O que é materialismo?

Depende.

Ao confrontarmos o conceito com as religiões, materialismo é o desapego às questões do espírito e o apego às coisas do mundo. É a valorização de objetos e coisas.

Esse, contudo, não é o único conceito. Podemos confrontá-lo com o racionalismo, uma escola filosófica, assim como o positivismo.

Não quero apresentar todos os modais conceituais do que significa materialismo. Não é essa a proposta. Quero mostrar, independentemente do conceito, o que é não ser materialista.

Quando era jovem conheci um comissário de bordo que vivia numa casa de madeira muito simples, em Esteio. Certa vez me disse ele que já fora a todos os continentes e que falava cinco idiomas. Começou a me explicar que desde cedo sonhava em conhecer o mundo e que, por isso, começou a estudar idiomas por conta própria.

Conheço uma médica já idosa que viveu a vida trabalhando em Postos de Saúde da rede pública. Com certeza isso não representou a maior possibilidade de ganhos financeiros, o que se verifica no patrimônio e nas condições de vida dela.

Tenho um amigo, colega de formatura, que nasceu numa condição social muito complicada e, com um esforço exemplar, conseguiu graduar-se em Direito numa faculdade particular (afinal, o ensino superior público só era acessado pelas classes mais altas). Ao formar-se buscou conduzir sua atuação profissional em atividades de cunho social e assistencial.

Vejamos que não é necessário conceituarmos para entendermos que o desapego aos bens materiais costuma ser uma forma de enfrentamento da realidade do mundo. Há pessoas que precisam ser bem remuneradas para sentirem-se importantes no mundo e satisfazerem sua auto-estima. Há, contudo, pessoas que ultrapassam essa fronteira social e pessoal e, ainda que podendo dispor de outra condição, escolhem uma vida vinculada aos seus valores pessoais, ainda que os valores financeiros decorrentes não sejam os mais satisfatórios.

Sempre me pergunto se não criamos uma nova escravidão no nosso tempo, não mais submetida a um senhor humano, mas a um senhor monetário e estamental. Não imagino vivermos uma vida num trabalho que não nos realiza, simplesmente por dinheiro (ainda que muitas pessoas se realizem em ganhar dinheiro).

Então: conhece alguém que vive sua vida para ganhar dinheiro simplesmente? Conhece alguém que aprendeu a ganhar dinheiro com algo em que se realiza? E conhece alguém que vive bem, se realiza profissionalmente e faz diferença no mundo?

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A Idade das Trevas

Há uma parte da história ocidental em que uma instituição dominou o mundo. Ousava ditar todas as regras de convivência, estabelecendo a moral a ser praticada pelas sociedades a ela vinculadas. Essa instituição era a principal captadora de recursos monetários e materiais, distribuindo-os aos seus colaboradores e líderes. Ela também era a principal educadora, perpetuando entre os seus súditos os valores que entendia devessem ser manejados. Além de tudo isso, possui poder de polícia, bélico, ideológico, jurídico… julga e condena aqueles que não concordarem com suas imposições.

Você deve estar achando que estamos falando da Igreja na Idade Média. Não estou. Estou falando do Estado em nossa época.

Hoje parte da História já não aceita mais chamar a Idade Média de Idade das Trevas (ou Noite de Mil Anos)… sabe-se que muito o Ocidente aprendeu e evoluiu com a atuação da Igreja Católica. Penso, daqui a uma era, sabe-se lá daqui a quantos anos, vamos avaliar a atuação do Estado, o grande concentrador de tudo nos dias atuais, com o mesmo rigor e condená-lo por seus abusos, assim como cultuá-lo por suas implementações institucionais.

Cabe a nós, em nosso tempo, reconhecer que nem tudo que nos parece perene e definitivo o é. Nem tudo que diz servir a um propósito efetivamente serve.

A história humana possui instituições e valores que mudam muito lentamente e costumam ser absorvidos com imposições e arbitrariedades. Não houve ainda em nosso passado um momento em que a liberdade pode ser usufruída, o que é compreensível quando a violência ainda é o método de disputas de interesses mais comum.

O Estado evolui lentamente, não sem manter privilégios, castas, injustiças. Precisamos retomar a ideia de que ele serve à sociedade, a mais nada, a mais ninguém.

Educar é político

Educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais, em todos os tempos. Sempre. Por milênios a humanidade reproduziu de geração em geração as lições entre os seus. O agricultor ensinava a seus filhos a agricultura. O pescador a pescaria. O militar a luta. O pedreiro a construção. E assim vai. Então, a ideia de educar era funcional (aprendia-se o que se necessitada no trabalho) e socialmente fixa (as classes sociais ou grupos sociais se mantinham no mesmo patamar socio-econômico).

Foi no Século XX que a ideia de educação pública se proliferou e mudou o mundo. Ainda se aplicava à educação o objetivo funcional, mas pouco a pouco se incorporou a ideia de liberdade de pensamento e, portanto, de objetivos. Educar buscava libertar o pensamento e, portanto, o aprendiz e, mais adiante, a sociedade.

Libertar do que?!

Bem, educar historicamente foi político. A política familiar era produzir mão-de-obra. Quando se criaram os estabelecimentos de ensino a politica era produzir mão-de-obra qualificada. Hoje a política educacional é produzir seres livres das amarras funcionais da educação… mas vinculados a que?!

Se não bastasse vivermos numa época em que o processo educacional precisa se adaptar à tecnologia, à geração Alfa e ao gigantismo das informações, hoje questionamos a que se destina o processo educacional, afinal de contas. Porque no passado já sabíamos que um filho de carpinteiro deveria aprender a carpintaria. Sabíamos que a universidade formaria saberes superiores sempre necessários. Mas e hoje?!

A liberdade é tremendamente complexa. Quando se dá liberdade sem preparar o liberto e o ambiente onde ele atuará, simplesmente não há de funcionar. Pelo simples fato de que poucos intuem o que devem fazer da sua vida de forma elaborada. Libertar antes do momento certo é aprisionar o ser na sua própria casca, no seu próprio limite pessoal.

Hoje há um compromisso geral dos educadores em libertar os alunos dos conceitos que entendem aprisioná-los, mas infelizmente os novos conceitos não conseguiram libertá-los das suas próprias limitações pessoais. O educando é cada vez mais dependente do Estado, em consequência do objetivo de libertá-lo do Mercado.

Por outro lado, escolas caras e inatingíveis para a imensa maioria das pessoas ensinam a potencializar suas habilidades, a conviver com diferenças complexas, a conhecer mecanismos de busca e aprimoramento de última geração. Afinal, como dizemos na primeira frase, educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais.

Então temos, de um lado, um grupo formando mão-se-obra pensante e atuante nos corpos estatais e, do outro, uma elite que voa baixo, que domina a comunicação, a gestão de pessoas, o uso de recursos tecnológicos e naturais e os meios de produção. Há de um lado pessoas que pedem e dependem e, do outro, pessoas que realizam e produzem. Há cada vez mais a intensificação dos meios de dependência e controle.

Educar é político. Enquanto uns ensinam o senso político, o pensamento crítico político, os conceitos histórico-políticos e o agir coletivo dentro deste sistema, outros ensinam a manejar o conhecimento para capacitar o ser humano a estabelecer os seus próprios interesses políticos. Educar é politico e, às vezes, libertador.

Vamos errar os mesmos erros?

Direita contra Esquerda é um assunto que quase abomino. Não é que não identifique as diferenças ideológicas, históricas, filosóficas. É que o debate ideológico ao redor desse tema é parcial, apaixonado, quase juvenil. É válido questionar se o Estado deve ou não agir de certa forma, se ele é mais importante que a Sociedade que o compõe, se a liberdade individual é alicerce social ou egoísmo. O debate é válido. O que não é válido é transforar isso em pauta existencial, muito menos em pauta governamental e estatal.

Saímos de um período tirano de governos marxistas na América Latina. Alguns ainda lutam por esta libertação ideológica, mas principalmente social e moral. Neste período criamos ícones de veneração como Lula, como Chaves, como Boff e tantos outros. Pessoas que vivem num mundo absurdamente irreal. São lunáticos e penso devam ser lunáticos igualmente os que os seguem.

Agora alternamos o viés governamental e, pela primeira vez em décadas, temos um governo dito “de direita”, com viés econômico liberal (como têm sido o trato da direita ocidental). Será que vamos novamente idolatrar ícones, ao invés de debatermos ideias?! Será que vamos novamente cair na armadilha do populismo demagógico que torce por um lado contra o outro, ao invés de construir algo para todos?!

Olavo de Carvalho não pode ser tornar referência de um governo, por favor. É, mutatis mutandis, como Boff ou José Dirceu foram. Um país precisa de debates, de construções, de integração, de personalização, de elaboração. Não podemos continuar cavando uma trincheira ideológica entre as pessoas, porque ninguém neste planeta pensa 100% igual a outro, nem mesmo pai e filho, nem mesmo gêmeos. Não se vislumbra sucesso em qualquer Estado que não valoriza a diferença e a liberdade, mesmo porque a liberdade gera naturalmente a diferença e é esta característica que comprova a sua existência.

Tenho comigo que as mudanças sempre graduam-se de acordo com os valores dos envolvidos. Mudam os valores, ocorrem mudanças. Mantem-se os valores, mudam apenas os atores, quando muito. Esperamos todos que nossa mudança seja efetivamente de valores.

A Liberdade

Nada pode ser efetivo sem liberdade. Nada. O casamento precisa de liberdade. A produção precisa de liberdade. A governança, a literatura, a ciência, o esporte, a amizade… tudo precisa de liberdade.

Gandhi ensinou que “de nada adianta a liberdade se não temos a liberdade de errar”. Liberdade de errar não é podermos errar de propósito, tampouco errarmos por maldade. É o erro buscando o acerto, pois caso contrário não houve um erro mas uma intenção.

Já a filosofia clássica grega dizia que os homens apaixonados e os viciados não são livres. A liberdade decorre da extinção das nossas limitações, pois, caso contrário, embora possamos fazer o que quisermos, ainda estaremos subjugados a algo. E onde há jugo não há liberdade.

Quem trabalha por dinheiro não é livre. Quem casa por interesse não é livre. Quem realiza por vaidade não é livre.

Ainda que não se dê valor a isso do ponto de vista prático, a vida está aí a ensinar (especialmente os mais maduros) que isso está provado ser assim. A vida prova todos dias que depende de construções e valores para se manter.

Há nas Cortes Superiores de diversos países o debate se a vida é mais importante que a liberdade (quando se julga, por exemplo, o suicídio e a eutanásia). Esse debate, em verdade, é menos sobre liberdade e mais sobre a vida, porque ambos valores tem a mesma grandeza.

Vivemos uma época de liberdade plena. Ao menos no ocidente. Ainda que haja os retrógrados de todos os polos ideológicos que entendem devamos limitar a liberdade dos opositores, a verdade é que, mesmo com todo esse esforço, a liberdade tem prevalecido no campo individual, precisando chegar de forma madura às instituições, especialmente nas estatais.

O elemento de construção da liberdade é a disciplina e o elemento de manutenção da liberdade é a responsabilidade. A liberdade, portanto, não existe como valor por si. Se optarmos em tornar a liberdade um valor absoluto, precisamos disciplinarmo-nos para tal (há um ditado japonês que ensina: “a disciplina é mais importante que a inteligência”). Com o aprendizado, perceberemos que só há liberdade responsável, aquela em que podemos errar mas seremos responsáveis pelo erro e, portanto, pela reparação quando for necessário e possível.

Numa época em que todos podemos dizer o que quisermos, em que todos podemos optar por viver como quisermos, o debate sobre o uso e a manutenção da liberdade deveria ser incorporado à educação formal que, por sinal, tem ensinado demasiadamente conteúdos sem valor, fazendo com que o aluno estude e não entenda o porquê. É a disciplina (etimologicamente falando) que nos falta para desfrutarmos plenamente nossa liberdade.