Knock down no governo?

É no momento de crise que se percebe como as pessoas realmente são. Nós, adultos, sabemos disso e, quanto mais velhos ficamos, mais claro é.

O governo Lula enfrentou uma pandemia que nosso Presidente, à época, chamou de “gripezinha”. Hoje Bolsonaro insiste em minimizar a covid. Isso tem um motivo evidente, que está muito além do sempre trazido debate ideológico: governantes detestam crises. Crises instabilizam e, como dito na primeira linha, escancaram quem realmente é competente ou incompetente, bom ou ruim. Há um ditado na política americana: “nunca deixe de aproveitar uma crise”, querendo incitar a oposição.

O governo Bolsonaro enfrenta, neste momento de pandemia, o ápice dos seus enfrentamentos, que nunca foram poucos. Quando Bolsonaro ganhou a eleição de 2018, ousei prever que não ficaria no governo mais de dois anos. Seria impedido, na minha previsão, porque afrontaria uma mentalidade já integrada ao cotidiano nacional, de origem nos dogmas e nas cartilhas marxistas que, infelizmente, permeiam nossa esquerda. Poderíamos ter uma esquerda social-democrata ou progressista, mas não… temos uma esquerda eminentemente marxista (principalmente nos dogmas econômicos), enfim, tema para outro debate. Minha reflexão naquela época é que o enfrentamento dos ideais liberais contra os marxistas geraria a crise política que afastaria Bolsonaro.

Errei feio. Em que pese a resistência ativa dos sindicatos, partidos políticos, setores de mídia e sociais vinculados à esquerda marxista, em 2019 se conseguiu manter uma pauta ativa de revisões e reformas tão importantes. Boa parte da população não apenas aceitou essa pauta, mas pediu e se mobilizou para defendê-la. Ainda é cedo, mas percebe-se que muitos já têm consciência da necessidade de avançarmos e deixarmos o debate ideológico deste nível para outro tempo ou lugar, quem sabe nas aulas de filosofia da USP.

Errei feio não apenas nisso. Não considerei a hipótese de o próprio Presidente ser o criador ou, na melhor das hipóteses, o fomentador da matéria prima que geraria a crise que o derrubaria.

Bolsonaro acertou em quase todas as suas nomeações porque tem boa relação pessoal com diversos setores, mas tudo que depende da política partidária e do jogo que a envolve deixa a desejar, pelo simples fato de que, nesse aspecto, ele próprio deixa a desejar. Bolsonaro tem – não é possível seja acaso – um déficit de respeito às instituições e, sem isso, não há como ser um bom enxadrista neste tabuleiro.

Essa debilidade pessoal do Presidente é evidente. Ele é autoritário e seus seguidores fiéis também o são (como era Lula e os seus. Lembre-se que Lula tentou amordaçar a imprensa, o Ministério Público, desarmou a população afrontando um plebiscito, dentre centenas de outras mudanças que nos trouxeram onde estamos. Brasileiros adoram autocratas). A sua falta de valorização das instituições trouxe este grave momento de embate pessoal contra um herói nacional que, por sua vez, foi no mínimo deselegante no desembarque do governo. Nada disso é por acaso. Ambientes interferem nas pessoas e pessoas interferem no seu ambiente.

Então respondo ao título: sim. O governo tomou um knock down. Bolsonaro vai ter de demonstrar que não quis intervir na Polícia Federal para ajudar os seus. Vai ter de enfrentar mais uma vez os interesses políticos de lados extremamente opostos. Vai ter de ceder para conquistar. Vai ter de aceitar o trilho já construído para conduzir sua locomotiva, até que tenha condição de construir seus próprios trilhos, se é que terá. Dito de outra forma: vai ter de ser mais do que o básico se quiser cumprir o que prometeu e o que se espera de um Presidente.

Conseguirá!?

Por que somos desonestos?!

O Brasil está há décadas no grupo dos países mais violentos, mais corruptos, mais desonestos e onde mais morrem pessoas no trânsito. Há décadas! Isso sem contar nossa relação permissiva com o tráfico.

Por que cargas d’água ainda não entendemos que vale a pena ser honesto?! Por que ainda não entendemos que vale a pena fazer a coisa certa?!

Recentemente estava lendo sobre a educação de superdotados. Você sabia que crianças superdotadas tendem a ter um senso de justiça apurado? A inteligência (a verdadeira) tende a produzir pessoas mais honestas.

Será que somos desonestos por burrice?!

Toda a argumentação sobre nossa colonização portuguesa e a histórica relação da corte lusa com a corrupção, vale até hoje?! Passados quase duzentos anos de independência e mais de um século de educação pública, vale até hoje a influência de nossos colonizadores?!

Já não aprendemos na escola, nos livros, nos filmes, nas conversas que não vale a pena ser desonesto e sustentar qualquer atividade criminosa?! Vamos continuar achando que a culpa é do colonizador, dos americanos, dos comunistas, dos traficantes, dos políticos?!

O que falta para o Brasil é o brasileiro decidir torná-lo um país melhor. É simples assim. Quando a maioria honesta do Brasil se tornar intolerante aos que saem da linha, o Brasil se tornará outro lugar para se viver. Depende de cada um mudar imediatamente o trato ou a permissão à desonestidade, ao descumprimento das regras e ao respeito geral. Isso passa por ser pontual, por cumprir o que combinou, por dar atenção ao que está fazendo, por ouvir antes de julgar.

Presta atenção: não há polícia, não há Estado, não há educação que mude uma nação que não se importa. Só quem nos muda somos nós e nós não mudamos os outros.

Comece em casa respeitando, seus pais ou padrasto, sua esposa e esposo, seus filhos. Se você acha que existe outro lugar para começar, então você começou mal.

A mais-valia brazuca

Marx chama de mais-valia aquilo que a foça de trabalho produz e não é remunerado pelo burguês (patrão). O brasileiro médio, seja ele operário, servidor, patrão, autônomo, agricultor ou qualquer outro que ofereça a sua força de trabalho, um serviço ou produto, desvirtuou o conceito marxista e estabeleceu uma nova forma de remunerar-se, um verdadeiro ágio que nos atinge de diversas formas.

Veja o vendedor de veículos, por exemplo. Ele não é remunerado apenas pela atividade de compra e venda de veículos. Ele ganha (e muito bem) a cada financiamento que realiza, pois a financeira o remunera por isso. Quem paga?

E a administradora de condomínio… ela cobra uma taxa dos seus serviços, mas costuma ganhar por cada contratação de prestadores para o condomínio. Quem paga?

Veja os serviços públicos. Educação, saúde e segurança, que são aqueles indispensáveis, acabam por ser uma parcela menor dos gastos orçamentários estatais. Para manter o sistema, pagamos altos salários a auditores, magistrados, procuradores, diretores, consultores, governantes, legisladores, etc. Quem paga?

Vá no banco pedir um empréstimo e um seguro ou título de capitalização lhe será empurrado através de venda casada (proibida por lei). Isso que nossas taxas de juros são as maiores do mundo.

Quase tudo em nosso país poderia ser mais barato se custasse apenas o que se quer. Quase sempre pagamos por algo mais, que não temos a oportunidade de dispensar.

Quem estuda em universidades públicas, às vezes com doutorados e bolsas de pesquisas com verbas estatais, costuma buscar grandes cargos em postos de alta remuneração. Legítimo. Mas como retribuir ao seu país o que todos pagaram para que fosse conquistado? Quem pagou? Quem se beneficiará?

O Brasil é um país rico e seria seu povo igualmente rico se tivéssemos construído uma escala de valores menos egoísta, menos avarenta, mais humana, ética e altruísta. Mas chegaremos lá, pois não há ignorância que dure para sempre.

Imprensa Polarizada

Confesso que estou surpreso com o tipo de comentários a que reduzimos nosso debate. Não é só em política. É sobre a sociedade, sobre relações humanas, sobre economia. Sobre criminalidade. Sobre casamento e comportamento.

Ao escolhermos ressuscitar a Guerra Fria criamos um problema difícil de resolver. Porque, afinal, já estivemos nesse período e o resultado dele é estarmos onde estamos. Ainda assim as pessoas estão divididas entre os anti-comunistas e os anti-fascistas (como há cem anos!), com suas razões plausíveis e com suas paranoias, criticando pela diferença de bandeira e não porque a reflexão assim determina. Tudo ficou polarizado e a imprensa não seria alienada deste fenômeno, inclusive com as leviandades que disso resultam.

Vejamos que se estivéssemos debatendo valores independente de ideologias e divisões de que natureza fossem, os problemas talvez estivessem em vias de serem efetivamente enfrentados. A coisa de ficarmos discutindo apenas ideologias nos fez deixar o debate reflexivo de lado e tudo que se produz são arrazoados mais ou menos inteligentes sobre os valores que não foram estabelecidos. Assim, quando um negro ativista é assassinado existe um tipo de reação diferente de quando um negro não ativista o é. Quando uma decisão administrativa produz um resultado, dependendo de quem a produziu tem-se uma aceitação ou rejeição. Veja que se defende há décadas no Brasil que não se reaja a investida de criminosos, mas quando uma mulher foi barbaramente espancada pelo marido se bradou que faltou quem a defendesse. Ora, falta que nos defendamos de tudo no Brasil! Nos tornamos bananas, ovelhas a espera do abate. E assim seguimos cavando trincheiras que interessam a quem quer manter a guerra… e essa guerra é ideológica.

O Brasil caminha para um governo de direita depois de Getúlio Vargas, o último dessa linha efetivamente (ainda que Collor assim fosse classificado, pouco fez nesse sentido). Getúlio era um quase fascista, simpatizante do nazismo e opositor do imperialismo americano por ser nacionalista. Ele criou diversas garantias legais a trabalhadores, criminosos, sindicatos, pautas que hoje seriam defendidas por outro espectro ideológico. Ainda assim, se aliou ao Ocidente na Grande Guerra porque os valores envolvidos assim determinaram. Era coerente, correto, necessário.

Hoje lemos, vemos e ouvimos incessantes artigos e reportagens absurdamente parciais. Parecem resultado de jornalistas educados sem entender que toda parcialidade histórica imprescinde de valores que a determinem, sob pena de tornarem-se propaganda e só isso. Os jornalistas se tornaram entregadores de argumentos dos ideólogos, como uma espécie de panfleteiros. Deixaram de olhar os fatos como tal e de analisar os argumentos com imparcialidade. É intolerável tudo em nossos dias, mas ser parcial e incoerente não.

Parte da imprensa critica aqueles que se identificam com os valores do imperialismo americano com argumentos que serviriam perfeitamente para aqueles que se identificam com os valores do imperialismo marxista. Fazem isso porque nos reduzimos a debatedores irreflexivos e esse nível de debate está nas salas de aula, nas mesas de bar, nas redes sociais.

A imprensa tem um papel indispensável na efetivação da democracia e da liberdade. Todo governo que cogita limitar a imprensa age contra a liberdade de pensamento, que é a primeira e mais importante das liberdades.

Que surjam jornalistas mais imparciais, mais conhecedores da história e mais preocupados em resolver isso que está posto e não apenas aptos a propagar esses rasos valores que mantém isso que está aí.

 

 

O que é fazer o certo?!

Imagine que você está numa rodovia com duas pistas. A velocidade máxima é 100km/h. Na pista da esquerda está um veículo a 80km/h. Você pede passagem e nada. Você insiste e nada. Se formos formalistas e radicalmente legalistas, sabemos que não podemos ultrapassar este veículo pela direita. Então vem a dúvida: você simplesmente ultrapassa pela direita ou você fica atrás deste veículo até que ele permita a ultrapassagem?
Fazer o certo sempre depende do contexto. Aquele que resume o julgamento dos outros por um simples evento (como ultrapassar pela direita, neste caso) está apto a cometer injustiças.
O certo depende do que lhe precede e do que lhe sucede.
Se no caso apresentado optarmos por ultrapassar pela direita e colidirmos com um terceiro veículo que já vinha na pista da direita e se preparava para ultrapassar-nos teremos um novo contexto a ser analisado.
Se, pelo contrário, optarmos por ultrapassar o veículo pela direita e formos adiante sem nenhum outro evento, estará tudo ok e concluiremos que agimos corretamente.
E se, por acaso, optarmos pela via formalista e ficarmos atrás do veículo até nosso destino?! Bem, temos de aceitar que nossa vida estará sendo submetida a uma vontade injusta de terceiros. Algumas pessoas preferem essa via por conforto, por covardia ou mesmo por insegurança.
Não hesito em dizer que eu simplesmente faria a ultrapassagem pela direita e buzinaria para o motorista turrão da frente. Isso porque entendo que a vida é feita de regras, mas não só delas; é feita de intenções, mas não só delas; é feita de resultados, mas não só deles; e é feita de decisões e consequências, essas sim sempre necessárias.