Amadurecer

Nem todas as pessoas tem maturidade de chefiar e tratar bem seus subordinados.

Nem todas as pessoas tem maturidade de usar uma droga e não se tornarem dependentes.

Nem todas as pessoas tem maturidade de fazer uma arte marcial e se tornarem menos violentas.

Nem todas as pessoas tem maturidade de valorizar seus relacionamentos pessoais.

Nem todas as pessoas conseguem escolher uma profissão que lhes traga realização.

Nem todos conseguem torcer por um time, um partido, um ideal e torcer ainda mais por todos.

Nem todos nos auto-avaliamos suficientemente para nos tornarmos quem realmente somos. Perdemos tempo demais na juventude das ideias produzidas por outros. A sorte é que todo amadurecimento chegará cedo ou tarde, com mais ou menos sofrimento… e poderemos então assumirmos nossas vidas.

Violência e amadurecimento

Como são fracos os que precisam da força.

Refletimos cedo sobre o papel da violência na manutenção da vida em nosso planeta. É inegável que, sem a violência, a vida seria diferente por aqui. Leões, tubarões, ursos e louva-deus seriam herbívoros ou não existiriam. A seleção natural teria outro resultado.

Nascemos violentos ou não violentos? É uma resposta complexa e penso, embora desejasse o contrário, que é errônea a certeza que somos não violentos ao nascer. A certeza que tenho é que não nascemos preparados para o agir violento. Os genitores contudo, da espécie que forem, precisaram da violência para nos proteger e nos alimentar e isso, por si, demonstra a dificuldade da resposta.

A reflexão que proponho tem como menos relevante a nossa característica de nascimento e como mais relevante o que o processo de evolução da humanidade nos permite vivenciar (fica claro que não sou dos que acha que a humanidade não evolui e lamento muito que haja setores consideráveis da ciência em nossos dias que defendam isso).

Grandes nomes da humanidade se transformaram em ícones por sua forma de lidar com o poder e, consequentemente, com os outros seres. Júlio César, Zumbi dos Palmares e Napoleão através do uso da violência. Jesus Cristo, Buda e Gandhi através da não violência. Para estes últimos, o poder a ser buscado é o de elaboração pessoal e, por isso, não é necessária a violência para tornar-se poderoso e mudar o mundo. Essa simples elaboração atesta diversos valores que devem ser enfrentados para a reflexão do tema.

O uso da violência é sempre mais imperativo quando não sabemos nos relacionar conosco e com nosso meio. Uns dirão: mas e quando o meio é violento contigo, vais te submeter? Bem, Jesus Cristo se submeteu. E também se insurgiu. A sua insubmissão, contudo, não primou pela agressão ao agressor. Buscou mostrar que a elaboração pessoal e a reformulação no trato aos outros, especialmente com os que nos agridem (“se ofenderem tua face esquerda, oferece a direita”), é a única solução efetiva para o problema. Buda, Gandhi, Krishna, Zoroastro e muitos outros foram pelo mesmo caminho.

Há, contudo, um limite que admito dificílimo ao enfrentamento: diz respeito a tolerar a violência contra quem amamos. Você se sacrificar (como fez Jesus e Gandhi) por uma causa é muito mais fácil do que permitir o sacrifício dos seus filhos, seus pais ou qualquer outro ente amado.

Chico Xavier ensinou que a violência é o fato de filtragem do nosso plano existencial. Chegará um ponto da evolução humana em que os violentos serão deserdados, pois impedirão o prosseguimento do processo evolutivo. Contra o violento que não busca se corrigir pouco adianta a melhor das pessoas, pois ele responderá com uma imposição física ante a imposição moral e espiritual.

Então afirmo que a violência é um fator de distinção entre os seres humanos que querem melhorarem-se e os que não querem. No nosso atual momento, só poderia ser aceita em caso de legítima defesa e em nenhum outro mais, muito menos uma violência institucionalizada ou recomendada. Não estou dizendo com isso que o pacifismo como ideologia nos basta… infelizmente não basta, pois se assumirmos essa postura, seremos suplantados pelos violentos imorais. Ainda precisamos administrar doses defensivas de violência sempre que necessário, especialmente para nos defendermos da injustiça (inclusive da estatal ou da institucional) bem como para defender nossos entes queridos. Devemos fazer isso única e exclusivamente neste caso, para prosseguirmos nosso aprimoramento e preservarmos nosso planeta.

Por fim, reflita que isso significa muita coisa, dentre as quais que não podemos tolerar infanticídios indígenas, penas de morte, abortos por mero interesse e quaisquer outros atos de violência.

Não desista!

Se cada vez mais há divergências e imposições de pensamentos uniformes e encaixotados, não desista do debate.

Se cada vez mais há determinações sobre no que acreditar ou no que não acreditar, não desista da sua fé.

Se os vizinhos não se cumprimentam mais, tampouco dividem sua atenção e cordialidade, não desista da gentileza.

Se as academias desistiram do debate e do contraditório para impor a régua minúscula de uma filosofia enlatada, não desista da reflexão.

Se a família transformou-se em terreno bélico de emoções, não desista de cuidar e de cuidar-se.

Se a vida é dura – e ela é – não desista de vivê-la.

Há mais coisas que valem a pena ao nosso redor do que a desistência contempla.

Digitalizar

Quando eu tinha 9 anos, morava numa vila que não tinha praça para jogarmos futebol. Jogávamos na rua, que era de areia ou saibro, cheia de pedrinhas, algumas sem coleta de esgoto. Com o tempo, algum pai de amigo mostrou que podíamos usar os terrenos desocupados para jogar bola. Bastava limpá-los e deixá-los em condições.

Naquela época a regra era clara: escureceu tem de estar em casa. Não tinha como minha mãe saber onde eu estava. Podia estar em qualquer rua num raio de quilômetros ou na casa de um amigo.

O mundo hoje é absurdamente diferente. Enlouquecidamente diferente. Maravilhosamente diferente. Perigosamente diferente.

Entro no quarto dos meus filhos e digo quase sempre: “este é o melhor quarto do mundo”. Ali tem TV, videogame, livros, globo luminoso, Netflix, teclado musical, brinquedos e por aí vai. É de um conforto maravilhoso, ainda que simples, ainda que sem luxo.

Nossas condições materiais não são melhores do que há trinta anos por acaso. A humanidade estuda mais, conhece mais, compartilha mais, busca mais, tolera mais, doa mais.

A era digital é muito mais do que software e hardware, do que APPs e perfis. Ela está criando um novo mundo.

O que mais me assusta não é ver esse novo mundo chegar… não é. O que mais me assusta é ver a quantidade de gente que ainda vive e pensa da forma do antigo mundo analógico. E pior, gente que é ainda mais devagar, mais preguiçosa, mais omissa que há trinta anos.

Digitalize sua visão de mundo, seu jeito de estudar e trabalhar, sua forma de existir e sentir. Imediatamente. Ou você não será compatível com o sistema operacional da vida muito em breve.

Outono

Sinto o vento entrar pelas frestas da janela e assoviar no telhado. O barulho do mar, ao longe, é intensificado e se mistura ao das folhas ao vento, que estão nas ruas porque jardineiros podaram árvores e arbustos em ramos que se chocam eventualmente com a porta da cozinha. A poda ainda deixa tocos de galhos para secar que em junho ou julho, quando o frio retornar, vão colorir a lareira de um laranja aconchegante. Pela manhã os casacos são necessários companheiros do chimarrão. Às vezes chove, mas normalmente não. Normalmente é um vento, até que o grande minuano traga o azul do céu por alguns dias ou dessas nuvens passageiras que vagueiam pelos quatro cantos do mundo em suas altitudes permanentes. O olhar naturalmente se acalma na contemplação de uma beleza acizentada que reverencia o passado, fortalece o que foi bem construído e derruba de vez o que está pra ruir… é a natureza exigindo que se faça direito o que precisa ser feito. Tempo de mudança! Da mudança que começa na introspecção reflexiva e ecoa nos sussurros que o coração leva à alma. É tão linda essa época! Tão acolhedora na sua culinária, tão exuberante nas suas vestimentas, tão exultante nos corações que compartilham seus sentimentos. Se todo o ano fosse assim, seria ótimo. Tenho pena dos que a não conhecem por viverem longe do subtrópico e a tentam sentir, quando muito, na obra de Vivaldi. É nessa época que os livros são feitos ou lidos, que as pipas são abertas – de vinho, de pinga ou de calda – e que filhos do verão são gerados. É nessa época que, ao sul do equador, o ano já se alarga e mostra a que veio, que as visitas já não visitam tanto e as aves retornam. Saúde! Que a vida seja um eterno outono.

A família e a sociedade

A célula social elementar é a família. Essa ideia é uma quase unanimidade em praticamente todo conceito sociológico, antropológico, filosófico, religioso e político.

Quase…

Platão, por exemplo, via o Estado ideal consideravelmente diferente deste que hoje temos. Ele entendia que notáveis deveriam governar e que as crianças deveriam ser cuidadas por todos. Em sua idealização o homem devia cuidar de todos e todos cuidarem dele.

Não ouso dizer que Platão estava errado. Quem sou eu pra tanto. Acho, contudo, que a sua idealização era demasiadamente utópica para nossa humanidade, tanto que passados dois milênios e meio ela jamais sequer pautou os interesses humanos.

Marx não foi um filho lá muito exemplar e, ao que parece, tinha uma visão própria sobre família que deve ter influenciado sua paternidade. Perdeu quatro dos sete filhos ainda bebês e duas das suas filhas se suicidaram.

Platão não teve filhos. Ao que consta era homossexual. Marx teve sete, apenas um sobreviveu.

Jesus, segundo os relatos oficiais, tampouco teve filhos. Buda idem. Ainda assim suas concepções filosóficas sobre a família eram diversas, repletas de sentimentalismo e importância. Maomé teve diversos filhos e impôs um código moral que levava muito a sério a vida familiar.

É certo que a nossa condição afetiva norteia nossas relações e nossa visão de mundo. Se você ouvir que morreram dezenas de pessoas em razão de um atentado na África ficará triste. Se ouvir que faleceu o pai do seu amigo ficará muito triste. Se souber que faleceu o seu pai ficará arrasado. Nosso mundo afetivo é nosso mundo. Nossa família tende a ser a base deste mundo afetivo.

A biologia determinou derivássemos de um homem e uma mulher, seres que se unem pelo impulso sexual com maior ou menor emanação da afetividade. Quanto mais afetividade, maiores as chances de estabelecerem-se enquanto família e, assim, dispensarem a troca de afetividade entre si e entre a prole. Mais troca de afetividade resulta em mais segurança, mais saúde, mais autoestima, mais equilíbrio e permite combinações de personalidade mais afeitas à bondade, ao desenvolvimento, à felicidade.

Os menos privilegiados no campo familiar costumam relatar um intenso interesse em ter vivenciado este ambiente. Os mais privilegiados tendem a repeti-lo, melhorá-lo.

Se é a família unida por laços afetivos a base da fortaleza pessoal é ela também a base da fortaleza social. Eis o raciocínio inicial.

Dito tudo isto para entrarmos, numa próxima reflexão: toda mudança social passa pela mudança da família. A família unida com filhos tem um propósito. A sem filhos outro. A família unida e que vive de uma atividade familiar – como a agricultura ou um mercado – tem uma rotina. A família desunida que vive desta mesma atividade terá outra. Há família de advogados, de agricultores, de professores… construções afetivas que repercutem na atividade profissional.

O contexto é fundamental, mas ele não é determinante. Se fosse, o resultado seria previsível matematicamente. Haveria uma equação, um algoritmo que permitira saber que determinada combinação de fatores resultaria num resultado pessoal, social e global preciso. Não há. Justo porque, em que pese seja a família uma base fundamental para o bom desenvolvimento do ser, o ser humano é capaz de ir muito além ou muito aquém do seu grupo, pois dispõe de livre-arbítrio e vontades individuais. Será o contexto familiar, de novo, que irá podar estes limites ou expandi-lo.

Toda mudança social, repete-se, decorre de mudanças pessoais e familiares. Famílias que dependem do Estado criam dependentes, não importa a renda e a instrução envolvidas. Famílias que são autodeterminadas criam cidadãos livres e autodeterminados. Famílias tolerantes tendem a ser mais leves e felizes. Famílias moralistas mais formais e intolerantes.

Então, que tipo de famílias nosso país, nossa cidade, nós tendemos a reproduzir?! Estamos vendo ao nosso redor, dia a dia. Compete a cada um de nós, dentro da nossa casa, mudar nosso país.

Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

A sinceridade afetiva

Desenvolvi uma teoria (de tantas) sobre a sinceridade: quando as pessoas falam dela, estão falando da sinceridade racional, não da sinceridade afetiva. Elas são diferentes.

Quando o jovem namorado se esforça para cumprir os deveres de cheff e preparar um ótimo e prazeroso jantar para sua namorada, depois de comprar os ingredientes e pedir opinião para duas ou três cozinheiras mais experientes de como prepará-los, mas ao final o esforço não atinge nem perto o objetivo inicial…

Quando a amiga compra de presente uma coleção de arte caríssima que, acreditava, combinaria com o seu novo consultório, mas as cores acabam por não fechar…

Quando o cachorrinho que você deu pra sua esposa roeu o pé da mesa que o pai dela deixou de herança…

Quando teu filho de quatro anos te entrega uns rabiscos e tudo que você consegue identificar são duas cabeças e um coração…

Ficou bom? Você gostou?

Podemos responder com nossa sinceridade racional e dizer que não, que ficou salgado demais, que as cores não fecharam, que não queria um cachorrinho neste momento para ter ainda mais uma tarefa ou dizer que não entendeu o desenho.

Ou podemos responder com nossa sinceridade afetiva: amei!

É maravilhoso quando as duas podem ser combinadas. Talvez seja uma das manifestações da felicidade na Terra quando podemos, racionalmente e afetivamente, nos sintonizar com os outros e conosco. Mas sabemos que essa combinação não está disponível com muita regularidade.

Sinceramente… o bom mesmo é aprendermos a extrair o melhor de cada situação, mesmo daquelas que não parecem tê-la. A razão e a emoção caminham juntas quando as alinhamos, não quando esperamos venham alinhadas.