Crise dos 40 ou autocrítica

Faz um tempo, estava conversando com um amigo que exerce alto cargo de auditor estatal. Ele, com menos de trinta anos de idade, dizia que acordava todos os dias sem nenhuma vontade de ir trabalhar. Odiava seu trabalho. O fazia única e exclusivamente em razão da excelente remuneração.

Cada vez mais pessoas tem tido coragem de escolher carreiras que remuneram menos mas dão mais satisfação pessoal. E cada vez mais vejo exercer esta opção aqueles que já passaram dos quarenta.

Não há dúvida de que aos quarenta anos nos prestamos a revisar cuidadosamente todos os pontos de nossa vida. Casamento, trabalho, domicílio, família… nada passa incólume.

Napoleon Hill, um dos primeiros autores de motivação e autoajuda, escreveu na década de 1930 que dificilmente se consegue atingir o triunfo existencial antes dos quarenta porque antes falta maturidade para tal.

Contudo, tenho ouvido de muitos ao meu redor que estão nessa fase da vida uma avaliação dura da sua condição profissional que, confesso, acho que está misturada demasiadamente com a crise da idade. Na verdade, acaba por intensificar algo que naturalmente iria acontecer.

Explico:

Vivemos num país que sofre na maioria das instituições e atividades profissionais. Se você é advogado, professor, servidor, policial, executivo, político, médico, empresário… seja o que for… se você tiver uma visão crítica da sua atividade, você terá muitos motivos para se desestimular. É uma realidade em nosso país.

Pois essa autocrítica acaba por influenciar o desânimo que, eventualmente, a crise dos quarenta provoca em relação a nossa atividade profissional. Fica parecendo que não temos a devida identidade ou afinidade com aquela profissão, quando, muitas vezes, é apenas um descontentamento com os rumos que tal atividade tomou em razão de mazelas próprias da sua realidade. É como se um enfermeiro se desestimulasse com a profissão porque não consegue dar o devido atendimento aos pacientes que lhe chegam pelo SUS, transferindo à sua atividade profissional uma culpa que na verdade pertence à condição institucional do seu exercício.

No Brasil isso é muito comum!

Trabalhei por dez anos representando judicialmente policiais militares e percebi a dura realidade que os cercava e os desmotivava. Quase nenhum policial veterano tem o ideal e a vontade dos jovens, porque a vida lhes foi dura quando assim agiram. Acabam por se tornar, muitas vezes, uma espécie de burocratas de farda, pois sabem que qualquer atitude mais impetuosa poderá lhes custar muito.

Dos grandes enfrentamentos que a crise dos quarenta exige de nós, brasileiros, é esse filtro sobre aquilo que nos frustra profissionalmente em razão da nossa personalidade e aquilo que é resultado do panorama social. No Brasil, se formos reclamar de algo que não funciona a lista será interminável. A crise dos quarenta, nesse caso, serve para nos aproximar de uma atividade em que consigamos nos ver como vetores de soluções.

Se é verdade que toda crise fomenta novas oportunidades, ser veterano é um terreno fértil que não pode ser subestimado. Que tenhamos a coragem para nos tornarmos aquilo que desejamos.

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Digitalizar

Quando eu tinha 9 anos, morava numa vila que não tinha praça para jogarmos futebol. Jogávamos na rua, que era de areia ou saibro, cheia de pedrinhas, algumas sem coleta de esgoto. Com o tempo, algum pai de amigo mostrou que podíamos usar os terrenos desocupados para jogar bola. Bastava limpá-los e deixá-los em condições.

Naquela época a regra era clara: escureceu tem de estar em casa. Não tinha como minha mãe saber onde eu estava. Podia estar em qualquer rua num raio de quilômetros ou na casa de um amigo.

O mundo hoje é absurdamente diferente. Enlouquecidamente diferente. Maravilhosamente diferente. Perigosamente diferente.

Entro no quarto dos meus filhos e digo quase sempre: “este é o melhor quarto do mundo”. Ali tem TV, videogame, livros, globo luminoso, Netflix, teclado musical, brinquedos e por aí vai. É de um conforto maravilhoso, ainda que simples, ainda que sem luxo.

Nossas condições materiais não são melhores do que há trinta anos por acaso. A humanidade estuda mais, conhece mais, compartilha mais, busca mais, tolera mais, doa mais.

A era digital é muito mais do que software e hardware, do que APPs e perfis. Ela está criando um novo mundo.

O que mais me assusta não é ver esse novo mundo chegar… não é. O que mais me assusta é ver a quantidade de gente que ainda vive e pensa da forma do antigo mundo analógico. E pior, gente que é ainda mais devagar, mais preguiçosa, mais omissa que há trinta anos.

Digitalize sua visão de mundo, seu jeito de estudar e trabalhar, sua forma de existir e sentir. Imediatamente. Ou você não será compatível com o sistema operacional da vida muito em breve.

Outono

Sinto o vento entrar pelas frestas da janela e assoviar no telhado. O barulho do mar, ao longe, é intensificado e se mistura ao das folhas ao vento, que estão nas ruas porque jardineiros podaram árvores e arbustos em ramos que se chocam eventualmente com a porta da cozinha. A poda ainda deixa tocos de galhos para secar que em junho ou julho, quando o frio retornar, vão colorir a lareira de um laranja aconchegante. Pela manhã os casacos são necessários companheiros do chimarrão. Às vezes chove, mas normalmente não. Normalmente é um vento, até que o grande minuano traga o azul do céu por alguns dias ou dessas nuvens passageiras que vagueiam pelos quatro cantos do mundo em suas altitudes permanentes. O olhar naturalmente se acalma na contemplação de uma beleza acizentada que reverencia o passado, fortalece o que foi bem construído e derruba de vez o que está pra ruir… é a natureza exigindo que se faça direito o que precisa ser feito. Tempo de mudança! Da mudança que começa na introspecção reflexiva e ecoa nos sussurros que o coração leva à alma. É tão linda essa época! Tão acolhedora na sua culinária, tão exuberante nas suas vestimentas, tão exultante nos corações que compartilham seus sentimentos. Se todo o ano fosse assim, seria ótimo. Tenho pena dos que a não conhecem por viverem longe do subtrópico e a tentam sentir, quando muito, na obra de Vivaldi. É nessa época que os livros são feitos ou lidos, que as pipas são abertas – de vinho, de pinga ou de calda – e que filhos do verão são gerados. É nessa época que, ao sul do equador, o ano já se alarga e mostra a que veio, que as visitas já não visitam tanto e as aves retornam. Saúde! Que a vida seja um eterno outono.