Reforma da Previdência

Ninguém duvida que as regras previdenciárias precisam mudar. Pensando bem, tem gente que acha que compete ao Estado/União compensar o déficit contributivo, posto que nosso regime previdenciário é assistencialista. Isso é o que temos hoje, onde o déficit é coberto pelo caixa geral, ou seja, pelo que se arrecada nos demais impostos. Dito de outra forma: hoje, quem paga IPI num carro está pagando a aposentadoria de alguém. O mesmo quando paga imposto de renda.

O que se está discutindo no Brasil sobre previdência neste momento é justamente se esse modelo pode prosperar. É justo que outros contribuintes contribuam para a aposentadoria de A ou B?

Eu responderia: depende. Quem é o A ou B?

Os números apresentados oficialmente são lidos de forma muito diferentes por analistas de bases corporativas distintas. Mas se sabe, a grosso modo, que militares, rurais e servidores públicos são deficitários na relação contribuição-aposentadoria, enquanto a iniciativa privada é superavitária.

Então sabemos que os contribuintes da iniciativa privada pagam as aposentadorias dos militares, dos rurais e dos servidores. E ainda falta um bom tanto que é suportado pelo caixa geral, na lógica apresentada no primeiro parágrafo.

Pois bem. A reflexão é: isso é correto? Podemos levar isso desse jeito? Mesmo considerando que a base contributiva privada irá cada vez menos suportar a diferença?

Existem diversos modelos contributivos por aí. Não precisamos imitar ninguém, mas precisamos encontrar um que não quebre e seja mais justo, para que o pequeno contribuinte previdenciário não sustente quem tem renda muito superior a sua e, principalmente, para que a carga tributária geral não seja ainda mais majorada para suportar déficit previdenciário.

É válido considerar as teses de que se não houvesse corrupção, nem tantos benefícios fiscais, nem tanta sonegação as coisas seriam diferentes. É válido. Mas é insuficiente. Não é porque há sonegação, corrupção e excesso de concessões que não devemos discutir esse modelo injusto que hoje temos. Injusto com o pequeno, que trabalha mais e contribui proporcionalmente com muito mais para ganhar muito menos. Injusto com o trabalhador da iniciativa privada, que é limitado por um teto que se desfaz rapidamente diante da inflação. E injusto com a sociedade, que é tributada para sustentar quem menos precisa.

Pois esse é um mérito da atual proposta.

O demérito é que não ataca diretamente as categorias que são mais deficitárias. E, por isso também, torna muito penosa a aposentadoria para quem já está num sistema previdenciário difícil.

Se  eu fosse adepto de teorias conspiratórias, diria que isso é premeditado para dar errado. Assim, a sociedade se une contra a proposta porque quem está na boia não quer cair na água e quem está na água não consegue suportar mais uma onda.

Mas não sou. Acho que se sabe a grande dificuldade política que é mexer nos direitos de qualquer categoria, principalmente nas que são as mais organizadas, capitalizadas e influentes do cenário nacional. Tem de ser assim. Mudar direito tem de ser difícil mesmo.

O que não se pode é continuar tratando o assunto como se tudo fosse igual, pois não é. Há categorias que são muito deficitárias na matemática previdenciária porque ganham valores muito superiores aos dos demais contribuintes. E não se diga que pagaram por isso, pois se tivessem pago por isso efetivamente não haveria o déficit.

A reforma é inevitável. Mas não essa. A reforma precisa tratar todos os brasileiros como pessoas iguais.

 

 

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Diferenças entre Casamento e União Estável

Historicamente o direito romano-germânico é invasivo nas relações nupciais. Regula as que entende aceitáveis e as não aceitáveis sob o ponto de vista legal, conferindo efeitos distintos a cada uma. Não aceita, por exemplo, que o enteado se case com a madrasta, nem que a viúva se case com o assassino do seu marido. Estas são interferências que guardam coerência com os valores sociais médios ou ideais.

Há interferências, contudo, que causam problemas desnecessários ao tratar diferentemente pessoas que, na prática, deveriam ser iguais.

Veja o exemplo do divorciado que aguarda a sobrepartilha dos bens do casamento (quando o divórcio é decretado sem que tenha sido feita a partilha dos bens do casal – art. 1.581 do Código Civil). Se quiser casar, o fará sob o regime da separação total de bens (art. 1.641, I, do Código Civil). Contudo, se optar em viver sob o regime da União Estável terá a garantia legal da comunhão parcial de bens (art. 1.725). Vê-se aqui uma invasão desnecessária. Ora, como pode o formalismo (casar) garantir menos direitos que o informalismo (viver junto)?! A explicação parece ser a de que o Estado pretende que aqueles que buscam viver sob a tutela da lei busquem regular suas relações adequadamente.

É, entretanto, no âmbito sucessório onde as diferenças são mais evidentes. Oferecendo uma visão sucinta, vamos a elas:

a) PATRONÍMICO: apenas o casamento permite que um dos cônjuges adote o patronímico do outro, o que é relevante para aqueles grupos familiares que pretende tenham todos os membros da família um mesmo laço nominal.

b) HERANÇA INTEGRAL: apenas o casamento assegura ao cônjuge a possibilidade de herdar integralmente a herança (art. 1.838) quando não houver herdeiros pais e filhos, enquanto que ao companheiro sobrevivente restará no máximo 1/3 (art. 1.790) se houver qualquer outro grau de herdeiros sucessíveis (irmãos, tios, primos, sobrinhos).

c) CONCORRÊNCIA COM FILHOS: na herança, o cônjuge concorre em partes iguais com os descendentes; o companheiro concorre em partes iguais com filhos comuns, mas apenas pela metade com filhos apenas do falecido.

d) ESTADO CIVIL: apenas o casamento altera a condição de solteiro, divorciado ou viúvo. É importante que se diga: um solteiro nunca regride a este estado civil depois que o deixa.

e) PROVA: o casamento é provado com a certidão e define automaticamente os direitos ali contemplados, inclusive quanto ao regime de bens; a união estável depende de elementos de prova diversos, que podem ser contrato, declaração, filhos em comum, tempo de convivência, etc. Eventualmente, especialmente em relações recentes, a prova pode se tornar um tanto difícil.

f) EXTINÇÃO: o fim do casamento também exige sua formalização, sendo mais demorado mas mais seguro, pois a data e os direitos envolvidos restam definidos. O fim da união estável pode ter data e direitos indefinidos por toda a vida, prejudicando a verificação sucessória ou mesmo o início de uma nova relação conjugal.

g) INFIDELIDADE: há decisões que imputam ao cônjuge infiel o dever de indenizar o outro pelo descumprimento do acordo de fidelidade. Em relação aos companheiros não há dever legal de fidelidade (art. 1.724).

É tema costumeiro no Direito de Família que o Estado deva se envolver o menos possível na regulação das relações afetivas, o fazendo apenas para evitar abusos ou perda de direitos de terceiros. As regras conjugais trazidas pelo Código Civil de 2002 modernizaram as relações, mas ao mesmo tempo criaram dificuldades e diferenças desnecessárias entre relações afetivas de mesma importância social, fazendo com que tenha o Judiciário de resolver questões que, melhor definidas, dispensariam os interessados de discuti-las.

Planejamento Previdenciário Pessoal

Todos nós um dia nos aposentaremos. Alguns, infelizmente, passarão por isso antes do tempo desejado. A todos os trabalhadores que se empenham ao longo da vida para desenvolver a sua atividade laboral cabe o direito de se aposentar após determinado período de contribuições ou de ser pensionado em caso de incapacidade. A seguridade social é um dos elementos de maior relevância da atuação estatal, estando garantida constitucionalmente a todos os brasileiros e estrangeiros que trabalham no Brasil.

Agora me responda uma coisa: por que ainda nos preocupamos com nossa aposentadoria apenas quando vai chegando a época de requerê-la? Não estou falando quanto ao pagamento das contribuições, mas quanto ao conjunto de informações que servirão para a concessão do benefício?

No Brasil, o INSS possui o CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais – para acessá-lo clique aqui). Nele estão inseridas todas as informações laborais e contributárias do segurado da Previdência Social. É uma espécia de Carteira de Trabalho digitalizada. É com base neste banco de informações que os benefícios do segurado/trabalhador serão analisados.

É por esta razão que se faz tão importante o Planejamento Previdenciário Pessoal. Recomenda-se que a cada cinco anos, no máximo, o segurado solicite no INSS uma cópia do seu CNIS e consulte um advogado previdenciarista para verificar se as anotações que constam estão adequadas. Caso não estejam – o que é absolutamente comum – deve-se buscar o mais rápido possível a correção.

Pense comigo: daqui a 30 anos você resolve pedir o benefício da Aposentadoria por Tempo de Contribuição. Lá chegando no INSS você percebe que vários salários do seu segundo emprego, há 28 anos atrás, estão errados. A empresa nem existe mais. Você deverá apresentar uma CTPS que for extraviada pelo seu quinto empregador. Entendeu?!

Se o trabalhador mantém atualizados e corretos os seus dados previdenciários junto ao CNIS, sempre que precisar de algum dos benefícios da Previdência Social com certeza verá a sua concessão ser mais rápida e correta.

Não deixa de acompanhar regularmente o seu CNIS e consulte um advogado previdenciarista sempre que tiver dúvidas ou pretender corrigir equívocos ali verificados.

A sua solicitação do CNIS pode ser feita em qualquer agência do INSS no país, sem necessidade de prévio agendamento.

A gota d’água

As pessoas parecem ter chegado ao seu limite. E isso acontece muitas vezes na vida.

Quando você vê um policial, pessoa vocacionada a proteger os outros, cruzando os braços e permitindo que os criminosos se sintam ainda mais à vontade para suas atividades, este policial certamente está se violentando.

Quando você vê um professor, ser vocacionado a dar conhecimento e soluções aos seus alunos, paralisar suas atividades porque está sem saber como solucionar os seus problemas profissionais, este professor certamente está desesperado.

Quando se vê um profissional da saúde cruzar os braços e isso causar o agravamento do estado de saúde de um cidadão, não há dúvidas de que este profissional está se violentando.

A gota d’água é um marco entre o que se pode e o que não se pode mais guardar internamente.

Há pessoas que, ao atingirem seus limites, elevam-se a um novo patamar. Mudam. Desistem do caminho que os levou até aquele ponto e trilham um novo caminho para chegar onde sempre desejaram.

E há pessoas que apenas desistem…

Há os que, por não saber o que e como fazer, param. Estes são os que, nos momentos limites, precisam de ajuda. Estão, do seu jeito, dizendo: “por favor, não sabemos como resolver o nosso problema… vocês aí podem resolvê-lo”.

Acontece que nossa cultura trata a inatividade como uma atividade. Explico: nos contentamos em não fazer o mal… sem agirmos ativamente em prol do bem. Nos contentamos em não sujar a rua… sem agirmos na limpeza da mesma. Nos contentamos em cuidar dos nossos… esquecendo que há muitos mais a serem cuidados.

A gota d’água deveria ser o ponto em que desistimos de fazer o que sempre fizemos, para começarmos a fazer algo novo. Deveria e deve.

Não te deixa influenciar tão profundamente pelos pessimistas e reclamões. Não te permite ver a vida como algo com tantas divisões e maldades. A vida é o que vivemos.

Neste momento de dificuldades econômicas, políticas, morais e sociais no Brasil, precisamos nós todos nos transformarmos na gota d’água que haverá de transbordar o antigo pequeno receptáculo em que estávamos para o mundo!

Crise? Que crise?!

Gosto de história e gosto de pensar em como as coisas já foram no passado. Vamos pegar o século XIX, por exemplo. População quase totalmente rural, sem estrutura estatal quase nenhuma, sem escolas públicas, sem hospitais públicos, sem pedágios, sem segurança, sem sindicatos, sem televisão. Se você precisasse de algo deveria fazer. Se você precisasse de assistência médica teria de procurar uma das Santas Casas ou um curandeiro. Se você precisasse de segurança deveria se armar e solicitar o apoio dos seus vizinhos… e eles fariam o mesmo.

E o início do século XX? Duas grandes guerras, radicalização política, fraudes eleitorais e praticamente todos os problemas do século passado.

Vou pular pros dias de hoje. Claro que enfrentamos uma crise econômica. O título é provocativo. É a segunda maior crise econômica que conheci, a primeira como adulto. Como empresário e autônomo, me esforcei muito para manter os negócios e os empregos dos meus colegas. Não tenho conseguido tudo a que me propus. Estou fazendo escolhas difíceis. Meu patrimônio e minha paciência andam bastante prejudicados.

A provocação que empenho no título vem de uma entrevista que acompanhei à nobreza indiana (eu não sabia que ela existia!). Como sabemos, a Índia é um país maior que o nosso, mais populoso e mais pobre. Então o entrevistador pergunta:

– Vocês têm estes lindos palácios, riquíssimos e, do outro lado da foto, uma pobreza gigantesca. As pessoas aqui não se revoltam com essa disparidade?

– Não. Elas sabem que estes palácios foram construídos por gerações e gerações de famílias que lutaram para defendê-los. E sabem que a riqueza adquirida por estas famílias foi usada ao longo dos séculos para construir hospitais, escolas, habitações para auxiliar nos problemas das pessoas daqui. As pessoas sabem que sua vida seria pior sem os nobres.

Pensei comigo que esse mundão é muito grande e muito diferente mesmo…

Vivo num país que cobra tributos de mais de um terço de tudo que produzo (não estou falando em lucro, estou falando “produzo”!). É um país que tem uma boa rede de assistência pública, mas os serviços infelizmente não conseguem atender a contento. É um país que, como vimos no resumo histórico, já foi pior. Já tivemos nobreza e hoje temos algo parecido, se pensarmos que há grupos que são sustentados pela arrecadação de valores da sociedade sem que retribuam a altura este esforço. Com nossas características, boas e más, pensamos nossa relação com o Estado e tudo o mais de forma absolutamente distinta desta manifestada na entrevista.

Nossa crise financeira é severa, mas nossa crise de valores e referências é gigantesca. Não sabemos para que trabalhamos, para que pagamos tantos impostos, para que respeitamos tantas regras, para que compartilhamos nossos espaços. Somos reféns de uma falta de identidade que nunca foi devidamente abordada. Nunca houvi no Brasil falarmos algo diferente de crise. Crise disso e daquilo.

Há nações que vivem para guerra, outras para o trabalho. Nós, parece, vivemos para o futebol. Se é verdade que toda a crise é passageira espero que em breve eu sofra uma crise de risos.

Teoria da Esperança

No livro “Cosmos”, do astrofísico Carl Sagan, há uma passagem onde um cientista pede ao padre – que é dos personagens principais – que lhe prove a existência de Deus. O padre pensa alguns segundos e pergunta:

– Você tem filho?

– Sim, tenho. – responde o cientista.

– E você o ama? – pergunta o padre.

– Sim, eu o amo.

– Então prove! – devolve o padre, de forma sagaz.

Carl Sagan era ateu. Conseguiu perceber a questão central que envolve a devoção à divindade, que tento resumir como a fé, a crença em razão do conjunto de nossos pensamentos e sentimentos. Não é necessário provar-se nada com elementos externos, apenas o conjunto de valores, experiências, sensações e desejos internos bastam para acreditar ou não na divindade. E essa crença será, por certo, proporcional a este conjunto de valores, experiências, sensações e desejos individuais de cada um. Pessoas mais insensíveis talvez idealizem divindades mais fortes e imponentes. Pessoas caridosas provavelmente pensam o seu deus como um ser bom e compassivo. E assim por diante.

A esperança é um dos resultados da fé. Talvez por isso os crentes costumem dispor de mais esperança que os descrentes. Talvez por isso as teorias materialistas desenvolvidas ao longo da história (como o marxismo) sejam desprovidas de esperança em algo que não seja a luta por bens materiais e igualdades formalmente estabelecidas.

Sendo a esperança um dos resultados da fé, explica-se porque a descrença na divindade seja tão próxima da falta de esperança. Se não se consegue sentir a divindade, como conseguirá acreditar que algo de melhor possa estar por vir com tantas provas de que o mundo vai mal pacas?!

Carl Sagan era ateu e tinha esperança. Ou, pelo menos, escreveu como se tivesse. Quem sabe era um desesperançado que gostaria de sentir esperança, quiçá de sentir a divindade?! Não o sei. Sei que ele tentou ao máximo incentivar as pessoas a acreditar que há o melhor por vir.

A esperança não é resultado natural das constatações. As constatações costumam ser bem menos interessantes. A esperança demanda a percepção de algo maior do que somos. Sem esperança, cada dor é apenas uma dor. Cada vida apenas uma vida. Cada fato um mero episódio no infinito. Mas com a esperança as coisas mudam de significado, pois as dores e as perdas podem se tornar facilmente lições que ajudarão na melhoria. A morte se transforma em recomeço. A saudade é um pedido de pressa para o reencontro.

Admiro as pessoas que esperam o melhor. Elas são melhores companhias, são mais alegres e motivadas. Imaginemos se o mundo fosse todo como Nietzche ou Sartre, que triste seria! Descrever a dor, por mais elaborado que seja, não passa de uma ode ao sofrimento.

Espero que todos consigamos dispensar à esperança o que Sagan dispensou. Acredite ou não, é melhor a vida de quem acredita.

A era do medo

Medo é o principal instrumento de controle. Com o medo se conseguiu com que três milhões de escravos não se insurgissem contra trinta mil brancos na Bahia colonial. Com o medo se amarra um elefante num toquinho e se cerca um cavalo com tapumes. Com o medo o melhor time se acovarda perante o mais fraco. O medo esfria as relações, empobrece a economia, limita a criatividade, separa povos, afasta crentes divergentes, inibe o progresso.

Existem muitos antídotos para se combater o medo. O otimismo, a tolerância, o exemplo, a compaixão, a perseverança, a fé, a bondade são alguns dos incontáveis ingredientes deste antídoto. Mas não há e jamais haverá combate efetivo ao medo sem duas coisas: liderança e consciência.

Numa época em que se teme sair a rua e perder a vida para um ladrão de carros ou se aventurar num novo negócio e perder todo o seu patrimônio, dispormos de líderes que nos mostrem caminhos seguros é fundamental. Os desbravadores compassivos são os líderes de que mais precisamos neste momento. Pessoas que conseguiram furar o escudo do medo, atingiram seus objetivos e, agora, mostram aos demais que isso é possível. Liderança é importante em todos os aspectos da vida: o professor, na escola; o pastor, no culto; o chefe, na empresa; o capitão, na companhia; o diretor, na estatal; os pais, em casa. A sociedade que não fortalece as lideranças torna-se sem referência, contenta-se com qualquer possibilidade, vislumbra-se com pouco. Liderar hoje é muito diferente do que era no século passado, em que o ter estabelecia o líder. Hoje liderar é saber e mostrar. É fazer. Saber curar, saber combater o crime, saber atrair clientes, saber educar.

Então este saber torna-se o segundo elemento contra o medo: ter consciência. Conhecer-se. Entender-se. Tolerar-se. Motivar-se. Precisamos renovar nas pessoas a intenção de querer ser mais do que são, de buscar mais do que lhes é confortável, não por interesses patrimonialistas (o que também pode ser bom), mas principalmente porque o mundo precisa delas. O mundo precisa de pessoas conscientes dos seus limites, das suas virtudes, da sua missão.

Os líderes são exemplos do que podemos nos tornar. A consciência é meio de liderarmos nossas vidas.

E o medo? O medo é o que prevalece quando não conseguimos nos sentir protegidos nem suficientemente fortes para nos proteger. Seja do assaltante, seja da pobreza. Seja da doença, seja da morte.

Abdica de ouvir notícias que te trazem o medo. Conviva com pessoas destemidas ou, ao menos, ativas. Descubra o que lhe paralisa a iniciativa e o que lhe aquece o coração para nunca parar. Quando o medo chegar, procura em alguém que esteja mais forte e te esforça para não te abateres.

Sentir medo é natural. O que não é natural é permitirmos que este medo seja maior que nossa força de suplantá-lo.

A Elite Judiciária

Você conhece alguma categoria profissional que tenha 60 dias de férias por ano?

Que recebe adicional para cada atividade realizada diversa da atividade principal?

Que substitui colegas em férias e recebe para isso um adicional?

Que recebe diárias quando vai dar palestras em outros lugares, mesmo que tenha de desmarcar os compromissos profissionais agendados há meses?

Que tem porte de arma funcional sem necessidade de demonstrar qualquer habilidade no manuseio?

Que, se for condenado por um crime, recebe como punição a aposentadoria remunerada?

Que tem na sua cúpula o mais alto salário do funcionalismo público, a ponto de servir de referência para todos os demais servidores?

Que, além do excelente salário, recebe auxílio moradia quase cinco vezes superior ao salário mínimo?

E que, agora, luta por outras verbas salariais e indenizatórias, como se tudo o mais que ganha fosse pouco para uma excelente vida?

Não estamos falando dos cavaleiros da idade média, nem da monarquia inglesa ou dinamarquesa. Estamos simplesmente referindo alguns dos benefícios da magistratura brasileira (que atingem Ministério Público e outras categorias).

Um juiz que tem subsídio de R$ 25 mil mensais compromete o esforço tributário de aproximadamente dez pequenas empresas ou trinta trabalhadores. Isso apenas para este subsídio, sem contarmos todo o mais.

Se você tem alguma dúvida de que o Brasil é um país construído para sustentar as elites estatais, eu não tenho.

Não há nada no Brasil – NADA – que funcione melhor do que o cumprimento dos direitos destes servidores. A vida de qualquer outro brasileiro é muito diferente.

Se há uma categoria profissional que deveria ser a primeira a servir de referência são os magistrados. Mas infelizmente não servem… ganham o que quase ninguém ganha. E não estou aqui estabelecendo uma crítica pessoal a nenhum deles. São, na sua imensa maioria, ótimos profissionais. O que lhes falta é senso de realidade. O que lhes sobra de conhecimento teórico talvez esteja transbordando no ego e impedindo-os de sentir o que os outros brasileiros sentem.

Esquerda Estadista?

Quando a Revolução Francesa quebrou o absolutismo, em 1789, mudou o mundo. A ideia de criar-se um Estado em que a base governamental não fosse mais o monarca nem o senhor feudal, finalmente, começara a ruir. As ideias e os ideais de esquerda ganharam o gosto popular e, depois disso, nunca mais houve um país democrático em que o “ser de direita” fosse respeitado de igual forma ao “ser de esquerda”.

Depois disso, vieram muitos teóricos ortodoxos e inovadores, liberais e conservadores. Muitos. Tantos que se perdeu o mote original do que seria um ideal de esquerda. E isso deu ensejo a que o conceito se desfocasse do ideal, passando a servir de mero adjetivo, utilizado por conveniência.

Dois episódios históricos construíram o problema conceitual que temos hoje na definição de esquerda no Brasil. O primeiro foi o marxismo. O segundo a Guerra Fria. Com a vitória do marxismo na União Soviética em 1917, bradando ideais parecidos com os franceses de 1789, mas totalmente diferentes nas práticas institucionalizadas, iniciou-se uma flexibilização do conceito de esquerda que resultou na extinção dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. O marxismo encontrou na Rússia um ambiente perfeito para a criação do estadismo dito de esquerda, que certamente gerou o contra-ponto ao estadismo de direita que vieram na Alemanha, Itália e outros países latinos, anos mais tarde. Eram todos governos institucionalmente similares, embora sua propaganda fosse diferente na parte ideológica. Pois daí surge o segundo episódio referido, a Guerra Fria, resultado do fim da Segunda Grande Guerra. Com o marxismo russo e o liberalismo norte-americano vitoriosos, a maneira em que o mundo se reorganizou dividiu-se entre comunismo e capitalismo, estadismo e liberalismo, esquerda e direita. Essa era a propaganda conceitual que nos foi empurrada abaixo no Brasil e da qual somos reféns até hoje.

Esquerda é liberal. Estadistas são os aristocratas, os monarcas, a direita. Esquerda não tende, ideologicamente falando, a defender estatizações. Esquerda não luta por desarmamento, por hiper-tributação, por elevação nas taxas de juros. Esquerda não defende ditaduras. Esquerda não controla tudo e todos. Isso quem fez foi o marxismo. Isso quem faz são as ditaduras de direta, presentes hoje no mundo árabe, por exemplo. E presente também na Venezuela, em Cuba, no Irã.

Aqui no Brasil a ignorância política está institucionalizada. Os partidos políticos de esquerda defendem pragmaticamente programas que nunca poderiam ser chamados de programas de esquerda. Não existem partidos políticos de direita no Brasil. Ser de direita é feio demais por aqui. O resultado é que todo o partido é de esquerda, inclusive estes que utilizam-se do estado para enriquecer os seus partidários, num atestado de incompetência pessoal descomunal, um atestado de avareza e de desprendimento ideológico gigantesco dos ideais que, um dia, foram de esquerda. Aqui a esquerda prega e vive um estadismo quase absolutista, onde o Estado é o grande regulador, o grande provedor e o Deus materializado. Não soa estranhamente parecido com o que pretendiam os franceses acabar?!

Portanto, amigo e amiga, saiba que PSDB não é de direita e PT, PCdoB, PSTU e PSOL não representam a esquerda que surgiu para lutar por liberdade, igualdade e fraternidade. Isso é mais uma das balelas que o Brasil criou para que eu e você não saibamos que estamos sendo roubados.