A dominação

Costumamos criticar os instrumentos de dominação utilizados pela humanidade como se eles fossem a causa da dominação. Violência, armamento, religião, conhecimento, ciência, política, dinheiro… nada disso é causa da dominação de uns sobre os outros, ainda que, até os nossos dias, essa avaliação nos seja ensinada na escola e até em doutorados.

A vida é regida por diversas leis, dentre as quais uma das mais consensualmente aceitas é a lei de causa e efeito. Esta lei natural é reproduzida pelas filosofias de todos os cantos do mundo em todas as épocas humanas. É chamada de karma por uns, de ação e reação por outros e, por outros mais, de sorte ou azar ou, ainda, de meritocracia.

A lei de causa e efeito determina que há ações que definem os resultados. Muitas vezes são tão complexas as ações e/ou tão complexos os resultados que o vínculo entre ambos torna-se igualmente complexo (afinal, essa relação também se submete à mesma lei).

O homem que quer dominar e dispõe de armas, o faz pela violência (ou ameaça de). O homem que quer dominar e dispõe de ciência o faz com o conhecimento, com a tecnologia. O homem que quer dominar e dispõe do poder político o faz com a burocracia estatal e, se falhar, com a tecnologia ou a violência estatal.

Não é o Estado ou a Igreja ou a Política ou a Ideologia ou mesmo o Exército que dominam. Estes são instrumentos humanos de dominação, como podem se tornar instrumentos humanos de libertação, quando for a liberdade que os instrumentaliza.

A dominação é um expediente dos humanos egocêntricos, que entendem devam os demais se submeter a sua vontade, aos seus valores, aos seus interesses, a sua religião ou a sua ideologia. Reconhecer que outros humanos podem querer dispor de caminhos diferentes é atitude de amadurecimento relacional e, portanto, imprescindível para a vida em sociedade.

A época do uniforme, dos caminhos únicos, da homogeneidade, está findando, porque nos tornamos complexos demais para reduzirmos a humanidade a uma única língua, uma única religião e uma única ideologia. Esta reflexão simples (e elementar) há de nos ensinar que é só o aprendizado frente à diferença de caminhos – claro que com respeito a si e ao outro – que nos permitirá irmos adiante. E, aí, os hoje instrumentos de dominação servirão para outro propósito.