Minha casa da infância

Com quase cinco anos de idade deixei a zona sul de Porto Alegre, onde até então tinha morado com meus avós maternos e a família de minha mãe, e fui morar em Viamão, onde morava meus avós paternos e a família de meu pai.

A minha casa nova era velha, de madeira, erguida sobre fundações de tijolos e pedras que deixavam um porão raso por baixo do piso de tábuas. Número 814. Tinha as cores da Mangueira, verde e rosa, o que fez eu criar uma identificação afetiva com a escola da samba. A cozinha e o banheiro, no meio da casa, eram de alvenaria e separavam o quarto dos meus pais e a sala, na frente, dos dois quartos dos fundos. Pra mim essa distância equivalia a um quilômetro. Morria de medo de dormir no meu quarto. Tinham baratas, aranhas, barulho de madeira. No banheiro, uma vez, sentei no vaso sanitário e uma perereca grudou em mim. Aprendi a sempre olhar primeiro pra ver se não tinha sapo na água da patente. No quarto dos fundos as janelas eram altas do chão e, numa delas, minha irmãzinha de dois anos caiu nos assustando. Ficou tudo bem, fora o fato de que ela deve ter batido a cabeça e ficado meio pancada.

A minha casa era cercada por muros de alvenaria verde claro e, na frente, tinha um grande portão de ferro gradeado preto, que eu usava como escada para subir no muro. Isso dava uns três metros de altura. Dentro desses muros construí um mundo fantástico com meus cachorros, meus brinquedos, meus playmobils e meu falcon. Até cavalos, galinhas e patos passaram por ali.

Fora desses muros tinha a vila, que se tornou a minha vila. Fiz amigos, aprofundei laços com meus primos-irmãos. Foi maravilhoso.

Na mesma rua em que eu morava ficava a casa dos meus avós. Meu avô, sempre na janela lateral, cuidava o movimento da rua e me transmitia a sensação de que eu estava seguro. Nos fundos da casa dele, eu e meus amigos limpamos um terreno baldio e fizemos um campo de futebol que se tornou o ponto de encontro da gurizada por muitos anos. Em junho, ali era realizada a Festa Junina dos moradores, com uma grande fogueira, bandeirinhas, quintão e casamento na roça.

Na cerca de arame dos fundos da casa de meu avô meu primo me mostrou o que era uma galena. Era fantástico que se pudesse ouvir rádio sem energia, sem pilhas, apenas com um mecanismo simples ligado a uma cerca (tempos depois, meu pai me disse que se criou ouvindo rádio pela galena e isso fazia que viajasse daquele mundo!).

Naquele campinho fiz meu primeiro gol de pelada e briguei pela primeira vez (de muitas). Apanhei, claro, como se dizia que devia ser o resultado da primeira briga pra gente não ficar se achando.

Não muito longe dali ficava a casa dos meus primos, a entrada pelos fundos do Parque Saint Hilaire, a faixa que levava pra cidade. Tomava café na casa das minhas tias, ajudava meus amigos nos temas, nos encontrávamos para ouvir (isso, ouvir em fita cassete) o filme StarWars. Aquele era meu mundo e me sentia bastante seguro ali.

O tempo passou, o campinho de futebol virou uma casa, as festas juninas foram pras escolas, os amigos e primos casaram. Meus avós faleceram. Aquilo tudo que vivemos, no entanto, nunca mais deixa de existir em nosso coração e as amizades tampouco. É da amizade que vou falar numa próxima vez, quando dezenas de estudantes de outra escola foram até a minha para brigar comigo mas meu amigo, ali da vila, me salvou.

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Mas que raios é isso que estão falando?!

Vivemos numa época em que já sabemos que a vida é melhor quando respeitados certos valores: igualdade, compartilhamento, fraternidade, compaixão, respeito, bondade, justiça, tolerância, dentre outros. O que não sabemos ainda é como fazer isso…

Por exemplo: tolerância. Nos nossos dias a palavra é repetitivamente usada para pedir aos conservadores que tolerem as diversidades, mas ela não é usada pelas minorias para tolerar o pensamento conservador. Vamos falar isso de outra forma: o jovem quer que seu avô pense como um jovem.

Outro exemplo: igualdade. É tratar todos iguais? É considerar todos iguais? É exigir que todos pensemos igual, tenhamos valores iguais, ajamos da mesma forma?

Bondade é um exemplo cujo debate tem me assustado um pouco. É cada vez mais ecoado que não existem “pessoas de bem”, no sentido, penso eu, de afirmar que todos somos passíveis de realizar maldades eventuais. É isso mesmo!?

O caminho que escolhemos está num ponto em que os valores historicamente preceituados estão sendo questionados e reformulados. Isso é bom. O que não é boa é a ideia de que os novos valores devem suplantar os anteriores totalmente. Essa ideia de descontinuidade atesta que a lição não foi aprendida, que apenas se mudou de lado, apenas se defende a mesma coisa de antes mas agora pro outro time.

Não há evolução cultural com a ideia de descontinuidade. A cultura humana é cumulativa, com acertos ou com erros. O que hoje é tratado como machismo e valorado como ruim já foi essencial para sobrevivência de certos grupos.

Veja por exemplo a questão da aceitação das relações homoafetivas. O mundo já a enfrentou de diversas formas ao longo da sua história, dependendo do lugar e da época. Na Grécia antiga de Platão – que dá origem a grande parte dos valores ocidentais – as relações entre homens e jovens garotos era tratada com hipocrisia, existindo uma aceitação velada e eventualmente até incentivada, mais ou menos como hoje tratamos o adultério. Então, esse não é um tema atual, nem novo, muito menos decorrente unicamente de valores religiosos ou moralistas. É um debate da própria condição humana, que se resume por motivos ideológicos.

Sabemos, portanto, os valores que nos permitirão viver melhor. Isso está claro. O que não sabemos é como efetivamente cumprir tais valores. Afinal, como se produz igualdade? Como se lida com o machismo, com o feminismo? Como se ensina a tolerar a diversidade?

A humanidade demonstra nesses seus enfrentamentos que, de maneira geral, melhorou tanto quanto a seus ideais quanto à sua prática, pois efetivamente hoje somos menos violentos, menos hipócritas, mais tolerantes. Mas ainda assim nos acusamos diariamente do contrário, como se todo o processo cultural humano fosse um erro imperdoável, como se apenas o que hoje se propõe como bom efetivamente o fosse.

Ora, se fôssemos tão detestáveis assim não teríamos chegado aqui!

A humanidade está num dilema existencial sobre a efetivação de seus valores como sempre esteve. São nossas lideranças que farão diferença, pois a massa humana é manobrável, frágil moralmente e se dispersa. A democracia não é o melhor sistema porque permite que todos tenham a mesma voz, mas porque permite que todos sejam como quiserem e participem se quiserem. A voz que comanda é daqueles mais preparados efetivamente, daqueles que melhor cativam e se impõe. É da nossa condição, não nos iludamos que podemos pular degraus evolutivos. Enquanto alguns de nós querem simplesmente viver sua vida, muitos vivem de debatê-la. O debate é menos importante que viver a vida, mas estão o transformando na própria existência.

A forma de colocar em prática qualquer coisa que se prega é vivê-la, não debatê-la. O debate é formação. A prática é maturidade.

 

Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

Coincidências existem, mas…

Não posso falar todos os detalhes da história que vou contar, porque ela é real e envolve pessoas. Mas passados dez anos e olhando para um monte de outras coisas que, agora, acontecem ao meu redor com outras pessoas, acho pertinente mostrar que coincidências existem. A vida as criam para que as coisas aconteçam como deveriam acontecer… e só a vida vai mostrar os seus porquês.

Eu tive uma estagiária pouco mais velha que começou a me mandar emoticons eróticos pelo antigo MSN. No início tratei aquilo como uma grande brincadeira, até que dias depois comecei a cobrá-la de algumas tarefas importantes que estavam sendo descumpridas e tudo começou a se esclarecer. Certa vez, enquanto visitava um cliente, liguei para o celular dela e perguntei sobre determinada tarefa que não vinha sendo cumprida há semanas. Ordenei:

– Fulana, vai agora lá no Fórum e busca estes documentos, pois estou aqui com o cliente e ele precisa disso imediatamente – falei de forma taxativa, mas sem qualquer alteração.

– Tu não grita comigo assim, não adianta… nada vai mudar.

– O que tá acontecendo?! Tá falando com quem Fulana?!

– Não adianta, não grita comigo, para de me ofender… – ela respondia do outro lado, aos gritos, parecendo fingir estar chorando.

Totalmente surpreso desliguei o telefone. Fiquei ali tentando entender o que estava acontecendo. Liguei para o meu sócio, sem conseguir falar com ele.

Como sempre, no outro dia fui o primeiro a chegar no escritório. Ouvi chegar a secretária e fui falar com ela. Ela me disse o que a Fulana havia narrado sobre a história. Me aconselhou a não falar com a estagiária. Voltei pra minha sala e ouvi, pouco depois, chegar ao escritório a Fulana. Ela e a secretária conversavam e resolvi tentar escutar o que falavam. Fingi ir até a prateleira do corredor buscar um livro que peguei sem olhar, pois meu único foco era a conversa. Elas falavam sobre mim.

Quando meu colega chegou (até então eu o tinha como amigo) disse a ele que precisávamos dispensar imediatamente a Fulana, pois ela não era normal. Sabíamos que ela era impedida de ver o filho por ordem judicial e, agora, eu começava a entender as razões que poderiam ter levado o seu ex-marido a buscar tal medida.

– Nada disso, – disse meu colega – já sei de tudo que está acontecendo.

– Como assim?! – perguntei, tentando entender.

– A Fulana me disse que tu está pressionando para sair com ela há algum tempo e agora, como ela disse que não quer, tu iria demiti-la.

– E tu acredita nessa merda? – Perguntei sem acreditar.

– Claro. Olha o livro que tu tá lendo!

Olhei para aquele livro que peguei na prateleira enquanto tentei ouvir a conversa: “Assédio Sexual e Assédio Moral”.

Era difícil acreditar que tanta coisa acontecia ao mesmo tempo: uma louca fingindo que eu dava em cima dela, meu amigo e sócio desconfiado de mim, minha secretária idem e agora o livro na minha mesa. Narrei para o meu sócio o que tinha acontecido e, mais incrédulo, percebi que ele não acreditava em mim. Sabia que ele tinha seus motivos e isso não vem ao caso agora. Rompemos a sociedade e minha vida mudou bastante.

Resolvi contar essa história porque percebo as coincidências novamente ao meu redor envolvendo outras pessoas, que insistem em dizer que não acreditam em coincidências.

Acredite, elas existem. Talvez não sejam coincidências tão aleatórias assim… a maldade inteligente sempre usa as tuas fragilidades para te atingir. Mas a vida cria sim situações em que parece que somos o que não somos, que fizemos o que não fizemos.

É nessas horas que descobrimos quem é nosso amigo de verdade, em quem podemos confiar. Coincidências existem, mas elas têm propósito.

 

Elitismo

Imagina como era aquela época em que você nascia numa família e isso praticamente assegurava a sua vida em todos os sentidos. Você, filho de pessoas que dispunham de sobrenome e recursos, estudava nas melhores escolas. E isso fazia de você melhor preparado que seus concorrentes. Você tinha tempo para se dedicar aos seus intentos porque sua condição financeira e familiar permitiam isso, ao contrário de outros menos privilegiados que precisavam acumular trabalho com estudo e tudo mais. Mesmo com sua qualificação adquirida e sua disponibilidade de tempo e recursos você não é cobrado pelo êxito – quem ousaria fazê-lo?! – e embora sua função seja considerada nobre por indispensável aos interesses da coletividade, na prática se você não consegue impor qualquer nobreza ao seu trabalho e tampouco atender aos interesses da coletividade isso não faria qualquer diferença para você. Você defenderia seus direitos com a gana de quem defende sua vida e justificaria sua defesa dizendo que todos deveriam ter acesso ao que você tem… e que não é culpa sua se os demais não lutam por isso.

Esse tempo, que pode parecer remoto, nunca deixou de existir.

Mudou-se o critério de ingresso do mundo dos privilégios… mas ele está aí, sempre presente, sempre sendo defendido com argumentos que desfocam a realidade.

O Estado que conseguirá cumprir suas funções é o que tratar a todos com igualdade. Todos, inclusive os seus.

A função de servidor público é uma função nobre, essencial, que merece ser muito bem remunerada. Isso é inegável. Não se pode, contudo, tratar o servidor de forma diversa dos demais trabalhadores em nenhum aspecto. Nenhum. Isso por si é um privilégio, resquício da monarquia, da realeza, da aristocracia.

E mais absurdo ainda é ter servidores que são tratados melhor do que os outros. Os benefícios que uma função aufere precisam ser diretamente relacionados à importância daquela função para as atribuições estatais. Se é dever precípuo do Estado oferecer saúde, educação e segurança aos seus, obviamente os cargos e funções públicas relativas a tal devem ser os melhor remunerados e mais prestigiados. É assim que se efetiva a função estatal a partir dos seus representantes diretos, que são os servidores.

E aí se cria um debate difícil, passional… porque há diversos servidores que desempenham otimamente a sua nobre função e não recebem o que lhes seria justo pelo esforço, pela dedicação e pela função. E há outros que não deveriam jamais estar nos quadros estatais. E todos estão no mesmo saco, na mesma foto, no mesmo setor. E não há absolutamente nada que se possa fazer a respeito, porque se criaram regras protetivas que acabam por proteger quem menos merece.

E essa coisa de se tratar tão diferente as carreiras públicas e privadas?! É tão difícil perceber que isso é elitismo, resquício da monarquia ou seja lá a origem de tais privilégios!

Se existe uma ideia de que as mais elevadas carreiras estatais precisam pagar tão bem ou melhor que as da iniciativa privada, isso por si destoa dos requisitos básicos para se ingressar nos quadros estatais. Seja porque é normal e necessários que a sociedade civil (iniciativa privada) seja mais rica que o Estado – afinal é quem o sustenta – e portanto o mais rico normalmente pagará mais, seja porque a função pública não pode ser almejada pela remuneração ou por qualquer outro privilégio, por mais que seja nobre. É óbvio que não estou defendendo baixas remunerações aos servidores. Muito pelo contrário: quero que todos eles recebam uma remuneração digna, que lhes dê uma vida merecidamente confortável. E quero que eles sejam os primeiros a justificarem isso.

É essa mentalidade que inovará. E a manutenção do que aí está é reacionária, é retrógrada, é ineficaz, é ridícula… mas tratada pelos partidos que não sabem melhorar o mundo como necessária e, por incrível que pareça, seus opositores é que são chamados de reacionários e irracionais.

O elitismo no Brasil é tão enraizado que a lei e a própria Constituição o asseguram. É fácil de perceber. Está em nossas veias, em nossa cultura.

Toda vez que vejo manifestações apaixonadas contra o machismo, o racismo, a religiosidade, etc., me pergunto como seríamos se enfrentássemos o elitismo com a mesma intensidade.

Acho que teríamos muito mais igualdade social.

Dia Internacional da Paz

Que mundo, não é?! Precisamos de um dia para lembrarmos de valorizar as mulheres, os negros, os médicos, as secretárias, os estudantes, os professores… e até a paz!

No caso do 21 de setembro – que até parece o 1º de janeiro, mas este é Dia Mundial da Paz e aquele Dia Internacional – chama a atenção que com experiência civilizatória de mais de 15.000 anos ainda precisemos lembrar que vale a pena viver em paz.

A paz não é uma construção fácil, sabemos. Depende, para existir e ser mantida, de uma série de fatores que demandam muito esforço pessoal e social. Porque toda pessoa que se sente agredida se legitima a revidar a agressão, normalmente com outra agressão. E o enfrentamento sobre a primeira agressão e a segunda, suas razões, a intensidade, a forma, tudo é fator de desequilíbrio da paz e acirramento da agressividade. A injustiça é o fermento e a agressividade é o forno da discórdia, que são os primeiros destruidores da paz.

Creio que o mais maduro é que resolve os problemas. Quanto mais centrada, mais equilibrada, mais interessada for uma das partes, mais fácil de ser resolvido será o problema. Dois desequilibrados quebram o pau com certeza. Dois equilibrados, ainda que se sentindo injustiçados, contêm-se e buscam o diálogo. Uma sociedade violenta como a nossa resulta dessa falta de maturidade, de civilidade. E não é que não existam os maduros e centrados entre nós… não é isso. É que no confronto violento entre o equilibrado e o desequilibrado, este costuma levar vantagem. Aquele hesita, este não. Aquele quer algo além do que este quer. Eis uma constatação civilizatória importante: sem um mediador eficiente, o desequilibrado e mais violento domina os demais.

Essa a primeira função do Estado. A mais importante, a única que não pode ser transferida, embora possa ser compartilhada. Dar segurança e promover a paz social é a base civilizatória. Nada há antes disso que não seja a luta pela aquisição dos interesses individuais.

Toda vez que vemos quem desafia a paz social com depredação, agressão, violência, imposição dos seus interesses, estamos vendo uma postura anti-civilizatória que, evidentemente, coloca em risco a paz. Contra o violento adianta o diálogo?

Na condição histórica em que nos encontramos não interessam as ideologias nem as justificativas subjacentes: se o exercício de tais posturas atenta contra a paz, não serve. Porque depois que se desequilibra a estabilidade do sistema social, será a força que irá se impor. E o uso da força é comprovado historicamente como cheio de efeitos colaterais.

Veja o assaltante. Ele impõe-se frente ao proprietário de algo que lhe interessa usando da violência ou grave ameaça. A lei que proíbe tal conduta falhou em conter sua vontade. A partir do momento em que ele age com violência autorizou, mesmo que inconscientemente, que se lhe contenham com a violência. Pode ser contido por sua vítima, pelo Estado, pela sociedade. Para o ser humano racional é óbvio que o risco de ser violentado não vale o permitir-se violentar. Mas…

Alguns, menos conscientes, dirão que não é justo conter um assaltante que visa um bem material tirando-lhe a vida, por exemplo. Também acho, em tese. Mas constato que no momento em que ele ameaçou a vida de alguém, permitiu deduzir-se que é violento e que, para ser contido, pode ferir. Isso é óbvio, mas ainda precisa ser dito.

A humanidade é isso, a mistura dos mais e menos humanos. Quando desprezamos as instituições que existem para promover a estabilidade social, estamos fomentando o que nos retira a humanidade. Por mais nobre que achemos ser a nossa causa.

Quem não aprendeu a viver com a civilização atenta contra ela. E, nessa luta, é o Estado que media e impõe. A paz é, por assim dizer, o primeiro ideal estatal e o principal elemento da base social.

Sejamos nós, nesse mundo tão conflitante, a paz que desejamos, como nos ensinou Gandhi, o homem que representa a luta sem desrespeito à paz.

 

O governo do melhor discurso

É comum vermos opiniões que ridicularizam a classe política, apontando as mais variadas críticas aos nossos representantes e aos pretendentes a cargos eletivos. Vai-se desde a cobrança de que todos tenham curso superior até a ideia de que deveriam ser proporcionais a quantidade de candidatos e vagas à quantidade de negros, mulheres, deficientes e outras classificações. Com todo respeito às opiniões divergentes, tudo isso é antidemocrático. 

Exigir curso superior, por exemplo. É rescaldo do nosso elitismo, fruto de uma construção idealizada e infundada de que a democracia representantiva é técnica. No outro extremo, a ideia de que devemos ter exatamente o número de vagas e candidatos das infindáveis divisões que são possíveis no tecido social. Imagine se, por termos 1.000.000 de advogados no país, criássemos uma regra que obriga a ter pelo menos um representante da OAB em cada órgão eletivo.

A democracia, como governo de representantes e representados, não é formada pelo rigorismo da técnica nem pela exata proporcionalidade. Democracia é feita pelo resultado eletivo do melhor discurso em concordância ao cumprimento das obrigações constiucionais e legais.

Vejamos o PT, protagonista dos maiores escândalos de corrupção da história republicana. Conseguiu se reeleger e consegue expressivas manifestações de apoio ao seu projeto ideológico. E isso é democrático. Ao menos do ponto de vista eleitoral e representativo.

A discussão pertinente é justamente essa: basta, para legitimar a democracia, que o governo tenha sido eleito ou precisamos de uma adequação mínima ao projeto e ao ideal proposto em campanha e exigido pelas normas?

O Brasil vive um momento frágil politicamente, resultado de batalhas ideológicas que se travam muito mais no plano discursivo que técnico. O acirramento do debate deveria enfrentar a efetividade do que se propôs e do que se concretizou em cada governo, valorizando conquistas e reprimindo abusos e ilegalidades, ponderando o que cada governo contribuiu para o bem e para o mal. Mas não… O debate é sempre meramente político-ideológico, estilo terra arrasada, e isso demonstra a imaturidade da nossa política-democrática.

Felizmente as instituições (leia-se nossos representantes em cada uma delas) estão consguindo se impor frente ao apelo demagógico, mesmo com todas as suas fragilidades.

Quiçá seja a demonstração de que nossa democracia larga a predominância da via discursiva demagogica e passa a efetivar e fortalecer quem a sustenta, que é o voto com respaldo institucional.

Segurança x Balela

A desigualdade social diminuiu. A população civil foi desarmada. O uso de entorpecentes foi flexibilizado. A educação superior chegou a todas as classes sociais. O trânsito se tornou mais rigoroso. E nada disso jamais participou de qualquer redução nos índices de criminalidade. Por quê?

Seria porque desgualdade social, ao contrário do que se pregava, não é justificativa para a falta de transferência e de exigência de valores?

Seria porque o desarmamento só atingiu quem respeita a lei e serviu para aumentar a sensação de poder dos que vivem de impor medo à cidadania?

Seria porque a educação superior desprovida de qualidade e sem o devido vínculo vocacional serve apenas para vender diplomas e criar mão-de-obra barata?

Seria porque, no trânsito, regras rigorosas sem fiscalização e punição servem, quando muito, para capitalizar cofres públicos?

Nós brasileiros costumamos responsabilizar os políticos pelas nossas mazelas, muitas efetivamente resultantes da sua incompetência. Mas quando se fala de segurança pública, o caminho é bem mais longo e complexo.

Para existir um criminoso falhou, primeiro, a família. Depois dela a escola. Depois ainda a inserção no mercado de trabalho, que é ditada pela política econômica. Falhou também os modelos assistencialistas da sociedade civil, sejam religiosos, sejam culturais. Depois falhou o policiamento ostensivo e a inteligência policial. Falhou o sistema judicial. Falhou o sistema prisional. É complexo, dinâmico, temporal. Por isso, precisamos de regras e valores claros e definidos, fáceis de serem compreendidos e representados pela cultura social.

Quando a polícia age com rigor e, até, com violência contra deliquentes precisa ser apoiada. Critiquem-na quando ultrapassar os limites com inocentes. Assim estaremos dizendo de forma simbólica e direta a todos os delinquentes que esse é o resultado socialmente aceito. Quando o judiciário receber um delinquente trate-o como tal, não como um potencial injustiçado social e processual. 

As teses, deixem-nas com os advogados, com os filósofos, com os sociológos.  Quem tem de agir deve fazê-lo.

Nossa crise de segurança pública no Rio Grande do Sul é tão grande que vejo pessoas que viveram a vida sustentando o mundo do crime com compras e aquisições ilegais refletindo finalmente sobre sua conduta. Só há o caos quando a sociedade, como um todo, se permite sucumbir.

Sucumbimos à balela marxista. Sucumbimos à idiotia garantista. Nos curvamos a teorias que nunca deram certo em parte alguma do mundo sobre educação, economia, sociedade, valores. Estamos quebrados enquanto Estado e enquanto sociedade porque investimos no que não pode nos dar retorno e o que pode – a atividade produtiva, a educação vocacionada,  o serviço público com metas – é tratado como lixo, idiotia, pelos lixos idiotas que cagam sua ideologia pela boca.

Não há mais o que ser dito. Passou da hora de cada um fazer a sua parte para acabar com o predomínio dos criminosos sobre a sociedade. Faça o máximo que puder, não se renda, não se acomode… porque a água já bateu no queixo.

Leituras que eu li

Sou um apaixonado pela leitura. Embarcar no mundo de alguém, conhecer seus sonhos, medos, reflexões de uma outra vida, de outros corações. Costumo dizer que os leitores reconhecem quem lê. A leitura é, para a intelectualidade, como o tempero para a culinária. Ler dá mais técnica e sensibilidade ao ser.

Por causa disso, vou compartilhar aqui algumas das minhas melhores leituras. Não apenas indicando esse ou aquele livro, que é algo que se consegue em qualquer catálogo, mas dizendo o que mudou em mim depois de apreciar cada uma das obras sugeridas.

E pra começar, trago quatro livros que valem muito a leitura:
O Monge e o Executivo eu li há mais de dez anos, quando os conceitos e as habilidades sobre liderança se tornaram necessidades. Essa obra baliza um momento histórico onde ficou bastante claro a distinção de chefe e líder, com ideias que hoje se tornaram efetivas no mundo corporativo. É leitura básica pra qualquer um que trabalha e, principalmente, gerencia pessoas. 

O Caçador de Pipas é um dos dez melhores livros que já li. Em 2007, passava por um momento de grandes mudanças na minha vida, pessoal e profissionalmente. Ler sobre amizade e traição, sobre a lealdade e a deslealdade que podem estar a qualquer instante nos visitando, fez muito significado. Foi um dos livros que me fizeram chorar e me repensar. Se passa no Afeganistão, o que, por si, já é interessante pela diversidade cultural envolvida. Você provavelmente vai devorar as 360 páginas em alguns poucos dias.

Eckhart Tolle é o pseudônimo de um alemão que se formou em Londres e mora no Canadá. Em certo momento da vida, ele foi dominado pela depressão e fugiu para o oriente em busca de respostas que não conseguia na lida científica ocidental. O resultado disso é a criação de uma obra grandiosa, que ocidentaliza muitos conceitos filosóficos e religiosos orientais, especialmente budistas, tornando-os mais acessíveis e até críveis para nós. Também na lista dos dez melhores que li, este livro representou o upgrade dos meus conceitos religiosos.

Por indicação da professora Lisi Szeckir, da ADVB de Porto Alegre, conheci esta obra da brasileira Dulce Magalhães, que é Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Colúmbia. Um livro de apenas 115 páginas, mas com uma profundidade ímpar na reflexão do quanto a disciplina e o autoconhecimento nos permitem melhorar e sentir felicidade. Foi o primeiro livro que quis reler na vida.

Se você já leu algum desses, me diz como foi a experiência.  Até a próxima!

O preço das coisas

Quase todos nós, quando temos de optar entre dois produtos iguais, compramos o mais barato, certo!?

Por que pagar mais por um produto da loja do shopping se lá no centro é mais barato?

Por que pagar mais no mercado da nossa rua se lá no Walmart é mais barato?

Por que pagar mais na loja física se pela internet é mais barato?

As respostas a estas perguntas podem vir em vários tons. A do shopping, por exemplo. Shopping não é minha praia. Eu dificilmente pagaria mais por algo que está à venda lá. Mas o shopping paga por segurança, ar condicionado, iluminação e uma penca de coisas evidentes que oferece. É impossível oferecer tudo aquilo sem repassar ao preço, e isso parece bastante justo. Pagar por conforto é bom para quem pode.

Agora olha além destes itens “materiais” que listei. O shopping tá cheio de gente trabalhando lá… é um lugar que emprega muitas pessoas, com perfis pessoais e sociais absolutamente distintos. O cara da segurança, a moça da loja de cintos, o técnico em informática, o prestador de consultoria empresarial. É realmente muita gente. Se você olhar sob o aspecto social envolvido, o shopping tem um importante valor até naquilo que podemos chamar de distribuição de renda, pois a sua face capitalista emprega, paga imposto e gera riqueza.

E o mercadinho do bairro?! Você acha que aquele microempreendedor tem alguma chance de lhe oferecer um produto por menos preço que a grande rede?! É impossível. Só se ele encontrar um produto similar, produzido por uma pequena empresa. Mas aí você vai desconfiar da marca, não vai?

Então saiba que pagar mais pelo litro do leite no mercadinho do bairro significa valorizar o esforço daquele cara ali. E pagar menos pelo mesmo produto na grande rede é oferecer centenas de vagas de emprego e sustentar a riqueza já estabelecida. São opções legítimas que, no meu caso, não me geram qualquer dúvida. Adoro mercados menores, menos cheios, com atendimento mais pessoal. Se o mercado do bairro me oferecer algo que posso pagar um pouco a mais mas junto vier um bom atendimento, opto tranquilamente pelo mercadinho.

O preço que pagamos tem a ver com incontáveis itens. Vamos sempre encontrar um dentista, uma psicóloga, uma escola, um sanduíche mais baratos aqui ou lá. Olhemos com os olhos de quem enxerga além do primeiro contato físico, além do mero produto. Pagar significa apenas gastar pra uns, mas pode significar investir num mundo melhor se fizermos isso usando toda a nossa capacidade analítica e depositarmos um tanto de bondade e investimento pessoal.

Na minha visão de mundo, gostaria que os pequenos se multiplicassem. Eles representam esforços pessoais que admiro e, ao mesmo tempo, servem de exemplo e estímulo a outros pequenos. Em termos de números, o pequeno empreendedor e a pequena empresa são tão importantes ao país que justificam só por isso investirmos mais da nossa atenção, tempo e até do nosso dinheiro. Cidades como Caxias do Sul, Santa Maria e até mesmo a capital paulista nasceram dessa dinâmica viva de trabalhar no que é seu e oferecer algo diferente e bom ao cliente e à sociedade.

Lembra sempre que empresas são conjunções de esforços. Escolha as que oferecem o algo mais com que você se identifica. Pague por isso.