O julgamento do Lula

Nem sempre o gestor é culpado pelos danos causados por seus subordinados, mas normalmente será o responsável. É da natureza do cargo e da função ser o responsável. O raciocínio que permite não seja o gestor responsabilizado é o que sempre vigeu no Brasil e resulta na popularesca frase de que “a corda arrebentou no lado mais fraco”.

Pois bem, Lula é evidentemente culpado. E teve vantagens financeiras e políticas com isso. É fato e os resultados estão aí nas ruas. Os que escolhem não acreditar nisso babariam de raiva se, diante dos mesmos fatos, substituíssemos os personagens por outros mais à direita.

O Brasil vive uma ode à irracionalidade. Nunca fomos exemplo de bom senso e equilíbrio e provavelmente chegamos nessa polarização por causa disso (afinal, não há efeito sem causa). É preciso que as pessoas não se deixem levar por esta irracionalidade quando pensam e atuam naquilo que entendem como solução.

Não podemos tolerar lideranças que preguem violência. Não podemos tolerar rupturas institucionais sob pretextos “morais” ou “ideológicos” mais elevados.

A evolução social precisa de ajustes e correções constantes, não de rupturas, revoluções e eternos recomeços. Essa ideia é resultado desta irracionalidade, que por sua vez é efeito da imaturidade.

O Judiciário brasileiro está mudando de postura no trato dos grandes criminosos. Chegou a hora. Por mais que a demagogia populista explore esse momento politicamente para continuar sua eterna luta contra os cataventos de Don Quixote não é crível que retrocedamos aos limiares da impunidade. Lula será condenado.

Se parte (ou boa parte) dos brasileiro querem votar num condenado, que o façam. Eles que acreditem no que podem e querem.

Nós que não acreditamos na balela populista precisamos auxiliar de forma coerente e atenta a história a não contaminar-se com tais impropérios. O Brasil dispõe na sua trajetória de incontáveis lideranças que merecem devoção e respeito. O fato de insistirmos em desacreditá-las, costumeiramente em desfavor dos mesmos tipos de líderes populistas, revela que os conhecedores são excessivamente omissos e silentes.

Acredito firmemente que Lula será condenado. Mas se não for, mesmo com toda a minha irresignação, não vou pedir golpes e revoluções. Vou pedir que sejamos melhores.

 

 

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Estabilidade de Emprego – o túmulo do êxito

Por muitos anos o mundo ocidental viveu sem a possibilidade do divórcio. Numa sociedade comandada por homens, as famílias não eram diferentes. Os homens podiam viver como quisessem e jamais suas esposas teriam ousadia de pedir divórcio, pois isso representaria a pecha de “desquitadas”, uma posição social abjeta. Os homens tinham a sua estabilidade matrimonial garantida e isso lhes dava alforria para serem como quisessem. Alguns, os mais depravados ou descompromissados, abusavam dessa condição porque isso não lhes afligia de nenhuma forma.

Mas veio a condição jurídica e social do divórcio e as mulheres passaram a exigir outro comportamento do seu companheiro… se não, tchau! Foi o nascimento da meritocracia matrimonial, o início da busca do êxito nas relações afetivas.

Não é à toa que nosso serviço público seja tão desprovido de efetividade. Há os abnegados e vocacionados servidores e há os que se escoram nesses. É a estabilidade e a cultura comodista do brasileiro que produzem boa parte disto.

Estagiei no Setor de Seguro Desemprego do Ministério do Trabalho. Ali havia cerca de vinte atendentes ao público que ia encaminhar o pedido de seguro desemprego. Sem exagero, cinco pessoas trabalhavam pelo setor inteiro. O resto batia ponto, tomava café e, entre uma conversa e outra, chamava alguém para atender. Na minha sala, uma das minhas colegas ficava o dia inteiro sentada lendo jornal e atendendo telefone, que tocava umas cinco vezes ao dia. Era algo que exigia muito esforço pessoal para não morrer de tédio (um dia vou contar como os estagiários desse setor resolviam os problemas de todos os gaúchos que aguardavam seguro desemprego).

No Brasil de hoje temos um grande número de profissionais de alto quilate que, para viver uma vida mais tranquila, entram nos quadros do serviço público. Ali, o ritmo mais calmo e menos cobrado do serviço tornam a busca pelo êxito, pela excelência, um ideal inatingível e, por isso, esquecido. E começa, depois disso, uma série de reclamações (muitas vezes pertinentes) para justificar a inoperância do setor.

É impossível o desenvolvimento sem o risco, sem a cobrança, sem o “colocar o meu na reta”. É impossível. Esse é só mais um dos motivos pelos quais pagamos tantos impostos e não recebemos serviços públicos satisfatórios. E isso não é culpa do servidor, pois a qualquer pessoa que estivesse nesta condição ocorreria o mesmo. Isso é cultural, é sistêmico e institucional. Para mudar, muita coisa tem de deixar de existir.

Estamos em vias de iniciar uma reforma trabalhista. Nossas leis laborais são retrógradas, paternalistas, protecionistas e antidesenvolvimentistas. Como achamos normal que alguém trabalhe 11 meses e receba 13,33 meses de trabalho? Como achamos bom existir recolhimento de FGTS com a pior taxa de remuneração do país? Como lidar com uma carga tributária de praticamente 30% sobre o faturamento? Isso é bom pra quem além dos acomodados e das corporações? Não é óbvio que seria mais interessante se receber mais e gastar menos com pinduricalhos que sustentam os acomodados de plantão?

Tenho um parente que é professor universitário no Chile. Ele trabalha nas universidades de março a dezembro. Em janeiro e fevereiro não tem aula, os alunos não precisam pagar por isso. E ele não recebe também.

Tudo que se garante em termos de Direito Trabalhista é pago pela sociedade. Por isso tudo nos é caro no Brasil. E é pago pela doméstica, pelo pedreiro, pelo zelador, pelo pintor. Pago inclusive por quem não tem o mesmo direito.

Aliás essa é uma das características do Brasil: muitas diferenças entre os trabalhadores das mais variadas categorias e setores. Nos tornarmos mais iguais nos fará mais jutos.