Vamos errar os mesmos erros?

Direita contra Esquerda é um assunto que quase abomino. Não é que não identifique as diferenças ideológicas, históricas, filosóficas. É que o debate ideológico ao redor desse tema é parcial, apaixonado, quase juvenil. É válido questionar se o Estado deve ou não agir de certa forma, se ele é mais importante que a Sociedade que o compõe, se a liberdade individual é alicerce social ou egoísmo. O debate é válido. O que não é válido é transforar isso em pauta existencial, muito menos em pauta governamental e estatal.

Saímos de um período tirano de governos marxistas na América Latina. Alguns ainda lutam por esta libertação ideológica, mas principalmente social e moral. Neste período criamos ícones de veneração como Lula, como Chaves, como Boff e tantos outros. Pessoas que vivem num mundo absurdamente irreal. São lunáticos e penso devam ser lunáticos igualmente os que os seguem.

Agora alternamos o viés governamental e, pela primeira vez em décadas, temos um governo dito “de direita”, com viés econômico liberal (como têm sido o trato da direita ocidental). Será que vamos novamente idolatrar ícones, ao invés de debatermos ideias?! Será que vamos novamente cair na armadilha do populismo demagógico que torce por um lado contra o outro, ao invés de construir algo para todos?!

Olavo de Carvalho não pode ser tornar referência de um governo, por favor. É, mutatis mutandis, como Boff ou José Dirceu foram. Um país precisa de debates, de construções, de integração, de personalização, de elaboração. Não podemos continuar cavando uma trincheira ideológica entre as pessoas, porque ninguém neste planeta pensa 100% igual a outro, nem mesmo pai e filho, nem mesmo gêmeos. Não se vislumbra sucesso em qualquer Estado que não valoriza a diferença e a liberdade, mesmo porque a liberdade gera naturalmente a diferença e é esta característica que comprova a sua existência.

Tenho comigo que as mudanças sempre graduam-se de acordo com os valores dos envolvidos. Mudam os valores, ocorrem mudanças. Mantem-se os valores, mudam apenas os atores, quando muito. Esperamos todos que nossa mudança seja efetivamente de valores.

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A Liberdade

Nada pode ser efetivo sem liberdade. Nada. O casamento precisa de liberdade. A produção precisa de liberdade. A governança, a literatura, a ciência, o esporte, a amizade… tudo precisa de liberdade.

Gandhi ensinou que “de nada adianta a liberdade se não temos a liberdade de errar”. Liberdade de errar não é podermos errar de propósito, tampouco errarmos por maldade. É o erro buscando o acerto, pois caso contrário não houve um erro mas uma intenção.

Já a filosofia clássica grega dizia que os homens apaixonados e os viciados não são livres. A liberdade decorre da extinção das nossas limitações, pois, caso contrário, embora possamos fazer o que quisermos, ainda estaremos subjugados a algo. E onde há jugo não há liberdade.

Quem trabalha por dinheiro não é livre. Quem casa por interesse não é livre. Quem realiza por vaidade não é livre.

Ainda que não se dê valor a isso do ponto de vista prático, a vida está aí a ensinar (especialmente os mais maduros) que isso está provado ser assim. A vida prova todos dias que depende de construções e valores para se manter.

Há nas Cortes Superiores de diversos países o debate se a vida é mais importante que a liberdade (quando se julga, por exemplo, o suicídio e a eutanásia). Esse debate, em verdade, é menos sobre liberdade e mais sobre a vida, porque ambos valores tem a mesma grandeza.

Vivemos uma época de liberdade plena. Ao menos no ocidente. Ainda que haja os retrógrados de todos os polos ideológicos que entendem devamos limitar a liberdade dos opositores, a verdade é que, mesmo com todo esse esforço, a liberdade tem prevalecido no campo individual, precisando chegar de forma madura às instituições, especialmente nas estatais.

O elemento de construção da liberdade é a disciplina e o elemento de manutenção da liberdade é a responsabilidade. A liberdade, portanto, não existe como valor por si. Se optarmos em tornar a liberdade um valor absoluto, precisamos disciplinarmo-nos para tal (há um ditado japonês que ensina: “a disciplina é mais importante que a inteligência”). Com o aprendizado, perceberemos que só há liberdade responsável, aquela em que podemos errar mas seremos responsáveis pelo erro e, portanto, pela reparação quando for necessário e possível.

Numa época em que todos podemos dizer o que quisermos, em que todos podemos optar por viver como quisermos, o debate sobre o uso e a manutenção da liberdade deveria ser incorporado à educação formal que, por sinal, tem ensinado demasiadamente conteúdos sem valor, fazendo com que o aluno estude e não entenda o porquê. É a disciplina (etimologicamente falando) que nos falta para desfrutarmos plenamente nossa liberdade.