Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

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A sinceridade afetiva

Desenvolvi uma teoria (de tantas) sobre a sinceridade: quando as pessoas falam dela, estão falando da sinceridade racional, não da sinceridade afetiva. Elas são diferentes.

Quando o jovem namorado se esforça para cumprir os deveres de cheff e preparar um ótimo e prazeroso jantar para sua namorada, depois de comprar os ingredientes e pedir opinião para duas ou três cozinheiras mais experientes de como prepará-los, mas ao final o esforço não atinge nem perto o objetivo inicial…

Quando a amiga compra de presente uma coleção de arte caríssima que, acreditava, combinaria com o seu novo consultório, mas as cores acabam por não fechar…

Quando o cachorrinho que você deu pra sua esposa roeu o pé da mesa que o pai dela deixou de herança…

Quando teu filho de quatro anos te entrega uns rabiscos e tudo que você consegue identificar são duas cabeças e um coração…

Ficou bom? Você gostou?

Podemos responder com nossa sinceridade racional e dizer que não, que ficou salgado demais, que as cores não fecharam, que não queria um cachorrinho neste momento para ter ainda mais uma tarefa ou dizer que não entendeu o desenho.

Ou podemos responder com nossa sinceridade afetiva: amei!

É maravilhoso quando as duas podem ser combinadas. Talvez seja uma das manifestações da felicidade na Terra quando podemos, racionalmente e afetivamente, nos sintonizar com os outros e conosco. Mas sabemos que essa combinação não está disponível com muita regularidade.

Sinceramente… o bom mesmo é aprendermos a extrair o melhor de cada situação, mesmo daquelas que não parecem tê-la. A razão e a emoção caminham juntas quando as alinhamos, não quando esperamos venham alinhadas.