente perceber que os valores que tenho por referência sejam de tal monta nobres. Sou assim também?! Claro que não. Claro que reconheço meus limites humanos e minha distância deste ideal. Então a crença no divino empresta uma segunda utilidade, que é a de, ainda que reconheça sejam humanamente aceitáveis nossos defeitos, devem ser aprimorados para um padrão superior, quiçá ˜divino”.

Ainda que nossas idealizações sobre a família, sobre o trabalho, sobre o amor, sobre a vida, não se concretizem nos exatos patamares que imaginamos, são elas que guiam nossas atitudes. Cuida, por isso, quem escolhes como tuas referências, como teus deuses, e respeita os que endeusam entidades que, ao menos no plano intencional, tornariam nosso mundo melhor.

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Incoerência Polarizada

Caso você se preste a analisar os argumentos das disputas no espectro político-ideológico não terá dificuldade de constatar que há em cada lado o que se acusa no outro.

Veja, por exemplo, a crítica do pessoal de esquerda aos cristãos, de que são armamentistas e, assim, nem tão pacifistas quando seu mestre ensinou deviam ser. Seu mestre, continuam, não julgaria gays e marginais como o fazem.

Do outro lado, a crítica do pessoal da direita aos marxistas de Iphone, grande maioria oriunda de universidades e da classe média, como Marx, que nunca soube o que era trabalho duro e exigia que os ricos dividissem sua própria riqueza, mais não se dispunha nem a criar mais riqueza para fazê-lo, nem a dividir a que já tinha.

Esquerda grita com ódio nos olhos que os brancos e ricos odeiam os negros e pobres.

Direita rebate dizendo com ódio no discurso que os esquerdistas demagogos criam esta disputa por estratégia ideológica, ao invés de provar em atitudes que não são o que lhe acusam.

Há idiotia em qualquer classe social, em qualquer cor de pele, em qualquer orientação sexual. Há ódio e raiva em qualquer alma humana e a capacidade de reverter isso em algo mais nobre também. Não tenho relutância em afirmar que o discurso da esquerda marxista é bobo, imaturo e repleto de incoerências que se provam pela simples impossibilidade de implementação em qualquer época, em qualquer lugar, sempre que se tentou. E no caso sul-americano, o marxismo é tão presente que considera a social-democracia parte da direita… um absurdo. Foi o Partido Social Democrata alemão que transformou Marx no mito que hoje se conhece.

A direita, que é mais madura efetivamente em seu discurso, poderia sê-lo também ao rebater os frágeis argumentos marxistas. Sabem por que não é!? Porque todos temos nossos limites, nossos defeitos. Todos somos dotados de acertos e erros em nossas avaliações, em nossas análises.

A disputa de argumentos vai longe ainda. Poderíamos passar para um outro nível de diálogo, em que a efetividade fosse mais importante.

Dou exemplo (e posso estar errado): sou contra a liberação da maconha, mas sou a favor de liberá-la para que se verifique se a tal liberação ajudará a diminuir a criminalidade. Nos países em que se está tentando, há experiências positivas e negativas. Tenho particular convicção de que não vai, como tive com relação ao desarmamento da população civil. Mas precisamos permitir que certos experimentos sociais sejam implementados e precisamos olhá-los exatamente como experimentos, com atenção e olhar crítico.

Por outro lado, também precisamos acirrar nossa luta contra a impunidade e deixar de lado o discurso permissivo e vitimista. Do jeito que alguns pensam no Brasil, parece que por se ser pobre e vileiro o indivíduo precisa ser criminoso… o que é um sofisma infantil.

Brasileiro é violento, é desrespeitoso, é leviano, é parcial. Mas também é persistente e alegre e empático. Quem nos estuda deve considerar isso ao propor suas teses. Ficar alardeando que aqui se mata mais gays que em qualquer outro lugar do mundo é hipócrita, pois aqui é dos lugares que se mata mais qualquer tipo de gente. É desse tipo de debate que não precisamos.

Há hoje no mundo – não é um privilégio só nosso – uma polarização hipócrita e incoerente. Virou jogo de futebol a discussão política. Quero crer que seja positivo, pois ao menos estamos popularizando o debate. Contudo, o ser humano depende de suas lideranças – crer que a massa das pessoas vai agir com nobreza é algo, infelizmente, impensável. E as lideranças no regime democrático sabem dizer o que a maioria quer ouvir, ainda que seja o lixo. Por isso que aqueles que têm condição de lutar contra essa mesmice, contra essas bobagens, contra a adolescência da humanidade, precisam ajudar o debate a ir adiante.

É do mais preparado que precisamos esperar mais… e os mais preparados têm fugido desta responsabilidade.

 

Documentários Esclarecedores

Quem curte história está costumeiramente procurando algo para ler e assistir nas livrarias, nos sites e nos aplicativos. Recentemente li a “A Teoria das Nuves”, de Stephane Audeguy, que fala a inusitada história de homens que estudaram as nuvens quando a meteorologia ainda não existia, com uma visão romântica, às vezes absurda.

Mas são da sétima arte as histórias que pretendo sugerir e começo com o documentário “Hitler´s Circle of Evil“, de 2017, que traz de uma forma interessante a personalidade dos asseclas do Führer e sua influência no que se tornou o nazismo. É inacreditável e muito ilustrativo no que resulta a aglomeração de loucos inteligentes e ambiciosos ao redor do poder e da demagogia. O documentário pode ser encontrado no Netflix e no Youtube (assim como os demais abaixo).

Algo mais recente e não menos triste e esclarecedor é o documentário “White Helmets” ou “capacetes brancos”, de 2016. São os abnegados paramédicos sírios que ajudam a salvar as vítimas dos bombardeios russos e governamentais, nos nossos dias, e nos tocam pela proximidade histórica. As cenas são tristes.

Uma visão interessante sobre a questão armamentista norte-americana é o documentário de Michael Moore “Tiros em Colombine” (ou “Bowling for Colombine”), feito em 2002, mas ainda bastante pertinente. Gosto especialmente da forma como analisa a questão numa cidade americana e na sua vizinha canadense, sendo que ambas são dotadas de moradores bastante armados.

Não há dúvida de que a visão empregada em cada um destes documentários tem componentes do viés ideológico dos seus autores que, eventualmente, não serão o seu. Ainda assim são materiais muito bons e que merecem a reflexão.