Revolucionário

“Se hay gobierno soy contra” disse o médico e revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Por um bom tempo este foi o parâmetro do que é ser revolucionário, especialmente porque o mundo era binário políticamente e parecia que, se estivéssemos submetidos a um dos polos, o outro era a melhor opção.

É verdade que os revolucionários da História tiveram a mesma postura quando falamos em revoluções sociais e políticas (porque existem outras formas de revolucionar). Foi assim na insurgência judaica contra o Império Romano, foi assim na Revolução Francesa, foi assim nos levantes tribais contra o Império Asteca e foi assim nas incontáveis disputas das periferias contra seus governos em quase todos os tempos e continentes. Erramos ao fazer parecer que o eurocentrismo é o problema, pois o mundo foi e é maior que os nossos enfrentamentos.

Os revolucionários sempre se acharam inovadores sem considerar que as revoluções tendem a mudar as personagens mais do que mudar o sistema. A humanidade tem um processo histórico-evolutivo evidente, onde as mudanças não se dão de acordo com a vontade de uma elite ou de uma minoria, tampouco no ritmo de um grupo ou de uma ideologia. Guerras, revoltas, insurgências podem ser necessárias sim. A paz é uma conquista e um privilégio de quem a construiu, não de quem se omite. Mas achar que viver em constante conflito é algo produtivo é digno dos jovens e dos incautos.

Nós, professores de História, devemos sempre enfatizar que o processo histórico de melhoria da sociedade nasce da melhoria individual de alguém que servirá de referência. Devemos ensinar que pouco há de novo em cada período histórico e que são justamente as novidades que modificam tais períodos e, ainda assim, muito lentamente tais modificações vão se elaborando e atingindo outros para, enfim, tornarem-se o germe de uma nova etapa humana. Veja que o ser humano individualmente continua muito próximo do que sempre foi, porque, num mesmo lugar e numa mesma época, existem pessoas com a mentalidade de 1000 anos atrás e outras com mentalidade de 1000 anos à frente. E isso não muda!

Revolucionário é mudar o mundo a partir de si, como ensinou Gandhi. O quanto se impõe disso aos outros, bem… isso é outra coisa.

Tecnocracia

Desde que Voltaire estabeleceu a tríplice partição do poder estatal entre Executivo, Legislativo e Judiciário, os regimes de governo se estruturaram definitivamente com esta ideia. Mesmo governos com menor apelo democrático utilizaram-se desta tripartição, como ocorria com os regimes monárquicos até o Séc. XIX ou com as repúblicas ditatoriais do Séc. XX.

Ao longo dos últimos séculos se concluiu que o a democracia é o melhor regime governamental, com todos os seus desafios, e a forma republicana a melhor companheira de sistema a lhe emprestar institucionalidade. Há, entretanto, democracias das mais variadas. No sistema norte-americano inclusive juízes, procuradores, delegados de polícia são eleitos. Portanto, o Judiciário lá é uma instituição com sufrágio e não uma instituição acessível por concurso, como aqui. No Oriente Médio, especialmente nos países árabes, o poder judiciário tende a vincular-se à hierarquia e preceitos religiosos.

Dito isso, claro está que falarmos em democracia e em divisão do poder estatal não é algo simples. O sistema judiciário brasileiro também é sui generis, na medida em que os seus membros são todos constituídos por servidores de carreira ingressos através de concurso. O quadro pessoal judiciário é, portanto, tecnocrático, posto que é a análise de competência intelectual o requisito de ingresso e, passado o estágio probatório, tornam-se servidores de carreira. Há duas exceções a esta regra: os Tribunais têm um quinto dos seus membros oriundos da advocacia (e do MP, mas estes também são tecnocratas) que apresenta listas tríplices aos Governadores e Presidente e, no caso dos STF, os ministros são escolhidos pelo Presidente da República e avalizados pelo Senado.

Muito se discute no Brasil se é válido este tipo de escolha para os Tribunais, seja através das listas tríplices com a escolha do Chefe de Governo, seja por indicação do Presidente ao STF. Penso que é bom, pois é um meio de não nos rendermos à tecnocracia como forma de governo. Ao contrário do que se costuma debater, termos técnicos para tomar decisões de governo não é bom. Como seria a sua alimentação se apenas nutricionistas lhe determinassem o que comer? Todos os nutricionistas convergiriam para um mesmo cardápio? Veja, por exemplo, como seria o enfrentamento à pandemia se apenas técnicos impusessem o que entendem pertinente. Seria eficaz sob um ponto de vista, mas seria viável sobre outos?

A tecnocracia não é algo viável no nosso tempo. Um dia poderá sê-lo, pois o amadurecimento humano elabora as relações sociais. A democracia não é assim tão boa quando temos uma sociedade de iníquos, mas numa sociedade de justos é bastante diferente (o próprio Platão, ao teu tempo, não acreditava que a democracia seria melhor do que um governo de pessoas notáveis). Se fôssemos hoje governados por tecnocratas que não dependem dos resultados de produção social para sobreviver e que não são subordinados a nada, nem a ninguém, não estaríamos repetindo, com outra roupagem, um sistema de governo discriminatório e autoritário, dessa vez sob o argumento da cientificidade e da técnica?!

Penso que a evolução da tripartição dos poderes irá transformar o Executivo num poder tecnocrata, como é hoje o Judiciário, restando apenas ao Legislativo estabelecer as políticas de governo, as regras estruturais e o ordenamento jurídico de forma geral. Quando isso ocorrer haverá uma evidente sobreposição do Legislativo sobre os demais poderes e, penso, isso será bom, posto que o poder político ainda é uma necessidade humana.

O que não podermos aceitar é que o governo, no nosso tempo, seja imposto por servidores públicos de carreira (ou por qualquer outro grupo). Não podemos aceitar que as decisões sobre a sociedade venham de decisões judiciais sob o vento de “legítimas” e/ou “legais”, quando governar é um ato político. A política não é pior que a tecnocracia, nem melhor, mas é mais sensível. Se aceitarmos que tribunais decidam a vida política estaremos retornando a momentos históricos em que a vontade da maioria era indiferente e que, sob os mais variados argumentos, as elites impunham seus valores e interesses.

Julgar não é criar o Direito. Julgar não é impor Políticas Governamentais. Julgar não é um exercício de execução estatal. Pense: como seria chegar num hospital com grave enfermidade e ouvir do médico: “não posso atendê-lo porque aqui consta que ele cumpre pena por roubo”. Ou ligar para a emergência policial e receber o retorno de que não seria enviada viatura porque “a solicitante está com dívidas ativas com o Estado”. Vejam, não se julga no exercício das atividades estatais, salvo em julgamentos efetivos.

A tecnocracia já serviu de justificativa a governos autoritários do Séc. XX, findados pela falência dos seus propósitos ante a míngua social que impunham.

Tecnocracia não! Não aceite esse retrocesso.

Re[volução]De Social

Há vinte anos, se um aluno quisesse reclamar do abuso por um professor, iniciaria uma reflexão sobre o melhor caminho para se fazer isso: conto aos meus pais; vou à direção da escola; faço uma comunicação de ocorrência policial; procuro um advogado e busco o Judiciário; inicio terapia.

Há vinte anos, se um subalterno fosse ofendido por seus superiores, se um consumidor fosse enganado, se um compositor amador encontrasse um artista com sua melodia ou se um ex-assessor quisesse denunciar impropriedades dos seus chefes provavelmente percorreria um caminho similar.

Esse caminho convencional tinha como resultado costumeiro a barreira de prosseguimento. Nem sempre por maldade, nem sempre por interesse. Muitas vezes as reclamações e denúncias não iam adiante por impossibilidade cultural, estrutural e institucional. Sempre houve um protocolo, um procedimento digamos, para que as apurações fossem providenciadas e as reclamações levadas a sério.

As redes sociais, tão criticadas (por motivos justos) em nosso tempo, deram voz a uma infinidade de demandas, muitas das quais absolutamente pertinentes. Se é verdade que temos de aprender a não expor em demasia nossa vida por simples respeito à nossa individualidade e privacidade, também é verdade que a exposição automática e generalista destes tipos de casos que referi no início do texto acaba por forçar a providência que, antes, era quase sempre posta embaixo do tapete.

As redes sociais revolucionaram os direitos personalíssimos. Mudaram totalmente a noção de privacidade, de moral, de individualidade. Se antigamente muitas mulheres dedicavam horas a escolher o vestuário para refletir sua intenção de mostrarem-se mais arrojadas ou conservadoras, hoje um perfil no Instagram costuma revelar mundialmente as curvas mais sutis das mais ousadas ou os blogs a revelar as suas reflexões mais profundas.

Para quem foi educado na geração pré-internet isso é assustador (mesmo na Grécia antiga era assustador o comportamento dos jovens para os anciões), mas cabe sempre ao mais maduro o dever de ponderação e o agir mais qualificado, pois esperar que o menos maduro os produza resulta em colher resultados ainda menos confortáveis.

A revolução das redes sociais não é só de exposição de fotos e banalidades, como muito se critica. Não é só uma apologia ao rasteiro e ao improdutivo. Tampouco pode ser resumida como uma instrumentalização das relações humanas. As redes sociais vieram para se tornar um item definitivo em nossas vidas e servem para expor nossa personalidade, com seus traumas, desejos, limites, valores, conteúdo. Há uma revolução do individualismo em andamento que torna pública a individualidade, a ponto de produzir efeitos (e transformações) sociais nunca antes experimentados. Percebem? É uma espécie de dialética dos fatos (sociais) nas mídias. É um contraponto entre extremos em que o resultado ainda é impossível de se avaliar, posto a complexidade, a dinâmica e a infinidade de elementos que o compõe. Os sociólogos finalmente vão conseguir analisar, daqui algumas décadas, o quanto os indivíduos participam da transformação social e o quanto a sociedade os molda, porque estes elementos são cada vez mais palpáveis.

As redes sociais são o novo portal de exposição da identidade do indivíduo e da sociedade, antes presentes em obras, no corpo, na roupa. Nem sempre mostram o que gostaríamos porque os seres humanos são assim. Não digamos que elas são inúteis e desnecessárias… a sua presença em nossas vidas será permanente e já se mostrou, em que pese os seus dejetos, muito de terapêutica, de reflexiva e de transformadora.

A dominação

Costumamos criticar os instrumentos de dominação utilizados pela humanidade como se eles fossem a causa da dominação. Violência, armamento, religião, conhecimento, ciência, política, dinheiro… nada disso é causa da dominação de uns sobre os outros, ainda que, até os nossos dias, essa avaliação nos seja ensinada na escola e até em doutorados.

A vida é regida por diversas leis, dentre as quais uma das mais consensualmente aceitas é a lei de causa e efeito. Esta lei natural é reproduzida pelas filosofias de todos os cantos do mundo em todas as épocas humanas. É chamada de karma por uns, de ação e reação por outros e, por outros mais, de sorte ou azar ou, ainda, de meritocracia.

A lei de causa e efeito determina que há ações que definem os resultados. Muitas vezes são tão complexas as ações e/ou tão complexos os resultados que o vínculo entre ambos torna-se igualmente complexo (afinal, essa relação também se submete à mesma lei).

O homem que quer dominar e dispõe de armas, o faz pela violência (ou ameaça de). O homem que quer dominar e dispõe de ciência o faz com o conhecimento, com a tecnologia. O homem que quer dominar e dispõe do poder político o faz com a burocracia estatal e, se falhar, com a tecnologia ou a violência estatal.

Não é o Estado ou a Igreja ou a Política ou a Ideologia ou mesmo o Exército que dominam. Estes são instrumentos humanos de dominação, como podem se tornar instrumentos humanos de libertação, quando for a liberdade que os instrumentaliza.

A dominação é um expediente dos humanos egocêntricos, que entendem devam os demais se submeter a sua vontade, aos seus valores, aos seus interesses, a sua religião ou a sua ideologia. Reconhecer que outros humanos podem querer dispor de caminhos diferentes é atitude de amadurecimento relacional e, portanto, imprescindível para a vida em sociedade.

A época do uniforme, dos caminhos únicos, da homogeneidade, está findando, porque nos tornamos complexos demais para reduzirmos a humanidade a uma única língua, uma única religião e uma única ideologia. Esta reflexão simples (e elementar) há de nos ensinar que é só o aprendizado frente à diferença de caminhos – claro que com respeito a si e ao outro – que nos permitirá irmos adiante. E, aí, os hoje instrumentos de dominação servirão para outro propósito.

O que o marxismo acertou?

O marxismo é uma ideologia filosófico-sociológica de crítica à sociedade capitalista, baseada em diversos pilares importantes. Começo, assim, respondendo a pergunta formulada no título dizendo que o marxismo muito acertou no diagnóstico social do seu tempo, criando elementos de análise então inéditos e precisos sobre a sociedade, especialmente a sociedade alemã de início e meados do Séc. XIX. Estes elementos são basicamente os seguintes:

  • classes sociais: Marx bem entendeu que a sociedade é constituída por classes sociais, basicamente dividida entre aqueles que detém os meios de produção (o capital) – sejam terras, indústrias, fábricas ou empresas de serviços – e aqueles que trabalham nos meios de produção (o proletariado).
  • infraestrutura: é a base produtiva material da sociedade;
  • superestrutura: é a base extra-material da sociedade, basicamente a esfera política, a ideológica e a jurídica. Estes são os elementos determinantes do Estado.
  • para Marx a superestrutura representa a infraestrutura e reproduz os mesmos valores, virtudes e defeitos.

O marxismo acertou na elaboração destes conceitos, trazendo uma nova forma de analisar a sociedade até então inexistente. Contudo já ultrapassamos diversas etapas do primitivismo capitalista que não foram previstas por Marx, bem como foram socialmente elaboradas e vem sendo superadas pelo aperfeiçoamento social.

Marx viveu numa época em que a burguesia ainda representava basicamente a mesma sucessão familiar dos meios de poder que sempre existiram na história humana. O burguês daquele capitalismo primitivo era pouco diferente do nobre das eras anteriores, transferindo aos seus herdeiros os meios de produção como o nobre transmitia aos seus herdeiros terras e títulos. Naquele contexto histórico-social não existia possibilidade de uma pessoa nascida em uma classe social proletária ascender e adquirir meios de produção como terras ou fábricas (o que, mesmo naquela época é questionável, embora compreensível). Nos nossos dias é sabido que essa ascensão social é plenamente possível, pois a sociedade é altamente complexa em seus modelos produtivos, permitindo que se modifique a classe social de nascimento de diversas maneiras.

Outro elemento superado na teoria marxista diz respeito ao seu caráter excessivamente materialista, de onde decorre que a ideia de que se distribuindo renda ou meios de produção se geraria igualdade. A igualdade, sabemos hoje, decorre muito mais de elementos mentais e dos valores de uma sociedade. Nos nossos dias vemos evidente que, mesmo se dividíssemos os meios de produção em partes iguais entre todos os seres, certamente passado algum tempo restaria mantida a diferença social entre uns e outros, decorrente dos seus valores, capacidades e interesses.

Para Marx caberia ao Estado administrar estes elementos para promover uma sociedade mais justa e, aqui, novamente erra o marxismo. Acreditava que se o Estado administrasse os meios de produção não haveria como o burguês impor-se sobre os proletários. A história mostrou que quando o Estado substitui os meios de produção e usa a superestrutura para impor tais valores, aqueles que detém o governo tornam-se passíveis de cometerem ainda mais abusos do que a burguesia, pois frente ao monopólio do poder estatal apenas a revolução ou a mudança de sistema de governo pode se impor. Lembremo-nos de que a burguesia não é um grupo coeso, impositivo e fechado como avaliou Marx nos seus dias.

Hoje a perspectiva marxista é evidentemente ultrapassada. Em que pese tenha Marx muito colaborado com suas reflexões sobre a sociedade e seus elementos de formação e manutenção, o liberalismo tornou o mundo muito diferente e permitiu contemplarmos a superação de tal narrativa pela realidade imposta ao longo da Guerra Fria.

A China espelha uma reflexão moderna sobre a melhor tentativa de impor-se uma sociedade de valores marxistas.

Já o capitalismo é o sistema presente entre todos os países industrializados e considerados de primeiro mundo, tendo cada um construído sua trajetória de forma distinta.

Fortalecer x Vitimizar

Você acredita que o presente momento social fortalece ou enfraquece as pessoas? Você sente que os jovens são mais determinados e auto-confiantes hoje em dia? Você identifica divergências relevantes entre os seus valores pessoais e os valores sociais? Existe a possibilidade de termos uma sociedade forte com pessoas fracas? A sociedade pode ser melhor do que seus membros?

Estas (antigas) reflexões são pertinentes em demasia no nosso tempo. Vivemos numa época em que há um grande dilema sobre o quanto as liberdades individuais devem ser limitadas para garantir-se o equilíbrio entre as pessoas. O debate acerca das liberdades individuais sempre estará ao lado do debate acerca dos interesses sociais, pois nas sociedades mais heterogêneas (em termos de valores, cultura e recursos materiais) as divergências tendem a ser maiores e, por consequência, os conflitos igualmente. Este cenário traz o enfrentamento de dar-se mais flexibilidade às diferenças ou dar-se mais padronização ao grupo. Quanto mais valorizarmos o direito individual, mais estaremos promovendo o respeito ao diferente. Ao valorizarmos o interesse coletivo, tenderemos a estabelecer padrões de comportamento e de valores.

Numa sociedade complexa, com diversas perspectivas existenciais, com valores dissonantes e diferenças sociais e culturais expressivas, o fortalecimento individual é indispensável. Não há como mantermos a ideia de que o outro deve ser como eu quero no nosso tempo. Precisamos aprender a respeitar o outro sem nos desrespeitarmos e isso significa sermos capazes de nos defendermos dos abusos que as diferenças podem promover, sejam físicas, afetivas, econômicas ou de que natureza for.

É romântico em demasia a ideia de que numa sociedade heterogênea não haverá conflitos. Dentro de uma família, criada com laços afetivos e valores comuns, os conflitos são indissociáveis… imagina no mundo lá fora!

Outra ideia romântica é a de que em sociedades evoluídas estaremos seguros e não precisamos exercer o uso da força. Em algum ponto do nosso mundo, alguém está se colocando em risco para que nos mantenhamos em segurança, seja do ponto de vista da saúde, seja do ponto de vista social ou mesmo do ponto de vista do manejo da violência. Leis que proíbem matar, por exemplo, existem há milhares de anos e, ainda assim, o ser humano mata. Portanto, não é apenas o fortalecimento institucional e a evolução sócio-cultural que nos garantirá segurança existencial.

Nosso tempo é o do debate público e difuso. Todos tem direito e meios de opinião e de uma individualidade livre. Todos tem acesso aos recursos de conhecimento e aprimoramento individual. Isso só causa mais heterogeneidade e, potencialmente, mais conflitos. São as instituições que os mediarão, mas somos nós mesmos que nos protegeremos. Fortaleçamo-nos para que tenhamos menos vítimas, no sentido que for, e para que cada um possa viver sua vida da maneira que desejar.

Preconceito?!

Quando me mudei para a cidade em que cresci, aos cinco anos de idade, deixei de ser cuidado pela minha avó materna e passei a ficar diariamente com empregadas domésticas, enquanto meus pais trabalhavam. Quando tinha cerca de sete anos de idade fui autorizado a sair para brincar sozinho na vila. Era assim que chamávamos onde morávamos: a vila.

Meu pai cresceu na vila. Meu avô ajudou a construí-la e torná-la habitável; ele foi um mestre-de-obras notável… outra hora vou escrever sobre isso. Meus tios e primos moravam todos na vila. Minha mãe viveu lá por um tempo, na juventude. E eu simplesmente adorava estar lá!

A vila sempre teve um preço emocional muito grande para mim. Morávamos numa casa alugada de madeira enquanto nossa nova casa estava sendo construída… infelizmente em outra vila. Mas eu nem pensava nisso com sete anos. Queria simplesmente aproveitar o tempo que tinha livre para jogar bola, andar de bicicleta, brincar com meus primos e amigos.

Depois de muitos anos percebi que passei por “dificuldades” na minha infância que não fazem parte do contexto de enfrentamentos e reflexões comuns. Seria preconceito reverso? Uma espécie de classefobia?

Minha mãe é médica. E eu morava numa vila. Isso resume o que quero dizer. Em todos os lugares em que ia pela primeira vez (no campo de futebol, na casa de um novo amigo, em uma nova rua brincar de pega-pega) eu era apresentado como o filho da médica. E o próximo passo era sempre provar que eu poderia estar ali, que não era um filhinho-de-papai ou um riquinho (como se muitos lá não fossem bem mais metidos e filhinhos-de-papai!). Muitas vezes fui o único a não ser escolhido para jogar bola por isso. Algumas vezes me bateram por isso. Muitas vezes eu fiquei sozinho por isso.

Isso me entristecia? Claro. Mas não existia essa coisa de hoje de ficarmos perdendo tempo com nosso sofrimento. Falar sobre isso com qualquer outras pessoa? Jamais. Naquela época íamos adiante. Simplesmente assim.

Aprendi a ser mais forte (ou talvez já fosse!) e isso fez toda a diferença na minha vida. Não forte fisicamente, óbvio. Aprendi que se era preciso jogar bola melhor, que fosse. Que se era preciso correr mais rápido, que fosse. Tocar um instrumento, ser competitivo em jogos de tabuleiro, ajudar os outros com tarefas escolares, limpar um terreno baldio para torná-lo um campo de futebol… simplesmente eu ia me tornando melhor do que eu era ontem, mais forte e mais determinado. Alguns jamais se tornaram meus amigos, mas a maioria sim. E isso era, naquela época, o meu trofeu.

O mundo e a vida são ambientes difíceis. Sou dos que acredita que isso tem um propósito e que suavizar este ambiente artificialmente é uma hipocrisia, uma demagogia, uma ideologia. O mundo pode sim ser mais feliz com pessoas melhores, mas isso não decorrerá de uma pauta, senão de uma busca pessoal de cada um. Vivi no mesmo ambiente que muitos outros; a maioria de nós se tornou um adulto responsável, mas nem todos. O esforço pessoal é parte importante daquilo que nos tornamos.

Fico imaginando se eu estivesse submetido desde aquela época a um discurso vitimizado e de enfrentamento. Como seria? Eu hoje teria medo e desrespeitaria pessoas mais simples? Eu debocharia de quem era menos inteligente para revidar as agressões que sofri? Talvez eu acreditasse que o mundo é dividido entre pessoas boas (eu e os meus) e más (meus agressores)?

O preconceito existe. Sempre existiu. E para aqueles que vivem no mundo real em que pautas são menos importantes do que a vida em si, o preconceito sempre existirá e sempre ensinará aos que o enfrentam com coragem e bondade. Estes são os que realmente acabarão com ele… ao menos em relação a si.

Amadurecer

Nem todas as pessoas tem maturidade de chefiar e tratar bem seus subordinados.

Nem todas as pessoas tem maturidade de usar uma droga e não se tornarem dependentes.

Nem todas as pessoas tem maturidade de fazer uma arte marcial e se tornarem menos violentas.

Nem todas as pessoas tem maturidade de valorizar seus relacionamentos pessoais.

Nem todas as pessoas conseguem escolher uma profissão que lhes traga realização.

Nem todos conseguem torcer por um time, um partido, um ideal e torcer ainda mais por todos.

Nem todos nos auto-avaliamos suficientemente para nos tornarmos quem realmente somos. Perdemos tempo demais na juventude das ideias produzidas por outros. A sorte é que todo amadurecimento chegará cedo ou tarde, com mais ou menos sofrimento… e poderemos então assumirmos nossas vidas.

A humanidade caminha à sua média

Imagine um militante contra a escravidão há dois mil anos. Ele provavelmente não seria respeitado nem mesmo por um escravo eslavo ou por um galês, pois estes, se deixassem a condição de escravos dos romanos, lutariam as suas guerras para terem seus próprios escravos. Um militante contra a escravidão não seria respeitado nem mesmo no norte da África há 400 anos, seja porque a religião muçulmana autorizava (e para alguns, incentivava) a escravidão dos vencidos, seja porque a cultura de diversos povos africanos não islamizados vivia isso há séculos.

Imagine uma militante feminista há mil anos numa tribo indo-americana. Ela provavelmente seria convencida por algum ancião compreensivo e generoso a deixar suas ideias de lado e concentrar-se no trato de sua família.

Imagine um pacifista budista tibetano tentando convencer os chineses a serem pacíficos e deixarem a invasão do Tibet em meados do Séc. XX, pouco antes do Dalai Lama ser forçado a deixar seu país e refugiar-se na Índia.

Imagine certo governante vegano em nossos tempos determinando que todos os cidadãos do seu país se abstenham de sacrificar animais para alimentar-se, sob o argumento de que nossa tecnologia já nos permite encontrar outras formas de alimentação que dispensem o aprisionamento e a morte de animais.

Imagine determinar-se há 1000 anos que todas as pessoas só começassem a trabalhar depois de concluir treze anos de ensino fundamental. Provavelmente seria o fim daquela sociedade por insuficiência de alimentos em não mais que duas gerações.

A humanidade caminha à sua média. Não é possível impormos valores a uma geração. Não é possível!

Podemos, por óbvio, impor regras e leis… não os valores das pessoas. Podemos, contudo, impor regras e leis que, gradualmente, vão alterar os seus valores. Mas podemos principalmente ensinar valores. Isso sim!

Contudo, jamais poderemos ensinar valores que são incompatíveis com a realidade daquela sociedade. Um exemplo claro é a imposição desarmamentista aos brasileiros, só respeitada por quem desejava essa condição romântica (e ainda impossível) de desfazimento das armas quando ainda há os violentos e desprovidos de respeito humano por aí.

Há muito mais a ser refletido sobre o título deste texto… mas veja você que mesmo Jesus Cristo ou Buda ou qualquer outro grande nome da humidade (mesmo estes outros que são tidos como grandes nomes ainda que não o sejam) não foram capazes de impor valores. Sequer foram devidamente compreendidos e apenas muito lentamente o são por aqueles que já atingiram uma maturidade pessoal compatível para tal.

A humanidade é assim mesmo. Toda militância em mudar o mundo é minimamente eficaz se tenta impor o que ainda não está no coração e na mente dos demais.

Ao tentarmos impor o pacifismo, por exemplo, corremos o risco de conquistar ideologicamente os pacifistas, mas nos tornarmos reféns dos violentos não-pacíficos que, assim, tornam-se soberanos. Esse o perigo de qualquer ilusão além das possibilidades do seu tempo, como é a ideia de que podemos ser brandos com criminosos contumazes que, livres e impunes, continuam a tirar vidas e restringir o esforço laboral de muitos.

Você quer mudar o mundo? Mude-se. Seja melhor hoje do que foi ontem. Mudando-se, conquista aqueles que seu exemplo for capaz de atingir no coração. Todo o mais é apenas e tão somente um sonho de Ícaro. A mudança é sempre interior e, para mudar nosso interior, só dois elementos são eficazes: amor e dor. Infelizmente é assim.

Negacionismo

A negação da realidade não é um privilégio dos nossos tempos. Infelizmente (ou felizmente). Também não é algo que se limite a um grupo ou a uma região, tampouco a um contexto social ou político. Infelizmente.

Negar a realidade é uma consequência da imaturidade. É uma disfunção de forças entre o que se vê (ou se entende) e o que se gostaria de ver (ou de entender). Num mundo onde muito do que se acredita não é paupável e decorre unicamente de palavras e discursos ou de afirmações de terceiros, a realidade torna-se efetivamente difícil de ser compreendida.

Imagine que um cientista diga que usar máscaras é potencialmente bom contra a covid 19 e outro diga que é inócuo, mas prejudicial por outros motivos. Cada um apresenta sua tese com fundamentos técnicos que nós, inaptos, não podemos valorar adequadamente. Em quem acreditar? Provavelmente se escolherá uma das duas soluções: (1) a tese com maior número de adeptos, o que tornaria a ciência uma espécie de sufrágio, ou (2) a que nos confortar melhor. Veja que aqui também, como em quase tudo a nossa volta, há uma opção entre o pessoal e o social, entre melhorar-se pessoalmente para entender e assimilar o que os outros entendem.

Quando o Renascimento trouxe a ideia de que a razão (e a ciência) resolveriam os problemas da humanidade, deixou de considerar que a ciência (por ser humana) tem limites humanos. Numa sociedade orgulhosa, a ciência se envaidecerá. Numa sociedade avarenta ela se venderá. Numa sociedade ideologizada se ideologizará. E por aí vai… A razão é insuficiente para a humanidade, está claro. Ela não é absoluta como se gostaria e isso muda a sua utilidade. Em que pese proporcionar melhoria significativa no aspecto material, ela depende, para produzir efeitos benéficos internamente em cada um de nós, de valores morais e de estabilidade emocional. É uma das bases deste tripé.

Há quem acredite que o negacionismo seja um reflexo da falta de educação. Outros da falta de estrutura emocional resultante da fragilidade familiar dos nossos tempos. Alguns pensam que negacionistas são optantes de uma corrente.

Negacionistas são imaturos, já o afirmamos. Contudo a imaturidade não é um elemento absoluto e inflexível. Podemos ser maduros emocionalmente e imaturos musicalmente e, diante disso, negar a genialidade de Mozart, simplesmente não gostar de música erudita. É certo? Pra mim não. E pra você?