O que o marxismo acertou?

O marxismo é uma ideologia filosófico-sociológica de crítica à sociedade capitalista, baseada em diversos pilares importantes. Começo, assim, respondendo a pergunta formulada no título dizendo que o marxismo muito acertou no diagnóstico social do seu tempo, criando elementos de análise então inéditos e precisos sobre a sociedade, especialmente a sociedade alemã de início e meados do Séc. XIX. Estes elementos são basicamente os seguintes:

  • classes sociais: Marx bem entendeu que a sociedade é constituída por classes sociais, basicamente dividida entre aqueles que detém os meios de produção (o capital) – sejam terras, indústrias, fábricas ou empresas de serviços – e aqueles que trabalham nos meios de produção (o proletariado).
  • infraestrutura: é a base produtiva material da sociedade;
  • superestrutura: é a base extra-material da sociedade, basicamente a esfera política, a ideológica e a jurídica. Estes são os elementos determinantes do Estado.
  • para Marx a superestrutura representa a infraestrutura e reproduz os mesmos valores, virtudes e defeitos.

O marxismo acertou na elaboração destes conceitos, trazendo uma nova forma de analisar a sociedade até então inexistente. Contudo já ultrapassamos diversas etapas do primitivismo capitalista que não foram previstas por Marx, bem como foram socialmente elaboradas e vem sendo superadas pelo aperfeiçoamento social.

Marx viveu numa época em que a burguesia ainda representava basicamente a mesma sucessão familiar dos meios de poder que sempre existiram na história humana. O burguês daquele capitalismo primitivo era pouco diferente do nobre das eras anteriores, transferindo aos seus herdeiros os meios de produção como o nobre transmitia aos seus herdeiros terras e títulos. Naquele contexto histórico-social não existia possibilidade de uma pessoa nascida em uma classe social proletária ascender e adquirir meios de produção como terras ou fábricas (o que, mesmo naquela época é questionável, embora compreensível). Nos nossos dias é sabido que essa ascensão social é plenamente possível, pois a sociedade é altamente complexa em seus modelos produtivos, permitindo que se modifique a classe social de nascimento de diversas maneiras.

Outro elemento superado na teoria marxista diz respeito ao seu caráter excessivamente materialista, de onde decorre que a ideia de que se distribuindo renda ou meios de produção se geraria igualdade. A igualdade, sabemos hoje, decorre muito mais de elementos mentais e dos valores de uma sociedade. Nos nossos dias vemos evidente que, mesmo se dividíssemos os meios de produção em partes iguais entre todos os seres, certamente passado algum tempo restaria mantida a diferença social entre uns e outros, decorrente dos seus valores, capacidades e interesses.

Para Marx caberia ao Estado administrar estes elementos para promover uma sociedade mais justa e, aqui, novamente erra o marxismo. Acreditava que se o Estado administrasse os meios de produção não haveria como o burguês impor-se sobre os proletários. A história mostrou que quando o Estado substitui os meios de produção e usa a superestrutura para impor tais valores, aqueles que detém o governo tornam-se passíveis de cometerem ainda mais abusos do que a burguesia, pois frente ao monopólio do poder estatal apenas a revolução ou a mudança de sistema de governo pode se impor. Lembremo-nos de que a burguesia não é um grupo coeso, impositivo e fechado como avaliou Marx nos seus dias.

Hoje a perspectiva marxista é evidentemente ultrapassada. Em que pese tenha Marx muito colaborado com suas reflexões sobre a sociedade e seus elementos de formação e manutenção, o liberalismo tornou o mundo muito diferente e permitiu contemplarmos a superação de tal narrativa pela realidade imposta ao longo da Guerra Fria.

A China espelha uma reflexão moderna sobre a melhor tentativa de impor-se uma sociedade de valores marxistas.

Já o capitalismo é o sistema presente entre todos os países industrializados e considerados de primeiro mundo, tendo cada um construído sua trajetória de forma distinta.

Negacionismo

A negação da realidade não é um privilégio dos nossos tempos. Infelizmente (ou felizmente). Também não é algo que se limite a um grupo ou a uma região, tampouco a um contexto social ou político. Infelizmente.

Negar a realidade é uma consequência da imaturidade. É uma disfunção de forças entre o que se vê (ou se entende) e o que se gostaria de ver (ou de entender). Num mundo onde muito do que se acredita não é paupável e decorre unicamente de palavras e discursos ou de afirmações de terceiros, a realidade torna-se efetivamente difícil de ser compreendida.

Imagine que um cientista diga que usar máscaras é potencialmente bom contra a covid 19 e outro diga que é inócuo, mas prejudicial por outros motivos. Cada um apresenta sua tese com fundamentos técnicos que nós, inaptos, não podemos valorar adequadamente. Em quem acreditar? Provavelmente se escolherá uma das duas soluções: (1) a tese com maior número de adeptos, o que tornaria a ciência uma espécie de sufrágio, ou (2) a que nos confortar melhor. Veja que aqui também, como em quase tudo a nossa volta, há uma opção entre o pessoal e o social, entre melhorar-se pessoalmente para entender e assimilar o que os outros entendem.

Quando o Renascimento trouxe a ideia de que a razão (e a ciência) resolveriam os problemas da humanidade, deixou de considerar que a ciência (por ser humana) tem limites humanos. Numa sociedade orgulhosa, a ciência se envaidecerá. Numa sociedade avarenta ela se venderá. Numa sociedade ideologizada se ideologizará. E por aí vai… A razão é insuficiente para a humanidade, está claro. Ela não é absoluta como se gostaria e isso muda a sua utilidade. Em que pese proporcionar melhoria significativa no aspecto material, ela depende, para produzir efeitos benéficos internamente em cada um de nós, de valores morais e de estabilidade emocional. É uma das bases deste tripé.

Há quem acredite que o negacionismo seja um reflexo da falta de educação. Outros da falta de estrutura emocional resultante da fragilidade familiar dos nossos tempos. Alguns pensam que negacionistas são optantes de uma corrente.

Negacionistas são imaturos, já o afirmamos. Contudo a imaturidade não é um elemento absoluto e inflexível. Podemos ser maduros emocionalmente e imaturos musicalmente e, diante disso, negar a genialidade de Mozart, simplesmente não gostar de música erudita. É certo? Pra mim não. E pra você?

Ideologia ou Corporativismo?

Não gosto da palavra ideologia para se referir a um conjunto de ideias políticos-ideológicas-sociais. Deveria ser filosofia, pronto. Como são as demais proposições filosóficas. Contudo, é palavra corrente e dela nos valemos.

O mundo é regido por valores pessoais que desenvolvem ideias. As ideias podem alterar tais valores, mas elas são posteriores a eles e dependem, para alterá-los, de pessoas mais amadurecidas. Então como regra as ideias representam os valores dos agentes que as produzem.

Quando comparamos, por exemplo, a ideologia fascista com nosso tempo a vemos como um flagrante absurdo: raça superior, intolerância às deficiências, estratificação social forçada e por aí vai. Não parece evidente que são valores transformados em ideias?!

Mesmo no marxismo que com todos os seus erros e acertos é uma ideologia mais útil, se vê a elaboração (complexa e bem fundamentada) dos valores de um homem materialista, que não conseguiu jamais cultivar boas relações familiares e viveu exclusivamente de propor ideias, jamais de exercê-las.

Vejam: as ideologias (como as religiões) são fruto dos valores das pessoas que as criam e com elas se identificam. Por isso, costumam ter os limites pessoais dos agentes envolvidos. Não raro, há mesmo um distanciamento entre o que o seu criador propôs e o que seus seguidores vivem (vide o cristianismo), justamente porque os limites e os valores pessoais envolvidos são lentes que distorcem o debate.

Num mundo institucionalizado como o nosso fica cada vez mais claro que as afinidades ideológicas dizem mais respeito às corporações a que estamos integrados do que aos ideais de transformação pessoal ou social. Na verdade, poucos dos “soldados da guerra ideológica” são mais do que meros soldados. A maioria é reprodutor, com maior ou menor complexidade de ideias, de uma defesa dos seus interesses pessoais. A guerra ideológica do nosso tempo seria menor se fizessem terapia, se as pessoas e as corporações buscassem melhorarem-se antes de exigirem que o mundo e os outros melhorem.