Ideologia ou Corporativismo?

Não gosto da palavra ideologia para se referir a um conjunto de ideias políticos-ideológicas-sociais. Deveria ser filosofia, pronto. Como são as demais proposições filosóficas. Contudo, é palavra corrente e dela nos valemos.

O mundo é regido por valores pessoais que desenvolvem ideias. As ideias podem alterar tais valores, mas elas são posteriores a eles e dependem, para alterá-los, de pessoas mais amadurecidas. Então como regra as ideias representam os valores dos agentes que as produzem.

Quando comparamos, por exemplo, a ideologia fascista com nosso tempo a vemos como um flagrante absurdo: raça superior, intolerância às deficiências, estratificação social forçada e por aí vai. Não parece evidente que são valores transformados em ideias?!

Mesmo no marxismo que com todos os seus erros e acertos é uma ideologia mais útil, se vê a elaboração (complexa e bem fundamentada) dos valores de um homem materialista, que não conseguiu jamais cultivar boas relações familiares e viveu exclusivamente de propor ideias, jamais de exercê-las.

Vejam: as ideologias (como as religiões) são fruto dos valores das pessoas que as criam e com elas se identificam. Por isso, costumam ter os limites pessoais dos agentes envolvidos. Não raro, há mesmo um distanciamento entre o que o seu criador propôs e o que seus seguidores vivem (vide o cristianismo), justamente porque os limites e os valores pessoais envolvidos são lentes que distorcem o debate.

Num mundo institucionalizado como o nosso fica cada vez mais claro que as afinidades ideológicas dizem mais respeito às corporações a que estamos integrados do que aos ideais de transformação pessoal ou social. Na verdade, poucos dos “soldados da guerra ideológica” são mais do que meros soldados. A maioria é reprodutor, com maior ou menor complexidade de ideias, de uma defesa dos seus interesses pessoais. A guerra ideológica do nosso tempo seria menor se fizessem terapia, se as pessoas e as corporações buscassem melhorarem-se antes de exigirem que o mundo e os outros melhorem.

Knock down no governo?

É no momento de crise que se percebe como as pessoas realmente são. Nós, adultos, sabemos disso e, quanto mais velhos ficamos, mais claro é.

O governo Lula enfrentou uma pandemia que nosso Presidente, à época, chamou de “gripezinha”. Hoje Bolsonaro insiste em minimizar a covid. Isso tem um motivo evidente, que está muito além do sempre trazido debate ideológico: governantes detestam crises. Crises instabilizam e, como dito na primeira linha, escancaram quem realmente é competente ou incompetente, bom ou ruim. Há um ditado na política americana: “nunca deixe de aproveitar uma crise”, querendo incitar a oposição.

O governo Bolsonaro enfrenta, neste momento de pandemia, o ápice dos seus enfrentamentos, que nunca foram poucos. Quando Bolsonaro ganhou a eleição de 2018, ousei prever que não ficaria no governo mais de dois anos. Seria impedido, na minha previsão, porque afrontaria uma mentalidade já integrada ao cotidiano nacional, de origem nos dogmas e nas cartilhas marxistas que, infelizmente, permeiam nossa esquerda. Poderíamos ter uma esquerda social-democrata ou progressista, mas não… temos uma esquerda eminentemente marxista (principalmente nos dogmas econômicos), enfim, tema para outro debate. Minha reflexão naquela época é que o enfrentamento dos ideais liberais contra os marxistas geraria a crise política que afastaria Bolsonaro.

Errei feio. Em que pese a resistência ativa dos sindicatos, partidos políticos, setores de mídia e sociais vinculados à esquerda marxista, em 2019 se conseguiu manter uma pauta ativa de revisões e reformas tão importantes. Boa parte da população não apenas aceitou essa pauta, mas pediu e se mobilizou para defendê-la. Ainda é cedo, mas percebe-se que muitos já têm consciência da necessidade de avançarmos e deixarmos o debate ideológico deste nível para outro tempo ou lugar, quem sabe nas aulas de filosofia da USP.

Errei feio não apenas nisso. Não considerei a hipótese de o próprio Presidente ser o criador ou, na melhor das hipóteses, o fomentador da matéria prima que geraria a crise que o derrubaria.

Bolsonaro acertou em quase todas as suas nomeações porque tem boa relação pessoal com diversos setores, mas tudo que depende da política partidária e do jogo que a envolve deixa a desejar, pelo simples fato de que, nesse aspecto, ele próprio deixa a desejar. Bolsonaro tem – não é possível seja acaso – um déficit de respeito às instituições e, sem isso, não há como ser um bom enxadrista neste tabuleiro.

Essa debilidade pessoal do Presidente é evidente. Ele é autoritário e seus seguidores fiéis também o são (como era Lula e os seus. Lembre-se que Lula tentou amordaçar a imprensa, o Ministério Público, desarmou a população afrontando um plebiscito, dentre centenas de outras mudanças que nos trouxeram onde estamos. Brasileiros adoram autocratas). A sua falta de valorização das instituições trouxe este grave momento de embate pessoal contra um herói nacional que, por sua vez, foi no mínimo deselegante no desembarque do governo. Nada disso é por acaso. Ambientes interferem nas pessoas e pessoas interferem no seu ambiente.

Então respondo ao título: sim. O governo tomou um knock down. Bolsonaro vai ter de demonstrar que não quis intervir na Polícia Federal para ajudar os seus. Vai ter de enfrentar mais uma vez os interesses políticos de lados extremamente opostos. Vai ter de ceder para conquistar. Vai ter de aceitar o trilho já construído para conduzir sua locomotiva, até que tenha condição de construir seus próprios trilhos, se é que terá. Dito de outra forma: vai ter de ser mais do que o básico se quiser cumprir o que prometeu e o que se espera de um Presidente.

Conseguirá!?

Punir educa

Nenhuma pessoa sã conectada com o Século XXI tem dúvida de que é a educação a responsável pela evolução, pacificação e realização da humanidade. Na verdade o que se debate é o que constitui educação, do que é feita, como torná-la eficaz.

Apenas no século passado a educação tornou-se pública e instituída como direito fundamental e, decorrente disso, a estrutura estatal dos diversos países, cada um a sua maneira, passou a proporcioná-la. Antes disso, educar era um privilégio.

Educadores do Século XX identificaram o vínculo necessário entre educação e afeto, estabelecendo bases pedagógicas hoje consagradas. Segundo acreditamos, educar imprescinde de vínculos entre educador e educandos, principalmente na primeira infância, seja na educação formal ou informal.

Nos últimos anos, contudo, mistificou-se o papel da educação, dando ao professor um caráter quase mágico de transformar a humanidade. É verdade… a disseminação da educação mudou o mundo em pouco tempo, de uma forma que jamais vimos, alterando bases sociais, políticas, científicas e individuais. Contudo não cabe ao professor estabelecer valores que não são replicados em casa, na família. São pais e mães – ou aqueles que desempenham este papel – os primeiros e principais educadores do ser humano, os responsáveis por transmitir os valores interiorizados de respeito, tolerância, pacificidade, coragem, determinação e todos mais necessários a uma vida plena e socialmente comprometida. A gente que recebe educação formal plena mas carece de educação familiar sobre valores é essa que usa toda uma gama de conhecimentos para subtrair os resultados do esforço alheio, às vezes à custa de outras vidas inclusive.

Como escrito acima, nos últimos anos fomos seduzidos por teorias que transferiram da família para o (Estado) educador a responsabilidade de educar, e isso simplesmente é ridículo. O educador (Estado) participa sim da educação de forma fundamental, mas os valores necessário para se usufruir devidamente da educação formal são precedidos de um esforço familiar cada vez menos presente.

Outra ideia errônea decorrente desta visão retirou dos jovens o dever de trabalho, assunto para outro momento, bem como a possibilidade de sofrer punição. Claro que não estamos falando de palmatórias, de castigos físicos ou qualquer outra violência. Punir virou estigma, palavrão. E, por mais que doa a quem discorda, punir educa e é indispensável, principalmente na educação com afeto, pois uma pessoa que ama punindo outra amada que agiu muito mal está sim cuidando, fortalecendo e prevenindo.

Aqui o papel do Estado na educação ultrapassa os limites do que hoje está estabelecido, ao menos em nosso país. A impunidade deseducou nossa gente e o retorno das punições estatais devidamente medidas e processadas irá nos curar dessa absurda e gigantesca crise de valores que nos torna um dos países mais violentos e menos educados da Terra.

A mais-valia brazuca

Marx chama de mais-valia aquilo que a foça de trabalho produz e não é remunerado pelo burguês (patrão). O brasileiro médio, seja ele operário, servidor, patrão, autônomo, agricultor ou qualquer outro que ofereça a sua força de trabalho, um serviço ou produto, desvirtuou o conceito marxista e estabeleceu uma nova forma de remunerar-se, um verdadeiro ágio que nos atinge de diversas formas.

Veja o vendedor de veículos, por exemplo. Ele não é remunerado apenas pela atividade de compra e venda de veículos. Ele ganha (e muito bem) a cada financiamento que realiza, pois a financeira o remunera por isso. Quem paga?

E a administradora de condomínio… ela cobra uma taxa dos seus serviços, mas costuma ganhar por cada contratação de prestadores para o condomínio. Quem paga?

Veja os serviços públicos. Educação, saúde e segurança, que são aqueles indispensáveis, acabam por ser uma parcela menor dos gastos orçamentários estatais. Para manter o sistema, pagamos altos salários a auditores, magistrados, procuradores, diretores, consultores, governantes, legisladores, etc. Quem paga?

Vá no banco pedir um empréstimo e um seguro ou título de capitalização lhe será empurrado através de venda casada (proibida por lei). Isso que nossas taxas de juros são as maiores do mundo.

Quase tudo em nosso país poderia ser mais barato se custasse apenas o que se quer. Quase sempre pagamos por algo mais, que não temos a oportunidade de dispensar.

Quem estuda em universidades públicas, às vezes com doutorados e bolsas de pesquisas com verbas estatais, costuma buscar grandes cargos em postos de alta remuneração. Legítimo. Mas como retribuir ao seu país o que todos pagaram para que fosse conquistado? Quem pagou? Quem se beneficiará?

O Brasil é um país rico e seria seu povo igualmente rico se tivéssemos construído uma escala de valores menos egoísta, menos avarenta, mais humana, ética e altruísta. Mas chegaremos lá, pois não há ignorância que dure para sempre.

A verdadeira ordem no Estado

As nações européias decorrem do absolutismo e de diferentes tipos de aristocracias monarquistas. Até hoje a maioria dos países europeus possui família real. Talvez resulte desta origem, que personificava o Estado em um dono que sobre todos os súditos reinava, a ideia de que o Estado é mais que a sociedade que o compõe e sobre ela reina.

Norte-americanos, sob influência iluminista francesa, sempre viram o Estado e o poder estatal como algo que emana no povo, não do governo. Para eles o Estado é um servidor da sociedade e deve estar, no máximo, submetido à vontade popular.

Estas duas diferenças sobre a relação entre Estado e sociedade também refletem-se em outros valores, como a liberdade, a auto-determinação, a utilização dos bens públicos e os limites dos representantes da autoridade estatal.

Aqui no Brasil nossa estrututa estatal sempre foi mais européia que norte-americana. Nosso ordenamento jurídico é influenciado pelo direito romano e alemão, povos estes imperialistas ao seu tempo e ligados a uma visão personificada da autoridade do Estado. Talvez seja por esta origem constitutiva que nos submetamos tanto às determinações autoritárias e tenhamos a tendência de tratar autoridades estatais com mais deferência que a devida efetividade do cargo. Veja por exemplo o valor (estatal) que se dá a um auditor fiscal, um conselheiro de contas ou magistrado, a um diretor de departamento de fiscalização se compararmos a um diretor de escola, um delegado de polícia, um diretor de hospital (público). Há diversas razões para isso, das quais aponto as mais evidentes: (a) historicamente concedemos cargos aos filhos da elite que são muito bem remunerados e não exigem tanto comprometimento com resultados ou com o atendimento direto das demandas mais comuns da população; (b) os cargos mais bem remunerados (inclusive o principal, que serve de referência remuneratória a todos os demais – Ministro do STF) são burocráticos, não administrativos, acessíveis por concurso e não por escolha popular. Sua atividade não é medida por critérios de resultado; (c) nestas carreiras não há ingresso por cargos menores, que se elevam por meio de promoções dentro da estrutura, por mérito e resultado. Um juiz não se torna juiz depois de ter sido técnico judiciário, analista judiciário e secretário de magistrado. Ele já começa sua carreira como juiz. Um coronel da PM não começa como soldado. Um delegado não precisa começar como inspetor de polícia; (d) estas carreiras costumam gozar de benefícios e média salarial muito acima da média dos demais servidores públicos.

Se analisarmos adequadamente, não é difícil perceber que diversas carreiras do topo salarial de servidores não pertencem aos serviços essenciais prestados pelo Estado: saúde, educação e segurança. São cargos burocráticos, que vão se tornando valorizados quanto mais burocrática for a constituição administrativa. E mesmo dentro deste sistema irracional, os cargos de primeiro escalão chegam a dispor de remuneração até dez vezes superior aos colegas de hierarquia menor, em funções igualmente importantes, hierarquicamente menos privilegiados e dos quais não ascenderão ao topo do sistema por melhor que seja seu conhecimento, desempenho e mérito.

O Estado que tem chance de dar certo é o que diminuir estas diferenças absurdas entre colegas que trabalham no mesmo corpo estatal. É o que pagar bem à base da pirâmide, sem enriquecer ninguém. É o que dar mais poder e valor às funções efetivamente mais importantes aos interesses sociais e não a corpos elitistas que enriquecem em cargos pomposos e menos úteis. O Estado deveria ter áreas de interesse cujo ingresso se daria por concurso na base da carreira e acenderiam todos com base no tempo, mérito, desempenho e conhecimento, sem a possibilidade de se pular cargos da base para se atingir os de liderança e mais bem remunerados.

A verdadeira ordem do Estado deveria ser atender à sociedade ao invés de a sociedade atender às demandas do Estado para sustentar sua aristocracia..

 

 

Vamos errar os mesmos erros?

Direita contra Esquerda é um assunto que quase abomino. Não é que não identifique as diferenças ideológicas, históricas, filosóficas. É que o debate ideológico ao redor desse tema é parcial, apaixonado, quase juvenil. É válido questionar se o Estado deve ou não agir de certa forma, se ele é mais importante que a Sociedade que o compõe, se a liberdade individual é alicerce social ou egoísmo. O debate é válido. O que não é válido é transforar isso em pauta existencial, muito menos em pauta governamental e estatal.

Saímos de um período tirano de governos marxistas na América Latina. Alguns ainda lutam por esta libertação ideológica, mas principalmente social e moral. Neste período criamos ícones de veneração como Lula, como Chaves, como Boff e tantos outros. Pessoas que vivem num mundo absurdamente irreal. São lunáticos e penso devam ser lunáticos igualmente os que os seguem.

Agora alternamos o viés governamental e, pela primeira vez em décadas, temos um governo dito “de direita”, com viés econômico liberal (como têm sido o trato da direita ocidental). Será que vamos novamente idolatrar ícones, ao invés de debatermos ideias?! Será que vamos novamente cair na armadilha do populismo demagógico que torce por um lado contra o outro, ao invés de construir algo para todos?!

Olavo de Carvalho não pode ser tornar referência de um governo, por favor. É, mutatis mutandis, como Boff ou José Dirceu foram. Um país precisa de debates, de construções, de integração, de personalização, de elaboração. Não podemos continuar cavando uma trincheira ideológica entre as pessoas, porque ninguém neste planeta pensa 100% igual a outro, nem mesmo pai e filho, nem mesmo gêmeos. Não se vislumbra sucesso em qualquer Estado que não valoriza a diferença e a liberdade, mesmo porque a liberdade gera naturalmente a diferença e é esta característica que comprova a sua existência.

Tenho comigo que as mudanças sempre graduam-se de acordo com os valores dos envolvidos. Mudam os valores, ocorrem mudanças. Mantem-se os valores, mudam apenas os atores, quando muito. Esperamos todos que nossa mudança seja efetivamente de valores.

Por que desarmar deu errado?!

Sou completamente contra o Estado impedir as pessoas de beber (certa quantidade) e dirigir. Pronto, falei diretamente isso mas não vou discorrer sobre esse assunto agora. Falei isso pra dizer que embora eu seja contra esse ideal, sou OBRIGADO a admitir que esta mudança de postura legal e social surtiu efeitos positivos. Temos um trânsito muito melhor do que há quinze anos, resultado desta e outras mudanças da última década.

Usando o mesmo modelo de raciocínio, me pergunto o que melhorou com o Estatuto do Desarmamento que já completou quinze anos?! Melhorou qualquer índice de violência no período?! Suicídios diminuíram?! Violência entre vizinhos?! O tráfico?! Pior: diminuiu a violência doméstica?!

Vejamos que já há tempo suficiente de imposição legal para analisarmos os efeitos sociais desta medida. Ela deu errado em todos os sentidos. Todos.

Há um motivo primário para ter dado errado: ela se fundamentou em premissas falsas, que ainda são usadas para defender a ideia falsa que a sustentava.

A arma não é responsável por nada. As pessoas são o problema (penso seja óbvio e todos concordemos!).

Quando você entende (por idealismo) que o Estado deve dispor da exclusividade no uso de armas, você está dizendo que as pessoas do corpo estatal (policiais) são mais confiáveis que a sociedade. É um silogismo. Pois isso é uma ilusão, quase um absurdo. O policial é um ser humano médio da sociedade como quase todos nós. A capacidade técnica dele no uso da arma é uma das tantas habilidades que precisa para exercer sua função. Esta capacidade técnica pode ser exigida de qualquer pessoa que se preste a dispor de uma arma e é isso que precisamos entender.

Essa primeira premissa (de que o Estado deve dispor do monopólio do armamento) é tirânica. Um gaúcho com mais de trinta anos com certeza viveu numa sociedade muito mais armada… e mais segura!

Essa é a segunda premissa a ser enfrentada. Não há relação efetiva entre a arma legal e a criminalidade. E olha que há quinze anos os problemas de violência doméstica e machismo, alcoolismo, eram muito piores. Muito piores!

O terceiro fator que deu errado é que o Estado não pode proibir algo que ele não pode suprir. Primeiro o Estado precisa garantir sua segurança para depois retirar o seu direito de se defender. (Elementar, mas precisa ser dito).

Como eu disse lá no início, deu errado porque a ideia que sustentava essa medida era falsa. O seu objetivo jamais foi diminuir a criminalidade, mas foi tão somente desarmar as pessoas. E no início até os operadores da Segurança Pública acharam boa a ideia, seja porque parecia que funcionaria, seja porque eles permaneceriam com o monopólio do armamento legal e isso lhes rendeu muito nos serviços extras de segurança privada.

Armas sem critérios dará errado. Já não vivemos mais essa época também. O que precisamos é de regras de posse e uso, seja de armas, seja de qualquer coisa. Nós, sociedade, somos mais importantes que o Estado. E o Estado deve unicamente nos representar, jamais nos sobrepor.

Você percebe o que é real?

Quando você está férias na beira da praia e passa um vendedor de castanhas vindo do Ceará para buscar sustento em terras (areias, no caso) mais agraciadas, você percebe que ali há uma dicotomia existencial entre o mundo virtual e o real?!

Se você for um empregado da iniciativa privada ou um servidor público, esta dicotomia estará ainda mais evidente. Porque você estará gozando de um benefício criado pelo homem artificialmente chamado “férias”.  Veja, “férias” não é algo natural, não é algo que resulte de uma condição própria, pessoal. “Férias” é algo construído pela sociedade onde uns suportam o trabalho necessário para que outros descansem. Só que esse benefício não é geral e proporcional entre todos os que trabalham… quem nos dera. O vendedor de castanhas do Ceará, por exemplo, pode tirar férias quando quiser, mas ninguém vai fazer por ele e, durante seu descanso, sua renda será comprometida.

Com o agricultor é igual. E também com o mecânico, com o pedreiro, com o padeiro, com a diarista, com o professor de tênis que trabalham como autônomos ou pequenos empresários. Veja que para boa parte dos trabalhadores os direitos são relativizados. Há uma relação de causa e efeito mais direta, mais pessoal. Para outros há direitos sustentados pela sociedade ou por seus pares, às vezes pelos dois.

Os direitos de uma maneira geral são construções sociais. São virtuais. Existem porque se convencionou e deixam de existir quando se convencionar. Alguns direitos são coerentes e contemplam a todos. Outros são restritos e acabam se tornando verdadeiros privilégios, como dispor de pensão para filhas solteiras de alguns cargos.

No meu ponto de vista, quanto mais classista um direito, quanto menos pessoas podem dispor dele, mais injusto ele tende a ser. Você pode avaliar se algo é justo quando pode ser oferecido de uma maneira geral. Claro que profissões mais arriscadas, por exemplo, precisam de uma contraprestação que equilibre esse risco. Profissões mais estressantes idem… e por aí vai. As exceções são exceções e assim devem ser. Não podemos é criar realidades virtuais para todas as categorias formais, pois as informais é que terão de suportar seu ônus. Quanto mais distante da realidade um benefício, mais será ele oneroso a quem o sustenta.

Eis o Brasil de hoje! Somos um país cheio de benefícios virtuais que são suportados por pessoas das mais variadas realidades. Optamos há algum tempo em dispormos de um Estado paternalista, que nos cuida como se fôssemos incapazes ou privilegiados, dependendo de como contextualizamos. Como o Estado não é um ser real, também precisa ser sustentado pelos seres reais para existir. Então se imagina que colocando na lei um benefício surgirá do além as forças universais para torná-lo realidade.

Não! Não é assim.

Aos poucos esse mundo virtual distante do real desmorona. E não vai parar de desmoronar enquanto não se aproximar adequadamente da realidade.

Esse processo histórico acontece desde que existe a humanidade. Os privilégios de castas, de raças, de gêneros ou quaisquer outras ficções criadas, tendem a deixar de existir porque quem os sustenta cansa, desiste, perece.

Nosso país é cheio de gente boa e cheio de gente não tão boa. Quem se importa precisa assumir o protagonismo do que lhe compete, sob pena de continuar sendo base de sustentação do insustentável e, assim, manter essa virtualidade. Aprendamos nós todos a viver num mundo o mais real possível.

O que vem primeiro? O que é importante?

Vi reportagem de que em São José dos Campos a Prefeitura está usando alta tecnologia para gerenciar o trânsito da cidade. Lá, motoristas usam aplicativo no celular que informa em tempo real o sistema de controle de trânsito e, através de inteligência artificial, o sistema regula quais sinaleiras devem estar mais tempo abertas e fechadas de acordo com a quantidade de veículos em cada via e sentido.

O sistema controla também os veículos que ficam mais tempo que o permitido nos estacionamentos públicos rotativos. Por certo sabe a velocidade de cada veículo que está conectado.

Outro resultado de tamanha vigilância é que o número de veículos furtados/roubados é o menor em dezesseis anos.

Esse sistema é ótimo para quem não se importa em dividir a sua privacidade.

E quem se importa? Mesmo que por motivos legítimos?

E se esse sistema for usado por governantes ou administradores autoritários e desvirtuados do interesse público?

O debate sobre valores é sempre anterior a qualquer sistema. É impossível um sistema compensar os valores humanos, seja um sistema de controle de trânsito, seja um sistema de gestão pública ou privada, seja um sistema ideológico.

Os valores humanos são o alicerce da sociedade. Quando fragilizamos os valores que nos identificam, quando flexibilizamos nossas regras de respeito e convívio, passamos a ser reféns do sistema, seja ele qual for.

Quando alguém vende a ideia de igualdade precisa tratar todos com igualdade. Quando se vende a ideia de segurança precisa agir de forma segura. Toda ideia que não é valor é método de controle e de desvio.

Não há sistema que compense a falta de valores.

A Lamborghini sem seguro

Você também deve ter visto o vídeo daquela Lamborghini Gallardo Spyder 2009 que se acidentou em Gramado/RS, no final de agosto, deixando duas pessoas feridas. O veículo pertence a uma rede de locação de veículos desta categoria, que aluga a turistas para darem pequenas voltas pela cidade. É um serviço legal, numa cidade muito legal, com carros espetaculares.

No caso desta Lamborghini a mídia avalia em R$ 750 mil o veículo. Sequer consta na tabela FIPE este modelo.

É incrível, mas os veículos disponibilizados por aquela empresa para locação não têm seguro. O fato de não constar na tabela FIPE é parte desse problema.

Seguros em geral são caros no Brasil. Um seguro novo de um Land Rover raramente vai custar menos de R$ 15 mil. Qualquer carro convencional paga acima de R$ 1.500. Isso é caro.

Quase nenhuma seguradora nacional aceita segurar uma Lamborghini que será usada por condutores indeterminados. Essa é a verdade. Entendo a empresa. Mas o empresário do ramo não pode se render ao convencional… precisa encontrar uma maneira de oferecer aos seus clientes uma proteção e principalmente precisa ele próprio se proteger, pois um único sinistro pode comprometer toda a operação. Por sorte não houveram vítimas fatais.

Esse caso espelha uma triste realidade brasileira. Somos muito pouco profissionais em incontáveis atividades, mesmo naquelas que parecem comuns e corriqueiras. Aposto com você, leitor, que boa parte da frota de veículos de transporte de passageiros no Brasil não tem seguro. Os caminhões que transportam nossas mercadorias tampouco. Porque seguro é muito caro. Porque brasileiros desrespeitam muito as normas de trânsito. Porque as seguradoras tem enormes prejuízos neste ramo. É resultado de uma cultura, de uma condição que não está nem perto de ser mudada.

Alinha-se no horizonte a ideia de que o DPVAT – seguro obrigatório de acidentes pessoais para veículos – será substituído por um novo modelo, onde o segurado (proprietário do veículo) poderá optar pela seguradora que quiser. Este modelo tende não apenas a garantir não existam mais acidentes sem cobertura, mas principalmente que os preços se tornem mais justos, porque afinal todos terão de ter seguro e, assim, você não precisará pagar no seu seguro o prêmio (custo) da culpa alheia. Ao menos não da forma como é hoje.

Demoramos tempo demais no Brasil para escolhermos caminhos compatíveis com nossas necessidades. Somos muito conservadores a mudanças estruturais e acabamos por pagar caro demais por tudo ao nosso redor, ainda que não percebamos.

Seguro não é um artigo de luxo. É um serviço indispensável que representa, nos países desenvolvidos, boa parte da poupança interna que permite financiar seu desenvolvimento.

Raios de sol clareiam nosso horizonte e, espero, iluminem nossa mente.