Abusos

Vou contar mais uma história pessoal: na minha quinta série, quando tinha dez anos, fui estudar num colégio de classe média que ficava em Porto Alegre (eu morava em Viamão). Neste colégio eu sofri bullying por quase um ano. Eu tinha um colega que devia ter uns dezesseis anos, dizia-se que estava pela terceira vez repetindo. Era o filho do dono do bar, um alemão muito maior que eu, a quem aprendi a temer até doer de medo.

Esse colega foi, digamos, o vetor dos abusos, porque depois que ele começou e eu me amedrontei, muitos outros colegas passaram a fazer algo contra mim.

Não lembro exatamente quando começou, mas provavelmente foi quando o alemão baixou meu calção em plena educação física e fiquei nu em frente a todos os colegas. Pra ajudar, fui reprimido pelo professor, que achou que eu estava de brincadeira com os outros guris.

Teve uma ocasião em que fui colocado no grupo de trabalho de duas colegas, uma negra e uma a quem já conhecia, de Viamão. Combinamos de nos encontrarmos na casa da minha colega negra. Ela me deu o endereço e, na tarde combinada, peguei o ônibus e fui ao local. Procurei, procurei… perguntei… nada. No dia seguinte eu, constrangido por me sentir burro, fui dizer pra elas que não tinha conseguido encontrar a casa e pedir desculpas por não participar do trabalho (não existia celular) e elas começaram a rir de mim, com outros colegas. Haviam me dado o endereço errado para zoar comigo.

Teve outras situações que, confesso, nem lembro direito mais. Eu odiava tanto ir pra escola que começaram a surgir em mim diversas erupções cutâneas, como furúnculos e tersóis. Até que fiz dois amigos e as coisas começaram a melhorar, isso já próximo ao final do ano.

Nunca soube o porquê disso. Desconfiei na época que era porque eu não tinha as roupas que eles tinham, mas não acho hoje que fosse exatamente isso. Hoje acredito que eu tinha uma postura muito introspectiva e isolada, que naturalmente atraía os abusadores e os que gostam de se impor.

Minha mãe teve uma ideia de gênio. Ela não sabia o que eu passava, eu não dizia. Ela intuiu que meu problema era insegurança e me incentivou a voltar às aulas de karatê duas vezes na semana. O karatê meu deu autoconfiança e me ajudou a controlar a minha agressividade. Fiz karatê até os vinte e quatro anos.

Por que trago isso? Porque há uma ideia  (em alguns) de que guris brancos de classe média estão isentos de abusos e de problemas. Há uma ideia de que tudo é problema social e uma inversão de quem são as verdadeiras vítimas. Todos somos potenciais vítimas de abusadores e, se não nos controlarmos, todos somos potenciais abusadores.

Ninguém precisa ser vítima de nada. As pessoas precisam acreditar que podem ser mais fortes do que são, porque todos podem. Todos temos de aprender que contra abusadores, criminosos, agressores o remédio é, antes de mais nada, coragem e coragem.

Uma pessoa sozinha tem certa quantidade de coragem, mas duas pessoas juntas não vão apenas dobrá-la… quiçá quadruplicá-la. Se aprendêssemos a nos unir contra os patifes que nos cercam e cada vez mais se impõe, nós certamente os suplantaríamos. Mas estamos envoltos em teses e mais teses.

Enquanto isso os abusados que aguentem.

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Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

Discurso de Formatura FACSUL/Unitins 2010

Em 2010 fui agraciado com o convite para ser paraninfo da Turma de Fundamentos Jurídicos do centro EAD Facsul, vinculado à Unitins. Eis…

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Excelentíssimos integrantes da mesa, especialmente Sra. Núbia Peixoto, representante do Magnífico Reitor… Sra. Medianeira Sutel, Sra. Silvana Santos e Sra. Valéria Monteiro, paraninfas homenageadas… Sra. Rute Fávero, Sr. Antônio Prestes e Sra. Audrew Tatiani, patronos das turmas… Meu grande e querido amigo Marco Antônio Oliveira, aos parentes e amigos presentes e, especialmente, aos meus amigos e amigas formandos.

Muito boa noite!

É para vocês que quero dizer algumas palavras, queridos!

Lembro com muito carinho de quando nos conhecemos, na Turma de Fundamentos Jurídicos, às quartas-feiras à noite. Desde o início sempre admirei vocês por estarem ali, buscando melhorar, lapidando esse presente divino que é nossa capacidade. Sempre os vi como exemplo gratificante de esforço – embora vocês pudessem ter tido um pouco mais de esforço, como sempre se pode. Era um momento da minha vida em que enfrentei severas dificuldades e tanto a Facsul como este grupo serviram-me de alegre intervalo entre as minhas batalhas.

Muito obrigado!

Estudar é algo mágico!

Nenhuma pessoa entra numa academia e sai do mesmo jeito. Lembro que “academia” é uma palavra de origem grega, que servia para referir a escola criada por Platão para ensinar filosofia aos seus alunos. Platão, se me permitem o breve comentário, foi muito mais do que um filósofo. Ensinou, por exemplo, Aristóteles, que ensinou Alexandre o Grande, que dominou o mundo. Ensinou a tantos, que ensinaram os essênios, que ensinaram Jesus, que mudou o mundo.

Ele trouxe reflexões profundas sobre o se portar, o conviver, como ser uma pessoa melhor… pois isso tudo é a chave da felicidade!

Vejam, o estudo é uma das melhores ferramentas para sermos felizes de verdade! E todos sabemos ou precisamos saber que nosso objetivo de vida é a felicidade!

Não se estuda para ganhar uma promoção. Não se estuda para pendurar um diploma na parede. Não se estuda por estudar. Isso tudo não é estudar!

Estudar é refletir e pôr em prática. Estudar é ver a prática e refletir… e voltar para pôr em prática algo melhor. Como vocês podem perceber, isso é algo que não tem fim… e, como já falei, isso é mágico.
A vida tem muitos mistérios. E ela é muito mais rica para aqueles que são mais perspicazes e atentos. Quanto mais atenção dermos às coisas da vida, mais veremos a sua riqueza. Não a riqueza das jóias, dos eletrônicos, das grandes construções – que são boas riquezas. Falo da riqueza maior, a de sentir a vida!

A vida é mágica porque existem certezas que precisamos nos lembrar e isso não é um problema. Vejam:

Sofreremos! Cedo ou tarde.

Perderemos! Muitas vezes.

Erraremos! E pedir desculpas é o mínimo.

Sentiremos raiva… e precisamos aprender a nos achar para, nestes momentos, não nos perdermos.

Sentiremos culpa… e precisamos aprender a nos desculpar para não morrermos cedo demais.

Nós morreremos e, pior que isso… quem nós amamos morrerá… e precisamos aprender a viver e amar enquanto podemos!

Vejam quantas coisas doloridas referi! E ainda assim temos todas as condições de sermos felizes! É só APRENDERMOS. Essa é uma das mágicas dualidades da vida: a certeza de que passaremos por momentos difíceis e, ainda assim, a certeza de que passaremos por momentos felizes. Os momentos felizes são os que dependem de nós, virão apenas se nos esforçamos.

Aprender é a chave! E aprender é algo absolutamente pessoal. Não se transfere, não se doa, não se herda educação. Ou se esforça em tê-la e em vivê-la, ou não se a conhece.

Por isso o orgulho de vocês! Quem busca a educação diante das dificuldades que são naturais em tê-la, está, na prática, tentando ser feliz! É um atestado que diz mais ou menos assim: “atesto para os devidos fins que eu quero algo melhor para mim”.

Vocês estão atestando isso hoje! Por isso estamos todos nós aqui felizes! Viram como o estudo é mágico!

Para quem vai trabalhar com o Direito, seja como operador, como servidor, como policial, como assessor… afirmo: vocês terão muito trabalho pela frente. O Direito tem essa imagem romântica de que serve para regular a vida das pessoas… e é uma imagem parcialmente equivocada, pois quem regula a vida das pessoas é a educação e o livre-arbítrio de cada um. O Direito apenas nos diz o que o Estado – o centralizador das ideias gerais – quer de cada um de nós.

No nosso sistema, muitas vezes torna-se irrelevante o que está na lei: o Direito que se aplica a cada uma das relações do dia-a-dia é o que escolhemos praticar; o Direito que se aplica a cada uma das pessoas que procura o Poder Judiciário é aquele que o Juiz decreta. Viram, nem uma, nem outra alternativa depende exclusivamente da lei… Por isso a importante habilidade de se construir um bom processo, de se formar uma boa base de fundamentos e de se relacionar e se expressar bem. E isso vem, novamente, através do estudo!

Quanto mais elaborada for a função de vocês, quanto mais velhos vocês se tornarem, quanto mais responsabilidades a vida lhes trouxer, mais chances de errar, de perder, de sofrer vocês terão… porque também terão mais chances de vencer, de acertar, de alegrar. Isso é bom demais! Quando vocês superarem essas dificuldades, mesmo sem platéia, mesmo sem recompensa, mesmo sem manchete… vocês se sentirão como Alexandre o Grande… vocês conquistarão o mundo.

Não fujam das grandes responsabilidades, das árduas dificuldades, das dolorosas conversas, do perigoso enfrentamento… Fugir disso é fugir da chance de serem realmente felizes!

Como disse o ex-astronauta Neil Armstrong ao pisar na lua: “esse é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Cada vez que um de nós vencer, a humanidade venceu. Hoje nós todos somos vencedores porque vocês venceram!

Começo a terminar meu discurso aqui, agora, com alguns lembretes:

(1) Não é à toa que os vencedores dizem que precisamos acreditar nos nossos sonhos! Não é à toa.

(2) Tudo que existe no mundo foi criado por alguma mente. Tudo é projeto mental… Tudo que está no mundo material, um dia esteve na idéia de alguém, seja na de um ser humano, seja na de um ser divino.

(3) É muito difícil encontrarmos equilíbrio e felicidade sem quatro grandes pilares: família harmoniosa, corpo saudável, mente rica e alma iluminada. Não esqueçam da alma… é o que tem faltado no mundo de hoje!

(4) Filho de peixe é peixe. Filho de águia é águia. Filho de leão é leão… lembrem-se sempre que somos filhos de Deus.

Que Ele abençoe e ilumine a cada um de vocês! Muito obrigado por esta honra inesquecível que vocês me deram. Boa noite!

O elitismo

Das certezas que tenho na vida, uma das principais é de que o Brasil é um país elitista. Mais do que o racismo, o machismo, do que as divergências religiosas e políticas, do que o excesso de paternalismo, somos treinados, informados, repetitivamente ensinados a aceitar naturalmente as diferenças de classe e seus privilégios. Não de classes sociais… elas não dizem exatamente quem é elite ou não. Os nossos privilégios são para as classes dominantes, as que exercem efetivamente algum tipo de poder, seja pelo cargo, seja pela imposição social ou financeira.

Vamos a alguns exemplos que são tratados como naturais.

O policial civil ingressa na corporação mediante concurso público. Trabalha a vida inteira lá e atinge a função de Comissário de Polícia. Quem manda na corporação?! Delegados de Polícia. Estes ingressam no cargo por concurso público. Por que isso é elitista?! Porque para ingressar neste cargo, nosso sistema entende ser mais importante o conhecimento teórico do que o prático. Conhecimento teórico bom precisa ser bem pago e dispor de tempo para preparo. Quem tem maiores condições disso?!

E nas corporações militares, seja nas forças armadas ou forças auxiliares?! Idem. Não se começa como soldado e chega a oficial comandante jamais. Não é a carreira e o trabalho que te elevam. É aquilo que você pode fazer na juventude, no início da vida laboral que determina onde você chegará. Para ser general, por exemplo, só com AMAN. Quem tem condições de entrar na AMAN?!

Olha a diferença de direitos entre trabalhadores da iniciativa privada e do serviço público. Olha a diferença de estrutura e remuneração entre os professores que dão aula nas escolas públicas e os que dão nas universidades públicas (quem estuda nas escolas públicas e nas universidades públicas?). Olha o foro “privilegiado”. Olha as punições que existem para certas funções públicas e as que existem para seus superiores, pela prática dos mesmos tipos criminais. Olha os benefícios que existem para as altas cúpulas estatais. Olha a quem mais prejudica o sistema de tributação sobre consumo e não sobre a renda que temos.

Elitismo é institucional no Brasil. A nossa própria Constituição prevê privilégios elitistas, ao invés de promover efetiva igualdade.

Imposição x Construção

Todos nós conhecemos a máxima de que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. É uma regra de educação humana e pode ser perfeitamente relacionada a qualquer aspecto da educação humana.

As sociedades são resultado da cultura e, ao mesmo tempo, construtoras da cultura. A cultura pode ser alterada por imposições ou por construções. Estou lendo um livro que fala da história do conhecimento, de como ele foi transmitido ao longo do tempo (A reinvenção do conhecimento, de Alexandria à internet). Os autores trazem de forma didática e interessante que muito do que criticamos foi, na verdade, muito eficaz para a transmissão do conhecimento humano. Um dos exemplo são os mosteiros. A igreja foi por muito tempo considerada a monopolizadora do conhecimento na idade antiga e medieval, como se fizesse isso com ardil e maldade. Na verdade, os mosteiros serviram de abrigo a diversas obras antigas, gregas e romanas na maioria, que se estivessem na mão dos governantes ou de particulares provavelmente teriam sido saqueadas, queimadas ou destruídas como muitas outras foram.

Muito do que se olha sobre a história é tratado de forma negativa e crítica. Faz-se um anacronismo avaliativo e julga-se o passado com os valores de hoje. Quase sempre que isso for feito o resultado vai ser uma avaliação crítica e negativa.

Pois a humanidade é feita de construções. Avança a passos largos ou lentos em direção a algo melhor do que já foi. Sem considerar a avaliação dos que acham que somos iguais ao que sempre fomos, pois evidentemente somos melhores do que o homem das cavernas, as construções realizadas por nossos antepassados funcionam como imposições no nosso tempo.

Não podemos escolher outro idioma, outros algarismos, outra estrutura social, outra cultura. Nascemos sobre condições impostas pela história. Há condições pregressas que não podemos alterar e ponto. Outras são indispensáveis sejam alteradas. A medida desta evolução é o que nos causa os embates de hoje e sempre foi assim.

Há evoluções que não parecem evoluções. Há mudanças que não são percebidas senão ao longo do tempo. A cultura é assim, volúvel, volátil e, ao mesmo tempo, hermética. Há os que mexem na cultura de forma definitiva, como Cristo, cujo nascimento baliza inclusive nossa marcação dos anos (quando viveu, Jesus não era o que é hoje). Há os que ensinam pelo mau exemplo. Somos biliões de almas que já passaram pela Terra, há muito de cada uma delas no que vivemos hoje.

Acredito que o modelo construtivo seja melhor que o impositivo nas relações humanas. Ensinar a construir e acreditar que isso produz resultados é melhor que impor a todos que atinjam tais resultados. E isso serve para quase todas os objetivos, características e valores humanos. Bondade, por exemplo. Ensinar a ser bondoso é muito diferente de impor a bondade. Impo-la cria hipocrisias, falsidades naqueles que ainda não aprenderam a sê-lo. Isso serve a qualquer demanda.

As imposições só devem existir quanto àquelas condutas extremas que, descumpridas, lesam suas vítimas. A violência, por exemplo. Ela precisa ser contida com repressão.

Então novamente voltamos ao grande dilema do equilíbrio entre o que deve ser construído e o que deve ser imposto. A veia dessa construção é a sabedoria. Sabedoria não é ser complacente, benevolente, tolerante. É, muitas vezes, ser impositivo.

O agir por imposição tem como elementos imprescindíveis os valores que se impõe. Quando perdemos essa referência, todo o mais se esvai. Se quero impor a igualdade de gênero, por exemplo, tenho que fazê-lo tratando a todos igualmente. Se quero que respeitem minha crença religiosa ou ideológica preciso respeitar a religião e a ideologia alheia.

Mas isso é dificílimo! E é isso que nos faz sermos tão conflitantes e polarizados.

Não há outra saída entre interesses divergentes que não seja a discussão dos valores que os norteiam. Precisamos construir e impor valores de igualdade, liberdade e fraternidade. Aos que vivem de discursar tais valores mas exercê-los apenas em favor de uns e não de todos, que imponhamos sejam respeitados. Aos que já estão dispostos a concretizar tais valores, que venhamos a construir laços de afinidade.

O que não podemos é permitir nos imponham valores distorcidos, que beneficiam uns e não todos, que criem privilégios, que sejam sustentados por demagogias e hipocrisias.

Os brasileiros são melhores do que têm se dito. Tirando uma turma barulhenta e imatura que pede que os outros façam sua parte, a maioria está na labuta de construir-se melhor a cada dia.

Mas que raios é isso que estão falando?!

Vivemos numa época em que já sabemos que a vida é melhor quando respeitados certos valores: igualdade, compartilhamento, fraternidade, compaixão, respeito, bondade, justiça, tolerância, dentre outros. O que não sabemos ainda é como fazer isso…

Por exemplo: tolerância. Nos nossos dias a palavra é repetitivamente usada para pedir aos conservadores que tolerem as diversidades, mas ela não é usada pelas minorias para tolerar o pensamento conservador. Vamos falar isso de outra forma: o jovem quer que seu avô pense como um jovem.

Outro exemplo: igualdade. É tratar todos iguais? É considerar todos iguais? É exigir que todos pensemos igual, tenhamos valores iguais, ajamos da mesma forma?

Bondade é um exemplo cujo debate tem me assustado um pouco. É cada vez mais ecoado que não existem “pessoas de bem”, no sentido, penso eu, de afirmar que todos somos passíveis de realizar maldades eventuais. É isso mesmo!?

O caminho que escolhemos está num ponto em que os valores historicamente preceituados estão sendo questionados e reformulados. Isso é bom. O que não é boa é a ideia de que os novos valores devem suplantar os anteriores totalmente. Essa ideia de descontinuidade atesta que a lição não foi aprendida, que apenas se mudou de lado, apenas se defende a mesma coisa de antes mas agora pro outro time.

Não há evolução cultural com a ideia de descontinuidade. A cultura humana é cumulativa, com acertos ou com erros. O que hoje é tratado como machismo e valorado como ruim já foi essencial para sobrevivência de certos grupos.

Veja por exemplo a questão da aceitação das relações homoafetivas. O mundo já a enfrentou de diversas formas ao longo da sua história, dependendo do lugar e da época. Na Grécia antiga de Platão – que dá origem a grande parte dos valores ocidentais – as relações entre homens e jovens garotos era tratada com hipocrisia, existindo uma aceitação velada e eventualmente até incentivada, mais ou menos como hoje tratamos o adultério. Então, esse não é um tema atual, nem novo, muito menos decorrente unicamente de valores religiosos ou moralistas. É um debate da própria condição humana, que se resume por motivos ideológicos.

Sabemos, portanto, os valores que nos permitirão viver melhor. Isso está claro. O que não sabemos é como efetivamente cumprir tais valores. Afinal, como se produz igualdade? Como se lida com o machismo, com o feminismo? Como se ensina a tolerar a diversidade?

A humanidade demonstra nesses seus enfrentamentos que, de maneira geral, melhorou tanto quanto a seus ideais quanto à sua prática, pois efetivamente hoje somos menos violentos, menos hipócritas, mais tolerantes. Mas ainda assim nos acusamos diariamente do contrário, como se todo o processo cultural humano fosse um erro imperdoável, como se apenas o que hoje se propõe como bom efetivamente o fosse.

Ora, se fôssemos tão detestáveis assim não teríamos chegado aqui!

A humanidade está num dilema existencial sobre a efetivação de seus valores como sempre esteve. São nossas lideranças que farão diferença, pois a massa humana é manobrável, frágil moralmente e se dispersa. A democracia não é o melhor sistema porque permite que todos tenham a mesma voz, mas porque permite que todos sejam como quiserem e participem se quiserem. A voz que comanda é daqueles mais preparados efetivamente, daqueles que melhor cativam e se impõe. É da nossa condição, não nos iludamos que podemos pular degraus evolutivos. Enquanto alguns de nós querem simplesmente viver sua vida, muitos vivem de debatê-la. O debate é menos importante que viver a vida, mas estão o transformando na própria existência.

A forma de colocar em prática qualquer coisa que se prega é vivê-la, não debatê-la. O debate é formação. A prática é maturidade.

 

Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

A cultura da crítica

A humanidade não nasceu pronta, certo?!

É fácil olhar pra qualquer povo, qualquer cultura, em qualquer lugar e apontar um monte de erros e injustiças e absurdos que foram cometidos nas mais diferentes épocas. Jesus, por exemplo. Segundo a tradição católica os apóstolos eram todos homens. Machismo?!

A escravatura, outro exemplo. Ela existiu ao longo de milênios na humanidade, entre brancos, negros, nórdicos, asiáticos, índios. Sacrifícios humanos, decapitações, pena de morte a todos da família… é infindável essa lista.

O ser humano errou muito pra chegar até aqui. Os erros merecem ser considerados erros, não há dúvida. Muito dos grandes líderes humanos, inclusive, foram protagonistas de grandes mudanças porque apontavam aquilo que viam errado e sugeriam um novo caminho.

Precisamos reconhecer o que é possível em cada época, em cada local, para não criticarmos valores e atitudes com fórmulas anacrônicas e impossíveis naquele contexto. Era possível a luta pela igualdade racial no século X? Era possível o pleito de igualdade de gênero antes do século XIX? Seria possível democracia no século XV? Era possível a criação de direitos trabalhistas quando recém se iniciavam as relações laborais no século XVIII?

É óbvio que se fôssemos mais despojados da maldade nossa caminhada já estaria bem mais adiantada. Se o ser humano não olhasse para outros seres humanos como inimigos, mas como potenciais companheiros de caminhada, quanta coisa seria diferente, não?! Mas não somos assim. Ou não fomos assim.

Agora, imaginemos os desbravadores e os colonizadores preocupados com o desmatamento. Ou imaginemos se ao invés dos europeus terem conquistado a América, fosse os chineses ou os africanos. Você sabe como chineses e africanos agiam quando conquistavam? Você sabe como os índios americanos agiam quando conquistavam?

A crítica aos modelos dos quais discordamos precisa ser feita com prudência e racionalidade. É preciso que, ao criticar, apresentemos outro modelo que precisa funcionar, por óbvio. Se não a vida se torna a repetição da crítica e as pessoas passarão a optar por não realizarem nada, por viverem comodamente diante daquilo que já conquistaram ou daquilo que, para se manter, precisará de menos esforço ou esforço alheio. Como vive hoje a imensa maioria dos partidos que explora a demagogia populista no Brasil e que, por mais incrível que pareça, são sustentados por boa parte da intelectualidade universitária.

A cultura da crítica não é revolucionária. É reacionária e juvenil.

Desgovernos em série

É difícil saber quando começaram os desgovernos no Brasil. E é difícil porque a maior parte das nossas análises nunca foi técnica, foi sempre parcial e interessada. Vejamos o segundo império, por exemplo. Pouco se fala do esforço de Pedro II em abolir a escravatura e da sua constante preocupação com a educação e as finanças do império. Pedro II devolvia regularmente, ao final do ano, para o caixa da União aquilo que sobrava no orçamento da família real. Costumeiramente investia do seu próprio bolso no estudo de jovens carentes.

Largou-se o império para implantarmos a tão badalada “República”, a “solução dos nossos problemas”. Vivemos mais de trinta anos na República Café com Leite, famosa pela concentração de interesses e pelas fraudes eleitorais.

Aí veio um golpe promovido por Getúlio Vargas e jogou-se pro alto todos aqueles argumentos iluminados sobre a República. Décadas depois, voltando a democracia, um clima de grande instabilidade política e institucional fez o Brasil chegar a mais uma intervenção, dessa vez pelos militares, em 1964. Tão malfalada, nos alçou à nona  economia do mundo, na época.

Passaram-se mais duas décadas e volta a democracia. Sarney, Collor/Itamar, FHC, Lula, Dilma/Temer. Se é verdade que as instituições brasileiras vem se fortalecendo, seja pela profissionalização dos seus quadros, seja pelo amadurecimento institucional propriamente dito, também é verdade que nossos problemas pouco mudaram. A corrupção, a falta de prioridades estatais efetivas, o desperdício de dinheiro público, o elitismo, o desapego aos interesses públicos e o aparelhamento do Estado continuam em pauta.

Não há sistema que corrija nossos problemas culturais a curto prazo. O mundo tem bons exemplos sociais em países monárquicos, democráticos, parlamentaristas, presidencialistas e, segundo alguns, até em ditaduras (vide Cuba e China). É evidente demais que nossos problemas passam pela nossa baixíssima capacidade educacional. Educação é, na mais das vezes, um quadro, giz, um bom professor e alunos interessados. Muito mais difícil é entregar saúde e segurança, que precisam de outros recursos físicos ainda mais caros e complexos.

Não sou do tipo que se identifica com teorias da conspiração, mas é evidente que alguém não nos quer diferente, melhor. Só não acho que sejam os americanos, nem os comunistas, tampouco os narcotraficantes. Nosso desgoverno é fruto da ausência de lideranças que consigam se impor sobre esse marasmo moral e essa superficialidade existencial que nos permeia. Aqui as grandes cabeças se esforçam duas vezes na vida: passar no vestibular e no concurso público… depois podem relaxar por cinquenta anos. E essa ideia é interessante na nossa cultura, porque enriquecer na iniciativa privada é tido como imoral… o “explorador”, o “ganancioso”. Aqui o elitismo é institucionalizado. O policial nunca será delegado, pois para ser delegado você precisa faculdade e concurso específico para isso. Então, um Comissário de Polícia com trinta anos de carreira é considerado menos preparado para ser delegado que um jovem saído da faculdade de direito que passa no concurso.

Nosso desgoverno é esse apego ao elitismo, ao fácil, à vida aristocrática.

Vamos mudar quando todos – na iniciativa privada e no serviço público – receberem as mesmas exigências e dispuserem dos mesmos direitos. Quando deixarmos pra trás esse ranço de tratar melhor os mais abastados, de sustentar quem não se esforça, de violentar os serviços mais essenciais com parcos salários e estruturas falidas (como pode um hospital não ter ar condicionado e um departamento qualquer o ter?!).

O Brasil tem cura. Mas o remédio é tão amargo que toda uma estirpe e toda uma mentalidade deixariam de existir.

Generalização.BR

Adoramos uma generalização, não é! Gostamos tanto que ela é absolutamente institucionalizada. 

A escola pública, por exemplo. Ninguém paga mensalidade. Achamos que todo o estudante de escola pública está impossibilitado de pagar qualquer quantia pelo estudo que recebe. Generalizamos o tipo de estudante, a sua condição financeira e o seu interesse em (não) contribuir. Agora imagina numa escola, mil alunos contribuindo com R$ 30 mensais durante dez meses. A escola renovaria a sua estrutura todos os anos, teria computadores modernos, laboratório de química e física e biblioteca. E o aluno que não pudesse contribuir, por óbvio, seria isento.

E no posto de saúde? R$ 10 a consulta é demais? Cem consultas por dia renderiam mil reais que poderiam manter a farmácia ou o laboratório.

Os comerciantes não podem diferenciar quem paga em dinheiro e quem paga com cartão de crédito ou cheque pré-datado. Quem perde com essa generalização (que tem como fundamento a igualdade de tratamento entre clientes)?! O cliente, óbvio. Porque o comerciante não consegue manter o preço mais barato para duas operações diferentes e acaba cobrando o preço mais caro de todos. Aí, se resolver dar um desconto para uma compra vultuosa paga em dinheiro, estará comente do uma irregularidade em tese… vai entender…

Vivemos há muito tempo com outra generalização ruim pacas: políticos. Tratamos todos como corruptos e incompententes. Quem ganha são justamente os políticos corruptos e incompetentes, que se veem igualados aos demais.

E os empresários? Tudo explorador e sonegador.

Servidor público? Tudo vagabundo.

Jogador de futebol? Tudo salto alto, mercenário.

A direita? Tudo reacionário. 

E a esquerda? Vagabundagem que vive do dinheiro dos outros.

Viram? Temos generalizações pra quase tudo. E quem perde são todos os diferentes, os que se destacam, os que se esforçam para fazer e ser melhor.

O jeito é olhar pra tudo (generalizando!) com um novo olhar e se permitir diferenciar, dando a cada atitude e a cada esforço o seu devido valor.