Meus amigos de infância

Prometi continuar a história da minha casa de infância (leia aqui: https://asluvizetto.wordpress.com/2017/05/25/minha-casa-da-infancia/) em que fui salvo por um amigo da vila onde me criei.

Antes tenho que dizer que dos melhores privilégios que a vida me deu foi ter tido tantos amigos na infância e juventude. Amizades de todas os tipos e intensidades, de todas as formas. Assim são as pessoas e assim são seus vínculos. Mudam, melhoram, pioram e vão se ajeitando.

Na mesma rua em que eu morava, mais pra baixo, perto da bica, bem próximo à casa dos meus avós, morava um amigo. Vou chamar ele de negão C. Naquela época era comum chamarmos nossos amigos negros de negão. Negão C. era um cara alegre, brincalhão e teve uma fase em que era muito brigão. Cresceu e entrou pros Fuzileiros Navais, antes de se tornar professor de história e geografia.

Pois quando tinha lá uns treze ou quatorze anos, minha turma fez um chá de arrecadação de recursos para a viagem de final de ano da 8ª série. Esse chá foi feito no salão de eventos da minha escola, que ficava ao lado da maior escola pública da cidade. Já havia uma rixa entre as duas escolas, como é comum nesse tipo de situação. Eu fui encarregado de cuidar da entrada no salão. Meu trabalho era ver se os visitantes tinham ingresso e orientá-los onde poderiam comprá-lo por uma bagatela que dava direito a comer e beber o que quisesse.

Pois lá pelo meio do evento um grupo de guris da outra escola apareceu e quis entrar. Eu, gentilmente, disse que poderiam adquirir o ingresso por um precinho e que isso dava direito a comer e beber de tudo. Logo vi que o interesse deles, na verdade, era me ou nos provocar. E logo se formou um círculo para brigar comigo porque eu não permiti que eles entrassem sem pagar. Alguns adultos, vendo a confusão, mandaram aqueles guris embora da minha escola. Isso foi num sábado à tarde.

Na segunda-feira seguinte quando eu estava saindo da sala para ir embora, o P.R. veio correndo me chamar: “Leco, tem uns cinquenta caras do Farroupilha lá na rua pra te pegar”. Confesso que não acreditei e paguei pra ver.

Quando cheguei em frente à escola era inacreditável a quantidade de alunos do outro colégio parados em frente ao meu, esperando pra ver a briga que, imagino, deve ter sido alardeada a manhã inteira por lá. Não eram cinquenta, eram mais de cem alunos, com certeza. Como eu ia a pé pra casa, caminhando uns 2km, não tinha alternativa. Tinha de passar pelo entrevero e arriscar a sorte.

Logo apareceu a turma que havia me provocado no sábado e apontaram pra mim. Uns vinte começaram a correr na minha direção e percebi que alguns poucos amigos corajosos, poucos mesmo, dois ou três apenas, iam se prontificar a me ajudar quando surge no meio daquele burburinho o negão C. e diz: “O que?! O cara que vocês querem pegar é o Leco?! Bem capaz! Vão ter de brigar de mano!”. Negão C. era amigo daquela turma e um dos mais influentes, pelo jeito.

Deu a briga. Deu mais umas duas ou três brigas, nos dias seguintes.

Para ter ideia do risco que corri e não sabia: o cara que brigou comigo foi morto ainda jovem; seu irmão, que quis brigar comigo tempos depois, foi preso por homicídio e tráfico; outro, que estava armado com uma garrucha no dia da balbúrdia, foi preso por homicídio em SC.

Tirei muitas lições desse evento e de alguns outros que decorreram. Esses caras, por exemplo, se tornaram meus amigos. Até os atendi como advogado, anos mais parte.

Até hoje não sei até hoje se o negão C. tem noção do quanto me salvou naquele dia. Obrigado cara! Te devo por essa e por aquela outra no Carnaval do Cantegril.

 

Anúncios

“Estamos lutando por nossos direitos”

Tenho um filho de quatorze anos que pede regularmente de tudo que se possa imaginar. Tem muita coisa que ele me pede que gostaria realmente de poder lhe dar. Noutras vejo seu devaneio juvenil, sua imaturidade e falta de senso de realidade, compreensível na sua idade.

Quando eu era adolescente também pedia algumas coisas aos meus pais que não ganhava. Não era lá muito a minha ficar pedindo, mas tinha duas ou três coisas em que eu era bastante repetitivo e persistente. Uma delas, em especial, consegui. Nós jovens temos tempo pra lutar por nossos direitos.

Hoje os jovens tem ainda mais tempo. Comecei a trabalhar com quatorze anos, mas hoje só se pode depois dos dezesseis. “Jovem tem é de ir pra escola”. Ok. Foi assim comigo também. Seis meses antes de fazer vestibular, aos dezesseis, parei de trabalhar e fui prum cursinho (aliás, onde aprendi 60% da matéria, pois minha escola era muito ruim).

Ei fico aqui pensando se existisse na minha época esses movimentos de protesto, o que eu faria… “Estamos lutando por nossos direitos”. É direito dos jovens estudar? Sim. Com qualidade? Claro. E é direito deles se divertirem? Sim. E não trabalhar antes dos dezesseis? Com certeza, direito constitucional.

Puxa, mas eu fui um jovem violentado pela sociedade e pelo sistema. Fui humilhado, tendo de trabalhar desde os quatorze anos para ajudar meu pai. Fui submetido a uma escola pública opressora da minha enorme capacidade latente, que não conseguiu sequer me repassar o conteúdo básico de vestibular, muito menos fazer com que eu o aprendesse.

Como meus pais me deixaram passar por tamanha opressão e constrangimento?! São pais irresponsáveis, permissivos, tolerantes com as mazelas desse sistema opressor e limitador de capacidades.

Absurdo.

Me formei aos vinte um anos. Esse sistema realmente explora a juventude. Como é possível permitirem que um jovem em tão tenra idade tenha de assumir uma profissão graduada!?

Que país explorador da juventude esse.

Ainda bem que hoje temos jovens que não aceitam isso tudo. Trancam ruas, ocupam escolas, põe fogo em pneus. Estão lá lutando pelos seus direitos. Não se submetem a esse mundo capitalista que exige esforço e trabalho do operário para sustentar o patrão explorador, que paga impostos, dá emprego e produz apenas para explorar as pessoas porque é um ser humano desprezível, egoísta e nefasto. Patrão nasceu para ser mau. Porco-capitalista!

Esses jovens têm futuro garantido na política. Representam milhões de indignados com essa absurda exploração da sociedade.

Esses jovens de hoje são bem diferentes daqueles meus amigos pobres que tinham de trabalhar de dia e estudar de noite. Que moravam em casas simples, criados só pela mãe. Iam na missa de domingo e jogavam bola no campinho que nós mesmos fazíamos em terrenos baldios, até que fossem vendidos e tivéssemos que fazer novo campo em outro lugar. Esses meus amigos, quase todos, hoje homens maduros, vivendo na classe média, criando seus filhos e levando a vida.

Que absurdo! Como puderam vencer tamanha opressão.

Ainda bem que o nosso futuro, com essa juventude indignada, politizada e mobilizada, está garantido.

 

 

 

Ocupação nas Escolas

Eu estudava no terceiro ano do ensino médio quando o Collares (governador gaúcho de 1991 a 1994) implantou o maldito “calendário rotativo”. Era janeiro, verão gaúcho beirando os 40°C, e nós em sala de aula. Aula sem ventilador, com janelas lado leste. Minha escola era considerada das melhores do ensino público técnico, mas era muito, mas muito… mas muito abaixo da qualidade que eu gostaria que fosse. A qualidade era tão ruim que me permitia gazear aula, não estudar pras provas e passar por média, fácil fácil.

Nunca fui de colar, sempre gostei de ler, mas o que eu mais gostava na escola eram os jogos de vôlei. Ah… o vôlei do Protásio era muito bom. E meu colégio ficava ao lado do Tesourinha, que é o ginásio público de Porto Alegre. Então era comum sairmos da aula e ir ver os times de vôlei local treinar.

Eu morava em Viamão, a 20km da escola. Trabalhava numa banca de revistas à tarde a partir das 13h30min, no Centro de Viamão, que fica a 30km da escola. Saia literalmente correndo da aula às 11h45min – porque a minha parada de ônibus ficava a 1km – para chegar em casa às 12h45min e sair às 12h55min pro trabalho. Se eu perdesse o ônibus que passava às 11h50min esculhambava todo esse ciclo. Mas normalmente eu adorava tudo isso.

Em 1991 era época do Collor. Collor foi o primeiro presidente eleito pós regime militar, um empresário de direita que não tinha o menor interesse em fazer um governo de coalizão. Fui cara-pintada. Participei de algumas manifestações e quem participa dessas manifestações, mesmo com 16 anos, têm noção de que a gandaia é muito maior do que o envolvimento político efetivo. Claro que não se vai admitir isso, né!

Enfim, quis dizer que me achava politicamente consciente, envolvido. Tanto que com 17 anos comecei a participar do Partido dos Trabalhadores.

Não existe a menor possibilidade de um diálogo político que não seja de esquerda na escola pública. Não existe a menor possibilidade de se apresentar soluções que demandem participação privada ou empresarial, muito menos de se debater ideais libertários ou progressistas. Não se cogita que o estudo público possa ser cobrado, mesmo que em valores irrisórios de quem puder – eu disse de quem puder – pagar. Quando adulto, criei o Projeto Cresço para apresentar esse debate nas escolas públicas. Funcionou otimamente por três anos até o governo do PT de Viamão descobrir e proibir nosso trabalho. Hoje são contra o “escola sem partido” (também sou), mas na prática só aceitam discutir na escola o que seu partido manda.

A escola pública é formadora ideológica, nos dias atuais, como foi a escola católica nos séculos XVIII e XIX. O esquerdismo marxista aprendeu que é assim que se forma uma cultura. E isso tem dado absolutamente certo na América Latina, ao menos do ponto de vista ideológico.

Do ponto de vista educacional é péssimo (ao contrário do que aconteceu com as escolas católicas referidas). O aluno se acostuma com uma mentalidade rasteira, reivindicatória, onde a responsabilidade é sempre do Estado e o vilão é sempre a iniciativa privada. Estudar é algo que se torna menor na escola. O mais importante é a frequência, são as amizades, é o canudo.

Ocupação de escola é a falência da mentalidade progressista. É o atestado de que a única forma que se conhece de produzir algo, no Brasil, é fazendo protesto para que os políticos façam algo, porque se depender de atitudes efetivas, morrem de fome. São os eternos adolescentes que, crescidos, se tornam dependentes do Estado ou do sindicato.

Querem melhorar a educação, gurizada!? Estudem. Aí no teu celular tem mais informação do que todas as gerações anteriores tiveram acesso em todas as bibliotecas do Brasil. Se tu não tem acesso à internet no teu celular, procura empresários que queiram bancar a internet na tua escola, tu vai achar. Com acesso à internet, vocês podem enriquecer as aulas, os debates científicos, os gráficos e os mapas de geografia, as formações moleculares da química, as fotos dos seres mais sinistros em biologia.

Criançada, vocês estão perdendo um tempo valioso discutindo política. Vocês não sabem ainda, mas vocês não estão prontos pra esse debate. Essa época da vida é a época de descobrir o mundo, de conhecer a história, de dominar as línguas, de aprender a raciocinar. Vocês estão jogando no lixo um tempo que não volta. E o aluno da rede privada está fazendo a parte dele. Daqui a 30 anos vocês vão estar na rua protestado para aumentar o teu salário ou o imposto que o aluno da rede privada vai ter de pagar através da sua empresa que gera emprego, sustenta o Estado e produz.

Querem debate social pertinente à juventude? Debatam os efeitos da maconha na adolescência. Debatam os efeitos do tráfico na sociedade. Debatam o aborto, a pena de morte, a laicidade, a sexualidade na adolescência. Debatam em sala de aula, não na rua, não com ocupação.

Ocupação de escola, gurizada, é coisa de guri mimado.

Agora aos professores que apoiam a ocupação: vocês deviam ter vergonha de incentivar esse tipo de demanda. O Estado remunera mal, dá poucos recursos materiais. Sabemos. O Estado falha em quase tudo que faz. Mas não é esse tipo de atitude que vai mudar essa realidade, professor. Ensina teu aluno a resolver seus problemas se preparando intelectualmente, se capacitando, debatendo. Ensina teu aluno a sonhar sonhos de grandeza, de cura, de soluções. Mostra pra eles como usar as ferramentas que eles dispõe na palma da mão, mostra as fontes mais interessantes da tua disciplina na internet, apresenta tuas aulas no Youtube para teu aluno rever em casa. Se não sabe ensinar isso, professor, pede pra sair. Tu não nasceu pra ensinar. Para de ensinar esse pensamento rasteiro que mantém a América Latina na latrina do mundo.

A vida tem ciclos: nascemos, aprendemos, trabalhamos, ensinamos, cuidamos, olhamos, morremos. Respeitem a fase educacional da vida dos seus alunos. Não quero que meus filhos nem os filhos de ninguém tenham de sustentar o mimimismo de quem foi ensinado a sentar e chorar até ganhar papá.