A interiorização necessária

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Dos lugares mais bonitos que já passei está o litoral norte gaúcho, onde vivo há pouco tempo. É uma planície de alguns poucos quilômetros entre o mar e a serra do mar, repleta de vegetação que, especialmente no outono, fica espetacularmente linda. Na maioria são pequenos municípios e os maiores contam apenas com algumas dezenas de milhares de habitantes. Ainda se cumprimentam os vizinhos na rua, ainda se vê alunos com brincadeiras ingênuas nas escolas e ainda se sente espanto com as coisas que se vê na televisão.

Recentemente uma vizinha do meu condomínio, ela moradora de Porto Alegre, veio a Capão da Canoa e foi assaltada no salão de beleza. No mesmo dia ela voltou à capital assustada. Foi refugiar-se onde se sente segura (?!). O detalhe é que o assaltante foi preso pouco depois pela polícia, como normalmente acontece por aqui. Aqui a polícia tem mais condição de enfrentar uma criminalidade não tão repetitiva, não tão violenta, nem tão preparada.

Morar no interior é o avesso do ideal médio no nosso país. 85% dos brasileiros viviam em zonas urbanas em 2015. Até aí tudo bem, pois nem todo mundo nasceu para viver na roça da atividade rural. Mas precisamos mesmo viver em grandes cidades?! Em aglomerações de milhões de pessoas?! Pra quê?! Por quê?!

Nos Estados Unidos existem mais de 320 milhões de habitantes. Lá apenas nove cidades têm mais de um milhão de moradores.

No Brasil somos perto de 207 milhões de pessoas. 17 cidades têm mais de um milhão de habitantes.

Pra que se tenha ideia, veja algumas grandes cidades americanas que tem próximo de 700.000 habitantes: Boston, Detroit, San Francisco, Washington, Seatle, Memphis. Algo como, no Brasil, falarmos de Natal, Nova Iguaçu, João Pessoa, Uberlândia, Jaboatão dos Guararapes.

É compreensível que a concentração de riqueza seja maior num país em desenvolvimento e isso repercuta na geografia das cidades. Com certeza estamos muito longe de entregar aos moradores dos pequenos municípios os serviços públicos e privados que tornaram-se indispensáveis. A falta de empregos qualificados também é um grande problema, afinal as empresas e os órgãos públicos não estão lá.

Contudo a vida nos centros urbanos brasileiros atinge o nível da insuportabilidade. E precisamos pensar num meio de enfrentar isso.

O Estado naturalmente enfrentaria as grandes mazelas urbanas nacionais se descentralizasse as suas atividades. Por que a universidade federal precisa ficar na capital? Por que as academias de polícia, os arquivos públicos, os centros de formação estatais tem de ficar lá?!

Por que não incentivar a instalação das grandes empresas em locais interiorizados?! Porque demanda do Estado uma melhoria na infraestrutura que não consegue atender. Então a solução é, por certo, conceder benefícios aos empreendedores que se dispuserem a tais investimentos. Interiorizar não é apenas melhorar o interior, mas principalmente melhorar os grandes centros, retirando das metrópoles as pessoas que ali vivem porque precisam e não porque querem.

A interiorização depende da modernização da legislação tributária (permitindo compensações de investimento), da legislação trabalhista (regulando home-office e serviço itinerante ou com escala flexível), dos serviços públicos. Há muito a ser feito, mas precisamos começar de alguma forma e um bom começo é mostrar que se pode viver bem em outros lugares que não em ruas abarrotadas de carros e poluição e barulho.

Interiorizar o Brasil é a solução de quase todos os problemas dos grandes centros. E principalmente dos pequenos. A qualidade de vida agradece.

 

 

 

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