Negacionismo

A negação da realidade não é um privilégio dos nossos tempos. Infelizmente (ou felizmente). Também não é algo que se limite a um grupo ou a uma região, tampouco a um contexto social ou político. Infelizmente.

Negar a realidade é uma consequência da imaturidade. É uma disfunção de forças entre o que se vê (ou se entende) e o que se gostaria de ver (ou de entender). Num mundo onde muito do que se acredita não é paupável e decorre unicamente de palavras e discursos ou de afirmações de terceiros, a realidade torna-se efetivamente difícil de ser compreendida.

Imagine que um cientista diga que usar máscaras é potencialmente bom contra a covid 19 e outro diga que é inócuo, mas prejudicial por outros motivos. Cada um apresenta sua tese com fundamentos técnicos que nós, inaptos, não podemos valorar adequadamente. Em quem acreditar? Provavelmente se escolherá uma das duas soluções: (1) a tese com maior número de adeptos, o que tornaria a ciência uma espécie de sufrágio, ou (2) a que nos confortar melhor. Veja que aqui também, como em quase tudo a nossa volta, há uma opção entre o pessoal e o social, entre melhorar-se pessoalmente para entender e assimilar o que os outros entendem.

Quando o Renascimento trouxe a ideia de que a razão (e a ciência) resolveriam os problemas da humanidade, deixou de considerar que a ciência (por ser humana) tem limites humanos. Numa sociedade orgulhosa, a ciência se envaidecerá. Numa sociedade avarenta ela se venderá. Numa sociedade ideologizada se ideologizará. E por aí vai… A razão é insuficiente para a humanidade, está claro. Ela não é absoluta como se gostaria e isso muda a sua utilidade. Em que pese proporcionar melhoria significativa no aspecto material, ela depende, para produzir efeitos benéficos internamente em cada um de nós, de valores morais e de estabilidade emocional. É uma das bases deste tripé.

Há quem acredite que o negacionismo seja um reflexo da falta de educação. Outros da falta de estrutura emocional resultante da fragilidade familiar dos nossos tempos. Alguns pensam que negacionistas são optantes de uma corrente.

Negacionistas são imaturos, já o afirmamos. Contudo a imaturidade não é um elemento absoluto e inflexível. Podemos ser maduros emocionalmente e imaturos musicalmente e, diante disso, negar a genialidade de Mozart, simplesmente não gostar de música erudita. É certo? Pra mim não. E pra você?

Violência e amadurecimento

Como são fracos os que precisam da força.

Refletimos cedo sobre o papel da violência na manutenção da vida em nosso planeta. É inegável que, sem a violência, a vida seria diferente por aqui. Leões, tubarões, ursos e louva-deus seriam herbívoros ou não existiriam. A seleção natural teria outro resultado.

Nascemos violentos ou não violentos? É uma resposta complexa e penso, embora desejasse o contrário, que é errônea a certeza que somos não violentos ao nascer. A certeza que tenho é que não nascemos preparados para o agir violento. Os genitores contudo, da espécie que forem, precisaram da violência para nos proteger e nos alimentar e isso, por si, demonstra a dificuldade da resposta.

A reflexão que proponho tem como menos relevante a nossa característica de nascimento e como mais relevante o que o processo de evolução da humanidade nos permite vivenciar (fica claro que não sou dos que acha que a humanidade não evolui e lamento muito que haja setores consideráveis da ciência em nossos dias que defendam isso).

Grandes nomes da humanidade se transformaram em ícones por sua forma de lidar com o poder e, consequentemente, com os outros seres. Júlio César, Zumbi dos Palmares e Napoleão através do uso da violência. Jesus Cristo, Buda e Gandhi através da não violência. Para estes últimos, o poder a ser buscado é o de elaboração pessoal e, por isso, não é necessária a violência para tornar-se poderoso e mudar o mundo. Essa simples elaboração atesta diversos valores que devem ser enfrentados para a reflexão do tema.

O uso da violência é sempre mais imperativo quando não sabemos nos relacionar conosco e com nosso meio. Uns dirão: mas e quando o meio é violento contigo, vais te submeter? Bem, Jesus Cristo se submeteu. E também se insurgiu. A sua insubmissão, contudo, não primou pela agressão ao agressor. Buscou mostrar que a elaboração pessoal e a reformulação no trato aos outros, especialmente com os que nos agridem (“se ofenderem tua face esquerda, oferece a direita”), é a única solução efetiva para o problema. Buda, Gandhi, Krishna, Zoroastro e muitos outros foram pelo mesmo caminho.

Há, contudo, um limite que admito dificílimo ao enfrentamento: diz respeito a tolerar a violência contra quem amamos. Você se sacrificar (como fez Jesus e Gandhi) por uma causa é muito mais fácil do que permitir o sacrifício dos seus filhos, seus pais ou qualquer outro ente amado.

Chico Xavier ensinou que a violência é o fato de filtragem do nosso plano existencial. Chegará um ponto da evolução humana em que os violentos serão deserdados, pois impedirão o prosseguimento do processo evolutivo. Contra o violento que não busca se corrigir pouco adianta a melhor das pessoas, pois ele responderá com uma imposição física ante a imposição moral e espiritual.

Então afirmo que a violência é um fator de distinção entre os seres humanos que querem melhorarem-se e os que não querem. No nosso atual momento, só poderia ser aceita em caso de legítima defesa e em nenhum outro mais, muito menos uma violência institucionalizada ou recomendada. Não estou dizendo com isso que o pacifismo como ideologia nos basta… infelizmente não basta, pois se assumirmos essa postura, seremos suplantados pelos violentos imorais. Ainda precisamos administrar doses defensivas de violência sempre que necessário, especialmente para nos defendermos da injustiça (inclusive da estatal ou da institucional) bem como para defender nossos entes queridos. Devemos fazer isso única e exclusivamente neste caso, para prosseguirmos nosso aprimoramento e preservarmos nosso planeta.

Por fim, reflita que isso significa muita coisa, dentre as quais que não podemos tolerar infanticídios indígenas, penas de morte, abortos por mero interesse e quaisquer outros atos de violência.

Punir educa

Nenhuma pessoa sã conectada com o Século XXI tem dúvida de que é a educação a responsável pela evolução, pacificação e realização da humanidade. Na verdade o que se debate é o que constitui educação, do que é feita, como torná-la eficaz.

Apenas no século passado a educação tornou-se pública e instituída como direito fundamental e, decorrente disso, a estrutura estatal dos diversos países, cada um a sua maneira, passou a proporcioná-la. Antes disso, educar era um privilégio.

Educadores do Século XX identificaram o vínculo necessário entre educação e afeto, estabelecendo bases pedagógicas hoje consagradas. Segundo acreditamos, educar imprescinde de vínculos entre educador e educandos, principalmente na primeira infância, seja na educação formal ou informal.

Nos últimos anos, contudo, mistificou-se o papel da educação, dando ao professor um caráter quase mágico de transformar a humanidade. É verdade… a disseminação da educação mudou o mundo em pouco tempo, de uma forma que jamais vimos, alterando bases sociais, políticas, científicas e individuais. Contudo não cabe ao professor estabelecer valores que não são replicados em casa, na família. São pais e mães – ou aqueles que desempenham este papel – os primeiros e principais educadores do ser humano, os responsáveis por transmitir os valores interiorizados de respeito, tolerância, pacificidade, coragem, determinação e todos mais necessários a uma vida plena e socialmente comprometida. A gente que recebe educação formal plena mas carece de educação familiar sobre valores é essa que usa toda uma gama de conhecimentos para subtrair os resultados do esforço alheio, às vezes à custa de outras vidas inclusive.

Como escrito acima, nos últimos anos fomos seduzidos por teorias que transferiram da família para o (Estado) educador a responsabilidade de educar, e isso simplesmente é ridículo. O educador (Estado) participa sim da educação de forma fundamental, mas os valores necessário para se usufruir devidamente da educação formal são precedidos de um esforço familiar cada vez menos presente.

Outra ideia errônea decorrente desta visão retirou dos jovens o dever de trabalho, assunto para outro momento, bem como a possibilidade de sofrer punição. Claro que não estamos falando de palmatórias, de castigos físicos ou qualquer outra violência. Punir virou estigma, palavrão. E, por mais que doa a quem discorda, punir educa e é indispensável, principalmente na educação com afeto, pois uma pessoa que ama punindo outra amada que agiu muito mal está sim cuidando, fortalecendo e prevenindo.

Aqui o papel do Estado na educação ultrapassa os limites do que hoje está estabelecido, ao menos em nosso país. A impunidade deseducou nossa gente e o retorno das punições estatais devidamente medidas e processadas irá nos curar dessa absurda e gigantesca crise de valores que nos torna um dos países mais violentos e menos educados da Terra.

Escravidão – Volume I

Terminei de ler recentemente mais esse livro do jornalista Laurentino Gomes. É uma majestosa leitura, complexa e bastante completa. Aborda precisamente a escravidão africana, muito antes do europeu transformá-la em um negócio e muito antes do debate ideológico deformar o trato que se deve dar ao tema.

O autor traz elementos históricos que demonstram a responsabilidade de cada um dos envolvidos na escravidão do período colonial: o europeu, que industrializou e lucrou com um sistema milenar integrante da cultura africana; o africano, que tornou-se operador de um sistema industrial europeu de produção de mão-de-obra cativa; a Igreja, que usou, referendou e permitiu ideologicamente esse holocausto.

Há uma reflexão que entendo necessária sobre o tema: a escravidão é um fato presente em toda história humana, sem privilegiar praticamente nenhum povo ou região. Ameríndios, orientais, europeus, nórdicos, africanos… todos conviveram com a escravidão.

Ao contrário, contudo, do que propõe a forte narrativa dos nossos tempos, os brancos tiveram um papel diferenciado ante o escravismo além do de transformarem a cultura escravista africana num negócio lucrativo por 400 anos: os brancos foram os primeiros a impor ideologicamente, legalmente e, consequentemente, culturalmente o fim do escravismo. Foi a Inglaterra, com sua Revolução Industrial, quem iniciou um debate que resultou no fim da escravatura, seja a africana, seja a que for.

Hoje o debate se acalora nas consequências e nas compensações sociais. Vamos adiante!

MMXX

Vamos fazer uma retrospectiva do que acontecia no início da segunda década de cada um dos últimos cinco séculos da humanidade!

O Século XVI foi marcado pelas grandes navegações e a ascensão dos países da península ibérica, o que participou para o movimento imperialista que elevou o Ocidente no cenário mundial. Um fato curioso é que este século começou ainda com o calendário Juliano, mas terminou com o nosso usual calendário Gregoriano. 1520 também foi um ano bissexto. Neste ano, Fernão de Magalhães alcançou o fim austral do continente americano, dando nome ao estreito que descobriu e transpôs, que liga a América à Antártica. Ele morreu neste mesmo ano, em data próxima do falecimento do descobridor oficial do Brasil, Pedro Álvares Cabral. Além de ser o século em que o Brasil foi descoberto pelos europeus, foi neste mesmo período que nossas primeiras cidades foram fundadas.

O Século XVII marca a transição da era Moderna à Contemporânea, com o aprimoramento do método científico (cartesiano). No ano de 1620 também tivemos um ano bissexto, mas dessa vez no calendário Gregoriano. A primeira colônia britânica na América do Norte é fundada, com a chegada do navio Mayflower e seus peregrinos. No início do século os holandeses criam a Companhia das Índias Orientais e, décadas depois, invadem a Bahia e Pernambuco. A Europa está em meio à Guerra dos Trinta Anos. O Brasil é governado pela Espanha, em razão da União Ibérica. Uma mudança cultural de escala mundial está em trâmite e uma série de revoltas acontecem no Brasil. É o século em que o tráfico negreiro e o açúcar se estabelecem como principais negócios das economias ocidentais.

O Século XVIII é o primeiro da Era Contemporânea e marca o início da Idades das Luzes, tendo ao seu final a Revolução Francesa e a propagação dos valores de igualdade, fraternidade e liberdade. Neste mesmo século ocorreu a Revolução Industrial na Inglaterra. No Brasil estão estabelecidas como principais cidades Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Na metade do século a coroa portuguesa proíbe a escravidão indígena.

O Século XIX foi marcado pelo declínio de grandes impérios: China, Mongólia, França, Espanha e Sacro Império Romano-Germânico. As guerras napoleônicas marcam a Europa. Marx está na produção da sua teoria sobre a luta de classes e nasce seu parceiro Friedrich Engels. O Brasil ainda é uma colônia em 1820, sustentando o império português e todas as suas colônias com a renda do açúcar e mineração. É novamente um ano bissexto.

O Século XX é o século das Grandes Guerras e da Guerra Fria, que promove uma revolução cultural, política e tecnológica. Em 1920 a Europa está se reconstruindo após o término da Primeira Guerra Mundial e a Rússia já tem implantada a Revolução Bolchevique e está em vias de formar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No campo artístico o modernismo influencia a pintura, a poesia, a escultura, a música e a cultura em geral. Pela primeira vez atletas brasileiros competem nas Olimpíadas. Nascem neste ano João Cabral de Melo Neto e a Clarice Linspector.

Este resumo ajuda-nos a perceber que as duas primeiras décadas de cada século são marcadas por fatos relevantes que repercutem no final do século. Vivemos uma importante transição cultural, marcada pela liquidez dos valores (Baumann) e transitoriedade das referências existenciais. O Século XXI está se formando sem paradigmas de grande escala, onde cada sociedade e cada cidadão é livre para adequar-se ao que lhe convém, o que poderia ser ótimo se nossa maturidade fosse proporcional à nossa liberdade. O resultado dessa dinâmica é o aprisionamento mental e cultural pelos interventores midiáticos.

Aos mestres, meu carinho

Todos nós já recebemos um post informando que, no Japão, apenas os professores não precisam se curvar em frente ao Imperador e que, também lá, se respeitam os velhos e seus cabelos brancos.

Ouso afirmar que já houve um tempo em que ser velho e ser professor eram quase a mesma coisa. Ambos tinham (e tem) o dever de instruir os mais novos, transmitindo conhecimento e ajudando a encontrar soluções.

A profissão de professor é tratada de forma diversa nas mais variadas culturas, mas sempre com respeito e, quase sempre, com veneração. Aqui no Brasil é diferente, especialmente com o professor da rede pública. Ele ganha em média vinte vezes menos que um magistrado, que um auditor, que um delegado… porque, quando desconstruímos os Impérios e nos tornamos uma República, o Estado se preocupou em atender a elite aristocrática e dar a seus filhos funções que lhes mantivessem o status e o padrão de vida. Já naquela época víamos os cargos ligados ao poder estatal como os mais importantes.

A verdade é que o trato aos professores revela quem somos. Uma sociedade pode ser facilmente avaliada pela forma com que trata seus mestres. Uma pessoa, uma família, um município idem. Vamos mudar nosso país quando diminuirmos o custo estatal de certas funções para melhor valorizarmos nossos professores.

Essa desvalorização da função (infelizmente) trouxe uma série de desinteressados para o magistério, gente que não é vocacionada (palavra hoje odiada pela classe) e que entrou na profissão por falta de alternativa. Esses costumam ser os que transformam a profissão em palanque, em palco ou em divã. Mas essa desvalorização também abrilhantou aqueles que são os professores vocacionados, que honram a profissão e moram nas lembranças amorosas das pessoas.

A estes deixo, no seu dia, meu profundo e sincero agradecimento. Obrigado por suportarem a baixa remuneração. Obrigado por transferirem o seu melhor mesmo cansados, desiludidos e sozinhos. Obrigado por levarem a luz mesmo onde ela apenas cega. Obrigado por continuarem sendo pontes. Obrigado, mestres! A todos vocês o nosso eterno carinho.

Leituras que eu li 2

Levou muito tempo, mas estou voltando a sugerir alguns livros. São dicas de leitura para quem gosta. Sem maiores delongas, vamos lá…

Ivair Gontijo narra em “A Caminho de Marte” a sua história de vida, desde pequeno no interior de MInas Gerais , passando pela escola pública e pelo trabalho como capataz de uma fazenda, até chegar ao JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, em inglês) na NASA. Além da sua trajetória pessoal, explica o início e os avanços da corrida espacial e descreve o trabalho de enviar o Curiosity ao Planeta Vermelho.

É um livro rico para quem busca evidências de que os sonhos são realizáveis e o esforço pessoal te leva a realizá-los. Ao mesmo tempo, o autor sacia a curiosidade dos interessados em ciência e astronáutica sobre o cotidiano dos profissionais que atuam na área.

Em “O Homem que Amava os Cachorros”, o cubano Leonardo Padura narra duas histórias: a do líder político marxista russo Trotski até encontrar o seu algoz Ramón Mercader, no México, e do personagem Iván, que teria conhecido personagens desta história e a narra com bastante detalhes.

É um livro que ajuda a conhecer os pormenores da luta político-ideológica do início do Século XX, especialmente na Rússia e Espanha, e a repercussão em Cuba, décadas mais tarde. Vale para desconstruir ilusões e melhorar a análise histórica destes fatos.

“A Grande Espera” é um livro psicografado por Coralina Novelino e narra a história do povo Essênio, uma seita hebraica que preexistiu ao cristianismo, constituída de fiéis que esperavam a chegada de Jesus e participaram da sua formação. Os essênios, hoje se sabe, habitaram diversos lugares do Oriente Médio e se tornaram popularmente mais conhecidos depois da descoberta dos Manuscrito do Mar Morto, que tratam dos mesmos temas apontados no livro. Vale pelo conhecimento histórico e religioso.

Se você já leu algum desses, por favor, me diga como foi a tua experiência! Até a próxima!

Por que somos desonestos?!

O Brasil está há décadas no grupo dos países mais violentos, mais corruptos, mais desonestos e onde mais morrem pessoas no trânsito. Há décadas! Isso sem contar nossa relação permissiva com o tráfico.

Por que cargas d’água ainda não entendemos que vale a pena ser honesto?! Por que ainda não entendemos que vale a pena fazer a coisa certa?!

Recentemente estava lendo sobre a educação de superdotados. Você sabia que crianças superdotadas tendem a ter um senso de justiça apurado? A inteligência (a verdadeira) tende a produzir pessoas mais honestas.

Será que somos desonestos por burrice?!

Toda a argumentação sobre nossa colonização portuguesa e a histórica relação da corte lusa com a corrupção, vale até hoje?! Passados quase duzentos anos de independência e mais de um século de educação pública, vale até hoje a influência de nossos colonizadores?!

Já não aprendemos na escola, nos livros, nos filmes, nas conversas que não vale a pena ser desonesto e sustentar qualquer atividade criminosa?! Vamos continuar achando que a culpa é do colonizador, dos americanos, dos comunistas, dos traficantes, dos políticos?!

O que falta para o Brasil é o brasileiro decidir torná-lo um país melhor. É simples assim. Quando a maioria honesta do Brasil se tornar intolerante aos que saem da linha, o Brasil se tornará outro lugar para se viver. Depende de cada um mudar imediatamente o trato ou a permissão à desonestidade, ao descumprimento das regras e ao respeito geral. Isso passa por ser pontual, por cumprir o que combinou, por dar atenção ao que está fazendo, por ouvir antes de julgar.

Presta atenção: não há polícia, não há Estado, não há educação que mude uma nação que não se importa. Só quem nos muda somos nós e nós não mudamos os outros.

Comece em casa respeitando, seus pais ou padrasto, sua esposa e esposo, seus filhos. Se você acha que existe outro lugar para começar, então você começou mal.

A mais-valia brazuca

Marx chama de mais-valia aquilo que a foça de trabalho produz e não é remunerado pelo burguês (patrão). O brasileiro médio, seja ele operário, servidor, patrão, autônomo, agricultor ou qualquer outro que ofereça a sua força de trabalho, um serviço ou produto, desvirtuou o conceito marxista e estabeleceu uma nova forma de remunerar-se, um verdadeiro ágio que nos atinge de diversas formas.

Veja o vendedor de veículos, por exemplo. Ele não é remunerado apenas pela atividade de compra e venda de veículos. Ele ganha (e muito bem) a cada financiamento que realiza, pois a financeira o remunera por isso. Quem paga?

E a administradora de condomínio… ela cobra uma taxa dos seus serviços, mas costuma ganhar por cada contratação de prestadores para o condomínio. Quem paga?

Veja os serviços públicos. Educação, saúde e segurança, que são aqueles indispensáveis, acabam por ser uma parcela menor dos gastos orçamentários estatais. Para manter o sistema, pagamos altos salários a auditores, magistrados, procuradores, diretores, consultores, governantes, legisladores, etc. Quem paga?

Vá no banco pedir um empréstimo e um seguro ou título de capitalização lhe será empurrado através de venda casada (proibida por lei). Isso que nossas taxas de juros são as maiores do mundo.

Quase tudo em nosso país poderia ser mais barato se custasse apenas o que se quer. Quase sempre pagamos por algo mais, que não temos a oportunidade de dispensar.

Quem estuda em universidades públicas, às vezes com doutorados e bolsas de pesquisas com verbas estatais, costuma buscar grandes cargos em postos de alta remuneração. Legítimo. Mas como retribuir ao seu país o que todos pagaram para que fosse conquistado? Quem pagou? Quem se beneficiará?

O Brasil é um país rico e seria seu povo igualmente rico se tivéssemos construído uma escala de valores menos egoísta, menos avarenta, mais humana, ética e altruísta. Mas chegaremos lá, pois não há ignorância que dure para sempre.

Educar é político

Educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais, em todos os tempos. Sempre. Por milênios a humanidade reproduziu de geração em geração as lições entre os seus. O agricultor ensinava a seus filhos a agricultura. O pescador a pescaria. O militar a luta. O pedreiro a construção. E assim vai. Então, a ideia de educar era funcional (aprendia-se o que se necessitada no trabalho) e socialmente fixa (as classes sociais ou grupos sociais se mantinham no mesmo patamar socio-econômico).

Foi no Século XX que a ideia de educação pública se proliferou e mudou o mundo. Ainda se aplicava à educação o objetivo funcional, mas pouco a pouco se incorporou a ideia de liberdade de pensamento e, portanto, de objetivos. Educar buscava libertar o pensamento e, portanto, o aprendiz e, mais adiante, a sociedade.

Libertar do que?!

Bem, educar historicamente foi político. A política familiar era produzir mão-de-obra. Quando se criaram os estabelecimentos de ensino a politica era produzir mão-de-obra qualificada. Hoje a política educacional é produzir seres livres das amarras funcionais da educação… mas vinculados a que?!

Se não bastasse vivermos numa época em que o processo educacional precisa se adaptar à tecnologia, à geração Alfa e ao gigantismo das informações, hoje questionamos a que se destina o processo educacional, afinal de contas. Porque no passado já sabíamos que um filho de carpinteiro deveria aprender a carpintaria. Sabíamos que a universidade formaria saberes superiores sempre necessários. Mas e hoje?!

A liberdade é tremendamente complexa. Quando se dá liberdade sem preparar o liberto e o ambiente onde ele atuará, simplesmente não há de funcionar. Pelo simples fato de que poucos intuem o que devem fazer da sua vida de forma elaborada. Libertar antes do momento certo é aprisionar o ser na sua própria casca, no seu próprio limite pessoal.

Hoje há um compromisso geral dos educadores em libertar os alunos dos conceitos que entendem aprisioná-los, mas infelizmente os novos conceitos não conseguiram libertá-los das suas próprias limitações pessoais. O educando é cada vez mais dependente do Estado, em consequência do objetivo de libertá-lo do Mercado.

Por outro lado, escolas caras e inatingíveis para a imensa maioria das pessoas ensinam a potencializar suas habilidades, a conviver com diferenças complexas, a conhecer mecanismos de busca e aprimoramento de última geração. Afinal, como dizemos na primeira frase, educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais.

Então temos, de um lado, um grupo formando mão-se-obra pensante e atuante nos corpos estatais e, do outro, uma elite que voa baixo, que domina a comunicação, a gestão de pessoas, o uso de recursos tecnológicos e naturais e os meios de produção. Há de um lado pessoas que pedem e dependem e, do outro, pessoas que realizam e produzem. Há cada vez mais a intensificação dos meios de dependência e controle.

Educar é político. Enquanto uns ensinam o senso político, o pensamento crítico político, os conceitos histórico-políticos e o agir coletivo dentro deste sistema, outros ensinam a manejar o conhecimento para capacitar o ser humano a estabelecer os seus próprios interesses políticos. Educar é politico e, às vezes, libertador.