A Intervenção no RJ

Presidente Michel Temer decretou a intervenção militar na área de segurança pública no estado do RJ. Hoje (19/02/18) o Congresso deverá autorizar a medida.

O Rio de Janeiro é um estado em guerra urbana há décadas. A ausência de Estado que hoje existe nos presídios brasileiros existe há décadas nas favelas e/ou comunidades fluminenses. O que se pode imaginar em termos de políticas públicas já foi testado por lá. Escolas de tempo integral, polícia pacificadora, intervenção militar e policial, a própria permissibilidade e tolerância ao tráfico. De tudo. Tem mais ONG no RJ do que nas outras regiões brasileiras. A renda média do fluminense também é uma das maiores do Brasil. E é inegável que há um abismo social entre a zona sul e as demais regiões cariocas. Assim como é inegável que a classe média carioca e os turistas são os principais financiadores do crime por lá.

Há premissas que se pode exarar sobre a realidade fluminense:

  • leis de restrição ao uso de armas são inócuas para a cultura e a realidade brasileira
  • a corrupção sistêmica instala-se também na cultura e no tecido social
  • o tráfico é o grande gestor da criminalidade e atrai pessoas de todo espectro social
  • não há tropa e estrutura suficiente para combater o que é socialmente tolerado
  • a inteligência das forças de segurança está limitada pela capacidade operacional

Dito tudo isso para afirmar que não há dúvidas de que uma intervenção militar é das poucas (se não a última) alternativa para começar a resolver o problema.

Mas não essa intervenção fajuta deste governo de raposas.

Michel Temer é o Presidente brasileiro com menor aceitação que se conhece. Tão comprometido moralmente como seus antecessores, tem a pecha de golpista e consegue desagradar gregos e troianos, ainda que tenha devolvido a economia brasileira aos trilhos. Temer poderia, com seus resultados econômicos, ser visto como um reconstrutor das ruínas deixadas pela bomba petista, mas não consegue simplesmente porque pertence ao grupo que tem dominado o país há décadas e que soube ardilosamente se livrar dos seus marionetes quando estes passaram dos limites da roubalheira e do idealismo. Assim, desagrada trabalhadores, imprensa e a classe média.

Tudo é tolerado por dinheiro no Brasil. Até a ideologia oponente é tolerada.

Pois Temer percebeu que ia perder a reforma da Previdência Social (outra necessidade brasileira, mas não essa reforma Frankstein) e está cansado de não ser reconhecido como gostaria.

Temer percebeu que há um movimento nacional de apoio aos militares, que chega ao ponto de pedir que se faça um golpe ou uma intervenção.

Temer sabe que Bolsonaro (um direitista) tem reais chances de ir a um segundo turno nas eleições presidenciais.

Temer e seus cabides sabem que a esquerda (a qual pertencem) está comprometida moralmente aos olhos do povo, mas ainda assim o brasileiro se identifica com medidas populistas.

Voulà! Soa como uma ideia genial para seus apoiadores transferir o poder de gestão da segurança do lugar mais deflagrado do país aos militares. Se der certo tornam-se os salvadores da pátria. Se der errado (e vai dar) a culpa será dos militares (como no passado) e se ganha mais uma década de embates entre direita e esquerda (detesto estes esteriótipos, mas é o que se usa).

O Exército Brasileiro vai exercer o melhor possível seu papel neste teatro, tenho certeza. Torço para estar errado quanto aos resultados desta operação, como torci para estar errado com os governos petistas. Mas, ao final, não estava.

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Michel Temer

Ontem consegui acompanhar parte da sessão da Comissão de Constituição e Justiça que decidia se o parecer do relator – que sugere não receber a segunda denúncia contra o Presidente Michel Temer – seria aprovado. Praticamente todos os partidos de esquerda envolvidos para aceitar a denúncia enquanto a base governista se compunha das maiores bancadas do Congresso e de diversos partidos menos coesos.

É evidente que Michel Temer deveria ser investigado e julgado. Ele foi vice-presidente da chapa que esteve à frente do governo com maior número de denúncias da história brasileira e, provavelmente, dos maiores casos de corrupção da história humana. Só por isso Temer já é suspeito. Se não bastasse, ele representa – por estar absolutamente inserido – o grupo mais podre da política brasileira. É pouco provável que Temer seja o líder deste grupo porque ele não desponta como líder de quase nada. Falta-lhe brio e postura para liderar. Que é um exímio articulador todos sabemos. Como articulador conseguiu participar dos governos petistas e demovê-lo e, agora, consegue manter-se no cargo presidencial. Isso não é pouco. O PT sempre foi autoritário nas suas relações institucionais com outros partidos. Temer foi habilidoso em controlar sem mandar.

Aliás, essa capacidade de articulação é o que melhor define a figura Michel Temer e todos os parasitas que lhe cercam. Como gestores públicos são grandes articuladores e pouco menos que isso.

Qualquer dona de casa administra o que for se dispor de dinheiro ilimitado. Quero dizer com isso que não se precisa de nenhum conhecimento específico para governar ou gerir se nunca lhe falta dinheiro. No Brasil, governo após governo, sempre se dispôs de dinheiro ilimitado… e as lideranças vinham se formando e se mantendo com base na divisão deste dinheiro e dos direitos (legalmente falando) que se distribuia ao redor do dinheiro. Há décadas somos o país que mais produz legislação no mundo.

Chegamos ao ponto em que dispor de direitos não dá direito a nada, pois todos temos muitos direitos. Saúde, por exemplo. É lindo enchermos a boca pra dizer que a saúde é pública no país.

Bem, Michel Temer tem seus direitos também… ele, como Presidente, pode dispor do nosso dinheiro para barganhar o apoio (político) que precisa. Ter direitos se tornou algo meio que divino, meio que angelical, mesmo que absolutamente imoral.

Por que permitimos!? Porque, em geral, todo brasileiro quer ser tratado com os mesmos direitos. Temer representa sim a postura média de um povo que não sabe eleger representantes honestos porque não se identifica com tais.

Michel Temer vai ficar até o fim do mandato e vai sustentar a laia que está consigo. Está provado que o PT não caiu por ser desonesto, mas porque sua desonestidade quebrou o país. Se tivesse a esperteza dos temerianos teria conseguido ficar décadas no poder, como o peronismo argentino. Claro que hoje a Argentina está quebrada, mas isso é outra história.