Trânsito como instrumento de educação

Salvo raras exceções, o brasileiro só recebe educação de trânsito quando busca habilitar-se como condutor. Essa realidade demonstra o desinteresse social pelo tema, quando somos todos parte do trânsito, estejamos caminhando na calçada, andando de bicicleta ou usando o transporte coletivo.

A educação de trânsito é um dos três pilares indispensáveis sobre o tema: os outros dois são fiscalização e campanhas (sobre pontos ou momentos específicos de enfrentamento). Só a soma destes três expedientes tem a condição de repercutir em resultados de segurança, funcionalidade e racionalidade.

Pois há uma função da educação de trânsito que tem grande valor social: o trânsito ensina a todos que vale a pena ser respeitoso. Respeito inicialmente às regras, mas não por mero cumprimento burocrático. Respeitar as regras porque isso é respeitar as pessoas e viabilizar conflitos de interesse num mesmo ambiente.

Você já percebeu com certeza que, se está num veículo que passa por uma faixa de pedestres e ali tem uma pessoa, criou-se um conflito de interesses. Você quer passar e a pessoa também, mas isso não pode acontecer ao mesmo tempo. É a regra de trânsito que vai resolver esse pequeno conflito. Até pouquíssimo tempo quem resolvia esta demanda era a lei do mais forte. O pedestre que esperasse, pois se não o fizer vai ser-lhe pior. A lei, contudo, mudou essa relação e exige do motorista que espere, justamente pelo motivo inicialmente proposto: se o mais forte não esperar, poderá causar um dano ao mais frágil.

Poderia ser o oposto? Poderia sim. Essa regra é uma convenção, não é um debate moral ou ético. E é justamente isso que precisamos nós todos, brasileiros, compreender. As regras de trânsito tem uma função convencional de organização e proteção. Elas fazem com que os milhares de interesses conflitantes durante a circulação tenham uma espontânea e imediata solução.

Agora imagina uma sociedade onde tais regras de convivência estão incorporadas ao seu cotidiano. Imagina uma criança que, ao sair da escola, passa pela faixa de pedestres e verifica que os veículos param para que ela atravesse a rua. Ela se sentirá respeitada e perceberá nos condutores uma postura que lhe servirá de referência. Os condutores igualmente sentir-se-ão responsáveis e parte de um gigantesco processo de cuidado e zelo, de educação e organização.

O trânsito tem a grande repercussão de servir de laboratório social. Reflete de forma instantânea a forma com que nos relacionamos com o outro e com os interesses conflitantes. E, por refletir, por espelhar estas soluções frente a pequenos conflitos de interesses diários, tem o poder de promover imediatamente empatia entre os envolvidos. Ou de criar antipatia.

Veja se não valeria a pena, de uma vez por todas, investirmos na educação de trânsito para, quem sabe, dispormos não só de um ambiente mais seguro, mas principalmente de uma convivência mais madura!

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