O que é fazer o certo?!

Imagine que você está numa rodovia com duas pistas. A velocidade máxima é 100km/h. Na pista da esquerda está um veículo a 80km/h. Você pede passagem e nada. Você insiste e nada. Se formos formalistas e radicalmente legalistas, sabemos que não podemos ultrapassar este veículo pela direita. Então vem a dúvida: você simplesmente ultrapassa pela direita ou você fica atrás deste veículo até que ele permita a ultrapassagem?
Fazer o certo sempre depende do contexto. Aquele que resume o julgamento dos outros por um simples evento (como ultrapassar pela direita, neste caso) está apto a cometer injustiças.
O certo depende do que lhe precede e do que lhe sucede.
Se no caso apresentado optarmos por ultrapassar pela direita e colidirmos com um terceiro veículo que já vinha na pista da direita e se preparava para ultrapassar-nos teremos um novo contexto a ser analisado.
Se, pelo contrário, optarmos por ultrapassar o veículo pela direita e formos adiante sem nenhum outro evento, estará tudo ok e concluiremos que agimos corretamente.
E se, por acaso, optarmos pela via formalista e ficarmos atrás do veículo até nosso destino?! Bem, temos de aceitar que nossa vida estará sendo submetida a uma vontade injusta de terceiros. Algumas pessoas preferem essa via por conforto, por covardia ou mesmo por insegurança.
Não hesito em dizer que eu simplesmente faria a ultrapassagem pela direita e buzinaria para o motorista turrão da frente. Isso porque entendo que a vida é feita de regras, mas não só delas; é feita de intenções, mas não só delas; é feita de resultados, mas não só deles; e é feita de decisões e consequências, essas sim sempre necessárias.

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O Governo Bolsonaro

Brasileiro, prepare-se: o Governo Bolsonaro será o governo mais difícil da história democrática brasileira.

Trata-se de um candidato de direita em meio a uma nação permeada pela cultura e pelos valores da esquerda, com massiva maioria da classe cultural, intelectual, sindical, educacional e dos servidores na oposição.

O Brasil jamais passou por isso, nem mesmo nos governos de Getúlio, que foram marcados por uma ferrenha oposição das classes produtivas e do status quo. Collor, o último governante de direita, com muito menos problemas a enfrentar e com uma oposição muito menos estabelecida, não durou metade do seu mandato.

A esquerda tem seus méritos e deméritos, como os tem a direita. Contudo, não é um mérito da esquerda o debate maduro e edificante. O que ela sempre fez e fará será uma oposição ferrenha, marcada pelo debate ideologizado (como tem feito nos últimos anos). A histeria que vemos em muitas pessoas decorre dessa construção astuta e malígna, que será uma das grandes adversidades de Bolsonaro e de seus apoiadores já de imediato.

Temo que Bolsonaro não dure dois anos. Temo que atos de provocação do terror sejam constantes. Temo toda e qualquer pauta reformista seja suplantada pelo debate meramente ideológico e populista.

Contudo não podemos viver submetidos aos nossos temores. Quem opta por isso na vida não vive. Nosso trabalho é participar da reconstrução desse ambiente belicoso construído e mantido até hoje por quem depende disso para atingir seus objetivos.

Acredito sinceramente que temos chances efetivas de mudarmos nosso país, de mostrarmos que essa construção maligna de brancos contra negros, patrões contra empregados, conservadores contra liberais, reformistas contra reacionários e por aí vai, possa ser desconstruída, porque há pessoas mais maduras à frente desse debate do que havia há vinte anos.

Além disso, o Brasil já mostrou que tem instituições fortes que cada vez menos se submetem ao interesse individual, à serventia ideológica e ao imediatismo populista. Foram nossas instituições, com todas as críticas que eventualmente mereçam, que nos protegeram nos últimos anos de nos afundarmos profundamente no abismo irracional da divisão, que tomou conta e quebrou boa parte dos países latino-americanos.

Nós vamos superar essa histeria!

Os que hoje se manifestam com (infantil) temor de que o Brasil se torne um caos vão mudar logo este sentimento, mas precisam estar atentos para perceber quem há de incitar o problema e quem há de viabilizar a solução. Não é difícil perceber, mas temos tido pouco êxito nesta avaliação.

A Bolsonaro só posso desejar seja iluminado. Que possamos nós todos participar de um novo Brasil voltado a valores que nos são caros e alheios e a debates que não podem mais ser substituídos pela retórica ideológica beligerante.

Façamos nossa parte.

Trânsito é fiel

Vivo há dois anos numa cidade litorânea gaúcha com cinquenta mil habitantes que, na temporada de verão, cresce umas seis vezes. É uma cidade tranquila, muito boa pra se viver, onde a violência ainda é pequena, os serviços públicos são bons e as pessoas têm boa qualidade de vida.

Mas uma coisa em especial me desagrada aqui: o trânsito. Para uma cidade turística, me espanta a despreocupação com esse tema. Sequer existe fiscalização.

Sou motociclista e já tive de usar severamente meus freios dezenas de vezes, em situações que poderiam ter me matado. Não se respeita preferência em rótulas, não se sinaliza, não se respeita faixa de pedestres, sequer se respeita o sentido das ruas no centro da cidade. Próximo à escola do meu filho pequeno os veículos andam na contramão, param em fila dupla, estacionam sobre faixa de pedestres e por aí vai.

Mais do que me queixar, quero entender isso.

O trânsito é o resultado da cultura de um local. Ele reflete a educação, o senso de responsabilidade, a atuação das autoridades, o respeito às regras de convivência. Quando vi às 11h da manhã de uma quarta-feira motoqueiros empinando suas motos numa das principais avenidas, onde fica o Fórum e a Câmara de Vereadores, tive certeza de que a cultura de impunidade e da imaturidade estava implementada. Aquilo é típico de um jovem de quatorze anos, mas era realizado por jovens dos seus vinte e cinco que se lixam pro mundo ao seu redor.

Recentemente reclamei de um veículo estacionado em fila dupla pela esquerda do meio fio, na avenida da escola de meu filho, e o motorista me ameaçou de morte. É o sinal da barbárie e da falta de valores elementares, que nos tornam o país que somos. Concluí que não tem outro jeito, se não pensar numa forma de levar educação de trânsito às escolas e plantar uma semente para, quem sabe, meus filhos usufruírem.

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”, M. L. King.

 

O que vem primeiro? O que é importante?

Vi reportagem de que em São José dos Campos a Prefeitura está usando alta tecnologia para gerenciar o trânsito da cidade. Lá, motoristas usam aplicativo no celular que informa em tempo real o sistema de controle de trânsito e, através de inteligência artificial, o sistema regula quais sinaleiras devem estar mais tempo abertas e fechadas de acordo com a quantidade de veículos em cada via e sentido.

O sistema controla também os veículos que ficam mais tempo que o permitido nos estacionamentos públicos rotativos. Por certo sabe a velocidade de cada veículo que está conectado.

Outro resultado de tamanha vigilância é que o número de veículos furtados/roubados é o menor em dezesseis anos.

Esse sistema é ótimo para quem não se importa em dividir a sua privacidade.

E quem se importa? Mesmo que por motivos legítimos?

E se esse sistema for usado por governantes ou administradores autoritários e desvirtuados do interesse público?

O debate sobre valores é sempre anterior a qualquer sistema. É impossível um sistema compensar os valores humanos, seja um sistema de controle de trânsito, seja um sistema de gestão pública ou privada, seja um sistema ideológico.

Os valores humanos são o alicerce da sociedade. Quando fragilizamos os valores que nos identificam, quando flexibilizamos nossas regras de respeito e convívio, passamos a ser reféns do sistema, seja ele qual for.

Quando alguém vende a ideia de igualdade precisa tratar todos com igualdade. Quando se vende a ideia de segurança precisa agir de forma segura. Toda ideia que não é valor é método de controle e de desvio.

Não há sistema que compense a falta de valores.

Democracia Institucional

Estou lendo (lentamente) um ótimo livro que trata, em parte, das revoluções comunistas e fascistas da Europa no início século passado. É interessante verificar que muito dos debates são tão atuais. Atual também é ler “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, ou “Dom Quixote”, de Cervantes… mas por outro motivo. No início do século XX os ismos (nazismo, fascismo e comunismo) tinham como adversário comum o sistema monárquico e a aristocracia. Até o século XIX tínhamos milênios de imposição e governança de famílias sobre o Estado e o povo. Com todas as suas semelhanças e diferenças, aqueles ismos se ajudaram e tornaram o mundo democrático, ainda que sem optar pela democracia.

Hoje vivemos um novo momento na construção da democracia, onde a vontade popular se reflete no voto em todo o Ocidente e onde essa vontade é limitada pela constância e regularidade das instituições. É a Democracia Institucional.

A Democracia Institucional a que hoje nos submetemos e veneramos é um novo estágio do sistema democrático republicano iniciado lá nas cidades-estado gregas e romanas. Ela se baseia na divisão do poder e da autoridade estatal. Ela se revitaliza com eleições livres. Ela se aprimora com o debate e o fortalecimento da entidades e corporações que formam a sociedade. A Democracia Institucional é um sistema melhor que a mera democracia participativa, pois as instituições tendem a ser mais hábeis em gerir as demandas sociais e estatais que a vontade popular.

Na Democracia Institucional é importante estabelecer os meios de ingresso, gestão, manutenção e orçamento das respectivas instituições. O desequilíbrio desses meios compromete o todo. Esse debate ainda é pequeno em nosso país, pois ainda nos perdemos no debate ideológico.

Veja que o debate ideológico é anterior ao debate institucional. Pouca diferença faz se o governo é de direita ou esquerda com relação, por exemplo, aos direitos dos homossexuais, pois há leis que lhes garantem respeito, igualdade e tudo o mais. O debate sobre isso se torna meramente político. O desrespeito aos seus direitos goza da mesma estrutura que os demais desrespeitos aos direitos de qualquer outro.

Assim imaginamos deva ser uma sociedade moderna, onde todos são iguais e onde as instituições se sobrepõe à vontade do governante. Mas…

É indubitável que há instituições mais poderosas que outras. Você não consegue ver igualdade de direitos no trato de um magistrado e de um servidor do Judiciário, tampouco no sistema educacional que atende um agricultor e um servidor de alto escalão. Isso é o que se espera melhore na nossa Democracia Institucional. Mas para melhorarmos isso precisamos parar de discutir o sexo do anjos e a pauta que o mundo debatia há 100 anos. Precisamos de uma vez por todas entender qual o papel da sociedade civil e papel do Estado. Precisamos fortalecer as instituições para que elas cumpram seus desígnios, cuidando para que não o sistema não se deforme e se desequilibre, dando a determinadas instituições e categorias privilégios aristrocrático-monárquicos.