O frio que aquece

O Grenal é o maior clássico do mundo. Não me venham com essa de Flaflú, de Barça contra Real, Boca e River… nada disso. Grêmio x Internacional é o maior clássico do futebol mundial.

A prova disso veio nesse dia 05 de junho de 2019. Nós gaúchos fomos alertados pelas autoridades meteorológicas de que o maior frio dos últimos tempos visitaria os pampas gaúchos. Foi então que o caçula da dupla rival teve a iluminada iniciativa de disponibilizar o seu ginásio de esportes, o Gigantinho, para abrigar moradores de rua. Não sei ao certo se convidado ou tocado pela iniciativa do rival, o Grêmio entrou na parada e doou parte da logística necessária. Viram-se ônibus azuis entrando nos territórios colorados aos aplausos e todos envolvidos na preparação do ambiente.

Os meteorologistas acertaram. Tivemos cidades com sete graus negativos. A temperatura em Porto Alegre ficou bem próxima dos zero graus.

A postura dos rivais ensinou muitas coisas. A primeira é que precisamos de iniciativas positivas das lideranças. Há muita gente trabalhando por um mundo melhor que não tem as ferramentas de influência dos clubes de futebol. Futebol não é racional, é uma herança transmitida em vida, um conglomerado de valores passionais que vendem produtos a rodo… por que não vender este tipo de valor?!

A segunda lição foi a de que, se tivermos bons exemplos, teremos resultados. Tem gente a dar com pau querendo fazer algo pelos outros, pelo mundo, e não sabe como. Todos temos nossas limitações. Às vezes é a timidez, outras a falta de tempo, outras é a simples preguiça. Quando vemos envolvimento, tendemos a nos envolver. Simples assim.

Não sei você, mas me emociono fácil vendo as pessoas agirem acima dos seus interesses pessoais. Fiquei emocionado com a postura do Internacional e, depois, com a participação do Grêmio. Já imaginou se os partidos políticos fossem assim?! Se eles deixassem de lado os interesses corporativos e ideológicos mais rasos em prol do que é maior?! Já imaginou um país onde essas rivalidades partidárias e filosóficas fossem suplantadas pelas iniciativas que fazem diferença, que angariam, que agregam, que constroem?!

Sei que sou otimista e isso pode influenciar nesta minha análise, mas acredito que temos muita gente esperando para fazer mais do que tem feito. Falta apenas iniciativa de boas lideranças.

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A falha de Moro

Sou advogado militante há vinte e dois anos. Antes disso, contudo, já frequentava as lides processuais desde o primeiro ano de faculdade, há vinte e sete anos. É tempo suficiente para saber algumas coisas.

Juízes e promotores sempre tiveram proximidade extra-autos, especialmente nas matérias criminais e de família. Sempre. Em cidades pequenas, você vai chegar no café ao lado do Fórum às 16h e eles vão estar lá conversando, às vezes na companhia de advogados.

Essa proximidade é antiética quando se aborda o tema do processo. Ela desnivela a balança da Justiça, ainda que os envolvidos acreditem que não, ainda que pareça positivo o resultado. No nosso sistema, juiz deve ser imparcial, por mais que isso seja utópico. Obviamente há operadores mais ou menos maduros para esta relação, com maior ou menor influência da pessoalidade.

Certa vez, quando era Juiz Leigo nos Juizados Especiais Cíveis, entrou em audiência meu ex-chefe. Eu não me senti suspeito, achei que nossa relação fosse meramente profissional no passado, como outras tantas que tive. Ele, contudo, pediu que fosse remetido a outro juizado porque entendeu que poderia haver constrangimentos naquela relação. Fiquei reflexivo com aquilo e concluí, tempos depois, que ele agiu corretamente.

É um tema complexo em algumas realidades. Há comarcas pequenas em que o juiz é único. Você vai privá-lo de conviver com as pessoas da cidade!? Ele vai se enclausurar na sua casa todos os dias depois do trabalho?! É uma condição que exige maturidade e vigilância constante, mas que não pode ser tratada de forma simplista.

Moro errou sim ao ter aquele tipo de diálogo com o MPF. O MPF é parte, não cabe a ele limitar o aceso ao juiz tanto quanto cabe ao Juízo. O Juízo é que deve estabelecer os limites e a paridade. Talvez Moro tenha trocado considerações com as defesas da mesma forma, mas é improvável, porque no Brasil essa relação entre juiz e promotor é muito mais comum do que entre juiz e advogado.

Contudo, o erro de Moro não pode ser generalizado como algo que anula sua imparcialidade decisória. Cada manifestação da sua parte deve ser considerada em relação a cada elemento do caso concreto e, havendo prejuízo efetivo à parte, poderá ser anulada. Caso a caso, item a item. Jamais de forma genérica. Porque, ao menos nos elementos até aqui, não há desvios morais maiores, forjamento de provas, desconsideração de elementos que deveriam ser considerados, e por aí vai. Há até aqui somente uma disparidade relacional entre os representantes de cada parte.

É como andar acima da velocidade todos os dias. Você acha que é normal. Contudo, se um dia se envolver num acidente, este elemento fático poderá condená-lo e você não poderá invocar o costume como defesa. É como, olhando sob outro ponto de vista, o professor que diariamente transfere valores ideológicos polarizados a seus alunos ou como o sindicato que promove interesses partidários nas suas decisões relativas à categoria. Sabemos que isso é assim, mas quando fica evidenciado é que debatemos e propomos mudanças.

Digamos que esse fato é mais uma contribuição da Lava Jato para o aprimoramento das instituições brasileiras.

Educar é político

Educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais, em todos os tempos. Sempre. Por milênios a humanidade reproduziu de geração em geração as lições entre os seus. O agricultor ensinava a seus filhos a agricultura. O pescador a pescaria. O militar a luta. O pedreiro a construção. E assim vai. Então, a ideia de educar era funcional (aprendia-se o que se necessitada no trabalho) e socialmente fixa (as classes sociais ou grupos sociais se mantinham no mesmo patamar socio-econômico).

Foi no Século XX que a ideia de educação pública se proliferou e mudou o mundo. Ainda se aplicava à educação o objetivo funcional, mas pouco a pouco se incorporou a ideia de liberdade de pensamento e, portanto, de objetivos. Educar buscava libertar o pensamento e, portanto, o aprendiz e, mais adiante, a sociedade.

Libertar do que?!

Bem, educar historicamente foi político. A política familiar era produzir mão-de-obra. Quando se criaram os estabelecimentos de ensino a politica era produzir mão-de-obra qualificada. Hoje a política educacional é produzir seres livres das amarras funcionais da educação… mas vinculados a que?!

Se não bastasse vivermos numa época em que o processo educacional precisa se adaptar à tecnologia, à geração Alfa e ao gigantismo das informações, hoje questionamos a que se destina o processo educacional, afinal de contas. Porque no passado já sabíamos que um filho de carpinteiro deveria aprender a carpintaria. Sabíamos que a universidade formaria saberes superiores sempre necessários. Mas e hoje?!

A liberdade é tremendamente complexa. Quando se dá liberdade sem preparar o liberto e o ambiente onde ele atuará, simplesmente não há de funcionar. Pelo simples fato de que poucos intuem o que devem fazer da sua vida de forma elaborada. Libertar antes do momento certo é aprisionar o ser na sua própria casca, no seu próprio limite pessoal.

Hoje há um compromisso geral dos educadores em libertar os alunos dos conceitos que entendem aprisioná-los, mas infelizmente os novos conceitos não conseguiram libertá-los das suas próprias limitações pessoais. O educando é cada vez mais dependente do Estado, em consequência do objetivo de libertá-lo do Mercado.

Por outro lado, escolas caras e inatingíveis para a imensa maioria das pessoas ensinam a potencializar suas habilidades, a conviver com diferenças complexas, a conhecer mecanismos de busca e aprimoramento de última geração. Afinal, como dizemos na primeira frase, educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais.

Então temos, de um lado, um grupo formando mão-se-obra pensante e atuante nos corpos estatais e, do outro, uma elite que voa baixo, que domina a comunicação, a gestão de pessoas, o uso de recursos tecnológicos e naturais e os meios de produção. Há de um lado pessoas que pedem e dependem e, do outro, pessoas que realizam e produzem. Há cada vez mais a intensificação dos meios de dependência e controle.

Educar é político. Enquanto uns ensinam o senso político, o pensamento crítico político, os conceitos histórico-políticos e o agir coletivo dentro deste sistema, outros ensinam a manejar o conhecimento para capacitar o ser humano a estabelecer os seus próprios interesses políticos. Educar é politico e, às vezes, libertador.

A Escravidão Mental ainda existe

Nórdicos escravizaram irlandeses. Árabes escravizaram africanos. Romanos escravizaram egípcios. Egípcios escravizaram judeus. Estes são exemplos de escravidão racial. Temos outros tipos de escravidão, quando tribos indígenas sul-americanas escravizavam seus derrotados. O mesmo acontecia com as tribos e reinos africanos. Vencidos se tornaram escravos durante toda a história humana.

A escravidão é arraigada à humanidade. Ela existe desde que existem culturas diferentes, há mais de 10.000 anos. Existiu em todos os continentes, em todas as épocas, até cerca de cem anos atrás.

Quem acabou com a escravidão no mundo?!

O europeu.

Veja: em diversos lugares, em diversas épocas, havia povos escravizantes e escravizados. Havia também os que não escravizavam e lutavam para não serem escravizados, mas, num mundo violento, quanto menos violência você manejasse, maior a chance de se tornar escravo.

A triste realidade é que o homem precisa evoluir culturalmente para implantar uma nova conduta. Não adianta um rei determinar algo que seus subordinados não querem; ele cairá (como caiu Dom Pedro II depois da Lei Áurea). Não adianta se determinar que não usem armas, pois só uns respeitarão. A humanidade não se constrói, não evolui, por decreto. Quem cria um filho aprende isso.

Foram os europeus quem impuseram o fim da escravidão no mundo, ao longo do Século XIX. Afinal, eram os europeus que dominavam o mundo e a Revolução Industrial estava ali pedindo passagem junto com o capitalismo (essa é a visão normalmente associada a este fato histórico). Há outros motivos, contudo. Um deles é que brancos e negros, ao longo dos séculos, conviveram e passaram a se relacionar com cada vez mais empatia. Muitos brancos tinham filhos mulatos. Até padres tinham filhos africanos (leia “O império dos homens bons”, do português Tiago Rebelo).

Não é diferente do que aconteceu, por exemplo, entre egípcios e judeus, entre nórdicos e irlandeses. A cultura dominante é tocada, cedo ou tarde, pela gente dominada. A humanidade é feita, afinal, de pessoas mais ou menos humanas, mais ou menos evoluídas.

Contudo, a escravidão mental demora para passar. O sentimento de ser menor, de ser menos, de ser dependente. A ideia de que só há ódio, só há maldade. A vivência da dor e não do que se conquistou.

A escravidão mental é um dejeto e, eventualmente, um produto.

No Brasil, tem sido produto vendido a rodo. Temos uma geração que aprendeu errado a pensar sobre fatos históricos importantes para a humanidade e acredita que há dívidas históricas que, hoje, não tem qualquer sentido. Devem árabes algo por terem escravizado os egípcios?! Devem os suecos e noruegueses algo por terem escravizado os irlandeses?! E a dívida italiana por tudo que os romanos fizeram…

Precisamos mudar nossa mentalidade para deixarmos de viver no Século XIX. Precisamos ir adiante e nos libertar.

A Liberdade

Nada pode ser efetivo sem liberdade. Nada. O casamento precisa de liberdade. A produção precisa de liberdade. A governança, a literatura, a ciência, o esporte, a amizade… tudo precisa de liberdade.

Gandhi ensinou que “de nada adianta a liberdade se não temos a liberdade de errar”. Liberdade de errar não é podermos errar de propósito, tampouco errarmos por maldade. É o erro buscando o acerto, pois caso contrário não houve um erro mas uma intenção.

Já a filosofia clássica grega dizia que os homens apaixonados e os viciados não são livres. A liberdade decorre da extinção das nossas limitações, pois, caso contrário, embora possamos fazer o que quisermos, ainda estaremos subjugados a algo. E onde há jugo não há liberdade.

Quem trabalha por dinheiro não é livre. Quem casa por interesse não é livre. Quem realiza por vaidade não é livre.

Ainda que não se dê valor a isso do ponto de vista prático, a vida está aí a ensinar (especialmente os mais maduros) que isso está provado ser assim. A vida prova todos dias que depende de construções e valores para se manter.

Há nas Cortes Superiores de diversos países o debate se a vida é mais importante que a liberdade (quando se julga, por exemplo, o suicídio e a eutanásia). Esse debate, em verdade, é menos sobre liberdade e mais sobre a vida, porque ambos valores tem a mesma grandeza.

Vivemos uma época de liberdade plena. Ao menos no ocidente. Ainda que haja os retrógrados de todos os polos ideológicos que entendem devamos limitar a liberdade dos opositores, a verdade é que, mesmo com todo esse esforço, a liberdade tem prevalecido no campo individual, precisando chegar de forma madura às instituições, especialmente nas estatais.

O elemento de construção da liberdade é a disciplina e o elemento de manutenção da liberdade é a responsabilidade. A liberdade, portanto, não existe como valor por si. Se optarmos em tornar a liberdade um valor absoluto, precisamos disciplinarmo-nos para tal (há um ditado japonês que ensina: “a disciplina é mais importante que a inteligência”). Com o aprendizado, perceberemos que só há liberdade responsável, aquela em que podemos errar mas seremos responsáveis pelo erro e, portanto, pela reparação quando for necessário e possível.

Numa época em que todos podemos dizer o que quisermos, em que todos podemos optar por viver como quisermos, o debate sobre o uso e a manutenção da liberdade deveria ser incorporado à educação formal que, por sinal, tem ensinado demasiadamente conteúdos sem valor, fazendo com que o aluno estude e não entenda o porquê. É a disciplina (etimologicamente falando) que nos falta para desfrutarmos plenamente nossa liberdade.

 

Triste rotina

A tragédia brasileira é rotina.
A tragédia brasileira é empresas que só buscam lucro, servidores que só buscam estabilidade, cidadãos que só buscam benefícios.
A tragédia brasileira é ser mais ou menos em quase tudo, sem exigir muito para também não ser exigido.
A tragédia brasileira é uns aceitarem (e lutarem por isso!) ganhar R$ 50 mil numa estrutura em que outros ganham só R$ 3 mil.
A tragédia brasileira é viver no debate e não no esforço.
A tragédia brasileira é culpar os outros.
A tragédia brasileira é se acostumar.
A tragédia brasileira é não gostar de ler, não valorizar as diferenças, não buscar melhorar.
A tragédia brasileira é rotina.
A tragédia brasileira é andar na contra-mão só por alguns metros, é estacionar em fila dupla só por cinco minutos, é deixar de arrumar o carro sempre justificando que não tem dinheiro.
A tragédia brasileira é dar importância demais ao dinheiro e de menos ao que deveria justificar a sua aquisição.
A tragédia brasileira é ir se amontoando em morros e aguardar a próxima enxurrada.
A tragédia brasileira é existirem leis maravilhosamente rigorosas com todos os pequenos e curiosamente ineficazes contra os gigantes.
A tragédia brasileira é desperdiçar talentos e genialidades em carreiras burocráticas, porque a estabilidade e o dinheiro justificam.
A tragédia brasileira é dar mais valor a quem diverte do que aos que produzem.
A tragédia brasileira é liberar o que interessa e proibir o que vale a pena liberar por interesse.
A tragédia brasileira é perder-se em si e encontrar-se longe demais,
A tragédia brasileira é rotina.

O exercício do possível

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a revolta. Encontram meios de extravasar tudo de ruim que sentem por meio da insurgência, numa espécie de projeção em algo ou alguém daquilo que acreditam poderá aliviá-las, um pouco que seja.

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a mudança. Ainda que inconscientemente, entendem-se responsáveis pelos acontecimentos da sua vida e, portanto, veem-se como agentes da mudança que evitará a repetição do que lhes aflige.

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a incapacitação. Sentem-se fracas, incapazes de enfrentá-lo. Afundam naquele momento, numa inércia intransponível.

Na vida aparentemente perfeita (aos olhos dos outros) há muito esforço não contemplado ou ilusão. Tudo que parece fácil é superficial. Tudo que soa descabido teve seus motivos. Tudo que está funcionando foi devidamente construído, seja um relacionamento, seja um equipamento.

Pela criação tem-se ideia do criador. Pelo resultado tem-se ideia do esforço. Pela estabilidade tem-se noção da estrutura. Pela distância tem-se noção do tempo.

Não há vida sem dor, nem há dor sem vida. O pêndulo da existência, que busca a estabilidade, vagueia entre extremos e depende do antagonismo para movimentar-se. Há de compreendermos, cedo ou tarde, que viver é lidar com isso tudo e que a revolta que assim seja é, por si, o problema, longe de ser a solução.

A vida é o exercício do possível. Toda teoria é testada. Toda energia é empregada. Toda atitude produz resultados. Toda omissão será cobrada. Nunca desista de ser melhor do que ontem porque é isso que movimenta a existência e felicita o existente.

Imprensa Polarizada

Confesso que estou surpreso com o tipo de comentários a que reduzimos nosso debate. Não é só em política. É sobre a sociedade, sobre relações humanas, sobre economia. Sobre criminalidade. Sobre casamento e comportamento.

Ao escolhermos ressuscitar a Guerra Fria criamos um problema difícil de resolver. Porque, afinal, já estivemos nesse período e o resultado dele é estarmos onde estamos. Ainda assim as pessoas estão divididas entre os anti-comunistas e os anti-fascistas (como há cem anos!), com suas razões plausíveis e com suas paranoias, criticando pela diferença de bandeira e não porque a reflexão assim determina. Tudo ficou polarizado e a imprensa não seria alienada deste fenômeno, inclusive com as leviandades que disso resultam.

Vejamos que se estivéssemos debatendo valores independente de ideologias e divisões de que natureza fossem, os problemas talvez estivessem em vias de serem efetivamente enfrentados. A coisa de ficarmos discutindo apenas ideologias nos fez deixar o debate reflexivo de lado e tudo que se produz são arrazoados mais ou menos inteligentes sobre os valores que não foram estabelecidos. Assim, quando um negro ativista é assassinado existe um tipo de reação diferente de quando um negro não ativista o é. Quando uma decisão administrativa produz um resultado, dependendo de quem a produziu tem-se uma aceitação ou rejeição. Veja que se defende há décadas no Brasil que não se reaja a investida de criminosos, mas quando uma mulher foi barbaramente espancada pelo marido se bradou que faltou quem a defendesse. Ora, falta que nos defendamos de tudo no Brasil! Nos tornamos bananas, ovelhas a espera do abate. E assim seguimos cavando trincheiras que interessam a quem quer manter a guerra… e essa guerra é ideológica.

O Brasil caminha para um governo de direita depois de Getúlio Vargas, o último dessa linha efetivamente (ainda que Collor assim fosse classificado, pouco fez nesse sentido). Getúlio era um quase fascista, simpatizante do nazismo e opositor do imperialismo americano por ser nacionalista. Ele criou diversas garantias legais a trabalhadores, criminosos, sindicatos, pautas que hoje seriam defendidas por outro espectro ideológico. Ainda assim, se aliou ao Ocidente na Grande Guerra porque os valores envolvidos assim determinaram. Era coerente, correto, necessário.

Hoje lemos, vemos e ouvimos incessantes artigos e reportagens absurdamente parciais. Parecem resultado de jornalistas educados sem entender que toda parcialidade histórica imprescinde de valores que a determinem, sob pena de tornarem-se propaganda e só isso. Os jornalistas se tornaram entregadores de argumentos dos ideólogos, como uma espécie de panfleteiros. Deixaram de olhar os fatos como tal e de analisar os argumentos com imparcialidade. É intolerável tudo em nossos dias, mas ser parcial e incoerente não.

Parte da imprensa critica aqueles que se identificam com os valores do imperialismo americano com argumentos que serviriam perfeitamente para aqueles que se identificam com os valores do imperialismo marxista. Fazem isso porque nos reduzimos a debatedores irreflexivos e esse nível de debate está nas salas de aula, nas mesas de bar, nas redes sociais.

A imprensa tem um papel indispensável na efetivação da democracia e da liberdade. Todo governo que cogita limitar a imprensa age contra a liberdade de pensamento, que é a primeira e mais importante das liberdades.

Que surjam jornalistas mais imparciais, mais conhecedores da história e mais preocupados em resolver isso que está posto e não apenas aptos a propagar esses rasos valores que mantém isso que está aí.

 

 

Você percebe o que é real?

Quando você está férias na beira da praia e passa um vendedor de castanhas vindo do Ceará para buscar sustento em terras (areias, no caso) mais agraciadas, você percebe que ali há uma dicotomia existencial entre o mundo virtual e o real?!

Se você for um empregado da iniciativa privada ou um servidor público, esta dicotomia estará ainda mais evidente. Porque você estará gozando de um benefício criado pelo homem artificialmente chamado “férias”.  Veja, “férias” não é algo natural, não é algo que resulte de uma condição própria, pessoal. “Férias” é algo construído pela sociedade onde uns suportam o trabalho necessário para que outros descansem. Só que esse benefício não é geral e proporcional entre todos os que trabalham… quem nos dera. O vendedor de castanhas do Ceará, por exemplo, pode tirar férias quando quiser, mas ninguém vai fazer por ele e, durante seu descanso, sua renda será comprometida.

Com o agricultor é igual. E também com o mecânico, com o pedreiro, com o padeiro, com a diarista, com o professor de tênis que trabalham como autônomos ou pequenos empresários. Veja que para boa parte dos trabalhadores os direitos são relativizados. Há uma relação de causa e efeito mais direta, mais pessoal. Para outros há direitos sustentados pela sociedade ou por seus pares, às vezes pelos dois.

Os direitos de uma maneira geral são construções sociais. São virtuais. Existem porque se convencionou e deixam de existir quando se convencionar. Alguns direitos são coerentes e contemplam a todos. Outros são restritos e acabam se tornando verdadeiros privilégios, como dispor de pensão para filhas solteiras de alguns cargos.

No meu ponto de vista, quanto mais classista um direito, quanto menos pessoas podem dispor dele, mais injusto ele tende a ser. Você pode avaliar se algo é justo quando pode ser oferecido de uma maneira geral. Claro que profissões mais arriscadas, por exemplo, precisam de uma contraprestação que equilibre esse risco. Profissões mais estressantes idem… e por aí vai. As exceções são exceções e assim devem ser. Não podemos é criar realidades virtuais para todas as categorias formais, pois as informais é que terão de suportar seu ônus. Quanto mais distante da realidade um benefício, mais será ele oneroso a quem o sustenta.

Eis o Brasil de hoje! Somos um país cheio de benefícios virtuais que são suportados por pessoas das mais variadas realidades. Optamos há algum tempo em dispormos de um Estado paternalista, que nos cuida como se fôssemos incapazes ou privilegiados, dependendo de como contextualizamos. Como o Estado não é um ser real, também precisa ser sustentado pelos seres reais para existir. Então se imagina que colocando na lei um benefício surgirá do além as forças universais para torná-lo realidade.

Não! Não é assim.

Aos poucos esse mundo virtual distante do real desmorona. E não vai parar de desmoronar enquanto não se aproximar adequadamente da realidade.

Esse processo histórico acontece desde que existe a humanidade. Os privilégios de castas, de raças, de gêneros ou quaisquer outras ficções criadas, tendem a deixar de existir porque quem os sustenta cansa, desiste, perece.

Nosso país é cheio de gente boa e cheio de gente não tão boa. Quem se importa precisa assumir o protagonismo do que lhe compete, sob pena de continuar sendo base de sustentação do insustentável e, assim, manter essa virtualidade. Aprendamos nós todos a viver num mundo o mais real possível.

A mecânica existencial

Sou um admirador da mecânica existencial. Ela é incrivelmente habilidosa em produzir os efeitos que deseja e em alterar os resultados indesejados.

Veja por exemplo a necessidade de êxito. Existem profissionais que se esforçam profundamente para serem bem-sucedidos. Boa parte deles possui um senso de responsabilidade profissional e social. Sabem que do seu esforço surge um determinado resultado desejado por seus clientes. Nem todos, contudo, produzem tal resultado motivados por sentimentos altruístas ou valores mais nobres. Alguns simplesmente são excelentes profissionais porque são ambiciosos. Outros porque são vaidosos e orgulhosos.

A mecânica existencial encontra meios de atingir seus objetivos valendo-se dos espíritos mais variados, seja através das virtudes seja através dos vícios.

A perpetuação da espécie humana é um exemplo. A natureza não precisa do amor entre os casais, tampouco de maiores compromissos. Ela não precisa sequer de beleza ou muita saúde. Contenta-se com parcas atrações ocasionais e fugazes.

Outro exemplo é o aprendizado existencial… quem disse que precisamos ser bons ou sábios para existir?! Que nada. Para sermos felizes, sim. Creio que a sabedoria é a principal ferramenta da felicidade e ela, ao contrário do que muitos pensam, não depende de grande estudo, muito menos de grande capacidade intelectual. Mas para existirmos – e assim cumprir uma formalidade existencial acima do nosso poder de compreensão – não precisamos de nada disso. E ainda assim aprenderemos e nos tornaremos mais sábios ao final da vida do que éramos ao iniciá-la. É um compromisso de mérito infalível que, quanto mais eficaz, mais chances de se propagar e se prolongar.

A mecânica existencial abusa das bobagens nos bobos e das virtudes nos virtuosos. Ela sabe precisamente alimentar em cada um o que for necessário para dispor do resultado que pretende.