O julgamento do Lula

Nem sempre o gestor é culpado pelos danos causados por seus subordinados, mas normalmente será o responsável. É da natureza do cargo e da função ser o responsável. O raciocínio que permite não seja o gestor responsabilizado é o que sempre vigeu no Brasil e resulta na popularesca frase de que “a corda arrebentou no lado mais fraco”.

Pois bem, Lula é evidentemente culpado. E teve vantagens financeiras e políticas com isso. É fato e os resultados estão aí nas ruas. Os que escolhem não acreditar nisso babariam de raiva se, diante dos mesmos fatos, substituíssemos os personagens por outros mais à direita.

O Brasil vive uma ode à irracionalidade. Nunca fomos exemplo de bom senso e equilíbrio e provavelmente chegamos nessa polarização por causa disso (afinal, não há efeito sem causa). É preciso que as pessoas não se deixem levar por esta irracionalidade quando pensam e atuam naquilo que entendem como solução.

Não podemos tolerar lideranças que preguem violência. Não podemos tolerar rupturas institucionais sob pretextos “morais” ou “ideológicos” mais elevados.

A evolução social precisa de ajustes e correções constantes, não de rupturas, revoluções e eternos recomeços. Essa ideia é resultado desta irracionalidade, que por sua vez é efeito da imaturidade.

O Judiciário brasileiro está mudando de postura no trato dos grandes criminosos. Chegou a hora. Por mais que a demagogia populista explore esse momento politicamente para continuar sua eterna luta contra os cataventos de Don Quixote não é crível que retrocedamos aos limiares da impunidade. Lula será condenado.

Se parte (ou boa parte) dos brasileiro querem votar num condenado, que o façam. Eles que acreditem no que podem e querem.

Nós que não acreditamos na balela populista precisamos auxiliar de forma coerente e atenta a história a não contaminar-se com tais impropérios. O Brasil dispõe na sua trajetória de incontáveis lideranças que merecem devoção e respeito. O fato de insistirmos em desacreditá-las, costumeiramente em desfavor dos mesmos tipos de líderes populistas, revela que os conhecedores são excessivamente omissos e silentes.

Acredito firmemente que Lula será condenado. Mas se não for, mesmo com toda a minha irresignação, não vou pedir golpes e revoluções. Vou pedir que sejamos melhores.

 

 

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2018

Imagina um ano que começa com o julgamento de um dos ex-presidentes mais queridos da história do Brasil e, ao mesmo tempo, dos mais odiados. Neste mesmo ano teremos eleições gerais. E Copa do Mundo!

130 anos da abolição da escravatura.

100 anos do fim da I Guerra Mundial.

30 anos da nossa Constituição Federal.

Ano passado a professora Heley Batista salvou diversos alunos de um incêndio criminoso em Janaúba/MG, sacrificando sua vida pelas crianças, e seu reconhecimento repercutiu menos que muitos debates ideológicos e políticos de pífia importância. Homenagearemos o primeiro ano deste ato heroico em 2018?!

Os números ainda são imprecisos, mas estima-se que mais de 300 policiais morreram no Brasil em 2017. Mais de 60 mil mortes violentas e mais de 50 mil mortes no trânsito.

Iniciamos o ano com mais de 208 milhões de habitantes no país.

É ano de Copa do Mundo e, até o momento, praticamente não se fala sobre isso.

É ano de eleições e, ao que tudo indica, Lula e Bolsonaro se enfrentarão num segundo turno presidencial que deve resultar na vitória do direitista. Da minha parte vou torcer pelo surgimento de outro candidato mais centralizado e centrado.

Dois mil e dezoito vai ser melhor que o ano anterior, com certeza. Ao contrário do que profetizam os pessimistas, aos poucos vamos melhorando ainda que errando muito. A melhora tende a repercutir. O que não podemos é nos desestimular e deixar que os articulistas extremistas nos subjuguem novamente.

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Enquanto isso, deixo o histórico discurso de Matin Luther King, de 1963, que representa a luta sem loucura, a liderança sem ódio, a igualdade sem demagogia:

“Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a história como a maior manifestação pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a proclamação da emancipação [dos escravos]. Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro.

Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana, como exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda.


Em certo sentido, viemos à capital de nossa nação para sacar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória de que todo americano seria herdeiro. Essa nota era a promessa de que todos os homens, negros ou brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade.

É evidente hoje que a América não pagou esta nota promissória no que diz respeito a seus cidadãos de cor. Em lugar de honrar essa obrigação sagrada, a América deu ao povo negro um cheque que voltou marcado “sem fundos”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o Banco da Justiça esteja falido. Nos recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes depósitos de oportunidade desta nação. Por isso voltamos aqui para cobrar este cheque – um cheque que nos garantirá, a pedido, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.

Também viemos para este lugar santificado para lembrar à América da urgência ferrenha do agora. Não é hora de dar-se ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo. Agora é a hora de fazermos promessas reais de democracia. Agora é a hora de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o caminho ensolarado da justiça racial. É hora de arrancar nossa nação da areia movediça da injustiça racial e levá-la para a rocha sólida da fraternidade. Agora é a hora de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação passar por cima da urgência do momento e subestimar a determinação do negro. Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade. Mil novecentos e sessenta e três não é um fim, mas um começo.

Os que esperam que o negro precisasse apenas extravasar e agora ficará contente terão um despertar rude se a nação voltar à normalidade de sempre. Não haverá descanso nem tranquilidade na América até que o negro receba seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a abalar as fundações de nossa nação até raiar o dia iluminado da justiça.

Mas há algo que preciso dizer a meu povo posicionado no morno liminar que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso lugar de direito, não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos saciar nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio.

Temos de conduzir nossa luta para sempre no alto plano da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar nosso protesto criativo degenerar em violência física. Precisamos nos erguer sempre e mais uma vez à altura majestosa de combater a força física com a força da alma.

A nova e maravilhosa militância que tomou conta da comunidade negra não deve nos levar a suspeitar de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos, conforme evidenciado por sua presença aqui hoje, acabaram por entender que seu destino está vinculado ao nosso destino e que a liberdade deles está vinculada indissociavelmente à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos.

E, enquanto caminhamos, precisamos fazer a promessa de que caminharemos para frente. Não podemos retroceder. Há quem esteja perguntando aos devotos dos direitos civis ‘quando vocês ficarão satisfeitos?’. Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados da fadiga de viagem, não puderem hospedar-se nos hotéis de beira de estrada e nos hotéis das cidades. Não estaremos satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for apenas de um gueto menor para um maior. Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossas crianças tiverem suas individualidades e dignidades roubadas por cartazes que dizem ‘exclusivo para brancos’.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que não tem nada em que votar.

Não, não estamos satisfeitos e só ficaremos satisfeitos quando a justiça rolar como água e a retidão correr como um rio poderoso.

Sei que alguns de vocês aqui estão, vindos de grandes provações e atribulações. Alguns vieram diretamente de celas estreitas. Alguns vieram de áreas onde sua busca pela liberdade os deixou feridos pelas tempestades da perseguição e marcados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês têm sido os veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor.

Voltem ao Mississippi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem a Geórgia, voltem a Louisiana, voltem aos guetos e favelas de nossas cidades do norte, cientes de que de alguma maneira a situação pode ser mudada e o será. Não nos deixemos atolar no vale do desespero.

Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho.

É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá em realidade o verdadeiro significado de seu credo: ‘Consideramos essas verdades manifestas: que todos os homens são criados iguais’.

Tenho um sonho de que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade.

Tenho um sonho de que um dia até o Estado do Mississippi, um Estado desértico que sufoca no calor da injustiça e da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e de justiça.

Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter.

Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho de que um dia o Estado do Alabama, cujo governador hoje tem os lábios pingando palavras de rejeição e anulação, será transformado numa situação em que meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas e caminharem juntos, como irmãs e irmãos.

Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho de que um dia cada vale será elevado, cada colina e montanha será nivelada, os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortos serão endireitados, a glória do Senhor será revelada e todos os seres a enxergarão juntos.

Essa é nossa esperança. Essa é a fé com a qual retorno ao Sul. Com esta fé poderemos talhar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar os acordes dissonantes de nossa nação numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé podemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à cadeia juntos, defender a liberdade juntos, conscientes de que seremos livres um dia.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com novo significado: “Meu país, é de ti, doce terra da liberdade, é de ti que canto. Terra em que morreram meus pais, terra do orgulho do peregrino, que a liberdade ressoe de cada encosta de montanha”.

E, se quisermos que a América seja uma grande nação, isso precisa se tornar realidade.

Então que a liberdade ressoe dos prodigiosos picos de New Hampshire.

Que a liberdade ecoe das majestosas montanhas de Nova York!

Que a liberdade ecoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!

Que a liberdade ecoe das nevadas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ecoe das suaves encostas da Califórnia!

Mas não só isso –que a liberdade ecoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que a liberdade ecoe da Montanha Sentinela do Tennessee!”

Que a liberdade ecoe de cada monte e montículo do Mississippi. De cada encosta de montanha, que a liberdade ecoe.

E quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar, quando a deixarmos ressoar em cada vila e vilarejo, em cada Estado e cada cidade, poderemos trazer para mais perto o dia que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestante e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, “livres, enfim! Livres, enfim! Louvado seja Deus Todo-Poderoso. Estamos livres, enfim!”

Mudar o mundo

Será que existiu outra época em que tantas pessoas queriam mudar o mundo?

Acho que sim. Esse desejo está incorporado ao nosso insconsciente, às nossas fantasias. Falo nossas no sentido de humanidade, mas reconheço que muitas pessoas não querem mudar o mundo. Muitas não querem mudar nada.

Sejam as que querem ou as que não querem, acredito firmemente que ninguém muda o mundo se não buscar primeiramente mudar-se. Mudar os outros é um devaneio quando não se é exemplo da mudança. Só os imaturos e idiotas acreditariam ser possível. Nem os loucos creem nessa possibilidade.

Toda vez que ouço gritos de ódio contra o ódio ou vejo gestos de desrespeito contra os desrespeitosos, brados de intolerância contra os intolerantes e por aí vai, tenho certeza de que é mais um imaturo querendo exigir o que não faz.

Conheço militantes que não vão a lugares simples por medo. Outros que matriculam filhos em escolas que representam exatamente o que dizem “lutar” contra. O mundo nunca deu tanta voz aos idiotas como no nosso tempo. Mas ao mesmo tempo reconheço que muitos deles acabam por melhorarem-se com toda essa articulação. No final das contas, todo esse barulho é um lento processo de auto-aprimoramento.

Amigo e amiga, se você quer mudar o mundo, viva o que exige dos outros. Quer respeito, dê respeito… inclusive a quem pensa diferente. Quer valorização, valorize as pessoas. Não há outro caminho.

Se você não quer mudar o mundo, ótimo. Já é um bom sinal. Porque as pessoas gastam muito tempo e esforço para conseguirem se mudar… melhorarem-se. E pra conseguir isso – a única coisa possível afinal – não perderiam tempo nem energia tentando mudar todos os demais terráqueos.

Os caras que mudaram o mundo começaram por si próprios. Olha a história aí e verá que isso é bastante claro. E os que tentaram exigir dos outros mais do que o possível (ou do que o aceitável) transformaram tudo num inferno. A cada um de nós é reservado o direito de ser o que quiser, desde que não interfira no querer ser alheio.

“Seja a mudança que quer ver no mundo” disse A Grande Alma Gandhi.

Por que a democracia?!

Você já se perguntou por que a democracia é um ideal ocidental extremamente cultuado?!

Sabemos que é um sistema criado pelos gregos. Dos mais notáveis filósofos gregos, Platão dizia que a democracia não era o sistema ideal. Seria, para ele, um sistema onde notáveis governassem, algo como uma tecnocracia.

Por milhares de anos o ser humano foi governado por quem atingia o poder através da força ou da herança da força. A democracia representou a primeira alternativa ao uso da força, onde a vontade da maioria deveria prevalecer. Se você tem uma maioria de jovens, a sociedade será regida pela vontade dos jovens?! Se você tem uma maioria de crentes num determinado credo, a sociedade será regida por este credo?! Bem, neste casos se entendeu que não deve ser a vontade direta da maioria que determina o que deve ou não ser implementado, mas sim uma vontade representativa, com princípios acima desta vontade. Quem dita tais princípios?! Pois bem…

Se a democracia não consegue entregar o básico que promete e aquilo que é precipuamente dever do Estado, como segurança e justiça, por que a mantemos como ideal?

Primeiro, porque ela é a primeira e única alternativa ao uso da força, como referido. Ela é a primeira alternativa de sistema de governo onde a disputa pelo poder estabeleceu regras que permitem o acesso de todos ao poder. Em tese, claro.

Segundo porque o ser humano precisa de ideais e a democracia é um ideal (como o Socialismo, como o reino de Deus, etc.). Uma sociedade sem ideais (e sem ídolos) cria ideais frágeis e eventualmente deturpados. É um desejo insconsciente por algo maior (e melhor) que a própria vontade consciente.

Terceiro, porque a democracia dá voz a quem sabe usá-la. A classe intelectual (e cultural) é ativa e poderosa no regime democrático. Essa classe forma a cultura que, em última esfera, é o que mantém a sociedade. Cultura aqui não apenas no sentido de produção de obras artísticas, mas no lato sensu.

A democracia é o melhor que já tivemos até aqui, mas com certeza está longe de ser o que promete. Veja, por exemplo, a Catalunha. Lá a maioria quer a independência, mas o poder central não autoriza. Há sempre um limite à vontade, seja no plano pessoal ou coletivo. Esse limite, por si, derruba os principais argumentos de defesa da democracia. Acontece que fora a democracia teríamos sempre regimes de imposição (não que ela não o seja) da vontade de quem?!

Toda vez que você defender a democracia lembre-se de que ela não se diferencia do que há ou houve de pior no mundo se não entregar o que promete. O sistema ideal é aquele que realiza o que propõe.

Trânsito

Em 1998 fiz um curso de extensão em direito de trânsito na UFRGS. Um dos meus professores, um PRF, disse textualmente: quando se inicia a ultrapassagem no local permitido e se termina em local proibido, está tudo regular (porque não se pode interromper a ultrapassagem, o que aumentaria o risco da manobra). Eu imediatamente levantei o braço e disse que minha primeira autuação tinha sido exatamente por isso.

Pouco depois ele disse outra: durante a ultrapassagem não se avalia o limite de velocidade (porque quanto mais rápida, mais segura é a manobra). Levantei o braço e, novamente, disse que já tinha sido autuado por isso também. Ambas autuações pela PRF.

Nisso o professor me responde: “mas tu é perigoso, né”!? E eu: “na verdade a PRF é que é mal instruída”.

O trânsito é um reflexo da sociedade. É impossível termos um trânsito seguro e educado praticado por pessoas que são displicentes e ignorantes. Isso vale, como se vê no relato verídico, para todos os operadores e usuários do sistema.

Até hoje me questiono por que as autoridades de trânsito permitem que motocicletas circulem entre veículos, desrespeitando as faixas das respectivas pistas e a distância mínima entre veículos. Presumo que seja porque, no Brasil, a lei não basta. É preciso sempre alguém que solicite/determine seja a lei cumprida. E olha que cerca de 2/3 das vítimas estão em motocicletas!

Aqui em Capão da Canoa, onde moro, o trânsito é caótico. Não pela demanda, como nas grandes cidades, mas pelo total desrespeito à sinalização e à lei. A começar porque se estaciona no bordo esquerdo da principal avenida da cidade sem que haja sinalização autorizando. Como não há autorização da sinalização, vale a lei que impede se estacione na faixa esquerda de avenidas (seria como estacionar no bordo da faixa da esquerda da Av. Ipiranga, em Porto Alegre). Vejamos que também aqui é a autoridade de trânsito que não está agindo de acordo com a lei. É possível dar certo algo se o responsável por fazer dar certo não faz o certo?!

Adoro história e geografia. Adoro física, nem tanto química. Mas muito mais importante do que aprendermos isso é aprendermos a viver nossa vida. Escolas deviam curricularmente nos ensinar sobre nossas condições de vida. Nos ensinar devidamente sobre alimentação, circulação em cidades, atitudes de respeito social e pessoal, separação de lixo, uso consciente de recursos públicos e privados, e também comportamento e cumprimento de regras de trânsito.

Perdemos mais de quarenta mil vidas todos os anos em nossas estradas. A imensa maioria resultado de irresponsabilidades, às vezes por negligência, outras por imprudência. E aí incluem-se as estatais também. Por que isso não é enfrentado?! Porque acreditamos que estamos isentos e protegidos. A dor alheia ainda não nos tocou.

O trânsito é o reflexo mais preciso de uma sociedade. Olhe para o da sua cidade e responda: você realmente acha que o problema do Brasil são apenas seus governantes?!

Teses x Realidade

A República é um sistema que, em tese, melhoraria em muito o que se via na Monarquia. Isso desde a Roma e a Grécia antigas. Dom Pedro II assumiu o poder em 1840 com 92% dos brasileiros analfabetos. Deixou o governo em 1889 com 56%. Nunca teve escravos. Aliás, um dos principais motivos para a aristocracia brasileira ter tramado a sua deposição foi justamente porque a família real tinha posição claramente abolicionista e investia nisso. O Brasil, nesse época, era a quarta economia do mundo, com crescimento médio de 8% ao ano e inflação inferior a 2%. Fomos o segundo país do mundo a dispor de educação para surdos e cegos. E a imprensa podia livremente se manifestar contra o regime e a coroa (e o fazia com muita voracidade, mesmo porque os intelectuais sempre se caracterizaram por viver de reclamar da realidade e buscar reformá-la para implantar suas teses). Ao final do ano, era comum a coroa devolver dinheiro aos cofres públicos daquilo que sobrava do seu orçamento, sendo que boa parte já havia sido doado ou investido em causas sociais.

Um mundo sem armas é, em tese, melhor que um mundo de pessoas armadas. Mas a Terra é um planeta com gente de valores muito distintos, não apenas pelas diferenças culturais, mas por toda a complexidade que forma a personalidade humana e, por consequência, as sociedades. Os pacíficos não precisam de armas para resolver disputas entre si, mas o mundo não é composto apenas por eles. Em alguns lugares, temos de admitir, muitas pessoas buscam se impor às demais por meios ilegítimos. Num mundo ideal, de pessoas já amadurecidas, esta tese poderia se tornar uma realidade. Não vivemos nesse mundo. Há países extremamente armados, como o Canadá e a Suíça, que são pacíficos e seguros.

Uma sociedade sem disputas religiosas e ideológicas, onde todos concordassem com rumos sociais e existenciais padronizados seria mais coesa e feliz, em tese. Acontece que, sabemos e já dissemos, o ser humano é complexo e há muita diversidade naquilo que forma uma pessoa e uma sociedade. É impossível pensarmos numa sociedade 100% coesa em ideais num sistema onde a manifestação seja livre.

As drogas são maléficas à saúde e comprometem a qualidade de vida daqueles que se deixam dominar. São, provavelmente, o maior objeto de repressão estatal no mundo. Em tese, uma sociedade sem drogas seria mais saudável e segura. Portugal liberou todas as drogas dentro de uma certa quantidade e desfruta de um dos melhores índices de criminalidade da Europa.

O amor nas relações produz, em tese, pessoas mais seguras, amáveis e maduras. Mas vivemos numa sociedade hedonista e egoísta, mesmo já estando há gerações sob uma nova visão da estrutura familiar em que os pares se formam por interesse recíproco e não por imposição dos pais (ou qualquer outro). Em tese, deixar que as pessoas escolham seus parceiros criaria núcleos familiares mais felizes, mas nossa era é conhecida como a primeira em que a depressão se tornou epidêmica.

A vida não é feita de teses, em que pese seja indispensável pensarmos a respeito dela para construirmos nossos caminhos.

O ser humano, contudo, precisa dispor de mais humildade em reconhecer aquilo que não está funcionando e mudar. Simples assim.

Em tese a vida é fácil. Ou é difícil. Mas na prática é bem diferente.

Cristo(s)

José Saramago, ateu, escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, livro que lhe alçou ao Nobel de literatura. Nessa obra, um ateu apresenta a sua visão sobre Cristo, onde o Filho do Homem é tratado como um personagem histórico e humano, sem os adjetivos que costumeiramente lhe são atribuídos. Saramago é português e precisava ter extremo cuidado para dar a sua narrativa uma visão que pretendia “humanizar” Jesus sem desrespeitar a fé do seu povo. Conseguiu. A obra é espetacular.

Jesus não é o mesmo personagem divino para Judeus e Muçulmanos. Nestas outras religiões monoteístas, Jesus é um profeta, não o Deus vivo. Essa diferença, provavelmente, é o que faz com que cada uma das crenças se mantenha distinta.

Há um Jesus menos estudado pela maioria das pessoas, um Jesus mais místico, que teria sido casado com Maria de Magdala (Madalena) e com ela teria tido uma filha. Esse Jesus ainda é tratado como um messias e um iluminado, mas menos divino do que a visão católica. Podemos ver essa abordagem no filme (e livro) “O Código Da Vinci”, que é um romance baseado em obras místicas muito antigas e, hoje, retomadas ao debate graças aos Manuscritos do Mar Morto.

Há outro Jesus (e creio que surpreenderei alguns) que é a reencarnação de Buda e Krishna. Ele é tratado na obra “O Redentor”, de Chico Xavier.

Jesus é muito mais do que a Igreja Católica Apostólica Romana pretende e essas abordagens referidas demonstram isso. Mas nenhuma dessas abordagens o desrespeita.

Acho o ateísmo uma soberba, uma imaturidade. Contudo, jamais acharei o ateu uma pessoa menor do que o crente. Todos nós temos aspectos do nosso ser mais ou menos preparados, melhor ou pior desenvolvidos. Digo isso para, primeiro, afirmar que entendo porque alguns não creem em Deus e, segundo, porque acho que isso é aceitável (embora não seja bom). Isso não me dá o direito de debochar, nem ironizar, especialmente de forma pública quem assim pensa.

Numa época em que se brada tanto por aceitação, a melhor forma de aceitarmos o novo é reconhecermos que nem tudo é tão novo, nem tudo é tão velho. As visões de mundo e as reflexões sobre o mundo estão aí há milênios. A cultura humana não chegou até aqui por acaso. O que há de nos diferenciar não são nossas bandeiras, que nos apartam apenas por aspectos externos, mas sim nossas atitudes.

Há muitas visões de Cristo na história e, entre determinados grupos, cada uma delas é debatida e elaborada. Todas são visões de aprofundamento e, de algum maneira, veneração. Os católicos se autodenominam os detentores da verdade sobre Jesus e, para impor sua versão, já fizeram de tudo, desde as Cruzadas à Inquisição. Não o são. Mas isso não faz deles rivais dos demais. Faz deles apenas diferentes. Respeito seu ponto de vista, mas não as suas atitudes de impô-lo no passado.

O que não se compreende é a necessidade dos que não acreditam em Jesus ficarem repetitivamente buscando ofendê-lo e/ou ofender a crença dos que acreditam. É essa a “tolerância” dos nossos dias?! É isso o melhor que se consegue oferecer de oposição ao conservadorismo!?

Jesus é o maior personagem da história humana. Toda menção a ele deve ser feita considerando isso.

 

Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

Discurso de Formatura FACSUL/Unitins 2010

Em 2010 fui agraciado com o convite para ser paraninfo da Turma de Fundamentos Jurídicos do centro EAD Facsul, vinculado à Unitins. Eis…

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Excelentíssimos integrantes da mesa, especialmente Sra. Núbia Peixoto, representante do Magnífico Reitor… Sra. Medianeira Sutel, Sra. Silvana Santos e Sra. Valéria Monteiro, paraninfas homenageadas… Sra. Rute Fávero, Sr. Antônio Prestes e Sra. Audrew Tatiani, patronos das turmas… Meu grande e querido amigo Marco Antônio Oliveira, aos parentes e amigos presentes e, especialmente, aos meus amigos e amigas formandos.

Muito boa noite!

É para vocês que quero dizer algumas palavras, queridos!

Lembro com muito carinho de quando nos conhecemos, na Turma de Fundamentos Jurídicos, às quartas-feiras à noite. Desde o início sempre admirei vocês por estarem ali, buscando melhorar, lapidando esse presente divino que é nossa capacidade. Sempre os vi como exemplo gratificante de esforço – embora vocês pudessem ter tido um pouco mais de esforço, como sempre se pode. Era um momento da minha vida em que enfrentei severas dificuldades e tanto a Facsul como este grupo serviram-me de alegre intervalo entre as minhas batalhas.

Muito obrigado!

Estudar é algo mágico!

Nenhuma pessoa entra numa academia e sai do mesmo jeito. Lembro que “academia” é uma palavra de origem grega, que servia para referir a escola criada por Platão para ensinar filosofia aos seus alunos. Platão, se me permitem o breve comentário, foi muito mais do que um filósofo. Ensinou, por exemplo, Aristóteles, que ensinou Alexandre o Grande, que dominou o mundo. Ensinou a tantos, que ensinaram os essênios, que ensinaram Jesus, que mudou o mundo.

Ele trouxe reflexões profundas sobre o se portar, o conviver, como ser uma pessoa melhor… pois isso tudo é a chave da felicidade!

Vejam, o estudo é uma das melhores ferramentas para sermos felizes de verdade! E todos sabemos ou precisamos saber que nosso objetivo de vida é a felicidade!

Não se estuda para ganhar uma promoção. Não se estuda para pendurar um diploma na parede. Não se estuda por estudar. Isso tudo não é estudar!

Estudar é refletir e pôr em prática. Estudar é ver a prática e refletir… e voltar para pôr em prática algo melhor. Como vocês podem perceber, isso é algo que não tem fim… e, como já falei, isso é mágico.
A vida tem muitos mistérios. E ela é muito mais rica para aqueles que são mais perspicazes e atentos. Quanto mais atenção dermos às coisas da vida, mais veremos a sua riqueza. Não a riqueza das jóias, dos eletrônicos, das grandes construções – que são boas riquezas. Falo da riqueza maior, a de sentir a vida!

A vida é mágica porque existem certezas que precisamos nos lembrar e isso não é um problema. Vejam:

Sofreremos! Cedo ou tarde.

Perderemos! Muitas vezes.

Erraremos! E pedir desculpas é o mínimo.

Sentiremos raiva… e precisamos aprender a nos achar para, nestes momentos, não nos perdermos.

Sentiremos culpa… e precisamos aprender a nos desculpar para não morrermos cedo demais.

Nós morreremos e, pior que isso… quem nós amamos morrerá… e precisamos aprender a viver e amar enquanto podemos!

Vejam quantas coisas doloridas referi! E ainda assim temos todas as condições de sermos felizes! É só APRENDERMOS. Essa é uma das mágicas dualidades da vida: a certeza de que passaremos por momentos difíceis e, ainda assim, a certeza de que passaremos por momentos felizes. Os momentos felizes são os que dependem de nós, virão apenas se nos esforçamos.

Aprender é a chave! E aprender é algo absolutamente pessoal. Não se transfere, não se doa, não se herda educação. Ou se esforça em tê-la e em vivê-la, ou não se a conhece.

Por isso o orgulho de vocês! Quem busca a educação diante das dificuldades que são naturais em tê-la, está, na prática, tentando ser feliz! É um atestado que diz mais ou menos assim: “atesto para os devidos fins que eu quero algo melhor para mim”.

Vocês estão atestando isso hoje! Por isso estamos todos nós aqui felizes! Viram como o estudo é mágico!

Para quem vai trabalhar com o Direito, seja como operador, como servidor, como policial, como assessor… afirmo: vocês terão muito trabalho pela frente. O Direito tem essa imagem romântica de que serve para regular a vida das pessoas… e é uma imagem parcialmente equivocada, pois quem regula a vida das pessoas é a educação e o livre-arbítrio de cada um. O Direito apenas nos diz o que o Estado – o centralizador das ideias gerais – quer de cada um de nós.

No nosso sistema, muitas vezes torna-se irrelevante o que está na lei: o Direito que se aplica a cada uma das relações do dia-a-dia é o que escolhemos praticar; o Direito que se aplica a cada uma das pessoas que procura o Poder Judiciário é aquele que o Juiz decreta. Viram, nem uma, nem outra alternativa depende exclusivamente da lei… Por isso a importante habilidade de se construir um bom processo, de se formar uma boa base de fundamentos e de se relacionar e se expressar bem. E isso vem, novamente, através do estudo!

Quanto mais elaborada for a função de vocês, quanto mais velhos vocês se tornarem, quanto mais responsabilidades a vida lhes trouxer, mais chances de errar, de perder, de sofrer vocês terão… porque também terão mais chances de vencer, de acertar, de alegrar. Isso é bom demais! Quando vocês superarem essas dificuldades, mesmo sem platéia, mesmo sem recompensa, mesmo sem manchete… vocês se sentirão como Alexandre o Grande… vocês conquistarão o mundo.

Não fujam das grandes responsabilidades, das árduas dificuldades, das dolorosas conversas, do perigoso enfrentamento… Fugir disso é fugir da chance de serem realmente felizes!

Como disse o ex-astronauta Neil Armstrong ao pisar na lua: “esse é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Cada vez que um de nós vencer, a humanidade venceu. Hoje nós todos somos vencedores porque vocês venceram!

Começo a terminar meu discurso aqui, agora, com alguns lembretes:

(1) Não é à toa que os vencedores dizem que precisamos acreditar nos nossos sonhos! Não é à toa.

(2) Tudo que existe no mundo foi criado por alguma mente. Tudo é projeto mental… Tudo que está no mundo material, um dia esteve na idéia de alguém, seja na de um ser humano, seja na de um ser divino.

(3) É muito difícil encontrarmos equilíbrio e felicidade sem quatro grandes pilares: família harmoniosa, corpo saudável, mente rica e alma iluminada. Não esqueçam da alma… é o que tem faltado no mundo de hoje!

(4) Filho de peixe é peixe. Filho de águia é águia. Filho de leão é leão… lembrem-se sempre que somos filhos de Deus.

Que Ele abençoe e ilumine a cada um de vocês! Muito obrigado por esta honra inesquecível que vocês me deram. Boa noite!

Ponto de Vista

Ponto um: eu me cansei de ser genericamente chamado de machista, racista, homofóbico e explorador por ser homem, branco, hétero e empresário. Já faz uns três ou quatro anos que estou farto disso e, para não começar a odiar quem vive repetindo esse discurso pobre e triste, me desliguei.

Ponto dois: é por sentir isso que me compadeço com o que passam os gays, os negros, as mulheres vítimas de seus companheiros e todas as demais pessoas que são desrespeitadas por este ou aquele agressor. É sempre importante reconhecermos que existem sim problemas graves de desrespeito e intolerância. Contudo temos de reconhecer também que a forma de se lidar com tais problemas tem sido muitas vezes retribuir a agressão com outro tipo de agressão, a discriminação com outro tipo de discriminação, a violência com outra forma de violência e o desrespeito com um revide de desrespeitos.

Ponto três: sabendo disso, temos de parar de criar divisões e impor condutas. As pessoas têm todo o direito de serem diferentes e de pensar diferente. Elas têm até mesmo o direito de odiar… desde que se mantenham contidas nessa postura. Chega de ficarmos criticando quem quer mudar ou quem quer continuar sendo como sempre foi.

Ponto quatro: numa época de superexposição, parece importante expor tudo o que somos e pensamos. Nem tudo precisa ser exposto, principalmente aquilo que não vai colaborar, que vai apenas extravasar algo que é nosso e não precisa ser compartilhado. Guarde seu ódio e o leve para seu terapeuta. Trate sua raiva ou sua frustração, seja a de ser hétero, de ser homo, de ser burro, de ser corno, a que for. Tudo tem meios de ser melhorado com a conduta adequada.