O veículo ideológico

Os projetistas do veículo ideológico marxista tinham boas intenções. Creio que boa parte deles tinha boas intenções. Queriam que embarcássemos no seu veículo e chegássemos ao destino da sociedade justa e equilibrada. Contavam que este veículo se alimentaria do senso comum e do esforço comum, entregando o mesmo conforto e o mesmo tempo de viagem a cada um dos passageiros.

Contudo, o veículo não possui acentos iguais (há os da janela e os mais apertados) e precisa ser dirigido ora por uns, ora por outros. Nem todos os que dirigem sabem conduzi-lo. Os que sabem guiar, nem sempre sabem o caminho. Os que conhecem o caminho costumeiramente são alertados de que outros caminhos há mais rápidos ou mais seguros.

O projeto deste veículo ideológico considerava que distribuindo riqueza se chegaria ao destino social desejado. A riqueza seria um problema quando concentrada e sua criação era vista como impossível: a solução seria dividi-la.

No início era um projeto preconceituoso, xenófobo, misógino, racista. Com o passar dos (d)anos o número de passageiros interessados em viajar neste veículo diminuía e se entendeu por bem captar aquelas minorias antes desprestigiadas, que nada tinham de relação ao projeto original. Isso dificultou ainda mais a compreensão do projeto e sua implementação falhou em todas as tentativas ao longo da história.

O veículo ideológico que achava que distribuindo renda distribuiria justiça deixava de considerar que a renda é o resultado de um trabalho, às vezes de gerações. Deixava de considerar que o dinheiro não é sujo ou limpo, que é apenas o resultado de algo. Deixava de considerar que cada um de nós é responsável pela nossa trajetória e que o Estado é apenas mais um dos passageiros desta viagem, não o seu condutor.

O veículo ideológico causou mais mortes que qualquer outro veículo da história, inclusive dos veículos de guerra todos juntos somados.

Além disso, o veículo ideológico jamais captou o apoio dos religiosos por verdadeira incompatibilidade e, com isso, atestou sua contrariedade a todo e qualquer credo. Era mais uma das suas oposições. Opor-se sempre foi sua principal orientação.

De quando em quando aliava-se a ideais mais racionais, mais efetivos, mais humanos. Mas a falta de orientação e de efetividade sempre acabava por resultar em algum acidente desastroso.

O veículo ideológico hoje está fadado ao ferro velho e só não foi aposentado porque há muitos condutores e passageiros saudosistas e entusiastas que não se dão por derrotados. Ainda que jamais tenha conduzido qualquer de seus passageiros ao destino, teimam que um dia o fará

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Fases literárias

Terminei de ler recentemente um livro entitulado “A Vida Mística de Jesus”, escrito na década de 1920 pelo norte-americano Harvey Spencer Lewis. Concomitante a este, terminei um livro sobre os Templários e estou finalizando “A Reinvenção do Conhecimento”. Este último estou lendo lenta e vagarosamente há meses. Embora seja um livro interessante (realmente interessante) sobre a evolução da formação do conhecimento e sua transferência aos outros, minha leitura não deslancha.

Ler também tem fases. É a lição que tiro quando reflito sobre isso. Por certo, nem sempre um assunto nos interessará por mais interessante que seja. E, em outro momento, poderá se tonar absolutamente bom.

Comprei dois livros “de esquerda” (risos – não gosto muito destas rotulações): “Karl Marx – Grandeza e Ilusão”, de G. S. Jones e “O Homem Que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura. Não é coincidência.

As pessoas que buscam centrarem-se ficam constantemente reequilibrando a sua balança. Vejam que recentemente li obras de caráter hitórico-religioso, depois histórico-científico e agora vou pra algo histórico-materialista (o marxismo é chamado de racionalismo materialista). É uma tendência que nossas escolhas literárias sejam equilibrantes quando valorizamos o equilíbrio.

Depois conto como foi.

O Racionalismo Materialista

A medicina que cuida das emoções, da psiquê, da personalidade tem pouco mais de cem anos. Teve em Freud e Jung os seus protagonistas de maior relevo. Isso no ocidente, claro. Os egípcios, os maias, os chineses sempre associaram a saúde do corpo à saúde da mente, a ponto de influenciar o berço do racionalismo ocidental na Roma e Grécia clássicas, com a máxima “mens sana in corpore sano”. Por séculos os estudiosos do corpo eram filósofos, religiosos, curandeiros, xamãs, que associavam o comportamento à saúde. Com o desenvolvimento do racionalismo foi-se criando um distanciamento entre corpo e espírito e, consequentemente, uma divisão cada vez mais clara entre espiritualidade e ciência. Clara do ponto de vista racional.

O racionalismo tem em Descartes (“penso, logo existo”) em Kant seus protagonistas, sendo fonte do chamado pensamento liberal. Pelo racionalismo clássico tudo tem um propósito, uma finalidade, e essa busca é tarefa da razão.

No século XIX o racionalismo era a corrente filosófica que dominava o pensamento científico, em derrubada ao Iluminismo. Essa visão racional da vida influenciou pensadores de todas as vertentes – e também Marx e Engels. Esses filósofos criticavam o pensamento liberal e buscaram contrapô-lo firmando análises e conclusões racionalistas aos problemas sociais que enfrentavam. Daí surgiu o chamado de Racionalismo Materialista que, de forma sintética, afirma que os modos de produção estruturam a vida social e espiritual. O Racionalismo Materialista é ateu e antirreligioso (leia “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiesvski), postura que desde sempre logrou o repúdio dos religiosos de toda a ordem.

Então Freud e Jung trazem à ciência a ideia de que há efetivamente algo além da matéria e de que a razão não consegue regular e entender toda a análise existencial. Há um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo. Há um subconsciente que nos governa o comportamento (leia “O Poder do Subconsciente”, de Joseph Murphy). Há um manejo da razão feito por nossos instintos e emoções – e vice-versa.  E há uma linguagem simbólica, onde até mesmo do ponto de vista racional analisamos o mundo e a nós mesmos com base em arquétipos.

A história humana é marcada por disputas de poder, pela violência, pela lascívia. E também pelo heroísmo, pela benevolência, pelo altruísmo. Com pequenas exceções, o mesmo ser humano desfruta ora de um comportamento, ora de outro, motivado por senso e sensibilidade. O ser humano que nasce não é o mesmo que morre, mas pode sê-lo. Há um livre arbítrio e uma condição social a moldar seu caminho existencial.

Pois bem, cá estamos a refletir sobre o Racionalismo Materialista, que ainda persiste em nossos dias a influenciar intelectuais, por mais desastroso que tenham sido suas tentativas de implementação. Por que não dá certo? Por que ainda tem simpatizantes?

Primeira resposta: o materialismo é impossível, irreal. O mundo não é material (no sentido filosófico). A humanidade tem mais condições de sobreviver ao fanatismo religioso que converge do que ao materialismo que diverge pontos de vista. A razão tem como limite a razão do outro. É impossível um sistema baseado em algo tão individual conseguir angariar esforço para um propósito por tanto tempo, porque há de divergir em algum momento e enfraquecer-se. A razão não é, como se pretende, definitiva. Sua linguagem é sazonal, pessoal, temporal, limitada. Se o racionalismo tem um limite o racionalismo materialista é ainda mais limitado. E não é que sejam inúteis, nem que estejam errados. É que a “linguagem” racional não é bastante e reconhecer isso faz parte da solução deste problema.

Dito de outra forma, o racionalismo materialista apenas produzirá resultados (ainda que limitados e diversos do pretendidos) naqueles seres humanos que falarem a mesma língua e intentarem os mesmos propósitos. E, sabemos, a humanidade é muito maior que uma corrente filosófica.

Sobre a segunda pergunta: os simpatizantes são aqueles que se identificam com a simbologia (racional) materialista. São os ateus, os antirreligiosos, os materialistas. Não há coerência (racional) em viver uma religião e ser marxista. Não há coerência (afetiva) em acreditar nas leis de causa-efeito e revoltar-se com a vida. Seus simpatizantes são e sempre serão uma minoria em transitoriedade por este pensamento que cerceia qualquer outro pensamento.

O racionalismo materialista tem como limite, por isso, a própria evolução humana. E por isso não acredita nela, por isso combate qualquer filosofia evolucionista. Embora seja escancarado que o ser humano progride, ainda que aos poucos, o racionalismo materialista precisa não reconhecer esta evolução, pois se o fizer contradiz-se.

Jung acreditava que o comunismo era uma patologia. E é.