Pandemia de Diversidade

Nos seus mais variados rincões o mundo é muito diferente. O clima, os recursos naturais, a oferta de ar e oxigênio, a proximidade de água, alimento e de terra fértil e tudo mais. Essa diversidade repercute nas profundas diferenças culturais entre os mais longínquos cantos do planeta e isso foi assim, se manifestando e intensificando por séculos e séculos. Até que a modernidade fez com que as pessoas circulassem cada vez mais e interagissem e firmassem vínculos que acabavam por repercutir na cultura que originalmente dispunham, mudando-a.

É por causa da diversidade que existem muitas línguas, muitas religiões, muitos alfabetos, muitas cidades, muitas formas de resolver os mesmos problemas. Essa diversidade é, ao mesmo tempo, fruto do meio e do ser humano e, por isso, também vai sofrendo mudanças, se tornando a diversidade da diversidade. O mundo é assim, concordemos ou não! Quem acredita que possamos viver hoje como se vivia há 100 ou 10.000 anos está errado e o mundo, com sua história, prova isso. Nós mesmos, que já não somos tão jovens, somos provas disso

O sonho de muitos terráqueos é que fôssemos todos iguais, com uma mesma língua, um mesmo governo, mesmos valores. Alguns queriam que um Super Estado regulasse isso. Outros, que isso fosse resultado de uma Super Consciência. A igualdade parece algo, infelizmente, inatingível do ponto de vista mundano. A história está aí a provar também. Ainda que tenhamos mesmos direitos, mesmas oportunidades, mesmos recursos, jamais seremos iguais. E é bom que assim seja, se não nos tornaríamos um rebanho e isso só serviria para que fôssemos conduzidos por aqueles eventualmente detentores do Poder (como, até aqui, tem acontecido nos lugares em que se tentou artificializar a igualdade).

A pandemia convid 19 escancara o resultado da diversidade mundial. O vírus é o mesmo, o resultado diferente. Ainda não sabemos tudo que precisamos sobre isso, mas podemos concluir até aqui com certeza os seguintes pontos:

  • faz muita diferença a forma com que enfrentamos uma mesma dificuldade com base no que já sabemos, não apenas sob o ponto de vista dos recursos materiais, mas principalmente com nossas atitudes
  • faz muita diferença nos entendermos para percebermos quais providências e comportamentos dos outros podem ou não funcionar conosco
  • faz muita diferença durante uma crise aquilo que foi feito antes dela
  • faz muita diferença durante uma crise aquilo que se quer priorizar
  • faz muita diferença durante uma crise de grandes proporções a ética, o interesse e a capacidade

Temos países no mundo em que, embora populosos e altamente densos demograficamente, as taxas de contágio foram de cerca de 0,5% da população, mesmo sem proibições rígidas e sem fechamento em massa por períodos prolongados. Podemos teorizar muito sobre isso, mas uma coisa é certa: são culturas em que há disciplina.

Temos países que providenciaram medidas governamentais rígidas de fechamento e proibição de circulação que serviram mais para impossibilitar a dinâmica social do que para impedir a circulação do vírus, com contágio de cerca de 5% de toda a gente (dez vezes maior que o exemplo acima). O motivo pode ser igualmente teorizado de diversas formas, mas é evidente que os Governos destes lugares negam a condição cultural e social de seu povo ao propor algo que não é cumprido, provavelmente porque não se consiga.

Temos outros países (penso que a maioria) onde se tentou diversas formas de enfrentamento, algumas mais eficazes por um tempo que outras. Enfim, tivemos uma diversidade de políticas de enfrentamento, proporcionais à diversidade cultural de nosso planeta.

A pandemia de covid mostra que as atitudes individuais e coletivas se complementam. Que não há uma única forma de lidarmos, de olharmos e de nos prepararmos para as situações de agravamento. Isso, penso, todos nós percebemos.

O que falta ser percebido é que a diversidade de enfrentamentos não existe apenas entre povos ou entre países. Ao nosso redor ela existe. Ao nosso redor temos pessoas com realidades absolutamente distintas umas das outras e por isso as suas ações também o são. É por isso que protocolos de enfrentamento são tão importantes, pois só assim haverá uma padronização de métodos e resultados.

Em países de maior igualdade social e cultural, certamente será mais fácil a implementação de políticas uniformes. Não é nosso caso. Aqui, onde na mesma rua transitam pessoas de realidades totalmente distintas, a forma de nos igualarmos é providenciando medidas de respeito e prevenção mínimas. Elegemos o distanciamento, o uso de máscaras e de produtos de higienização como instrumentos e eles funcionam! Vejam o resultado nos estabelecimentos que se mantiveram abertos porque são indispensáveis.

Muito se debaterá – com razão – sobre a necessidade disso aqui ou ali, mas veja: mais importante do que estar certo sobre detalhes é produzir resultados suficientes para salvarmos vidas. Não é uma questão governamental, nem de estrutura. Estas, sabemos, sempre foram insuficientes e não será no meio da tempestade que construiremos bons telhados.

Precisamos fazer a nossa parte. Se errarmos, que seja pelo excesso do que poderíamos fazer, jamais pela insuficiência ou pelo desinteresse. Sejamos nós aquilo que todos precisamos.

Re[volução]De Social

Há vinte anos, se um aluno quisesse reclamar do abuso por um professor, iniciaria uma reflexão sobre o melhor caminho para se fazer isso: conto aos meus pais; vou à direção da escola; faço uma comunicação de ocorrência policial; procuro um advogado e busco o Judiciário; inicio terapia.

Há vinte anos, se um subalterno fosse ofendido por seus superiores, se um consumidor fosse enganado, se um compositor amador encontrasse um artista com sua melodia ou se um ex-assessor quisesse denunciar impropriedades dos seus chefes provavelmente percorreria um caminho similar.

Esse caminho convencional tinha como resultado costumeiro a barreira de prosseguimento. Nem sempre por maldade, nem sempre por interesse. Muitas vezes as reclamações e denúncias não iam adiante por impossibilidade cultural, estrutural e institucional. Sempre houve um protocolo, um procedimento digamos, para que as apurações fossem providenciadas e as reclamações levadas a sério.

As redes sociais, tão criticadas (por motivos justos) em nosso tempo, deram voz a uma infinidade de demandas, muitas das quais absolutamente pertinentes. Se é verdade que temos de aprender a não expor em demasia nossa vida por simples respeito à nossa individualidade e privacidade, também é verdade que a exposição automática e generalista destes tipos de casos que referi no início do texto acaba por forçar a providência que, antes, era quase sempre posta embaixo do tapete.

As redes sociais revolucionaram os direitos personalíssimos. Mudaram totalmente a noção de privacidade, de moral, de individualidade. Se antigamente muitas mulheres dedicavam horas a escolher o vestuário para refletir sua intenção de mostrarem-se mais arrojadas ou conservadoras, hoje um perfil no Instagram costuma revelar mundialmente as curvas mais sutis das mais ousadas ou os blogs a revelar as suas reflexões mais profundas.

Para quem foi educado na geração pré-internet isso é assustador (mesmo na Grécia antiga era assustador o comportamento dos jovens para os anciões), mas cabe sempre ao mais maduro o dever de ponderação e o agir mais qualificado, pois esperar que o menos maduro os produza resulta em colher resultados ainda menos confortáveis.

A revolução das redes sociais não é só de exposição de fotos e banalidades, como muito se critica. Não é só uma apologia ao rasteiro e ao improdutivo. Tampouco pode ser resumida como uma instrumentalização das relações humanas. As redes sociais vieram para se tornar um item definitivo em nossas vidas e servem para expor nossa personalidade, com seus traumas, desejos, limites, valores, conteúdo. Há uma revolução do individualismo em andamento que torna pública a individualidade, a ponto de produzir efeitos (e transformações) sociais nunca antes experimentados. Percebem? É uma espécie de dialética dos fatos (sociais) nas mídias. É um contraponto entre extremos em que o resultado ainda é impossível de se avaliar, posto a complexidade, a dinâmica e a infinidade de elementos que o compõe. Os sociólogos finalmente vão conseguir analisar, daqui algumas décadas, o quanto os indivíduos participam da transformação social e o quanto a sociedade os molda, porque estes elementos são cada vez mais palpáveis.

As redes sociais são o novo portal de exposição da identidade do indivíduo e da sociedade, antes presentes em obras, no corpo, na roupa. Nem sempre mostram o que gostaríamos porque os seres humanos são assim. Não digamos que elas são inúteis e desnecessárias… a sua presença em nossas vidas será permanente e já se mostrou, em que pese os seus dejetos, muito de terapêutica, de reflexiva e de transformadora.

A dominação

Costumamos criticar os instrumentos de dominação utilizados pela humanidade como se eles fossem a causa da dominação. Violência, armamento, religião, conhecimento, ciência, política, dinheiro… nada disso é causa da dominação de uns sobre os outros, ainda que, até os nossos dias, essa avaliação nos seja ensinada na escola e até em doutorados.

A vida é regida por diversas leis, dentre as quais uma das mais consensualmente aceitas é a lei de causa e efeito. Esta lei natural é reproduzida pelas filosofias de todos os cantos do mundo em todas as épocas humanas. É chamada de karma por uns, de ação e reação por outros e, por outros mais, de sorte ou azar ou, ainda, de meritocracia.

A lei de causa e efeito determina que há ações que definem os resultados. Muitas vezes são tão complexas as ações e/ou tão complexos os resultados que o vínculo entre ambos torna-se igualmente complexo (afinal, essa relação também se submete à mesma lei).

O homem que quer dominar e dispõe de armas, o faz pela violência (ou ameaça de). O homem que quer dominar e dispõe de ciência o faz com o conhecimento, com a tecnologia. O homem que quer dominar e dispõe do poder político o faz com a burocracia estatal e, se falhar, com a tecnologia ou a violência estatal.

Não é o Estado ou a Igreja ou a Política ou a Ideologia ou mesmo o Exército que dominam. Estes são instrumentos humanos de dominação, como podem se tornar instrumentos humanos de libertação, quando for a liberdade que os instrumentaliza.

A dominação é um expediente dos humanos egocêntricos, que entendem devam os demais se submeter a sua vontade, aos seus valores, aos seus interesses, a sua religião ou a sua ideologia. Reconhecer que outros humanos podem querer dispor de caminhos diferentes é atitude de amadurecimento relacional e, portanto, imprescindível para a vida em sociedade.

A época do uniforme, dos caminhos únicos, da homogeneidade, está findando, porque nos tornamos complexos demais para reduzirmos a humanidade a uma única língua, uma única religião e uma única ideologia. Esta reflexão simples (e elementar) há de nos ensinar que é só o aprendizado frente à diferença de caminhos – claro que com respeito a si e ao outro – que nos permitirá irmos adiante. E, aí, os hoje instrumentos de dominação servirão para outro propósito.