Você sabe onde estoura uma greve?

Você sade onde estoura uma greve? A quem ela prejudica? Quem depende daquilo que deixa de funcionar?

Você sabe qual correspondência deixou de chegar, qual exame médico terá de ser adiado, qual produto faltante adiará a conclusão de um trabalho?

Você sabe como vai se distribuir o leite do tacho, a carne já abatida, o tomate já colhido?

Você sabe como a auxiliar de enfermagem vai fazer para chegar ao hospital? E como ela fará para levar sua mãe doente ao hospital?

Você sabe o que o aluno aprenderá nesse dia?

Você sabe como o dono da padaria fará para compensar o dia sem faturamento no cumprimento das suas obrigações com aluguel e tudo mais?

Você sabe se o agente que causa o dano aos manifestantes está sofrendo com a greve como toda a sociedade sofre?

Você acha que ainda vivemos no Século XIX em que não havia nenhuma outra forma de reivindicar direitos que sequer existiam?

Você acha que a maioria das pessoas pode ficar sem trabalhar sem nenhum tipo de dano nas suas vidas? O agricultor, o marceneiro, o padeiro, o açougueiro, o pedreiro, o mecânico, a diarista?

Você acha que greve resolve problemas que não são resolvidos com trabalho, estudo e negociação?

A greve é um ato terrorista contra a sociedade, contra os pequenos, contra os produtivos. Ela não atinge governos, nem megacorporações. Apenas fortalece sindicatos, movimentos partidários e as pessoas que vivem dessa cultura vitimizada.

No mundo real, esse em que manifestações são menos importantes do que efetividades, as pessoas que não trabalham perdem, sofrem, têm danos irreversíveis.

Quem luta por direitos desrespeitando os direitos alheios é infantil. É como a criança que, para pegar o brinquedo, não olha nada além da sua vontade. Eis o que é a cultura da greve: uma infantilidade terrorista contra todos nós que produzimos e dependemos uns dos outros.

 

 

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“Estamos lutando por nossos direitos”

Tenho um filho de quatorze anos que pede regularmente de tudo que se possa imaginar. Tem muita coisa que ele me pede que gostaria realmente de poder lhe dar. Noutras vejo seu devaneio juvenil, sua imaturidade e falta de senso de realidade, compreensível na sua idade.

Quando eu era adolescente também pedia algumas coisas aos meus pais que não ganhava. Não era lá muito a minha ficar pedindo, mas tinha duas ou três coisas em que eu era bastante repetitivo e persistente. Uma delas, em especial, consegui. Nós jovens temos tempo pra lutar por nossos direitos.

Hoje os jovens tem ainda mais tempo. Comecei a trabalhar com quatorze anos, mas hoje só se pode depois dos dezesseis. “Jovem tem é de ir pra escola”. Ok. Foi assim comigo também. Seis meses antes de fazer vestibular, aos dezesseis, parei de trabalhar e fui prum cursinho (aliás, onde aprendi 60% da matéria, pois minha escola era muito ruim).

Ei fico aqui pensando se existisse na minha época esses movimentos de protesto, o que eu faria… “Estamos lutando por nossos direitos”. É direito dos jovens estudar? Sim. Com qualidade? Claro. E é direito deles se divertirem? Sim. E não trabalhar antes dos dezesseis? Com certeza, direito constitucional.

Puxa, mas eu fui um jovem violentado pela sociedade e pelo sistema. Fui humilhado, tendo de trabalhar desde os quatorze anos para ajudar meu pai. Fui submetido a uma escola pública opressora da minha enorme capacidade latente, que não conseguiu sequer me repassar o conteúdo básico de vestibular, muito menos fazer com que eu o aprendesse.

Como meus pais me deixaram passar por tamanha opressão e constrangimento?! São pais irresponsáveis, permissivos, tolerantes com as mazelas desse sistema opressor e limitador de capacidades.

Absurdo.

Me formei aos vinte um anos. Esse sistema realmente explora a juventude. Como é possível permitirem que um jovem em tão tenra idade tenha de assumir uma profissão graduada!?

Que país explorador da juventude esse.

Ainda bem que hoje temos jovens que não aceitam isso tudo. Trancam ruas, ocupam escolas, põe fogo em pneus. Estão lá lutando pelos seus direitos. Não se submetem a esse mundo capitalista que exige esforço e trabalho do operário para sustentar o patrão explorador, que paga impostos, dá emprego e produz apenas para explorar as pessoas porque é um ser humano desprezível, egoísta e nefasto. Patrão nasceu para ser mau. Porco-capitalista!

Esses jovens têm futuro garantido na política. Representam milhões de indignados com essa absurda exploração da sociedade.

Esses jovens de hoje são bem diferentes daqueles meus amigos pobres que tinham de trabalhar de dia e estudar de noite. Que moravam em casas simples, criados só pela mãe. Iam na missa de domingo e jogavam bola no campinho que nós mesmos fazíamos em terrenos baldios, até que fossem vendidos e tivéssemos que fazer novo campo em outro lugar. Esses meus amigos, quase todos, hoje homens maduros, vivendo na classe média, criando seus filhos e levando a vida.

Que absurdo! Como puderam vencer tamanha opressão.

Ainda bem que o nosso futuro, com essa juventude indignada, politizada e mobilizada, está garantido.

 

 

 

Ocupação nas Escolas

Eu estudava no terceiro ano do ensino médio quando o Collares (governador gaúcho de 1991 a 1994) implantou o maldito “calendário rotativo”. Era janeiro, verão gaúcho beirando os 40°C, e nós em sala de aula. Aula sem ventilador, com janelas lado leste. Minha escola era considerada das melhores do ensino público técnico, mas era muito, mas muito… mas muito abaixo da qualidade que eu gostaria que fosse. A qualidade era tão ruim que me permitia gazear aula, não estudar pras provas e passar por média, fácil fácil.

Nunca fui de colar, sempre gostei de ler, mas o que eu mais gostava na escola eram os jogos de vôlei. Ah… o vôlei do Protásio era muito bom. E meu colégio ficava ao lado do Tesourinha, que é o ginásio público de Porto Alegre. Então era comum sairmos da aula e ir ver os times de vôlei local treinar.

Eu morava em Viamão, a 20km da escola. Trabalhava numa banca de revistas à tarde a partir das 13h30min, no Centro de Viamão, que fica a 30km da escola. Saia literalmente correndo da aula às 11h45min – porque a minha parada de ônibus ficava a 1km – para chegar em casa às 12h45min e sair às 12h55min pro trabalho. Se eu perdesse o ônibus que passava às 11h50min esculhambava todo esse ciclo. Mas normalmente eu adorava tudo isso.

Em 1991 era época do Collor. Collor foi o primeiro presidente eleito pós regime militar, um empresário de direita que não tinha o menor interesse em fazer um governo de coalizão. Fui cara-pintada. Participei de algumas manifestações e quem participa dessas manifestações, mesmo com 16 anos, têm noção de que a gandaia é muito maior do que o envolvimento político efetivo. Claro que não se vai admitir isso, né!

Enfim, quis dizer que me achava politicamente consciente, envolvido. Tanto que com 17 anos comecei a participar do Partido dos Trabalhadores.

Não existe a menor possibilidade de um diálogo político que não seja de esquerda na escola pública. Não existe a menor possibilidade de se apresentar soluções que demandem participação privada ou empresarial, muito menos de se debater ideais libertários ou progressistas. Não se cogita que o estudo público possa ser cobrado, mesmo que em valores irrisórios de quem puder – eu disse de quem puder – pagar. Quando adulto, criei o Projeto Cresço para apresentar esse debate nas escolas públicas. Funcionou otimamente por três anos até o governo do PT de Viamão descobrir e proibir nosso trabalho. Hoje são contra o “escola sem partido” (também sou), mas na prática só aceitam discutir na escola o que seu partido manda.

A escola pública é formadora ideológica, nos dias atuais, como foi a escola católica nos séculos XVIII e XIX. O esquerdismo marxista aprendeu que é assim que se forma uma cultura. E isso tem dado absolutamente certo na América Latina, ao menos do ponto de vista ideológico.

Do ponto de vista educacional é péssimo (ao contrário do que aconteceu com as escolas católicas referidas). O aluno se acostuma com uma mentalidade rasteira, reivindicatória, onde a responsabilidade é sempre do Estado e o vilão é sempre a iniciativa privada. Estudar é algo que se torna menor na escola. O mais importante é a frequência, são as amizades, é o canudo.

Ocupação de escola é a falência da mentalidade progressista. É o atestado de que a única forma que se conhece de produzir algo, no Brasil, é fazendo protesto para que os políticos façam algo, porque se depender de atitudes efetivas, morrem de fome. São os eternos adolescentes que, crescidos, se tornam dependentes do Estado ou do sindicato.

Querem melhorar a educação, gurizada!? Estudem. Aí no teu celular tem mais informação do que todas as gerações anteriores tiveram acesso em todas as bibliotecas do Brasil. Se tu não tem acesso à internet no teu celular, procura empresários que queiram bancar a internet na tua escola, tu vai achar. Com acesso à internet, vocês podem enriquecer as aulas, os debates científicos, os gráficos e os mapas de geografia, as formações moleculares da química, as fotos dos seres mais sinistros em biologia.

Criançada, vocês estão perdendo um tempo valioso discutindo política. Vocês não sabem ainda, mas vocês não estão prontos pra esse debate. Essa época da vida é a época de descobrir o mundo, de conhecer a história, de dominar as línguas, de aprender a raciocinar. Vocês estão jogando no lixo um tempo que não volta. E o aluno da rede privada está fazendo a parte dele. Daqui a 30 anos vocês vão estar na rua protestado para aumentar o teu salário ou o imposto que o aluno da rede privada vai ter de pagar através da sua empresa que gera emprego, sustenta o Estado e produz.

Querem debate social pertinente à juventude? Debatam os efeitos da maconha na adolescência. Debatam os efeitos do tráfico na sociedade. Debatam o aborto, a pena de morte, a laicidade, a sexualidade na adolescência. Debatam em sala de aula, não na rua, não com ocupação.

Ocupação de escola, gurizada, é coisa de guri mimado.

Agora aos professores que apoiam a ocupação: vocês deviam ter vergonha de incentivar esse tipo de demanda. O Estado remunera mal, dá poucos recursos materiais. Sabemos. O Estado falha em quase tudo que faz. Mas não é esse tipo de atitude que vai mudar essa realidade, professor. Ensina teu aluno a resolver seus problemas se preparando intelectualmente, se capacitando, debatendo. Ensina teu aluno a sonhar sonhos de grandeza, de cura, de soluções. Mostra pra eles como usar as ferramentas que eles dispõe na palma da mão, mostra as fontes mais interessantes da tua disciplina na internet, apresenta tuas aulas no Youtube para teu aluno rever em casa. Se não sabe ensinar isso, professor, pede pra sair. Tu não nasceu pra ensinar. Para de ensinar esse pensamento rasteiro que mantém a América Latina na latrina do mundo.

A vida tem ciclos: nascemos, aprendemos, trabalhamos, ensinamos, cuidamos, olhamos, morremos. Respeitem a fase educacional da vida dos seus alunos. Não quero que meus filhos nem os filhos de ninguém tenham de sustentar o mimimismo de quem foi ensinado a sentar e chorar até ganhar papá.

Por que greve?!

Imagina que você está numa relação amorosa onde deposita todos os seus melhores sentimentos e atitudes em prol do outro(a), mas não recebe o mesmo… passam-se meses, anos e você ali, com a mesma atenção e zelo, o mesmo carinho… vai acabar isso, não vai?!

Agora imagina que, para manter-se na relação e pedir valorização, você comece a fazer birra, dizer que não vai mais dar beijo nem carinho, depois não vai mais conversar, até dizer que vai se matar se o relacionamento acabar. Tem alguma chance disso se tornar uma relação boa pros dois lados?!

Pensa que você ama demais essa pessoa, mas um dia você percebe que o relacionamento de vocês não tem chance de fazê-los felizes, porque vocês querem coisas distintas, são diferentes demais nos seus propósitos, modo de ser, nas expectativas. É triste, mas com bastante reflexão e maturidade resolvem se separar e tentar um novo relacionamento quando a vida assim permitir…

A relação entre empregador e empregado não é diferente.

Patrão e empregado querem o mesmo (ou deveriam): que a empresa cresça, que tenha clientes, que ganhe muito dinheiro, que prospere e dê uma vida confortável e justa aos seus colaboradores e atenda adequadamente seus clientes. Quando um dos dos lados não está sendo respeitado pelo outro algo está errado. Talvez aquele não seja o melhor patrão para você. Talvez aquele não seja o melhor colega para atingir seus objetivos pessoais e profissionais. Talvez você esteja precisando de mais coragem para ir adiante, buscar quem lhe respeita, quem vai valorizar toda a capacidade profissional e os valores que você tem.

Claro que, eventualmente, não haverá outra saída a uma demanda profissional que não seja a reivindicação através de greve. Mas não tem outra forma de fazer isso?! Penso rápido em outras formas de reivindicar melhorias salariais e outras demandas:

(1) reduzir a jornada em 2h diárias e, depois do expediente, ir protestar em frente à sede do empregador;

(2) apresentar um projeto de aumento de produção vinculado ao aumento de rendimentos aos empregados;

(3) fazer uma operação padrão mostrando que, se mudasse X ou Y na atividade, se ganharia tempo/produtividade/eficácia;

(4) fazer uma campanha com os clientes para que entrassem em contato com o empregador através da plataforma Z e dissessem se acham válido a demanda por A ou B direitos.

Greve é um instrumento do Século XIX, quando não haviam sequer direitos trabalhistas, quando a polícia matava quem se negava a trabalhar 14h por dia. Greve é um desrespeito ao direito de um sem fim de pessoas que precisam dos serviços paralisados. E afeta eminentemente a população mais pobre, pois evidentemente os mais abonados e afortunados têm meios de resolver seus problemas de outras formas.

Greve é, nos dias atuais, uma forma de terrorismo light. Se explode o direito dos outros para pleitear o que se acha correto para si. E se espera apoio?!

Nós precisamos adequar nossa mentalidade ao Século XXI não apenas quanto às relações amorosas, quanto ao respeito à natureza, quanto às demandas sociais… passou da hora.