A internet e a democracia

A democracia como instituição, todos sabemos, surgiu na Grécia cerca de 500 anos antes de Cristo. Em diversos outros lugares e épocas já havia a escolha de líderes tribais de forma direta e eletiva, mas foi em Atenas que se buscou institucionalizar esse proceder, dando regras e forma mais complexa à eleição de lideranças políticas. Alguns séculos depois, Esparta assume o protagonismo governamental na região e a democracia dá lugar ao sistema aristocrático militar dos espartanos.

Ao longo da história ocidental só voltamos a discutir democracia quase dois mil anos depois, com a Independência Americana e a Revolução Francesa. A democracia é uma prática governamental que não se enraíza em sociedades culturalmente primitivas porque demanda um amadurecimento institucional que apenas o sistema republicano conseguiu reproduzir adequadamente. Há monarquias democráticas, é verdade, mas nesses regimes a figura do monarca não é mais a do chefe de governo. Sendo assim, onde há democracia há um chefe de governo eleito pelo voto e instituições estatais e civis capazes de sustentar tal modelo.

Então temos uma prática governamental modernamente que depende da existência de instituições públicas e privadas capazes de a sustentar culturalmente. A democracia moderna é mais que um sistema, mais que um regime: é uma prática. Depende de outros elementos para ser viabilizada e mantida.

Todos percebemos que a internet é uma potente ferramenta de comunicação. Ela mudou a forma da gente se relacionar, estudar, se aperfeiçoar. A internet vai não só tornar a democracia o modelo global de governo, como vai participar da evolução do conceito de democracia. Vejamos que em países não democráticos a internet naturalmente produziu efeitos de repercussão liberal. Chineses e árabes já perceberam isso e trataram de regular a rede nos seus domínios.

Os motivos são claros: a internet elabora em tempo exponencial qualquer debate, qualquer reflexão, qualquer mobilização ou projeto. Ela é uma mistura de correio, academia, laboratório, biblioteca, playground. Compila num mesmo ambiente diversos ramos da vida cotidiana e leva para todos os lugares o que acontece em qualquer canto do planeta.

O Império Romano do Ocidente se edificou sobre uma competente rede logística. Caiu com a ruína desta infraestrutura. A Igreja Católica se tornou a maior instituição do mundo na Idade Média. Perdeu seu poder quando as sociedades passaram a buscar outro modelo de vida. A internet é a potencialização de qualquer rede de logística ou modelo social imaginável até então. Tudo se torna viável, ao ponto de que há um novo ambiente nunca vivenciado pela humanidade pela frente. Já mudaram as relações de trabalho, a forma de se noticiar, a distribuição de conteúdos e conhecimento, os métodos de pesquisa, o trânsito comercial e produtivo.

Quem será que aprenderá primeiro a viabilizar a nova forma de governo deste mundo?

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A mais-valia brazuca

Marx chama de mais-valia aquilo que a foça de trabalho produz e não é remunerado pelo burguês (patrão). O brasileiro médio, seja ele operário, servidor, patrão, autônomo, agricultor ou qualquer outro que ofereça a sua força de trabalho, um serviço ou produto, desvirtuou o conceito marxista e estabeleceu uma nova forma de remunerar-se, um verdadeiro ágio que nos atinge de diversas formas.

Veja o vendedor de veículos, por exemplo. Ele não é remunerado apenas pela atividade de compra e venda de veículos. Ele ganha (e muito bem) a cada financiamento que realiza, pois a financeira o remunera por isso. Quem paga?

E a administradora de condomínio… ela cobra uma taxa dos seus serviços, mas costuma ganhar por cada contratação de prestadores para o condomínio. Quem paga?

Veja os serviços públicos. Educação, saúde e segurança, que são aqueles indispensáveis, acabam por ser uma parcela menor dos gastos orçamentários estatais. Para manter o sistema, pagamos altos salários a auditores, magistrados, procuradores, diretores, consultores, governantes, legisladores, etc. Quem paga?

Vá no banco pedir um empréstimo e um seguro ou título de capitalização lhe será empurrado através de venda casada (proibida por lei). Isso que nossas taxas de juros são as maiores do mundo.

Quase tudo em nosso país poderia ser mais barato se custasse apenas o que se quer. Quase sempre pagamos por algo mais, que não temos a oportunidade de dispensar.

Quem estuda em universidades públicas, às vezes com doutorados e bolsas de pesquisas com verbas estatais, costuma buscar grandes cargos em postos de alta remuneração. Legítimo. Mas como retribuir ao seu país o que todos pagaram para que fosse conquistado? Quem pagou? Quem se beneficiará?

O Brasil é um país rico e seria seu povo igualmente rico se tivéssemos construído uma escala de valores menos egoísta, menos avarenta, mais humana, ética e altruísta. Mas chegaremos lá, pois não há ignorância que dure para sempre.