Revolucionário

“Se hay gobierno soy contra” disse o médico e revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Por um bom tempo este foi o parâmetro do que é ser revolucionário, especialmente porque o mundo era binário políticamente e parecia que, se estivéssemos submetidos a um dos polos, o outro era a melhor opção.

É verdade que os revolucionários da História tiveram a mesma postura quando falamos em revoluções sociais e políticas (porque existem outras formas de revolucionar). Foi assim na insurgência judaica contra o Império Romano, foi assim na Revolução Francesa, foi assim nos levantes tribais contra o Império Asteca e foi assim nas incontáveis disputas das periferias contra seus governos em quase todos os tempos e continentes. Erramos ao fazer parecer que o eurocentrismo é o problema, pois o mundo foi e é maior que os nossos enfrentamentos.

Os revolucionários sempre se acharam inovadores sem considerar que as revoluções tendem a mudar as personagens mais do que mudar o sistema. A humanidade tem um processo histórico-evolutivo evidente, onde as mudanças não se dão de acordo com a vontade de uma elite ou de uma minoria, tampouco no ritmo de um grupo ou de uma ideologia. Guerras, revoltas, insurgências podem ser necessárias sim. A paz é uma conquista e um privilégio de quem a construiu, não de quem se omite. Mas achar que viver em constante conflito é algo produtivo é digno dos jovens e dos incautos.

Nós, professores de História, devemos sempre enfatizar que o processo histórico de melhoria da sociedade nasce da melhoria individual de alguém que servirá de referência. Devemos ensinar que pouco há de novo em cada período histórico e que são justamente as novidades que modificam tais períodos e, ainda assim, muito lentamente tais modificações vão se elaborando e atingindo outros para, enfim, tornarem-se o germe de uma nova etapa humana. Veja que o ser humano individualmente continua muito próximo do que sempre foi, porque, num mesmo lugar e numa mesma época, existem pessoas com a mentalidade de 1000 anos atrás e outras com mentalidade de 1000 anos à frente. E isso não muda!

Revolucionário é mudar o mundo a partir de si, como ensinou Gandhi. O quanto se impõe disso aos outros, bem… isso é outra coisa.

Independência

A Princesa Maria Leopoldina nasceu na Áustria em 1797, na nobilíssima família dos Habsburgos. Lá era arquiduquesa, filha do imperador Francisco. Casou-se com Dom Pedro por procuração em Viena, em 1817. Era uma mulher culta, fluente em quatro ou cinco idiomas, admiradora das ciências naturais e comprometida com os valores que as famílias reais de sua época dispunham, dentre os quais a religiosidade, a fidelidade e a família.

Diz-se que Leopoldina sempre fora apaixonada por Pedro até morrer, em 1826. Essa paixão começou antes mesmo do convite de casamento, que foi providenciado pelo embaixador brasileiro através de um séquito com dezenas de carruagens que circularam por Viena para o cortejo. Naquela época Portugal era uma das potências mundiais e a união das famílias dos Habsburgos com os Bragança representava um imponente comprometimento internacional.

Pois é impossível falarmos da Independência do Brasil sem falar da Princesa Leopoldina: foi ela, em 02 de setembro de 1822, quem assinou o Decreto de Independência, com a influência e o apoio do Conselheiro Real José Bonifácio. A Princesa estava exercendo a regência governamental do país desde 13 de agosto, quando Pedro fora para São Paulo sob a justificativa oficial de lidar com turbulências políticas regionais. Sendo uma governante habilidosa no trato humano, era respeitada e profundamente integrada aos assuntos de interesse político e administrativo do Brasil. Percebendo que os movimentos imperiais portugueses de revide ao crescente levante republicano e de independência que ocorriam por aqui levariam Portugal a intervir mais violentamente na política brasileira, Leopoldina foi advertida pelo Conselho de Estado de que não havia mais tempo a se esperar para a separação com Portugal. Havia o risco iminente de o Brasil tornar-se um campo de batalhas regionais em busca de independência para a formação de repúblicas, como ocorrera na América espanhola, o que não só fracionaria o Brasil, mas colocaria uns contra os outros na delimitação de territórios e na formação de governos locais.

A Princesa assina, assim, o Decreto e manda um mensageiro procurar por Pedro em São Paulo, informando a decisão do Conselho de Estado e sugerindo que ele providenciasse a Proclamação da Independência publicamente.

No dia 7 de setembro a mensagem chega ao conhecimento do Príncipe Regente às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Pedro encontrava-se amolado com uma indisposição intestinal e, sem o glamour que muito tentou-se dar ao ato, montado provavelmente em uma mula (tipo de montaria que se usava nas viagens daquela região) e acompanhado de uma guarda formada por apoiadores e admiradores da monarquia (longe de ser os Dragões da Independência que hoje conhecemos), Pedro declara a independência do Brasil e devolve a mensagem para que fossem tomadas as providências oficiais pertinentes.

A Independência do Brasil naquele momento torna-se um dos motivos pelos quais nos mantivemos unidos como país, sem o fracionamento do território de acordo com os interesses regionais, principalmente porque a monarquia é mantida. Uma coisa sustentou a outra. Se mantivéssemos o vínculo com Portugal, certamente os movimentos republicanos de cada região teriam se insurgido contra o governo central.

Leopoldina torna-se rainha no mesmo ano. Com Pedro teve sete filhos, sendo que os dois meninos mais velhos morreram nos primeiros anos de vida, repetindo uma sina comum aos Bragança. O seu filho mais novo, Pedro, tornou-se o segundo imperador brasileiro (adquirindo muito dos valores e do comportamento da mãe).

A Imperatriz Leopoldina faleceu no final de 1826, louca e depressiva. A causa seria resultado de anos de desgostos matrimoniais causados pelos casos públicos de infidelidade do marido. Leopoldina ressentia-se pela dedicação dada ao marido, à família e ao Brasil, sem o respeito do Imperador. Sua morte foi motivo de comoção nacional e de indignação, pois a população da capital conhecia os motivos do sofrimento da amada matriarca da independência.