Michel Temer

Ontem consegui acompanhar parte da sessão da Comissão de Constituição e Justiça que decidia se o parecer do relator – que sugere não receber a segunda denúncia contra o Presidente Michel Temer – seria aprovado. Praticamente todos os partidos de esquerda envolvidos para aceitar a denúncia enquanto a base governista se compunha das maiores bancadas do Congresso e de diversos partidos menos coesos.

É evidente que Michel Temer deveria ser investigado e julgado. Ele foi vice-presidente da chapa que esteve à frente do governo com maior número de denúncias da história brasileira e, provavelmente, dos maiores casos de corrupção da história humana. Só por isso Temer já é suspeito. Se não bastasse, ele representa – por estar absolutamente inserido – o grupo mais podre da política brasileira. É pouco provável que Temer seja o líder deste grupo porque ele não desponta como líder de quase nada. Falta-lhe brio e postura para liderar. Que é um exímio articulador todos sabemos. Como articulador conseguiu participar dos governos petistas e demovê-lo e, agora, consegue manter-se no cargo presidencial. Isso não é pouco. O PT sempre foi autoritário nas suas relações institucionais com outros partidos. Temer foi habilidoso em controlar sem mandar.

Aliás, essa capacidade de articulação é o que melhor define a figura Michel Temer e todos os parasitas que lhe cercam. Como gestores públicos são grandes articuladores e pouco menos que isso.

Qualquer dona de casa administra o que for se dispor de dinheiro ilimitado. Quero dizer com isso que não se precisa de nenhum conhecimento específico para governar ou gerir se nunca lhe falta dinheiro. No Brasil, governo após governo, sempre se dispôs de dinheiro ilimitado… e as lideranças vinham se formando e se mantendo com base na divisão deste dinheiro e dos direitos (legalmente falando) que se distribuia ao redor do dinheiro. Há décadas somos o país que mais produz legislação no mundo.

Chegamos ao ponto em que dispor de direitos não dá direito a nada, pois todos temos muitos direitos. Saúde, por exemplo. É lindo enchermos a boca pra dizer que a saúde é pública no país.

Bem, Michel Temer tem seus direitos também… ele, como Presidente, pode dispor do nosso dinheiro para barganhar o apoio (político) que precisa. Ter direitos se tornou algo meio que divino, meio que angelical, mesmo que absolutamente imoral.

Por que permitimos!? Porque, em geral, todo brasileiro quer ser tratado com os mesmos direitos. Temer representa sim a postura média de um povo que não sabe eleger representantes honestos porque não se identifica com tais.

Michel Temer vai ficar até o fim do mandato e vai sustentar a laia que está consigo. Está provado que o PT não caiu por ser desonesto, mas porque sua desonestidade quebrou o país. Se tivesse a esperteza dos temerianos teria conseguido ficar décadas no poder, como o peronismo argentino. Claro que hoje a Argentina está quebrada, mas isso é outra história.

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Abusos

Vou contar mais uma história pessoal: na minha quinta série, quando tinha dez anos, fui estudar num colégio de classe média que ficava em Porto Alegre (eu morava em Viamão). Neste colégio eu sofri bullying por quase um ano. Eu tinha um colega que devia ter uns dezesseis anos, dizia-se que estava pela terceira vez repetindo. Era o filho do dono do bar, um alemão muito maior que eu, a quem aprendi a temer até doer de medo.

Esse colega foi, digamos, o vetor dos abusos, porque depois que ele começou e eu me amedrontei, muitos outros colegas passaram a fazer algo contra mim.

Não lembro exatamente quando começou, mas provavelmente foi quando o alemão baixou meu calção em plena educação física e fiquei nu em frente a todos os colegas. Pra ajudar, fui reprimido pelo professor, que achou que eu estava de brincadeira com os outros guris.

Teve uma ocasião em que fui colocado no grupo de trabalho de duas colegas, uma negra e uma a quem já conhecia, de Viamão. Combinamos de nos encontrarmos na casa da minha colega negra. Ela me deu o endereço e, na tarde combinada, peguei o ônibus e fui ao local. Procurei, procurei… perguntei… nada. No dia seguinte eu, constrangido por me sentir burro, fui dizer pra elas que não tinha conseguido encontrar a casa e pedir desculpas por não participar do trabalho (não existia celular) e elas começaram a rir de mim, com outros colegas. Haviam me dado o endereço errado para zoar comigo.

Teve outras situações que, confesso, nem lembro direito mais. Eu odiava tanto ir pra escola que começaram a surgir em mim diversas erupções cutâneas, como furúnculos e tersóis. Até que fiz dois amigos e as coisas começaram a melhorar, isso já próximo ao final do ano.

Nunca soube o porquê disso. Desconfiei na época que era porque eu não tinha as roupas que eles tinham, mas não acho hoje que fosse exatamente isso. Hoje acredito que eu tinha uma postura muito introspectiva e isolada, que naturalmente atraía os abusadores e os que gostam de se impor.

Minha mãe teve uma ideia de gênio. Ela não sabia o que eu passava, eu não dizia. Ela intuiu que meu problema era insegurança e me incentivou a voltar às aulas de karatê duas vezes na semana. O karatê meu deu autoconfiança e me ajudou a controlar a minha agressividade. Fiz karatê até os vinte e quatro anos.

Por que trago isso? Porque há uma ideia  (em alguns) de que guris brancos de classe média estão isentos de abusos e de problemas. Há uma ideia de que tudo é problema social e uma inversão de quem são as verdadeiras vítimas. Todos somos potenciais vítimas de abusadores e, se não nos controlarmos, todos somos potenciais abusadores.

Ninguém precisa ser vítima de nada. As pessoas precisam acreditar que podem ser mais fortes do que são, porque todos podem. Todos temos de aprender que contra abusadores, criminosos, agressores o remédio é, antes de mais nada, coragem e coragem.

Uma pessoa sozinha tem certa quantidade de coragem, mas duas pessoas juntas não vão apenas dobrá-la… quiçá quadruplicá-la. Se aprendêssemos a nos unir contra os patifes que nos cercam e cada vez mais se impõe, nós certamente os suplantaríamos. Mas estamos envoltos em teses e mais teses.

Enquanto isso os abusados que aguentem.

Teses x Realidade

A República é um sistema que, em tese, melhoraria em muito o que se via na Monarquia. Isso desde a Roma e a Grécia antigas. Dom Pedro II assumiu o poder em 1840 com 92% dos brasileiros analfabetos. Deixou o governo em 1889 com 56%. Nunca teve escravos. Aliás, um dos principais motivos para a aristocracia brasileira ter tramado a sua deposição foi justamente porque a família real tinha posição claramente abolicionista e investia nisso. O Brasil, nesse época, era a quarta economia do mundo, com crescimento médio de 8% ao ano e inflação inferior a 2%. Fomos o segundo país do mundo a dispor de educação para surdos e cegos. E a imprensa podia livremente se manifestar contra o regime e a coroa (e o fazia com muita voracidade, mesmo porque os intelectuais sempre se caracterizaram por viver de reclamar da realidade e buscar reformá-la para implantar suas teses). Ao final do ano, era comum a coroa devolver dinheiro aos cofres públicos daquilo que sobrava do seu orçamento, sendo que boa parte já havia sido doado ou investido em causas sociais.

Um mundo sem armas é, em tese, melhor que um mundo de pessoas armadas. Mas a Terra é um planeta com gente de valores muito distintos, não apenas pelas diferenças culturais, mas por toda a complexidade que forma a personalidade humana e, por consequência, as sociedades. Os pacíficos não precisam de armas para resolver disputas entre si, mas o mundo não é composto apenas por eles. Em alguns lugares, temos de admitir, muitas pessoas buscam se impor às demais por meios ilegítimos. Num mundo ideal, de pessoas já amadurecidas, esta tese poderia se tornar uma realidade. Não vivemos nesse mundo. Há países extremamente armados, como o Canadá e a Suíça, que são pacíficos e seguros.

Uma sociedade sem disputas religiosas e ideológicas, onde todos concordassem com rumos sociais e existenciais padronizados seria mais coesa e feliz, em tese. Acontece que, sabemos e já dissemos, o ser humano é complexo e há muita diversidade naquilo que forma uma pessoa e uma sociedade. É impossível pensarmos numa sociedade 100% coesa em ideais num sistema onde a manifestação seja livre.

As drogas são maléficas à saúde e comprometem a qualidade de vida daqueles que se deixam dominar. São, provavelmente, o maior objeto de repressão estatal no mundo. Em tese, uma sociedade sem drogas seria mais saudável e segura. Portugal liberou todas as drogas dentro de uma certa quantidade e desfruta de um dos melhores índices de criminalidade da Europa.

O amor nas relações produz, em tese, pessoas mais seguras, amáveis e maduras. Mas vivemos numa sociedade hedonista e egoísta, mesmo já estando há gerações sob uma nova visão da estrutura familiar em que os pares se formam por interesse recíproco e não por imposição dos pais (ou qualquer outro). Em tese, deixar que as pessoas escolham seus parceiros criaria núcleos familiares mais felizes, mas nossa era é conhecida como a primeira em que a depressão se tornou epidêmica.

A vida não é feita de teses, em que pese seja indispensável pensarmos a respeito dela para construirmos nossos caminhos.

O ser humano, contudo, precisa dispor de mais humildade em reconhecer aquilo que não está funcionando e mudar. Simples assim.

Em tese a vida é fácil. Ou é difícil. Mas na prática é bem diferente.

Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

Ponto de Vista

Ponto um: eu me cansei de ser genericamente chamado de machista, racista, homofóbico e explorador por ser homem, branco, hétero e empresário. Já faz uns três ou quatro anos que estou farto disso e, para não começar a odiar quem vive repetindo esse discurso pobre e triste, me desliguei.

Ponto dois: é por sentir isso que me compadeço com o que passam os gays, os negros, as mulheres vítimas de seus companheiros e todas as demais pessoas que são desrespeitadas por este ou aquele agressor. É sempre importante reconhecermos que existem sim problemas graves de desrespeito e intolerância. Contudo temos de reconhecer também que a forma de se lidar com tais problemas tem sido muitas vezes retribuir a agressão com outro tipo de agressão, a discriminação com outro tipo de discriminação, a violência com outra forma de violência e o desrespeito com um revide de desrespeitos.

Ponto três: sabendo disso, temos de parar de criar divisões e impor condutas. As pessoas têm todo o direito de serem diferentes e de pensar diferente. Elas têm até mesmo o direito de odiar… desde que se mantenham contidas nessa postura. Chega de ficarmos criticando quem quer mudar ou quem quer continuar sendo como sempre foi.

Ponto quatro: numa época de superexposição, parece importante expor tudo o que somos e pensamos. Nem tudo precisa ser exposto, principalmente aquilo que não vai colaborar, que vai apenas extravasar algo que é nosso e não precisa ser compartilhado. Guarde seu ódio e o leve para seu terapeuta. Trate sua raiva ou sua frustração, seja a de ser hétero, de ser homo, de ser burro, de ser corno, a que for. Tudo tem meios de ser melhorado com a conduta adequada.

A polarização é a falência do raciocínio

Disse Nelson Rodrigues que toda a unanimidade é burra e digo eu que a polarização é pior. Não que a polarização seja necessariamente burra, não o é, mas é pior porque nela a razão foi posta de lado. A polarização transforma o debate em embate, é paixão. O melhor raciocínio não é utilizado para avaliar a pauta, mas para afirmar o seu argumento diante do argumento alheio.

A polarização desconstrói o que foi construído, desvaloriza o oponente como uma disputa de guarda no Direito de Família, como se todo o amor que um dia se possa ter sentido tivesse se transformado em rancor e raiva.

A polarização deixa de lado qualquer possibilidade de entendimento quanto mais se passa o tempo, porque são tantos os ataques e os contra-ataques que, anos depois, não se sabe nem o motivo da disputa. Cada lado se sente o defensor da verdade e usa todo o seu arsenal para defendê-la. É como se alguém te xingasse e você sacasse uma arma e atirasse em revide e depois dissesse: “mas foi em legítima defesa, ele começou”. O tempo não ajuda o debate, o piora. São os debatedores (alguns) que, mais maduros, mudam o jeito de debater.

É a atitude polarizada que afirma que “bandido bom é bandido morto”, que “empresário só pensa em dinheiro”, que “funcionário público só olha pros seus privilégios” e por aí vai. Porque muitas vezes essas frases podem ser verdadeiras a esse ou aquele caso concreto, mas o raciocínio polarizado generaliza a análise e radicaliza a atitude.

Tenho de admitir uma coisa, contudo: a polarização é uma evolução à apatia. Sou dos que acredita que o ser humano jamais deixa um extremo para centrar-se. Ele cambaleia entre os extremos, num movimento pendular, até que esse pêndulo perde a força e acaba ao centro, no meio termo. Assim somos nós e nossas atitudes.

Então, meus amigos e amigas, respeitemos quem ainda não está pronto para debater com maturidade certos temas. Não que tenhamos de aceitar passivos suas impertinências… mas entendamos que tudo tem seu tempo. Chegaremos lá.

O Racionalismo Materialista

A medicina que cuida das emoções, da psiquê, da personalidade tem pouco mais de cem anos. Teve em Freud e Jung os seus protagonistas de maior relevo. Isso no ocidente, claro. Os egípcios, os maias, os chineses sempre associaram a saúde do corpo à saúde da mente, a ponto de influenciar o berço do racionalismo ocidental na Roma e Grécia clássicas, com a máxima “mens sana in corpore sano”. Por séculos os estudiosos do corpo eram filósofos, religiosos, curandeiros, xamãs, que associavam o comportamento à saúde. Com o desenvolvimento do racionalismo foi-se criando um distanciamento entre corpo e espírito e, consequentemente, uma divisão cada vez mais clara entre espiritualidade e ciência. Clara do ponto de vista racional.

O racionalismo tem em Descartes (“penso, logo existo”) em Kant seus protagonistas, sendo fonte do chamado pensamento liberal. Pelo racionalismo clássico tudo tem um propósito, uma finalidade, e essa busca é tarefa da razão.

No século XIX o racionalismo era a corrente filosófica que dominava o pensamento científico, em derrubada ao Iluminismo. Essa visão racional da vida influenciou pensadores de todas as vertentes – e também Marx e Engels. Esses filósofos criticavam o pensamento liberal e buscaram contrapô-lo firmando análises e conclusões racionalistas aos problemas sociais que enfrentavam. Daí surgiu o chamado de Racionalismo Materialista que, de forma sintética, afirma que os modos de produção estruturam a vida social e espiritual. O Racionalismo Materialista é ateu e antirreligioso (leia “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiesvski), postura que desde sempre logrou o repúdio dos religiosos de toda a ordem.

Então Freud e Jung trazem à ciência a ideia de que há efetivamente algo além da matéria e de que a razão não consegue regular e entender toda a análise existencial. Há um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo. Há um subconsciente que nos governa o comportamento (leia “O Poder do Subconsciente”, de Joseph Murphy). Há um manejo da razão feito por nossos instintos e emoções – e vice-versa.  E há uma linguagem simbólica, onde até mesmo do ponto de vista racional analisamos o mundo e a nós mesmos com base em arquétipos.

A história humana é marcada por disputas de poder, pela violência, pela lascívia. E também pelo heroísmo, pela benevolência, pelo altruísmo. Com pequenas exceções, o mesmo ser humano desfruta ora de um comportamento, ora de outro, motivado por senso e sensibilidade. O ser humano que nasce não é o mesmo que morre, mas pode sê-lo. Há um livre arbítrio e uma condição social a moldar seu caminho existencial.

Pois bem, cá estamos a refletir sobre o Racionalismo Materialista, que ainda persiste em nossos dias a influenciar intelectuais, por mais desastroso que tenham sido suas tentativas de implementação. Por que não dá certo? Por que ainda tem simpatizantes?

Primeira resposta: o materialismo é impossível, irreal. O mundo não é material (no sentido filosófico). A humanidade tem mais condições de sobreviver ao fanatismo religioso que converge do que ao materialismo que diverge pontos de vista. A razão tem como limite a razão do outro. É impossível um sistema baseado em algo tão individual conseguir angariar esforço para um propósito por tanto tempo, porque há de divergir em algum momento e enfraquecer-se. A razão não é, como se pretende, definitiva. Sua linguagem é sazonal, pessoal, temporal, limitada. Se o racionalismo tem um limite o racionalismo materialista é ainda mais limitado. E não é que sejam inúteis, nem que estejam errados. É que a “linguagem” racional não é bastante e reconhecer isso faz parte da solução deste problema.

Dito de outra forma, o racionalismo materialista apenas produzirá resultados (ainda que limitados e diversos do pretendidos) naqueles seres humanos que falarem a mesma língua e intentarem os mesmos propósitos. E, sabemos, a humanidade é muito maior que uma corrente filosófica.

Sobre a segunda pergunta: os simpatizantes são aqueles que se identificam com a simbologia (racional) materialista. São os ateus, os antirreligiosos, os materialistas. Não há coerência (racional) em viver uma religião e ser marxista. Não há coerência (afetiva) em acreditar nas leis de causa-efeito e revoltar-se com a vida. Seus simpatizantes são e sempre serão uma minoria em transitoriedade por este pensamento que cerceia qualquer outro pensamento.

O racionalismo materialista tem como limite, por isso, a própria evolução humana. E por isso não acredita nela, por isso combate qualquer filosofia evolucionista. Embora seja escancarado que o ser humano progride, ainda que aos poucos, o racionalismo materialista precisa não reconhecer esta evolução, pois se o fizer contradiz-se.

Jung acreditava que o comunismo era uma patologia. E é.

Dilema Existencial

A humanidade mescla essa coisa de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Todos nós trazemos um pouco disso no nosso âmago. Temos uma diversidade de perfis quase infindável, que produz gente com atitudes divinas e infernais. Na maioria das vezes o ser humano médio carrega ambos perfis.

Darwin disse que estamos fadados à evolução. Dizem alguns que a referência dele é quanto à evolução biológica mas creio que ele falava existencialmente, inclusive do ponto de vista biológico. O Evolucionismo é fato, é lei natural. Quem duvida que a humanidade é melhor hoje do que era há 10.000 anos?!

Sei que muitos duvidam.

O motivo disso é porque alguns fazem a avaliação da evolução humana do ponto de vista meramente comportamental, sem olhar a tecnologia, a construção social. Pensam assim: há mil anos o ser humano matava por dinheiro e ainda mata. Ou: há cinco mil anos tínhamos guerras e ainda as temos.

Sob esse ponto de vista, estão certos. Por isso que somos uma mistura de escola, hospital, parque de diversões e inferno.

A humanidade é composta de gente de todos os níveis morais e intelectuais. É justamente essa mistura que nos causa tamanhos conflitos.

Imagine você que todos nós fôssemos sanguinários e matássemos uns aos outros para conseguir comer, por exemplo. Não nos causaria sofrimento matar o vizinho para roubar-lhe a comida. Acontece que é justamente a diferença de valores que dá à humanidade a condição de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Quando nossos valores forem mais uniformes seremos outra humanidade.

Enquanto isso, os mais evoluídos (digamos assim) sofrem com seus dilemas. Os mais animalescos não têm dilemas; fazem o que lhes dá vontade. Já os mais evoluídos precisam encontrar um equilíbrio entre o que desejam e o que precisam fazer para se proteger dos mais animalescos.

Imagina um antiarmamentista. Ele vive num mundo de gente violenta e armada. Então ele prega o fim das armas esperando que isso diminua a violência, mas não diminui.

Imagina o vegetariano. Ele defende que os animais sofrem ao serem abatidos e que não precisamos mais matar para sobreviver à fome. Mas tem gente, em recantos múltiplos, que ainda não tem o que comer regularmente.

O dilema existencial decorre da diferença de valores no âmago da humanidade. Quanto mais gente houver na Terra, mais diferenças haverão. E sempre haverá o mais bruto, mais violento, em confronto com o mais brando e pacífico. Entre eles estão os humanos que transitam entre o céu e o inferno, levando conhecimento, força e beleza onde isso não existe.

 

 

Presunção de Inocência

Nossa Constituição diz que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Aí vem o STF e inova, dizendo que a partir do julgamento colegiado de segunda instância já se pode executada a pena. Por que isso? Porque a presunção de inocência até o trânsito em julgado faliu. É um método indiscutivelmente gerador de impunidade.

Em tese, o ideal seria efetivamente que qualquer pessoa só fosse considerada culpada depois que não tivesse mais meios jurídicos de provar-se inocente. Isso num sistema ideal onde o Judiciário funcionasse rápido e as instituições não se contaminassem com as eventuais demoras ou com os eventuais reflexos disso.

No nosso caso isso falhou. Somos responsáveis pela sociedade mais violenta do mundo em mortes, seja no trânsito, seja em decorrência da criminalidade.

Nosso país é um continente. Faz fronteira seca e molhada com países que sabidamente são produtores de drogas ilegais para o mundo inteiro. Nas festas da Holanda ou nas boates de Ibiza os riquinhos que não sabem viver com tudo que a vida lhes deu financiam as mortes e a violência nas fronteias de Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil. Compram daqui porque ninguém em sã consciência seria produtor de drogas ilícitas num país sério, com polícia altamente capacitada e repressiva.

Aqui as balelas garantistas nos fazem terreno fértil para todo o perfil criminoso disponível no mercado. Desde a corrupção, até o tráfico, o roubo de cargas, as fraudes estelionatárias, os assaltos a banco e os latrocínios para roubo de veículos… tudo isso é resultado de uma atuação estatal que falha em todos os níveis: na legislação garantista, na interpretação judiciária excessivamente permissiva e costumeiramente omissa, na polícia eventualmente corrupta, no consumidor do crime que adora pagar mais barato sem se preocupar com a origem do que consome.

A sociedade brasileira elegeu o sistema da presunção de inocência até o trânsito em julgado porque é permissiva, porque se identifica com a impunidade e ainda prefere isso ao rigor da lei. Vozes mais lúcidas bradam uma mudança necessária, mas os vendedores de filosofia de apartamento batem pé. Felizmente estão perdendo espaço. A dor ensina a gemer e nossa gente já está cansada de chorar e secar lágrimas ao seu redor.

Meus amigos de infância

Prometi continuar a história da minha casa de infância (leia aqui: https://asluvizetto.wordpress.com/2017/05/25/minha-casa-da-infancia/) em que fui salvo por um amigo da vila onde me criei.

Antes tenho que dizer que dos melhores privilégios que a vida me deu foi ter tido tantos amigos na infância e juventude. Amizades de todas os tipos e intensidades, de todas as formas. Assim são as pessoas e assim são seus vínculos. Mudam, melhoram, pioram e vão se ajeitando.

Na mesma rua em que eu morava, mais pra baixo, perto da bica, bem próximo à casa dos meus avós, morava um amigo. Vou chamar ele de negão C. Naquela época era comum chamarmos nossos amigos negros de negão. Negão C. era um cara alegre, brincalhão e teve uma fase em que era muito brigão. Cresceu e entrou pros Fuzileiros Navais, antes de se tornar professor de história e geografia.

Pois quando tinha lá uns treze ou quatorze anos, minha turma fez um chá de arrecadação de recursos para a viagem de final de ano da 8ª série. Esse chá foi feito no salão de eventos da minha escola, que ficava ao lado da maior escola pública da cidade. Já havia uma rixa entre as duas escolas, como é comum nesse tipo de situação. Eu fui encarregado de cuidar da entrada no salão. Meu trabalho era ver se os visitantes tinham ingresso e orientá-los onde poderiam comprá-lo por uma bagatela que dava direito a comer e beber o que quisesse.

Pois lá pelo meio do evento um grupo de guris da outra escola apareceu e quis entrar. Eu, gentilmente, disse que poderiam adquirir o ingresso por um precinho e que isso dava direito a comer e beber de tudo. Logo vi que o interesse deles, na verdade, era me ou nos provocar. E logo se formou um círculo para brigar comigo porque eu não permiti que eles entrassem sem pagar. Alguns adultos, vendo a confusão, mandaram aqueles guris embora da minha escola. Isso foi num sábado à tarde.

Na segunda-feira seguinte quando eu estava saindo da sala para ir embora, o P.R. veio correndo me chamar: “Leco, tem uns cinquenta caras do Farroupilha lá na rua pra te pegar”. Confesso que não acreditei e paguei pra ver.

Quando cheguei em frente à escola era inacreditável a quantidade de alunos do outro colégio parados em frente ao meu, esperando pra ver a briga que, imagino, deve ter sido alardeada a manhã inteira por lá. Não eram cinquenta, eram mais de cem alunos, com certeza. Como eu ia a pé pra casa, caminhando uns 2km, não tinha alternativa. Tinha de passar pelo entrevero e arriscar a sorte.

Logo apareceu a turma que havia me provocado no sábado e apontaram pra mim. Uns vinte começaram a correr na minha direção e percebi que alguns poucos amigos corajosos, poucos mesmo, dois ou três apenas, iam se prontificar a me ajudar quando surge no meio daquele burburinho o negão C. e diz: “O que?! O cara que vocês querem pegar é o Leco?! Bem capaz! Vão ter de brigar de mano!”. Negão C. era amigo daquela turma e um dos mais influentes, pelo jeito.

Deu a briga. Deu mais umas duas ou três brigas, nos dias seguintes.

Para ter ideia do risco que corri e não sabia: o cara que brigou comigo foi morto ainda jovem; seu irmão, que quis brigar comigo tempos depois, foi preso por homicídio e tráfico; outro, que estava armado com uma garrucha no dia da balbúrdia, foi preso por homicídio em SC.

Tirei muitas lições desse evento e de alguns outros que decorreram. Esses caras, por exemplo, se tornaram meus amigos. Até os atendi como advogado, anos mais parte.

Até hoje não sei até hoje se o negão C. tem noção do quanto me salvou naquele dia. Obrigado cara! Te devo por essa e por aquela outra no Carnaval do Cantegril.