Dia da Médica

Homenagem ao Dia do Médico e a minha mãe.

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Hoje é dia de São Lucas, o evangelista grego que era médico e converteu-se ao cristianismo para seguir o também convertido Paulo de Tarso, tendo vivido onde hoje é a Síria. A Síria essa que está em guerra interna há cinco anos e já matou mais de 200.000 dos seus. Essa que teve os seus Capacetes Brancos (White Helmets) concorrendo ao Nobel da Paz pelo esforço de salvar mulheres e crianças dos constantes bombardeios russos e do Estado Islâmico. Essa que deu início ao maior êxodo intercontinental moderno. Quanta coisa interligada nesse mundo.

Por causa de São Lucas hoje se comemora o Dia do Médico.

E pra mim é o Dia da Médica. Minha mãe é médica.

Minha mãe formou-se na antiga Universidade Católica de Porto Alegre, atual FFFCMPA, em 1976. Fui na sua formatura. Para se graduar em profissão de tamanha grandeza, numa escola de tamanha grandeza, ao mesmo tempo em que cuidava da família, contou com o apoio constante do meu pai e dos seus pais. Formar-se médico exigia uma disponibilidade de tempo que a impedia de trabalhar num emprego regular. Por isso, vendia cosméticos e outras coisas nas horas vagas. Enquanto isso, meu pai sustentava a casa, meus avós cuidavam de mim.

Graduada e especializada em pediatria, iniciou sua vida profissional na rede pública em Viamão, Grande Porto Alegre. Desde sempre atendeu nos mais variados postos de saúde da cidade que, hoje, conta com mais de 200.000 habitantes. A remuneração muito aquém do que mereceria nos deu uma boa vida, mas sem luxo, sem coisas que a maioria dos seus colegas que trabalhavam na iniciativa privada dispunham. Nunca a vi hesitar. Era a sua vocação atender a população.

Diversas dificuldades a vi enfrentar. Incontáveis. Provavelmente já esqueci muitas das relevantes. Sei que ela sentiu demasiadamente a perda de um paciente quando atendia no Hospital Presidente Vargas, caso que ela sempre imputou à falta de comprometimento dos gestores e atendentes. Uma das que mais me tocaram foi quando a acusaram de prescrever medicação equivocada a um paciente, numa receita evidentemente falsa. Era um movimento político para atingi-la ou para ocultar algum tipo de atividade obscura naquele posto de saúde. Médicos passam por isso também. Muda governo e, de repente, um posto de saúde com uma dúzia de médicos é comandado por um técnico de enfermagem partidário. São coisas do Brasil, quem trabalha na rede pública conhece bem.

Sempre admirei a humildade da minha mãe. Cansei de ver pessoas simples chegarem a sua casa e a encontrarem cuidando do jardim com suas roupas simples e perguntarem pra ela: “a Dra. se encontra?”. Minha mãe nunca usou sua profissão como crachá, nem como pedestal.

Aliás, falar de pessoas simples é falar da imensa maioria dos seus pacientes. Morei e cresci em vilas. Meus amigos moravam em vilas. Agradeço isso também a ela, que me trouxe com sua profissão para o mundo real, o mundo das pessoas e o mundo de quem sem importa.

Lembro que, todos os meses, eu ia ao INSS levar a sua produção de atendimento. Era um número limitado de fichas, algo como 150. Ela só podia atender 150 pessoas pelo INSS no seu consultório, por mês. Fazia isso em poucos dias. Depois de atingir esse limite de atendimento, acumulavam as fichas para o outro mês… ou seja, ela recebe parcelado há muito, muito tempo. E esses valores eram ridículos. Ridículos! Algo como R$ 2,00 por atendimento.

Lé por 1986 ela resolveu se tornar homeopata, época em que se menosprezava a homeopatia nos círculos convencionais. Me curei da bronquite-asmática com a homeopatia. Ela conseguiu também uma cura inovadora, publicada em revistas médicas, graças à homeopatia.

Minha mãe é a referência que tenho da profissão médica: atenciosa, carinhosa, humilde, eficiente com os meios que dispõe, insatisfeita com o que não cura, insubordinada aos que não se interessam. Não a imagino sendo qualquer outra coisa na vida além de médica. E minha mãe.

Parabéns a todos os médicos vocacionados como ela!

ps.: São Lucas é o nome da vila/bairro onde cresci e até hoje mora minha mãe.