Re[volução]De Social

Há vinte anos, se um aluno quisesse reclamar do abuso por um professor, iniciaria uma reflexão sobre o melhor caminho para se fazer isso: conto aos meus pais; vou à direção da escola; faço uma comunicação de ocorrência policial; procuro um advogado e busco o Judiciário; inicio terapia.

Há vinte anos, se um subalterno fosse ofendido por seus superiores, se um consumidor fosse enganado, se um compositor amador encontrasse um artista com sua melodia ou se um ex-assessor quisesse denunciar impropriedades dos seus chefes provavelmente percorreria um caminho similar.

Esse caminho convencional tinha como resultado costumeiro a barreira de prosseguimento. Nem sempre por maldade, nem sempre por interesse. Muitas vezes as reclamações e denúncias não iam adiante por impossibilidade cultural, estrutural e institucional. Sempre houve um protocolo, um procedimento digamos, para que as apurações fossem providenciadas e as reclamações levadas a sério.

As redes sociais, tão criticadas (por motivos justos) em nosso tempo, deram voz a uma infinidade de demandas, muitas das quais absolutamente pertinentes. Se é verdade que temos de aprender a não expor em demasia nossa vida por simples respeito à nossa individualidade e privacidade, também é verdade que a exposição automática e generalista destes tipos de casos que referi no início do texto acaba por forçar a providência que, antes, era quase sempre posta embaixo do tapete.

As redes sociais revolucionaram os direitos personalíssimos. Mudaram totalmente a noção de privacidade, de moral, de individualidade. Se antigamente muitas mulheres dedicavam horas a escolher o vestuário para refletir sua intenção de mostrarem-se mais arrojadas ou conservadoras, hoje um perfil no Instagram costuma revelar mundialmente as curvas mais sutis das mais ousadas ou os blogs a revelar as suas reflexões mais profundas.

Para quem foi educado na geração pré-internet isso é assustador (mesmo na Grécia antiga era assustador o comportamento dos jovens para os anciões), mas cabe sempre ao mais maduro o dever de ponderação e o agir mais qualificado, pois esperar que o menos maduro os produza resulta em colher resultados ainda menos confortáveis.

A revolução das redes sociais não é só de exposição de fotos e banalidades, como muito se critica. Não é só uma apologia ao rasteiro e ao improdutivo. Tampouco pode ser resumida como uma instrumentalização das relações humanas. As redes sociais vieram para se tornar um item definitivo em nossas vidas e servem para expor nossa personalidade, com seus traumas, desejos, limites, valores, conteúdo. Há uma revolução do individualismo em andamento que torna pública a individualidade, a ponto de produzir efeitos (e transformações) sociais nunca antes experimentados. Percebem? É uma espécie de dialética dos fatos (sociais) nas mídias. É um contraponto entre extremos em que o resultado ainda é impossível de se avaliar, posto a complexidade, a dinâmica e a infinidade de elementos que o compõe. Os sociólogos finalmente vão conseguir analisar, daqui algumas décadas, o quanto os indivíduos participam da transformação social e o quanto a sociedade os molda, porque estes elementos são cada vez mais palpáveis.

As redes sociais são o novo portal de exposição da identidade do indivíduo e da sociedade, antes presentes em obras, no corpo, na roupa. Nem sempre mostram o que gostaríamos porque os seres humanos são assim. Não digamos que elas são inúteis e desnecessárias… a sua presença em nossas vidas será permanente e já se mostrou, em que pese os seus dejetos, muito de terapêutica, de reflexiva e de transformadora.

A internet e a democracia

A democracia como instituição, todos sabemos, surgiu na Grécia cerca de 500 anos antes de Cristo. Em diversos outros lugares e épocas já havia a escolha de líderes tribais de forma direta e eletiva, mas foi em Atenas que se buscou institucionalizar esse proceder, dando regras e forma mais complexa à eleição de lideranças políticas. Alguns séculos depois, Esparta assume o protagonismo governamental na região e a democracia dá lugar ao sistema aristocrático militar dos espartanos.

Ao longo da história ocidental só voltamos a discutir democracia quase dois mil anos depois, com a Independência Americana e a Revolução Francesa. A democracia é uma prática governamental que não se enraíza em sociedades culturalmente primitivas porque demanda um amadurecimento institucional que apenas o sistema republicano conseguiu reproduzir adequadamente. Há monarquias democráticas, é verdade, mas nesses regimes a figura do monarca não é mais a do chefe de governo. Sendo assim, onde há democracia há um chefe de governo eleito pelo voto e instituições estatais e civis capazes de sustentar tal modelo.

Então temos uma prática governamental modernamente que depende da existência de instituições públicas e privadas capazes de a sustentar culturalmente. A democracia moderna é mais que um sistema, mais que um regime: é uma prática. Depende de outros elementos para ser viabilizada e mantida.

Todos percebemos que a internet é uma potente ferramenta de comunicação. Ela mudou a forma da gente se relacionar, estudar, se aperfeiçoar. A internet vai não só tornar a democracia o modelo global de governo, como vai participar da evolução do conceito de democracia. Vejamos que em países não democráticos a internet naturalmente produziu efeitos de repercussão liberal. Chineses e árabes já perceberam isso e trataram de regular a rede nos seus domínios.

Os motivos são claros: a internet elabora em tempo exponencial qualquer debate, qualquer reflexão, qualquer mobilização ou projeto. Ela é uma mistura de correio, academia, laboratório, biblioteca, playground. Compila num mesmo ambiente diversos ramos da vida cotidiana e leva para todos os lugares o que acontece em qualquer canto do planeta.

O Império Romano do Ocidente se edificou sobre uma competente rede logística. Caiu com a ruína desta infraestrutura. A Igreja Católica se tornou a maior instituição do mundo na Idade Média. Perdeu seu poder quando as sociedades passaram a buscar outro modelo de vida. A internet é a potencialização de qualquer rede de logística ou modelo social imaginável até então. Tudo se torna viável, ao ponto de que há um novo ambiente nunca vivenciado pela humanidade pela frente. Já mudaram as relações de trabalho, a forma de se noticiar, a distribuição de conteúdos e conhecimento, os métodos de pesquisa, o trânsito comercial e produtivo.

Quem será que aprenderá primeiro a viabilizar a nova forma de governo deste mundo?

Banda Larga

Partiu da Presidência da Agência Nacional de Telecomunicações a informação de que a chamada banda larga deixaria de ser larga no Brasil. Isso foi em abril. De lá pra cá a Anatel suspendeu e retomou esse assunto algumas vezes, até que decidiu realizar audiência pública para ouvir a sociedade a respeito.

Vamos lá…

A Anatel é uma agência reguladora. Sua função é fiscalizar a regular a atuação dos serviços de telecomunicação. Seu Presidente é escolhido pelo Conselho Consultivo. Este conselho é escolhido por um conjunto de órgãos federais, dentre os quais a Presidência, o Senado, Câmara e as próprias entidades envolvidas.

Eu tenho um plano de dados no meu celular com 3GB. Ele funciona bem na maioria dos lugares. Recentemente testei a sua utilização no Netflix: 1h de utilização do 4G em alta resolução me consumiu 1,1GB. Testei no plano da minha esposa: 1h de utilização do seu 4G em baixa resolução consumiu 470MB do seu plano.

Sou advogado e, como tal, costumo trabalhar em casa. Como é de se esperar, a maioria dos tribunais já opera com o sistema de processos eletrônicos, onde não existirão mais os famosos processos de papel. Tudo é virtual e digital.

Meus filhos usam a internet full time. Eles provavelmente ficam mais tempo na internet do que em qualquer outra atividade, seja para estudar, jogar, ouvir música, conversar com amigos, ver um filme.

Na minha empresa, praticamente todos os serviços de atendimento são virtuais. Para cada vinte operações nossas, uma é pessoalmente e duas por telefone. Todas as demais pela internet. Meus funcionários falam com suas famílias e seus amigos usando o wi fi.

Vou ao banco duas vezes por ano, pessoalmente; pela internet, todos os dias. Agendo a visita dos prestadores de serviço da TV a cabo e do meu telefone por aplicativos. Leio notícias, estudo, converso, me divirto pela rede. Tudo é feito pela internet.

Como pode a agência reguladora do serviço de internet sugerir limitar isso?!

A Anatel deveria estar cobrando que as operadoras oferecessem serviços mais estáveis, mais rápidos, mais eficientes. Se a Anatel fizesse adequadamente sua fiscalização, não veríamos as filas de advogados e clientes aguardando para entrar em audiência nos Juizados Especiais Cíveis contra e a favor das operadoras. Se a Anatel fiscalizasse adequadamente as operadoras, a Oi provavelmente não chegaria no estado em que chegou.

Que tudo é caro no Brasil estamos cansados de saber… seja um iPhone, seja um plano de telefonia celular. Mas ser caro e limitado, é isso mesmo que pensa a agência que deveria fomentar o desenvolvimento do setor?!

Ok, estamos acostumados a nos pedirem que gastemos menos água, menos energia, menos combustíveis fósseis… isso faz sentido. Gastar menos internet serve pra que?! Pra pensar menos?! Pra saber menos?! Pra se comunicar menos?!

“As empresas de telefonia não podem mais sustentar este sistema”, dizem. Então mudem de atividade. Vão vender pastel. Ou, se preferirem continuar num setor que quer restringir usos, vão fiscalizar a produção de garrafas pet ou de alimentos com gordura trans.

O serviço de internet precisa ser ilimitado, é da sua natureza, da sua essência. É impossível imaginar um mundo onde as pessoas precisarão contar o número de palavras que serão ditas, o número de minutos em que ouvirão músicas e notícias, a quantidade de capítulos da sua aula EAD.

Tentar restringir o acesso à internet ilimitada é motivo de demissão por justa causa para o Presidente da Anatel. É como o Presidente do Tribunal de Justiça dizer que só podem julgar X processos por dia. Se alguém estiver precisando de uma liminar para ser internado num hospital com urgência, que espere amanhã ou contrate um Plano Top Plus Judiciário. É como o Boechat dizer no meio do Jornal da Band: “nos despedimos aqui do pessoal que tem plano de notícias econômico. No próximo bloco, você que tem plano de Notícias Max News saberá tudo sobre as investigações da Lava Jato e verá os gols da rodada”.

É isso mesmo: ridículo. É dividir o mundo da informação, da comunicação, do entretenimento em planos. É uma nova formação de castas, um novo modelo de controle social. Só um gestor comprometido com algo que não é o interesse público pode propor uma aberração destas.

A banda larga é a infraestrutura básica da comunicação de uma nação. É impossível limitá-la sem limitar o horizonte do país.