Bird Box

Se você não viu ainda Bird Box (na Netflix) para por aqui.

O suicídio é um assunto difícil. Ele é resultado de fatos distintos, de somatórios emocionais, que tendem a produzir a mesma coisa: depressão.

Depressão é o mal do século. É uma epidemia. Contagiosa, poderosa, reincidente, que ataca os fortes e os fracos.

Bird Box simboliza de forma interessante a ideia de que, para parar de sofrer, você precisa parar de olhar as coisas que trazem sofrimento. Parar de olhar, mas não parar de enfrentar. E precisa aprender a sentir, sem olhar, sem focar no que já sabe que lhe trará a dor. Precisa, portanto, reaprender a viver com outros sentidos, com outras referências.

A casa dos meus pais foi construída sobre um terreno tido como amaldiçoado, porque nele um senhor se enforcou há umas cinco décadas. Penso que naqueles tempos se tinha o suicídio como uma forma de covardia para enfrentar os problemas da vida. Talvez até seja…

Mas afinal quem não sente-se covarde vez ou outra?! Quem não pensa em desistir quando o sofrimento é gigantesco?!

A vida, quanto mais passa, mais traz sofrimentos. E, felizmente, mais ensina a vencê-los. Nem sempre conseguimos arrecadar os ingredientes que nos fortalecem porque eles não são palpáveis. Não seriam detectados por São Tomé. “Eis o meu segredo”, disse o Pequeno Príncipe: “só se vê bem com o coração. O essencial é imperceptível aos olhos”.

A felicidade – ou ao menos a vacina contra o sofrimento – depende de uma construção interna, de um aprimoramento afetivo interior. É objeto de estudo milenar das religiões e da filosofia. Não é à toa que, num tempo em que se desistiu do debate sobre o divino e sobre a elevação do ser a algo transcendente à matéria, a depressão tenha se instalado epidemicamente.

A vida humana é mais do que os olhos veem. Ainda que tentemos nos reduzir a debates e ideias, somos sentimento. Somos espírito, seja este corpo imaterial do jeito que você puder entendê-lo e aceitá-lo.

Então Bird Box traz, de uma maneira (digamos…) moderna, a ideia de que a salvação depende do que sentimos e das nossas ações para combater o sofrimento que costuma estar ao nosso redor. Se nos desfocarmos desse sofrimento redundante, se optarmos por enfrentar a vida sem nos atentarmos ao que nos traz dor, nossa vida seguirá. Seguiremos.

Nada nesse debate é novo. Tudo isso sempre esteve em pauta. Apenas abandonamos o debate e, como resultado, sofremos. Buda ensinou que a vida é sofrimento. E continuou: o sofrimento tem causa; mas ele um dia acaba; existe um caminho para isso.

Quando acreditamos que há algo além do que conseguimos ver mudamos nossa vida. Bird Box, de uma forma até juvenil, conseguiu dizer isso a nossa geração incipiente.

 

Anúncios