Lições Políticas

Governo Temer chegando ao final com 80% de reprovação, campanha eleitoral sem a presença de grandes expoentes, polarização ideológica. Há lições políticas valiosas nessa realidade a que estamos submetidos, mas que, infelizmente, ainda não aprenderemos. Vamos a elas:

1. O vice-presidente de uma chapa eleitoral (e obviamente o seu partido) é integrante do projeto proposto. Se não tiver identidade com o projeto, será o seu primeiro grande adversário.

2. Todo governo precisa de força política. Força política decorre de comprometimento ideológico, de comprometimento moral ou de interesse pessoal.

3. A maioria das pessoas não tem interesse em debate ideológico, querem apenas viver a sua vida de acordo com seus interesses. As pessoas que impõe o debate ideológico como indispensável costumam depender do Estado para suas conquistas, pois o Estado é o único agente constituído capaz de implementar ideologias no Brasil.

4. Há ideologias que são um grande arcabouço de ideais isolados que, aparentemente, são compatíveis. Costumam ser as mais ativas politicamente e as mais frágeis ao governar, pela impossibilidade prática de conciliar tantos interesses distintos.

5. Economia não é o que gira ao redor do dinheiro. É o que permite a vida das pessoas. Quem olha economia e só pensa em dinheiro provavelmente olha as pessoas e só pensa em política.

6. Para mudarmos o Brasil, precisamos mudar nossas ideias e nossos ideais. Precisamos deixar de acreditar no que não dá certo e escolher o caminho do que é possível. Não se constroem castelos começando pelos quartos.

7. Nenhum partido, nenhuma ideologia, nenhum aglomerado de ideias pode se apropriar da liberdade individual e do direito de divergir.

8. A lei é a referência social básica. Sua criação, modificação, aplicação e revisão dependem de instituições. Sem fortalecermos estas instituições continuaremos na eterna infância social.

9. Não existem salvadores.

10. Essas lições elementares estão longe de serem implementadas no Brasil. Ainda vivemos os debates do início do Século XX.

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Meritocracia

Imagina comigo:

Jogar bola sem se importar com os gols;

Jogar canastra/buraco sem se importar com a pontuação;

Fórmula 1 sem se importar com o pódio;

Maratona sem se importar com o tempo;

Aula de matemática sem se importar com a prova;

Foguete pra Marte sem se importar se chega;

Construir uma casa que pode ter umas goteiras;

Atender um paciente sem se preocupar com a cura;

Governar com despreocupação ao dinheiro;

Ter filhos que podem fazer o que quiserem;

Ler um livro e não entender a história;

Ter um errado que é considerado certo;

Apertar um parafuso que pode ficar frouxo;

Cultivar uma plantação que não precisa dar frutos.

 

Se não buscarmos o mérito e o êxito a vida deixa ser ser possível.

Digitalizar

Quando eu tinha 9 anos, morava numa vila que não tinha praça para jogarmos futebol. Jogávamos na rua, que era de areia ou saibro, cheia de pedrinhas, algumas sem coleta de esgoto. Com o tempo, algum pai de amigo mostrou que podíamos usar os terrenos desocupados para jogar bola. Bastava limpá-los e deixá-los em condições.

Naquela época a regra era clara: escureceu tem de estar em casa. Não tinha como minha mãe saber onde eu estava. Podia estar em qualquer rua num raio de quilômetros ou na casa de um amigo.

O mundo hoje é absurdamente diferente. Enlouquecidamente diferente. Maravilhosamente diferente. Perigosamente diferente.

Entro no quarto dos meus filhos e digo quase sempre: “este é o melhor quarto do mundo”. Ali tem TV, videogame, livros, globo luminoso, Netflix, teclado musical, brinquedos e por aí vai. É de um conforto maravilhoso, ainda que simples, ainda que sem luxo.

Nossas condições materiais não são melhores do que há trinta anos por acaso. A humanidade estuda mais, conhece mais, compartilha mais, busca mais, tolera mais, doa mais.

A era digital é muito mais do que software e hardware, do que APPs e perfis. Ela está criando um novo mundo.

O que mais me assusta não é ver esse novo mundo chegar… não é. O que mais me assusta é ver a quantidade de gente que ainda vive e pensa da forma do antigo mundo analógico. E pior, gente que é ainda mais devagar, mais preguiçosa, mais omissa que há trinta anos.

Digitalize sua visão de mundo, seu jeito de estudar e trabalhar, sua forma de existir e sentir. Imediatamente. Ou você não será compatível com o sistema operacional da vida muito em breve.

Uma locomotiva chamada Direito

O Direito é como uma grande rede ferroviária, onde são construídos os trilhos que levam aos destinos normativos, não exatamente onde se quer ir – como iríamos em carros – mas aproximadamente onde se pretende ir, nas estações. A locomotiva é o processo, conduzida pelos operadores do Direito. Os trilhos são a lei e as demais normas, fixos, estáveis e é (ou deveria ser) impossível à locomotiva estar fora deles.

Acontece que, aos poucos, esta locomotiva houve de carregar mais vagões, com mais usuários e mais operadores. E mais vagões para caberem mais bagagens. Ao ponto em que a locomotiva não consegue mais puxar adequadamente todos estes vagões e, mais incrível ainda, a locomotiva de uma composição já está encontrando o último vagão da próxima, quase não dispondo de espaço para mover-se.

Então chega um ponto, neste sistema, em que a composição só consegue ir para onde a composição da frente está indo, pois não consegue desmembrar-se nas intersecções nem adentrar nos desvios que pretendia. Sabendo disso, os operadores deste sistema mandam as grandes composições para os destinos mais desejados, sem observar se há usuários que compraram passagem para outros destinos.

Depois de um tempo as composições deixam definitivamente de ser orientadas pelo destino informado, mas tão somente levam onde puderem levar e cabe aos usuários decidir onde desembarcar, mesmo pelo meio do caminho, antes que acabem desviados demasiadamente.

Neste ponto, a grande locomotiva e suas composições acabam por deixar de ser instrumentos de transporte… tornam-se tão somente instrumentos de arrecadação de gente e de passagens. São mais competentes em oferecer trabalho aos operadores que em transportar passageiros e cargas, mas se contentam com isso, pois se está dito na passagem e no letreiro que hão de chegar em Brasília, pouco importa se o usuário terá de passar por Manaus, Porto Alegre e Salvador antes… ainda que não queira, ainda que demore.

O sistema judiciário não pode se tornar algo que existe por si e para si. Não pode se contentar em judicializar todos os eventos da vida. Não pode se imiscuir da estatização de tudo. Se é verdade que quanto mais processos mais poder terá o Judiciário, também é verdade que esse não pode ser o seu objetivo. O Judiciário existe para resolver os conflitos entre as pessoas. Resolver os conflitos não é simplesmente resolver processos, pois resolver processos pode, ao final, se tornar criar novos conflitos em série para alimentar o sistema de conflitos e de usuários e de orçamento e de cargos, etc.

Acontece que a locomotiva já está embalada e, se parar, a de trás não conseguirá frear. Como faremos?!

A família e a sociedade

A célula social elementar é a família. Essa ideia é uma quase unanimidade em praticamente todo conceito sociológico, antropológico, filosófico, religioso e político.

Quase…

Platão, por exemplo, via o Estado ideal consideravelmente diferente deste que hoje temos. Ele entendia que notáveis deveriam governar e que as crianças deveriam ser cuidadas por todos. Em sua idealização o homem devia cuidar de todos e todos cuidarem dele.

Não ouso dizer que Platão estava errado. Quem sou eu pra tanto. Acho, contudo, que a sua idealização era demasiadamente utópica para nossa humanidade, tanto que passados dois milênios e meio ela jamais sequer pautou os interesses humanos.

Marx não foi um filho lá muito exemplar e, ao que parece, tinha uma visão própria sobre família que deve ter influenciado sua paternidade. Perdeu quatro dos sete filhos ainda bebês e duas das suas filhas se suicidaram.

Platão não teve filhos. Ao que consta era homossexual. Marx teve sete, apenas um sobreviveu.

Jesus, segundo os relatos oficiais, tampouco teve filhos. Buda idem. Ainda assim suas concepções filosóficas sobre a família eram diversas, repletas de sentimentalismo e importância. Maomé teve diversos filhos e impôs um código moral que levava muito a sério a vida familiar.

É certo que a nossa condição afetiva norteia nossas relações e nossa visão de mundo. Se você ouvir que morreram dezenas de pessoas em razão de um atentado na África ficará triste. Se ouvir que faleceu o pai do seu amigo ficará muito triste. Se souber que faleceu o seu pai ficará arrasado. Nosso mundo afetivo é nosso mundo. Nossa família tende a ser a base deste mundo afetivo.

A biologia determinou derivássemos de um homem e uma mulher, seres que se unem pelo impulso sexual com maior ou menor emanação da afetividade. Quanto mais afetividade, maiores as chances de estabelecerem-se enquanto família e, assim, dispensarem a troca de afetividade entre si e entre a prole. Mais troca de afetividade resulta em mais segurança, mais saúde, mais autoestima, mais equilíbrio e permite combinações de personalidade mais afeitas à bondade, ao desenvolvimento, à felicidade.

Os menos privilegiados no campo familiar costumam relatar um intenso interesse em ter vivenciado este ambiente. Os mais privilegiados tendem a repeti-lo, melhorá-lo.

Se é a família unida por laços afetivos a base da fortaleza pessoal é ela também a base da fortaleza social. Eis o raciocínio inicial.

Dito tudo isto para entrarmos, numa próxima reflexão: toda mudança social passa pela mudança da família. A família unida com filhos tem um propósito. A sem filhos outro. A família unida e que vive de uma atividade familiar – como a agricultura ou um mercado – tem uma rotina. A família desunida que vive desta mesma atividade terá outra. Há família de advogados, de agricultores, de professores… construções afetivas que repercutem na atividade profissional.

O contexto é fundamental, mas ele não é determinante. Se fosse, o resultado seria previsível matematicamente. Haveria uma equação, um algoritmo que permitira saber que determinada combinação de fatores resultaria num resultado pessoal, social e global preciso. Não há. Justo porque, em que pese seja a família uma base fundamental para o bom desenvolvimento do ser, o ser humano é capaz de ir muito além ou muito aquém do seu grupo, pois dispõe de livre-arbítrio e vontades individuais. Será o contexto familiar, de novo, que irá podar estes limites ou expandi-lo.

Toda mudança social, repete-se, decorre de mudanças pessoais e familiares. Famílias que dependem do Estado criam dependentes, não importa a renda e a instrução envolvidas. Famílias que são autodeterminadas criam cidadãos livres e autodeterminados. Famílias tolerantes tendem a ser mais leves e felizes. Famílias moralistas mais formais e intolerantes.

Então, que tipo de famílias nosso país, nossa cidade, nós tendemos a reproduzir?! Estamos vendo ao nosso redor, dia a dia. Compete a cada um de nós, dentro da nossa casa, mudar nosso país.

mudança 6 x 5 impunidade reacionária

Consegui acompanhar praticamente todos os votos do julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula no STF, neste quatro de abril, até quase uma da manhã do dia cinco. Acompanhar julgamentos de últimas instâncias é sempre didático aos operadores do Direito.

Em que pese a demora, se fizermos uma média cada julgador falou menos de uma hora, o que é compatível com a magnitude do que se debatia. Decisões colegiadas do STF sobre temas de impacto social raramente têm unanimidades e conciliação. É um embate de valores que se transforma em debate jurídico.

O Ministro Luis Roberto Barroso deu aquele que é melhor e mais importante voto que acompanhei nestas minhas duas décadas de Direito. Foi um voto maduro, acolhedor, atento ao país e ao Direito, corajoso e o mais importante, foi um voto técnico, jurídico, profissional. Foi brilhante!

Os votos de Marco Aurélio Mello e Celso de Mello representam justamente o pensamento jurídico que nos torna o país mais violento do mundo, seja em termos de mortes no trânsito ou por mortes intencionais com armas, e um dos mais corruptos do mundo. Ao meu redor, diversos colegas se manifestavam pra lá e pra cá e se via que era a orientação político-ideológica que motivava aqueles que entendiam pela concessão do Habeas.

Quando um Ministro do STF diz que o clamor das ruas não lhe move qualquer influência para decidir contra ou a favor de um paciente está dizendo que vive no Olimpo e que o clamor humano não lhe atinge. É simples assim. Todos queremos um julgamento justo a quem quer que seja. E justiça não é permitir que crimes prescrevam, que culpados se livrem, que crianças cresçam e morram no país mais violento do mundo. Para justificar essa violência que decorre da impunidade, os grupos que atuam (consciente ou inconscientemente) a favor da manutenção dessa postura jurídica tradicional colocam a culpa da violência na distribuição de renda e nos problemas sociais, como se ricos não cometessem crimes e como se pessoas nascidas desprovidas de regalias materiais não pudessem ser honestas. É absurdo, antigo e incoerente.

Gilmar Mendes defendeu sua mudança de entendimento nas “falhas da justiça”. Ora, corrija as falhas! Aponte as soluções! É tão flagrante que existe uma intenção camuflada que dispensa maiores debates.

Os ex-presidente Lula é dos piores demagogos que tivemos. Das piores pessoas que vi atingirem o poder. Vende uma ideia santificada que lhe foi fabricada como fantoche. É um ser humano comum que se endeusou, Lula não é um quinto do que acredita ser. Tornou-se um símbolo caduco de uma velha foma de ver o mundo e exercer o poder. É usado e usa. É ação e reação. É culpado com consciência parcial de todo o mal que já causou porque lhe falta capacidade e autocrítica de reconhecer o que já fez. Lula morrerá um dia achando-se vítima sem cair-lhe a ficha do absurdo que representa em termos de ideais e de valores retrógrados. Ao seu redor, todos que têm um mínimo de consciência desmistificam esse mito, que ousa se comparar aos incomparáveis.

O STF foi Supremo. Foi o que se espera de uma Corte de referência. Seus velhos e antigos pensadores, espero, o deixem em breve para que possamos ir adiante. Estamos cansados de viver com os mesmos problemas há cem anos.

O Brasil que eu quero não precisa de vídeo no celular. Precisa de justiça, precisa acabar com a impunidade sem ser autoritário, precisa mostrar para quem escolhe o caminho do dano alheio de que o Estado serve para conter tais posturas e não para protegê-los.

 

Documentários Esclarecedores

Quem curte história está costumeiramente procurando algo para ler e assistir nas livrarias, nos sites e nos aplicativos. Recentemente li a “A Teoria das Nuves”, de Stephane Audeguy, que fala a inusitada história de homens que estudaram as nuvens quando a meteorologia ainda não existia, com uma visão romântica, às vezes absurda.

Mas são da sétima arte as histórias que pretendo sugerir e começo com o documentário “Hitler´s Circle of Evil“, de 2017, que traz de uma forma interessante a personalidade dos asseclas do Führer e sua influência no que se tornou o nazismo. É inacreditável e muito ilustrativo no que resulta a aglomeração de loucos inteligentes e ambiciosos ao redor do poder e da demagogia. O documentário pode ser encontrado no Netflix e no Youtube (assim como os demais abaixo).

Algo mais recente e não menos triste e esclarecedor é o documentário “White Helmets” ou “capacetes brancos”, de 2016. São os abnegados paramédicos sírios que ajudam a salvar as vítimas dos bombardeios russos e governamentais, nos nossos dias, e nos tocam pela proximidade histórica. As cenas são tristes.

Uma visão interessante sobre a questão armamentista norte-americana é o documentário de Michael Moore “Tiros em Colombine” (ou “Bowling for Colombine”), feito em 2002, mas ainda bastante pertinente. Gosto especialmente da forma como analisa a questão numa cidade americana e na sua vizinha canadense, sendo que ambas são dotadas de moradores bastante armados.

Não há dúvida de que a visão empregada em cada um destes documentários tem componentes do viés ideológico dos seus autores que, eventualmente, não serão o seu. Ainda assim são materiais muito bons e que merecem a reflexão.

 

O veículo ideológico

Os projetistas do veículo ideológico marxista tinham boas intenções. Creio que boa parte deles tinha boas intenções. Queriam que embarcássemos no seu veículo e chegássemos ao destino da sociedade justa e equilibrada. Contavam que este veículo se alimentaria do senso comum e do esforço comum, entregando o mesmo conforto e o mesmo tempo de viagem a cada um dos passageiros.

Contudo, o veículo não possui acentos iguais (há os da janela e os mais apertados) e precisa ser dirigido ora por uns, ora por outros. Nem todos os que dirigem sabem conduzi-lo. Os que sabem guiar, nem sempre sabem o caminho. Os que conhecem o caminho costumeiramente são alertados de que outros caminhos há mais rápidos ou mais seguros.

O projeto deste veículo ideológico considerava que distribuindo riqueza se chegaria ao destino social desejado. A riqueza seria um problema quando concentrada e sua criação era vista como impossível: a solução seria dividi-la.

No início era um projeto preconceituoso, xenófobo, misógino, racista. Com o passar dos (d)anos o número de passageiros interessados em viajar neste veículo diminuía e se entendeu por bem captar aquelas minorias antes desprestigiadas, que nada tinham de relação ao projeto original. Isso dificultou ainda mais a compreensão do projeto e sua implementação falhou em todas as tentativas ao longo da história.

O veículo ideológico que achava que distribuindo renda distribuiria justiça deixava de considerar que a renda é o resultado de um trabalho, às vezes de gerações. Deixava de considerar que o dinheiro não é sujo ou limpo, que é apenas o resultado de algo. Deixava de considerar que cada um de nós é responsável pela nossa trajetória e que o Estado é apenas mais um dos passageiros desta viagem, não o seu condutor.

O veículo ideológico causou mais mortes que qualquer outro veículo da história, inclusive dos veículos de guerra todos juntos somados.

Além disso, o veículo ideológico jamais captou o apoio dos religiosos por verdadeira incompatibilidade e, com isso, atestou sua contrariedade a todo e qualquer credo. Era mais uma das suas oposições. Opor-se sempre foi sua principal orientação.

De quando em quando aliava-se a ideais mais racionais, mais efetivos, mais humanos. Mas a falta de orientação e de efetividade sempre acabava por resultar em algum acidente desastroso.

O veículo ideológico hoje está fadado ao ferro velho e só não foi aposentado porque há muitos condutores e passageiros saudosistas e entusiastas que não se dão por derrotados. Ainda que jamais tenha conduzido qualquer de seus passageiros ao destino, teimam que um dia o fará

A Intervenção no RJ

Presidente Michel Temer decretou a intervenção militar na área de segurança pública no estado do RJ. Hoje (19/02/18) o Congresso deverá autorizar a medida.

O Rio de Janeiro é um estado em guerra urbana há décadas. A ausência de Estado que hoje existe nos presídios brasileiros existe há décadas nas favelas e/ou comunidades fluminenses. O que se pode imaginar em termos de políticas públicas já foi testado por lá. Escolas de tempo integral, polícia pacificadora, intervenção militar e policial, a própria permissibilidade e tolerância ao tráfico. De tudo. Tem mais ONG no RJ do que nas outras regiões brasileiras. A renda média do fluminense também é uma das maiores do Brasil. E é inegável que há um abismo social entre a zona sul e as demais regiões cariocas. Assim como é inegável que a classe média carioca e os turistas são os principais financiadores do crime por lá.

Há premissas que se pode exarar sobre a realidade fluminense:

  • leis de restrição ao uso de armas são inócuas para a cultura e a realidade brasileira
  • a corrupção sistêmica instala-se também na cultura e no tecido social
  • o tráfico é o grande gestor da criminalidade e atrai pessoas de todo espectro social
  • não há tropa e estrutura suficiente para combater o que é socialmente tolerado
  • a inteligência das forças de segurança está limitada pela capacidade operacional

Dito tudo isso para afirmar que não há dúvidas de que uma intervenção militar é das poucas (se não a última) alternativa para começar a resolver o problema.

Mas não essa intervenção fajuta deste governo de raposas.

Michel Temer é o Presidente brasileiro com menor aceitação que se conhece. Tão comprometido moralmente como seus antecessores, tem a pecha de golpista e consegue desagradar gregos e troianos, ainda que tenha devolvido a economia brasileira aos trilhos. Temer poderia, com seus resultados econômicos, ser visto como um reconstrutor das ruínas deixadas pela bomba petista, mas não consegue simplesmente porque pertence ao grupo que tem dominado o país há décadas e que soube ardilosamente se livrar dos seus marionetes quando estes passaram dos limites da roubalheira e do idealismo. Assim, desagrada trabalhadores, imprensa e a classe média.

Tudo é tolerado por dinheiro no Brasil. Até a ideologia oponente é tolerada.

Pois Temer percebeu que ia perder a reforma da Previdência Social (outra necessidade brasileira, mas não essa reforma Frankstein) e está cansado de não ser reconhecido como gostaria.

Temer percebeu que há um movimento nacional de apoio aos militares, que chega ao ponto de pedir que se faça um golpe ou uma intervenção.

Temer sabe que Bolsonaro (um direitista) tem reais chances de ir a um segundo turno nas eleições presidenciais.

Temer e seus cabides sabem que a esquerda (a qual pertencem) está comprometida moralmente aos olhos do povo, mas ainda assim o brasileiro se identifica com medidas populistas.

Voulà! Soa como uma ideia genial para seus apoiadores transferir o poder de gestão da segurança do lugar mais deflagrado do país aos militares. Se der certo tornam-se os salvadores da pátria. Se der errado (e vai dar) a culpa será dos militares (como no passado) e se ganha mais uma década de embates entre direita e esquerda (detesto estes esteriótipos, mas é o que se usa).

O Exército Brasileiro vai exercer o melhor possível seu papel neste teatro, tenho certeza. Torço para estar errado quanto aos resultados desta operação, como torci para estar errado com os governos petistas. Mas, ao final, não estava.

O auxílio moradia

Fico pensando nas diaristas que conheço. Se tem greve de ônibus, elas não ganham aquele dia. Se tem passeata com manifestação do que quer que seja elas se atrasam e podem ter descontado valores na féria. Se adoecem, se precisam fazer um curso, se acompanham o filho no posto de saúde, enfim, se não trabalham, não recebem. Elas provavelmente moram num lugar bastante simples e é inimaginável receberam qualquer benefício em razão disso. E isso acontece também com o pedreiro, com o mecânico, com o advogado, com o dentista, com o médico, com o vendedor de pastéis na feira, com o agricultor e com todas as pessoas do mundo que vivem do que produzem no trabalho.

No Brasil alguns benefícios se tornam direitos e, depois, se tornam privilégios e são incorporados à cultura. O 13º salário é um exemplo. O trabalhador não precisa de nenhum outro critério a não ser estar empregado para ter tal direito. O empregador, por outro lado, paga treze meses de salário para dispor do trabalho por onze meses. É um cálculo que nunca fechará na matemática financeira e é óbvio que será o cliente que pagará este custo de alguma forma; se não pagar, a empresa quebra.

Seria mais barato socialmente que não tivéssemos tantos benefícios em forma de direitos. Veja o passe livre para estudantes, que chega a tornar as passagens de ônibus até 30% mais caras em Porto Alegre… e quem anda de ônibus não são os ditos privilegiados. Veja o FGTS que veio para substituir a estabilidade, ambas coisas incompreensíveis no mundo real (fora do mundo dos benefícios incorporados ao direito e à cultura) que é custo financeiro pago por todos os usuários e cliente brasileiros, incorporados aos preços de produtos e serviços. E tudo mais é assim.

Fico tentando imaginar como um servidor que ganha subsídio (o conceito jurídico de subsídio é avesso a penduricalhos salariais) em faixa superior a R$ 25.000 pode precisar de ajuda financeira para morar. Se ele precisa, o professor que ganha R$ 2.000 não precisará? O PM não precisará, ele que enfrenta eventualmente o bandido no próprio lugar onde mora?

É um absurdo desnecessariamente existente o Auxílio Moradia para qualquer serviço ou atividade que não seja eventual e transitório. E é desnecessariamente debatido porque é irracional e imoral.

Ler-se que o Auxílio Moradia do Judiciário (e MP e outros) é superior à renda de mais de 90% dos brasileiros é de corar frade. Algo que deveria mobilizar a classe judiciária imediatamente pela total falta de sentido e justiça.

Os primeiros escalões dos serviço público (e judiciário) merecem ser bem remunerados. Precisam ser bem remunerados. Entram nesta lista os policiais, os médicos, os enfermeiros, os professores. Dito isso, para ficar claro que não é uma luta contra a boa remuneração, olhemos para a situação dos demais servidores abaixo da linha dos privilégios e vejamos se é necessário qualquer tipo de articulação para deixar claro que o Estado não tem condição de manter tais privilégios. Olhamos para os demais servidores? Agora olhemos para os demais brasileiros, que têm direitos e garantias ainda menores!

Há momentos em que o olhar sobre nossa gente entristece. De quem se espera a guisa evolucionária e exemplar, até desses, há o egoísmo e o interesse próprio a pesar consideravelmente e nebular o que deveria ser claro e direto. Nossas lideranças públicas são como os pais que dizem para os filhos não fumarem segurando um cigarro aceso. Aqui é sempre do outro a obrigação de fazer o certo e o erro alheio é sempre a defesa do meu.

Eta cultura complicada essa brasileira.