Por que a democracia?!

Você já se perguntou por que a democracia é um ideal ocidental extremamente cultuado?!

Sabemos que é um sistema criado pelos gregos. Dos mais notáveis filósofos gregos, Platão dizia que a democracia não era o sistema ideal. Seria, para ele, um sistema onde notáveis governassem, algo como uma tecnocracia.

Por milhares de anos o ser humano foi governado por quem atingia o poder através da força ou da herança da força. A democracia representou a primeira alternativa ao uso da força, onde a vontade da maioria deveria prevalecer. Se você tem uma maioria de jovens, a sociedade será regida pela vontade dos jovens?! Se você tem uma maioria de crentes num determinado credo, a sociedade será regida por este credo?! Bem, neste casos se entendeu que não deve ser a vontade direta da maioria que determina o que deve ou não ser implementado, mas sim uma vontade representativa, com princípios acima desta vontade. Quem dita tais princípios?! Pois bem…

Se a democracia não consegue entregar o básico que promete e aquilo que é precipuamente dever do Estado, como segurança e justiça, por que a mantemos como ideal?

Primeiro, porque ela é a primeira e única alternativa ao uso da força, como referido. Ela é a primeira alternativa de sistema de governo onde a disputa pelo poder estabeleceu regras que permitem o acesso de todos ao poder. Em tese, claro.

Segundo porque o ser humano precisa de ideais e a democracia é um ideal (como o Socialismo, como o reino de Deus, etc.). Uma sociedade sem ideais (e sem ídolos) cria ideais frágeis e eventualmente deturpados. É um desejo insconsciente por algo maior (e melhor) que a própria vontade consciente.

Terceiro, porque a democracia dá voz a quem sabe usá-la. A classe intelectual (e cultural) é ativa e poderosa no regime democrático. Essa classe forma a cultura que, em última esfera, é o que mantém a sociedade. Cultura aqui não apenas no sentido de produção de obras artísticas, mas no lato sensu.

A democracia é o melhor que já tivemos até aqui, mas com certeza está longe de ser o que promete. Veja, por exemplo, a Catalunha. Lá a maioria quer a independência, mas o poder central não autoriza. Há sempre um limite à vontade, seja no plano pessoal ou coletivo. Esse limite, por si, derruba os principais argumentos de defesa da democracia. Acontece que fora a democracia teríamos sempre regimes de imposição (não que ela não o seja) da vontade de quem?!

Toda vez que você defender a democracia lembre-se de que ela não se diferencia do que há ou houve de pior no mundo se não entregar o que promete. O sistema ideal é aquele que realiza o que propõe.

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Trânsito

Em 1998 fiz um curso de extensão em direito de trânsito na UFRGS. Um dos meus professores, um PRF, disse textualmente: quando se inicia a ultrapassagem no local permitido e se termina em local proibido, está tudo regular (porque não se pode interromper a ultrapassagem, o que aumentaria o risco da manobra). Eu imediatamente levantei o braço e disse que minha primeira autuação tinha sido exatamente por isso.

Pouco depois ele disse outra: durante a ultrapassagem não se avalia o limite de velocidade (porque quanto mais rápida, mais segura é a manobra). Levantei o braço e, novamente, disse que já tinha sido autuado por isso também. Ambas autuações pela PRF.

Nisso o professor me responde: “mas tu é perigoso, né”!? E eu: “na verdade a PRF é que é mal instruída”.

O trânsito é um reflexo da sociedade. É impossível termos um trânsito seguro e educado praticado por pessoas que são displicentes e ignorantes. Isso vale, como se vê no relato verídico, para todos os operadores e usuários do sistema.

Até hoje me questiono por que as autoridades de trânsito permitem que motocicletas circulem entre veículos, desrespeitando as faixas das respectivas pistas e a distância mínima entre veículos. Presumo que seja porque, no Brasil, a lei não basta. É preciso sempre alguém que solicite/determine seja a lei cumprida. E olha que cerca de 2/3 das vítimas estão em motocicletas!

Aqui em Capão da Canoa, onde moro, o trânsito é caótico. Não pela demanda, como nas grandes cidades, mas pelo total desrespeito à sinalização e à lei. A começar porque se estaciona no bordo esquerdo da principal avenida da cidade sem que haja sinalização autorizando. Como não há autorização da sinalização, vale a lei que impede se estacione na faixa esquerda de avenidas (seria como estacionar no bordo da faixa da esquerda da Av. Ipiranga, em Porto Alegre). Vejamos que também aqui é a autoridade de trânsito que não está agindo de acordo com a lei. É possível dar certo algo se o responsável por fazer dar certo não faz o certo?!

Adoro história e geografia. Adoro física, nem tanto química. Mas muito mais importante do que aprendermos isso é aprendermos a viver nossa vida. Escolas deviam curricularmente nos ensinar sobre nossas condições de vida. Nos ensinar devidamente sobre alimentação, circulação em cidades, atitudes de respeito social e pessoal, separação de lixo, uso consciente de recursos públicos e privados, e também comportamento e cumprimento de regras de trânsito.

Perdemos mais de quarenta mil vidas todos os anos em nossas estradas. A imensa maioria resultado de irresponsabilidades, às vezes por negligência, outras por imprudência. E aí incluem-se as estatais também. Por que isso não é enfrentado?! Porque acreditamos que estamos isentos e protegidos. A dor alheia ainda não nos tocou.

O trânsito é o reflexo mais preciso de uma sociedade. Olhe para o da sua cidade e responda: você realmente acha que o problema do Brasil são apenas seus governantes?!

Teses x Realidade

A República é um sistema que, em tese, melhoraria em muito o que se via na Monarquia. Isso desde a Roma e a Grécia antigas. Dom Pedro II assumiu o poder em 1840 com 92% dos brasileiros analfabetos. Deixou o governo em 1889 com 56%. Nunca teve escravos. Aliás, um dos principais motivos para a aristocracia brasileira ter tramado a sua deposição foi justamente porque a família real tinha posição claramente abolicionista e investia nisso. O Brasil, nesse época, era a quarta economia do mundo, com crescimento médio de 8% ao ano e inflação inferior a 2%. Fomos o segundo país do mundo a dispor de educação para surdos e cegos. E a imprensa podia livremente se manifestar contra o regime e a coroa (e o fazia com muita voracidade, mesmo porque os intelectuais sempre se caracterizaram por viver de reclamar da realidade e buscar reformá-la para implantar suas teses). Ao final do ano, era comum a coroa devolver dinheiro aos cofres públicos daquilo que sobrava do seu orçamento, sendo que boa parte já havia sido doado ou investido em causas sociais.

Um mundo sem armas é, em tese, melhor que um mundo de pessoas armadas. Mas a Terra é um planeta com gente de valores muito distintos, não apenas pelas diferenças culturais, mas por toda a complexidade que forma a personalidade humana e, por consequência, as sociedades. Os pacíficos não precisam de armas para resolver disputas entre si, mas o mundo não é composto apenas por eles. Em alguns lugares, temos de admitir, muitas pessoas buscam se impor às demais por meios ilegítimos. Num mundo ideal, de pessoas já amadurecidas, esta tese poderia se tornar uma realidade. Não vivemos nesse mundo. Há países extremamente armados, como o Canadá e a Suíça, que são pacíficos e seguros.

Uma sociedade sem disputas religiosas e ideológicas, onde todos concordassem com rumos sociais e existenciais padronizados seria mais coesa e feliz, em tese. Acontece que, sabemos e já dissemos, o ser humano é complexo e há muita diversidade naquilo que forma uma pessoa e uma sociedade. É impossível pensarmos numa sociedade 100% coesa em ideais num sistema onde a manifestação seja livre.

As drogas são maléficas à saúde e comprometem a qualidade de vida daqueles que se deixam dominar. São, provavelmente, o maior objeto de repressão estatal no mundo. Em tese, uma sociedade sem drogas seria mais saudável e segura. Portugal liberou todas as drogas dentro de uma certa quantidade e desfruta de um dos melhores índices de criminalidade da Europa.

O amor nas relações produz, em tese, pessoas mais seguras, amáveis e maduras. Mas vivemos numa sociedade hedonista e egoísta, mesmo já estando há gerações sob uma nova visão da estrutura familiar em que os pares se formam por interesse recíproco e não por imposição dos pais (ou qualquer outro). Em tese, deixar que as pessoas escolham seus parceiros criaria núcleos familiares mais felizes, mas nossa era é conhecida como a primeira em que a depressão se tornou epidêmica.

A vida não é feita de teses, em que pese seja indispensável pensarmos a respeito dela para construirmos nossos caminhos.

O ser humano, contudo, precisa dispor de mais humildade em reconhecer aquilo que não está funcionando e mudar. Simples assim.

Em tese a vida é fácil. Ou é difícil. Mas na prática é bem diferente.

Cristo(s)

José Saramago, ateu, escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, livro que lhe alçou ao Nobel de literatura. Nessa obra, um ateu apresenta a sua visão sobre Cristo, onde o Filho do Homem é tratado como um personagem histórico e humano, sem os adjetivos que costumeiramente lhe são atribuídos. Saramago é português e precisava ter extremo cuidado para dar a sua narrativa uma visão que pretendia “humanizar” Jesus sem desrespeitar a fé do seu povo. Conseguiu. A obra é espetacular.

Jesus não é o mesmo personagem divino para Judeus e Muçulmanos. Nestas outras religiões monoteístas, Jesus é um profeta, não o Deus vivo. Essa diferença, provavelmente, é o que faz com que cada uma das crenças se mantenha distinta.

Há um Jesus menos estudado pela maioria das pessoas, um Jesus mais místico, que teria sido casado com Maria de Magdala (Madalena) e com ela teria tido uma filha. Esse Jesus ainda é tratado como um messias e um iluminado, mas menos divino do que a visão católica. Podemos ver essa abordagem no filme (e livro) “O Código Da Vinci”, que é um romance baseado em obras místicas muito antigas e, hoje, retomadas ao debate graças aos Manuscritos do Mar Morto.

Há outro Jesus (e creio que surpreenderei alguns) que é a reencarnação de Buda e Krishna. Ele é tratado na obra “O Redentor”, de Chico Xavier.

Jesus é muito mais do que a Igreja Católica Apostólica Romana pretende e essas abordagens referidas demonstram isso. Mas nenhuma dessas abordagens o desrespeita.

Acho o ateísmo uma soberba, uma imaturidade. Contudo, jamais acharei o ateu uma pessoa menor do que o crente. Todos nós temos aspectos do nosso ser mais ou menos preparados, melhor ou pior desenvolvidos. Digo isso para, primeiro, afirmar que entendo porque alguns não creem em Deus e, segundo, porque acho que isso é aceitável (embora não seja bom). Isso não me dá o direito de debochar, nem ironizar, especialmente de forma pública quem assim pensa.

Numa época em que se brada tanto por aceitação, a melhor forma de aceitarmos o novo é reconhecermos que nem tudo é tão novo, nem tudo é tão velho. As visões de mundo e as reflexões sobre o mundo estão aí há milênios. A cultura humana não chegou até aqui por acaso. O que há de nos diferenciar não são nossas bandeiras, que nos apartam apenas por aspectos externos, mas sim nossas atitudes.

Há muitas visões de Cristo na história e, entre determinados grupos, cada uma delas é debatida e elaborada. Todas são visões de aprofundamento e, de algum maneira, veneração. Os católicos se autodenominam os detentores da verdade sobre Jesus e, para impor sua versão, já fizeram de tudo, desde as Cruzadas à Inquisição. Não o são. Mas isso não faz deles rivais dos demais. Faz deles apenas diferentes. Respeito seu ponto de vista, mas não as suas atitudes de impô-lo no passado.

O que não se compreende é a necessidade dos que não acreditam em Jesus ficarem repetitivamente buscando ofendê-lo e/ou ofender a crença dos que acreditam. É essa a “tolerância” dos nossos dias?! É isso o melhor que se consegue oferecer de oposição ao conservadorismo!?

Jesus é o maior personagem da história humana. Toda menção a ele deve ser feita considerando isso.

 

Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

Discurso de Formatura FACSUL/Unitins 2010

Em 2010 fui agraciado com o convite para ser paraninfo da Turma de Fundamentos Jurídicos do centro EAD Facsul, vinculado à Unitins. Eis…

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Excelentíssimos integrantes da mesa, especialmente Sra. Núbia Peixoto, representante do Magnífico Reitor… Sra. Medianeira Sutel, Sra. Silvana Santos e Sra. Valéria Monteiro, paraninfas homenageadas… Sra. Rute Fávero, Sr. Antônio Prestes e Sra. Audrew Tatiani, patronos das turmas… Meu grande e querido amigo Marco Antônio Oliveira, aos parentes e amigos presentes e, especialmente, aos meus amigos e amigas formandos.

Muito boa noite!

É para vocês que quero dizer algumas palavras, queridos!

Lembro com muito carinho de quando nos conhecemos, na Turma de Fundamentos Jurídicos, às quartas-feiras à noite. Desde o início sempre admirei vocês por estarem ali, buscando melhorar, lapidando esse presente divino que é nossa capacidade. Sempre os vi como exemplo gratificante de esforço – embora vocês pudessem ter tido um pouco mais de esforço, como sempre se pode. Era um momento da minha vida em que enfrentei severas dificuldades e tanto a Facsul como este grupo serviram-me de alegre intervalo entre as minhas batalhas.

Muito obrigado!

Estudar é algo mágico!

Nenhuma pessoa entra numa academia e sai do mesmo jeito. Lembro que “academia” é uma palavra de origem grega, que servia para referir a escola criada por Platão para ensinar filosofia aos seus alunos. Platão, se me permitem o breve comentário, foi muito mais do que um filósofo. Ensinou, por exemplo, Aristóteles, que ensinou Alexandre o Grande, que dominou o mundo. Ensinou a tantos, que ensinaram os essênios, que ensinaram Jesus, que mudou o mundo.

Ele trouxe reflexões profundas sobre o se portar, o conviver, como ser uma pessoa melhor… pois isso tudo é a chave da felicidade!

Vejam, o estudo é uma das melhores ferramentas para sermos felizes de verdade! E todos sabemos ou precisamos saber que nosso objetivo de vida é a felicidade!

Não se estuda para ganhar uma promoção. Não se estuda para pendurar um diploma na parede. Não se estuda por estudar. Isso tudo não é estudar!

Estudar é refletir e pôr em prática. Estudar é ver a prática e refletir… e voltar para pôr em prática algo melhor. Como vocês podem perceber, isso é algo que não tem fim… e, como já falei, isso é mágico.
A vida tem muitos mistérios. E ela é muito mais rica para aqueles que são mais perspicazes e atentos. Quanto mais atenção dermos às coisas da vida, mais veremos a sua riqueza. Não a riqueza das jóias, dos eletrônicos, das grandes construções – que são boas riquezas. Falo da riqueza maior, a de sentir a vida!

A vida é mágica porque existem certezas que precisamos nos lembrar e isso não é um problema. Vejam:

Sofreremos! Cedo ou tarde.

Perderemos! Muitas vezes.

Erraremos! E pedir desculpas é o mínimo.

Sentiremos raiva… e precisamos aprender a nos achar para, nestes momentos, não nos perdermos.

Sentiremos culpa… e precisamos aprender a nos desculpar para não morrermos cedo demais.

Nós morreremos e, pior que isso… quem nós amamos morrerá… e precisamos aprender a viver e amar enquanto podemos!

Vejam quantas coisas doloridas referi! E ainda assim temos todas as condições de sermos felizes! É só APRENDERMOS. Essa é uma das mágicas dualidades da vida: a certeza de que passaremos por momentos difíceis e, ainda assim, a certeza de que passaremos por momentos felizes. Os momentos felizes são os que dependem de nós, virão apenas se nos esforçamos.

Aprender é a chave! E aprender é algo absolutamente pessoal. Não se transfere, não se doa, não se herda educação. Ou se esforça em tê-la e em vivê-la, ou não se a conhece.

Por isso o orgulho de vocês! Quem busca a educação diante das dificuldades que são naturais em tê-la, está, na prática, tentando ser feliz! É um atestado que diz mais ou menos assim: “atesto para os devidos fins que eu quero algo melhor para mim”.

Vocês estão atestando isso hoje! Por isso estamos todos nós aqui felizes! Viram como o estudo é mágico!

Para quem vai trabalhar com o Direito, seja como operador, como servidor, como policial, como assessor… afirmo: vocês terão muito trabalho pela frente. O Direito tem essa imagem romântica de que serve para regular a vida das pessoas… e é uma imagem parcialmente equivocada, pois quem regula a vida das pessoas é a educação e o livre-arbítrio de cada um. O Direito apenas nos diz o que o Estado – o centralizador das ideias gerais – quer de cada um de nós.

No nosso sistema, muitas vezes torna-se irrelevante o que está na lei: o Direito que se aplica a cada uma das relações do dia-a-dia é o que escolhemos praticar; o Direito que se aplica a cada uma das pessoas que procura o Poder Judiciário é aquele que o Juiz decreta. Viram, nem uma, nem outra alternativa depende exclusivamente da lei… Por isso a importante habilidade de se construir um bom processo, de se formar uma boa base de fundamentos e de se relacionar e se expressar bem. E isso vem, novamente, através do estudo!

Quanto mais elaborada for a função de vocês, quanto mais velhos vocês se tornarem, quanto mais responsabilidades a vida lhes trouxer, mais chances de errar, de perder, de sofrer vocês terão… porque também terão mais chances de vencer, de acertar, de alegrar. Isso é bom demais! Quando vocês superarem essas dificuldades, mesmo sem platéia, mesmo sem recompensa, mesmo sem manchete… vocês se sentirão como Alexandre o Grande… vocês conquistarão o mundo.

Não fujam das grandes responsabilidades, das árduas dificuldades, das dolorosas conversas, do perigoso enfrentamento… Fugir disso é fugir da chance de serem realmente felizes!

Como disse o ex-astronauta Neil Armstrong ao pisar na lua: “esse é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Cada vez que um de nós vencer, a humanidade venceu. Hoje nós todos somos vencedores porque vocês venceram!

Começo a terminar meu discurso aqui, agora, com alguns lembretes:

(1) Não é à toa que os vencedores dizem que precisamos acreditar nos nossos sonhos! Não é à toa.

(2) Tudo que existe no mundo foi criado por alguma mente. Tudo é projeto mental… Tudo que está no mundo material, um dia esteve na idéia de alguém, seja na de um ser humano, seja na de um ser divino.

(3) É muito difícil encontrarmos equilíbrio e felicidade sem quatro grandes pilares: família harmoniosa, corpo saudável, mente rica e alma iluminada. Não esqueçam da alma… é o que tem faltado no mundo de hoje!

(4) Filho de peixe é peixe. Filho de águia é águia. Filho de leão é leão… lembrem-se sempre que somos filhos de Deus.

Que Ele abençoe e ilumine a cada um de vocês! Muito obrigado por esta honra inesquecível que vocês me deram. Boa noite!

Ponto de Vista

Ponto um: eu me cansei de ser genericamente chamado de machista, racista, homofóbico e explorador por ser homem, branco, hétero e empresário. Já faz uns três ou quatro anos que estou farto disso e, para não começar a odiar quem vive repetindo esse discurso pobre e triste, me desliguei.

Ponto dois: é por sentir isso que me compadeço com o que passam os gays, os negros, as mulheres vítimas de seus companheiros e todas as demais pessoas que são desrespeitadas por este ou aquele agressor. É sempre importante reconhecermos que existem sim problemas graves de desrespeito e intolerância. Contudo temos de reconhecer também que a forma de se lidar com tais problemas tem sido muitas vezes retribuir a agressão com outro tipo de agressão, a discriminação com outro tipo de discriminação, a violência com outra forma de violência e o desrespeito com um revide de desrespeitos.

Ponto três: sabendo disso, temos de parar de criar divisões e impor condutas. As pessoas têm todo o direito de serem diferentes e de pensar diferente. Elas têm até mesmo o direito de odiar… desde que se mantenham contidas nessa postura. Chega de ficarmos criticando quem quer mudar ou quem quer continuar sendo como sempre foi.

Ponto quatro: numa época de superexposição, parece importante expor tudo o que somos e pensamos. Nem tudo precisa ser exposto, principalmente aquilo que não vai colaborar, que vai apenas extravasar algo que é nosso e não precisa ser compartilhado. Guarde seu ódio e o leve para seu terapeuta. Trate sua raiva ou sua frustração, seja a de ser hétero, de ser homo, de ser burro, de ser corno, a que for. Tudo tem meios de ser melhorado com a conduta adequada.

A polarização é a falência do raciocínio

Disse Nelson Rodrigues que toda a unanimidade é burra e digo eu que a polarização é pior. Não que a polarização seja necessariamente burra, não o é, mas é pior porque nela a razão foi posta de lado. A polarização transforma o debate em embate, é paixão. O melhor raciocínio não é utilizado para avaliar a pauta, mas para afirmar o seu argumento diante do argumento alheio.

A polarização desconstrói o que foi construído, desvaloriza o oponente como uma disputa de guarda no Direito de Família, como se todo o amor que um dia se possa ter sentido tivesse se transformado em rancor e raiva.

A polarização deixa de lado qualquer possibilidade de entendimento quanto mais se passa o tempo, porque são tantos os ataques e os contra-ataques que, anos depois, não se sabe nem o motivo da disputa. Cada lado se sente o defensor da verdade e usa todo o seu arsenal para defendê-la. É como se alguém te xingasse e você sacasse uma arma e atirasse em revide e depois dissesse: “mas foi em legítima defesa, ele começou”. O tempo não ajuda o debate, o piora. São os debatedores (alguns) que, mais maduros, mudam o jeito de debater.

É a atitude polarizada que afirma que “bandido bom é bandido morto”, que “empresário só pensa em dinheiro”, que “funcionário público só olha pros seus privilégios” e por aí vai. Porque muitas vezes essas frases podem ser verdadeiras a esse ou aquele caso concreto, mas o raciocínio polarizado generaliza a análise e radicaliza a atitude.

Tenho de admitir uma coisa, contudo: a polarização é uma evolução à apatia. Sou dos que acredita que o ser humano jamais deixa um extremo para centrar-se. Ele cambaleia entre os extremos, num movimento pendular, até que esse pêndulo perde a força e acaba ao centro, no meio termo. Assim somos nós e nossas atitudes.

Então, meus amigos e amigas, respeitemos quem ainda não está pronto para debater com maturidade certos temas. Não que tenhamos de aceitar passivos suas impertinências… mas entendamos que tudo tem seu tempo. Chegaremos lá.

O Racionalismo Materialista

A medicina que cuida das emoções, da psiquê, da personalidade tem pouco mais de cem anos. Teve em Freud e Jung os seus protagonistas de maior relevo. Isso no ocidente, claro. Os egípcios, os maias, os chineses sempre associaram a saúde do corpo à saúde da mente, a ponto de influenciar o berço do racionalismo ocidental na Roma e Grécia clássicas, com a máxima “mens sana in corpore sano”. Por séculos os estudiosos do corpo eram filósofos, religiosos, curandeiros, xamãs, que associavam o comportamento à saúde. Com o desenvolvimento do racionalismo foi-se criando um distanciamento entre corpo e espírito e, consequentemente, uma divisão cada vez mais clara entre espiritualidade e ciência. Clara do ponto de vista racional.

O racionalismo tem em Descartes (“penso, logo existo”) em Kant seus protagonistas, sendo fonte do chamado pensamento liberal. Pelo racionalismo clássico tudo tem um propósito, uma finalidade, e essa busca é tarefa da razão.

No século XIX o racionalismo era a corrente filosófica que dominava o pensamento científico, em derrubada ao Iluminismo. Essa visão racional da vida influenciou pensadores de todas as vertentes – e também Marx e Engels. Esses filósofos criticavam o pensamento liberal e buscaram contrapô-lo firmando análises e conclusões racionalistas aos problemas sociais que enfrentavam. Daí surgiu o chamado de Racionalismo Materialista que, de forma sintética, afirma que os modos de produção estruturam a vida social e espiritual. O Racionalismo Materialista é ateu e antirreligioso (leia “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiesvski), postura que desde sempre logrou o repúdio dos religiosos de toda a ordem.

Então Freud e Jung trazem à ciência a ideia de que há efetivamente algo além da matéria e de que a razão não consegue regular e entender toda a análise existencial. Há um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo. Há um subconsciente que nos governa o comportamento (leia “O Poder do Subconsciente”, de Joseph Murphy). Há um manejo da razão feito por nossos instintos e emoções – e vice-versa.  E há uma linguagem simbólica, onde até mesmo do ponto de vista racional analisamos o mundo e a nós mesmos com base em arquétipos.

A história humana é marcada por disputas de poder, pela violência, pela lascívia. E também pelo heroísmo, pela benevolência, pelo altruísmo. Com pequenas exceções, o mesmo ser humano desfruta ora de um comportamento, ora de outro, motivado por senso e sensibilidade. O ser humano que nasce não é o mesmo que morre, mas pode sê-lo. Há um livre arbítrio e uma condição social a moldar seu caminho existencial.

Pois bem, cá estamos a refletir sobre o Racionalismo Materialista, que ainda persiste em nossos dias a influenciar intelectuais, por mais desastroso que tenham sido suas tentativas de implementação. Por que não dá certo? Por que ainda tem simpatizantes?

Primeira resposta: o materialismo é impossível, irreal. O mundo não é material (no sentido filosófico). A humanidade tem mais condições de sobreviver ao fanatismo religioso que converge do que ao materialismo que diverge pontos de vista. A razão tem como limite a razão do outro. É impossível um sistema baseado em algo tão individual conseguir angariar esforço para um propósito por tanto tempo, porque há de divergir em algum momento e enfraquecer-se. A razão não é, como se pretende, definitiva. Sua linguagem é sazonal, pessoal, temporal, limitada. Se o racionalismo tem um limite o racionalismo materialista é ainda mais limitado. E não é que sejam inúteis, nem que estejam errados. É que a “linguagem” racional não é bastante e reconhecer isso faz parte da solução deste problema.

Dito de outra forma, o racionalismo materialista apenas produzirá resultados (ainda que limitados e diversos do pretendidos) naqueles seres humanos que falarem a mesma língua e intentarem os mesmos propósitos. E, sabemos, a humanidade é muito maior que uma corrente filosófica.

Sobre a segunda pergunta: os simpatizantes são aqueles que se identificam com a simbologia (racional) materialista. São os ateus, os antirreligiosos, os materialistas. Não há coerência (racional) em viver uma religião e ser marxista. Não há coerência (afetiva) em acreditar nas leis de causa-efeito e revoltar-se com a vida. Seus simpatizantes são e sempre serão uma minoria em transitoriedade por este pensamento que cerceia qualquer outro pensamento.

O racionalismo materialista tem como limite, por isso, a própria evolução humana. E por isso não acredita nela, por isso combate qualquer filosofia evolucionista. Embora seja escancarado que o ser humano progride, ainda que aos poucos, o racionalismo materialista precisa não reconhecer esta evolução, pois se o fizer contradiz-se.

Jung acreditava que o comunismo era uma patologia. E é.

Dilema Existencial

A humanidade mescla essa coisa de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Todos nós trazemos um pouco disso no nosso âmago. Temos uma diversidade de perfis quase infindável, que produz gente com atitudes divinas e infernais. Na maioria das vezes o ser humano médio carrega ambos perfis.

Darwin disse que estamos fadados à evolução. Dizem alguns que a referência dele é quanto à evolução biológica mas creio que ele falava existencialmente, inclusive do ponto de vista biológico. O Evolucionismo é fato, é lei natural. Quem duvida que a humanidade é melhor hoje do que era há 10.000 anos?!

Sei que muitos duvidam.

O motivo disso é porque alguns fazem a avaliação da evolução humana do ponto de vista meramente comportamental, sem olhar a tecnologia, a construção social. Pensam assim: há mil anos o ser humano matava por dinheiro e ainda mata. Ou: há cinco mil anos tínhamos guerras e ainda as temos.

Sob esse ponto de vista, estão certos. Por isso que somos uma mistura de escola, hospital, parque de diversões e inferno.

A humanidade é composta de gente de todos os níveis morais e intelectuais. É justamente essa mistura que nos causa tamanhos conflitos.

Imagine você que todos nós fôssemos sanguinários e matássemos uns aos outros para conseguir comer, por exemplo. Não nos causaria sofrimento matar o vizinho para roubar-lhe a comida. Acontece que é justamente a diferença de valores que dá à humanidade a condição de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Quando nossos valores forem mais uniformes seremos outra humanidade.

Enquanto isso, os mais evoluídos (digamos assim) sofrem com seus dilemas. Os mais animalescos não têm dilemas; fazem o que lhes dá vontade. Já os mais evoluídos precisam encontrar um equilíbrio entre o que desejam e o que precisam fazer para se proteger dos mais animalescos.

Imagina um antiarmamentista. Ele vive num mundo de gente violenta e armada. Então ele prega o fim das armas esperando que isso diminua a violência, mas não diminui.

Imagina o vegetariano. Ele defende que os animais sofrem ao serem abatidos e que não precisamos mais matar para sobreviver à fome. Mas tem gente, em recantos múltiplos, que ainda não tem o que comer regularmente.

O dilema existencial decorre da diferença de valores no âmago da humanidade. Quanto mais gente houver na Terra, mais diferenças haverão. E sempre haverá o mais bruto, mais violento, em confronto com o mais brando e pacífico. Entre eles estão os humanos que transitam entre o céu e o inferno, levando conhecimento, força e beleza onde isso não existe.