Você percebe o que é real?

Quando você está férias na beira da praia e passa um vendedor de castanhas vindo do Ceará para buscar sustento em terras (areias, no caso) mais agraciadas, você percebe que ali há uma dicotomia existencial entre o mundo virtual e o real?!

Se você for um empregado da iniciativa privada ou um servidor público, esta dicotomia estará ainda mais evidente. Porque você estará gozando de um benefício criado pelo homem artificialmente chamado “férias”.  Veja, “férias” não é algo natural, não é algo que resulte de uma condição própria, pessoal. “Férias” é algo construído pela sociedade onde uns suportam o trabalho necessário para que outros descansem. Só que esse benefício não é geral e proporcional entre todos os que trabalham… quem nos dera. O vendedor de castanhas do Ceará, por exemplo, pode tirar férias quando quiser, mas ninguém vai fazer por ele e, durante seu descanso, sua renda será comprometida.

Com o agricultor é igual. E também com o mecânico, com o pedreiro, com o padeiro, com a diarista, com o professor de tênis que trabalham como autônomos ou pequenos empresários. Veja que para boa parte dos trabalhadores os direitos são relativizados. Há uma relação de causa e efeito mais direta, mais pessoal. Para outros há direitos sustentados pela sociedade ou por seus pares, às vezes pelos dois.

Os direitos de uma maneira geral são construções sociais. São virtuais. Existem porque se convencionou e deixam de existir quando se convencionar. Alguns direitos são coerentes e contemplam a todos. Outros são restritos e acabam se tornando verdadeiros privilégios, como dispor de pensão para filhas solteiras de alguns cargos.

No meu ponto de vista, quanto mais classista um direito, quanto menos pessoas podem dispor dele, mais injusto ele tende a ser. Você pode avaliar se algo é justo quando pode ser oferecido de uma maneira geral. Claro que profissões mais arriscadas, por exemplo, precisam de uma contraprestação que equilibre esse risco. Profissões mais estressantes idem… e por aí vai. As exceções são exceções e assim devem ser. Não podemos é criar realidades virtuais para todas as categorias formais, pois as informais é que terão de suportar seu ônus. Quanto mais distante da realidade um benefício, mais será ele oneroso a quem o sustenta.

Eis o Brasil de hoje! Somos um país cheio de benefícios virtuais que são suportados por pessoas das mais variadas realidades. Optamos há algum tempo em dispormos de um Estado paternalista, que nos cuida como se fôssemos incapazes ou privilegiados, dependendo de como contextualizamos. Como o Estado não é um ser real, também precisa ser sustentado pelos seres reais para existir. Então se imagina que colocando na lei um benefício surgirá do além as forças universais para torná-lo realidade.

Não! Não é assim.

Aos poucos esse mundo virtual distante do real desmorona. E não vai parar de desmoronar enquanto não se aproximar adequadamente da realidade.

Esse processo histórico acontece desde que existe a humanidade. Os privilégios de castas, de raças, de gêneros ou quaisquer outras ficções criadas, tendem a deixar de existir porque quem os sustenta cansa, desiste, perece.

Nosso país é cheio de gente boa e cheio de gente não tão boa. Quem se importa precisa assumir o protagonismo do que lhe compete, sob pena de continuar sendo base de sustentação do insustentável e, assim, manter essa virtualidade. Aprendamos nós todos a viver num mundo o mais real possível.

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O que vem primeiro? O que é importante?

Vi reportagem de que em São José dos Campos a Prefeitura está usando alta tecnologia para gerenciar o trânsito da cidade. Lá, motoristas usam aplicativo no celular que informa em tempo real o sistema de controle de trânsito e, através de inteligência artificial, o sistema regula quais sinaleiras devem estar mais tempo abertas e fechadas de acordo com a quantidade de veículos em cada via e sentido.

O sistema controla também os veículos que ficam mais tempo que o permitido nos estacionamentos públicos rotativos. Por certo sabe a velocidade de cada veículo que está conectado.

Outro resultado de tamanha vigilância é que o número de veículos furtados/roubados é o menor em dezesseis anos.

Esse sistema é ótimo para quem não se importa em dividir a sua privacidade.

E quem se importa? Mesmo que por motivos legítimos?

E se esse sistema for usado por governantes ou administradores autoritários e desvirtuados do interesse público?

O debate sobre valores é sempre anterior a qualquer sistema. É impossível um sistema compensar os valores humanos, seja um sistema de controle de trânsito, seja um sistema de gestão pública ou privada, seja um sistema ideológico.

Os valores humanos são o alicerce da sociedade. Quando fragilizamos os valores que nos identificam, quando flexibilizamos nossas regras de respeito e convívio, passamos a ser reféns do sistema, seja ele qual for.

Quando alguém vende a ideia de igualdade precisa tratar todos com igualdade. Quando se vende a ideia de segurança precisa agir de forma segura. Toda ideia que não é valor é método de controle e de desvio.

Não há sistema que compense a falta de valores.

A Lamborghini sem seguro

Você também deve ter visto o vídeo daquela Lamborghini Gallardo Spyder 2009 que se acidentou em Gramado/RS, no final de agosto, deixando duas pessoas feridas. O veículo pertence a uma rede de locação de veículos desta categoria, que aluga a turistas para darem pequenas voltas pela cidade. É um serviço legal, numa cidade muito legal, com carros espetaculares.

No caso desta Lamborghini a mídia avalia em R$ 750 mil o veículo. Sequer consta na tabela FIPE este modelo.

É incrível, mas os veículos disponibilizados por aquela empresa para locação não têm seguro. O fato de não constar na tabela FIPE é parte desse problema.

Seguros em geral são caros no Brasil. Um seguro novo de um Land Rover raramente vai custar menos de R$ 15 mil. Qualquer carro convencional paga acima de R$ 1.500. Isso é caro.

Quase nenhuma seguradora nacional aceita segurar uma Lamborghini que será usada por condutores indeterminados. Essa é a verdade. Entendo a empresa. Mas o empresário do ramo não pode se render ao convencional… precisa encontrar uma maneira de oferecer aos seus clientes uma proteção e principalmente precisa ele próprio se proteger, pois um único sinistro pode comprometer toda a operação. Por sorte não houveram vítimas fatais.

Esse caso espelha uma triste realidade brasileira. Somos muito pouco profissionais em incontáveis atividades, mesmo naquelas que parecem comuns e corriqueiras. Aposto com você, leitor, que boa parte da frota de veículos de transporte de passageiros no Brasil não tem seguro. Os caminhões que transportam nossas mercadorias tampouco. Porque seguro é muito caro. Porque brasileiros desrespeitam muito as normas de trânsito. Porque as seguradoras tem enormes prejuízos neste ramo. É resultado de uma cultura, de uma condição que não está nem perto de ser mudada.

Alinha-se no horizonte a ideia de que o DPVAT – seguro obrigatório de acidentes pessoais para veículos – será substituído por um novo modelo, onde o segurado (proprietário do veículo) poderá optar pela seguradora que quiser. Este modelo tende não apenas a garantir não existam mais acidentes sem cobertura, mas principalmente que os preços se tornem mais justos, porque afinal todos terão de ter seguro e, assim, você não precisará pagar no seu seguro o prêmio (custo) da culpa alheia. Ao menos não da forma como é hoje.

Demoramos tempo demais no Brasil para escolhermos caminhos compatíveis com nossas necessidades. Somos muito conservadores a mudanças estruturais e acabamos por pagar caro demais por tudo ao nosso redor, ainda que não percebamos.

Seguro não é um artigo de luxo. É um serviço indispensável que representa, nos países desenvolvidos, boa parte da poupança interna que permite financiar seu desenvolvimento.

Raios de sol clareiam nosso horizonte e, espero, iluminem nossa mente.

Golpe!

Você contrata um pedreiro para reformar parte da sua área de serviço que sofreu infiltração. Compra materiais, pede solicitações condominiais e acerta o início da obra e o valor dos serviços, que deveria durar uma semana. Dois meses depois o valor já foi todo pago e o serviço está pouco adiante da metade. Isso é golpe!

Você leva seu filho no posto de saúde porque está com febre e dores. Espera três horas por atendimento e percebe que na sala de triagem tem três profissionais atendendo seus respectivos smartphones. Isso é golpe!

O Estado constrói escola, contrata professores, os qualifica, compra merenda escolar, compra material e coloca livros na biblioteca. O Estado ainda compra um ônibus para transportar alunos, ônibus esse que passa nas principais vias do município. Mas quando chove, você reclama que a escolar não passa em frente a sua casa para buscar seu filho e diz pra ele que não precisa ir pra escola. Isso é golpe!

Você usa as redes para ofender as pessoas com o que acha que são ofensas (cristão! gay! reacionário! avarento!) mas estaciona na faixa de pedestres, ultrapassa sinal vermelho e joga lixo pela janela do carro. Isso é golpe!

Você vê campanhas e mais campanhas para melhorar a situação dos presídios (que é desumana), mas nenhuma linha, nenhuma palavra sugerindo que os presidiários deixem a vida do crime para lá não precisarem estar. Isto é golpe!

Você diz que seu interesse é humanista, que se preocupa com pessoas. Posta diariamente textos e mais textos sobre elitismo e materialismo. Trabalha como motorista por aplicativos. Chamam você num bairro popular e você não vai porque tem medo. Isso é golpe!

Golpe é o que a postura média do brasileiro faz todos os dias com seus clientes, vizinhos, filhos e relacionados. Quando pararem estes golpes, pouca diferença fará o partido ou o sistema que estiver governando, pois estaremos à caminho do paraíso.

Meritocracia

Imagina comigo:

Jogar bola sem se importar com os gols;

Jogar canastra/buraco sem se importar com a pontuação;

Fórmula 1 sem se importar com o pódio;

Maratona sem se importar com o tempo;

Aula de matemática sem se importar com a prova;

Foguete pra Marte sem se importar se chega;

Construir uma casa que pode ter umas goteiras;

Atender um paciente sem se preocupar com a cura;

Governar com despreocupação ao dinheiro;

Ter filhos que podem fazer o que quiserem;

Ler um livro e não entender a história;

Ter um errado que é considerado certo;

Apertar um parafuso que pode ficar frouxo;

Cultivar uma plantação que não precisa dar frutos.

 

Se não buscarmos o mérito e o êxito a vida deixa ser ser possível.

Digitalizar

Quando eu tinha 9 anos, morava numa vila que não tinha praça para jogarmos futebol. Jogávamos na rua, que era de areia ou saibro, cheia de pedrinhas, algumas sem coleta de esgoto. Com o tempo, algum pai de amigo mostrou que podíamos usar os terrenos desocupados para jogar bola. Bastava limpá-los e deixá-los em condições.

Naquela época a regra era clara: escureceu tem de estar em casa. Não tinha como minha mãe saber onde eu estava. Podia estar em qualquer rua num raio de quilômetros ou na casa de um amigo.

O mundo hoje é absurdamente diferente. Enlouquecidamente diferente. Maravilhosamente diferente. Perigosamente diferente.

Entro no quarto dos meus filhos e digo quase sempre: “este é o melhor quarto do mundo”. Ali tem TV, videogame, livros, globo luminoso, Netflix, teclado musical, brinquedos e por aí vai. É de um conforto maravilhoso, ainda que simples, ainda que sem luxo.

Nossas condições materiais não são melhores do que há trinta anos por acaso. A humanidade estuda mais, conhece mais, compartilha mais, busca mais, tolera mais, doa mais.

A era digital é muito mais do que software e hardware, do que APPs e perfis. Ela está criando um novo mundo.

O que mais me assusta não é ver esse novo mundo chegar… não é. O que mais me assusta é ver a quantidade de gente que ainda vive e pensa da forma do antigo mundo analógico. E pior, gente que é ainda mais devagar, mais preguiçosa, mais omissa que há trinta anos.

Digitalize sua visão de mundo, seu jeito de estudar e trabalhar, sua forma de existir e sentir. Imediatamente. Ou você não será compatível com o sistema operacional da vida muito em breve.

Uma locomotiva chamada Direito

O Direito é como uma grande rede ferroviária, onde são construídos os trilhos que levam aos destinos normativos, não exatamente onde se quer ir – como iríamos em carros – mas aproximadamente onde se pretende ir, nas estações. A locomotiva é o processo, conduzida pelos operadores do Direito. Os trilhos são a lei e as demais normas, fixos, estáveis e é (ou deveria ser) impossível à locomotiva estar fora deles.

Acontece que, aos poucos, esta locomotiva houve de carregar mais vagões, com mais usuários e mais operadores. E mais vagões para caberem mais bagagens. Ao ponto em que a locomotiva não consegue mais puxar adequadamente todos estes vagões e, mais incrível ainda, a locomotiva de uma composição já está encontrando o último vagão da próxima, quase não dispondo de espaço para mover-se.

Então chega um ponto, neste sistema, em que a composição só consegue ir para onde a composição da frente está indo, pois não consegue desmembrar-se nas intersecções nem adentrar nos desvios que pretendia. Sabendo disso, os operadores deste sistema mandam as grandes composições para os destinos mais desejados, sem observar se há usuários que compraram passagem para outros destinos.

Depois de um tempo as composições deixam definitivamente de ser orientadas pelo destino informado, mas tão somente levam onde puderem levar e cabe aos usuários decidir onde desembarcar, mesmo pelo meio do caminho, antes que acabem desviados demasiadamente.

Neste ponto, a grande locomotiva e suas composições acabam por deixar de ser instrumentos de transporte… tornam-se tão somente instrumentos de arrecadação de gente e de passagens. São mais competentes em oferecer trabalho aos operadores que em transportar passageiros e cargas, mas se contentam com isso, pois se está dito na passagem e no letreiro que hão de chegar em Brasília, pouco importa se o usuário terá de passar por Manaus, Porto Alegre e Salvador antes… ainda que não queira, ainda que demore.

O sistema judiciário não pode se tornar algo que existe por si e para si. Não pode se contentar em judicializar todos os eventos da vida. Não pode se imiscuir da estatização de tudo. Se é verdade que quanto mais processos mais poder terá o Judiciário, também é verdade que esse não pode ser o seu objetivo. O Judiciário existe para resolver os conflitos entre as pessoas. Resolver os conflitos não é simplesmente resolver processos, pois resolver processos pode, ao final, se tornar criar novos conflitos em série para alimentar o sistema de conflitos e de usuários e de orçamento e de cargos, etc.

Acontece que a locomotiva já está embalada e, se parar, a de trás não conseguirá frear. Como faremos?!

mudança 6 x 5 impunidade reacionária

Consegui acompanhar praticamente todos os votos do julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula no STF, neste quatro de abril, até quase uma da manhã do dia cinco. Acompanhar julgamentos de últimas instâncias é sempre didático aos operadores do Direito.

Em que pese a demora, se fizermos uma média cada julgador falou menos de uma hora, o que é compatível com a magnitude do que se debatia. Decisões colegiadas do STF sobre temas de impacto social raramente têm unanimidades e conciliação. É um embate de valores que se transforma em debate jurídico.

O Ministro Luis Roberto Barroso deu aquele que é melhor e mais importante voto que acompanhei nestas minhas duas décadas de Direito. Foi um voto maduro, acolhedor, atento ao país e ao Direito, corajoso e o mais importante, foi um voto técnico, jurídico, profissional. Foi brilhante!

Os votos de Marco Aurélio Mello e Celso de Mello representam justamente o pensamento jurídico que nos torna o país mais violento do mundo, seja em termos de mortes no trânsito ou por mortes intencionais com armas, e um dos mais corruptos do mundo. Ao meu redor, diversos colegas se manifestavam pra lá e pra cá e se via que era a orientação político-ideológica que motivava aqueles que entendiam pela concessão do Habeas.

Quando um Ministro do STF diz que o clamor das ruas não lhe move qualquer influência para decidir contra ou a favor de um paciente está dizendo que vive no Olimpo e que o clamor humano não lhe atinge. É simples assim. Todos queremos um julgamento justo a quem quer que seja. E justiça não é permitir que crimes prescrevam, que culpados se livrem, que crianças cresçam e morram no país mais violento do mundo. Para justificar essa violência que decorre da impunidade, os grupos que atuam (consciente ou inconscientemente) a favor da manutenção dessa postura jurídica tradicional colocam a culpa da violência na distribuição de renda e nos problemas sociais, como se ricos não cometessem crimes e como se pessoas nascidas desprovidas de regalias materiais não pudessem ser honestas. É absurdo, antigo e incoerente.

Gilmar Mendes defendeu sua mudança de entendimento nas “falhas da justiça”. Ora, corrija as falhas! Aponte as soluções! É tão flagrante que existe uma intenção camuflada que dispensa maiores debates.

Os ex-presidente Lula é dos piores demagogos que tivemos. Das piores pessoas que vi atingirem o poder. Vende uma ideia santificada que lhe foi fabricada como fantoche. É um ser humano comum que se endeusou, Lula não é um quinto do que acredita ser. Tornou-se um símbolo caduco de uma velha foma de ver o mundo e exercer o poder. É usado e usa. É ação e reação. É culpado com consciência parcial de todo o mal que já causou porque lhe falta capacidade e autocrítica de reconhecer o que já fez. Lula morrerá um dia achando-se vítima sem cair-lhe a ficha do absurdo que representa em termos de ideais e de valores retrógrados. Ao seu redor, todos que têm um mínimo de consciência desmistificam esse mito, que ousa se comparar aos incomparáveis.

O STF foi Supremo. Foi o que se espera de uma Corte de referência. Seus velhos e antigos pensadores, espero, o deixem em breve para que possamos ir adiante. Estamos cansados de viver com os mesmos problemas há cem anos.

O Brasil que eu quero não precisa de vídeo no celular. Precisa de justiça, precisa acabar com a impunidade sem ser autoritário, precisa mostrar para quem escolhe o caminho do dano alheio de que o Estado serve para conter tais posturas e não para protegê-los.

 

Incoerência Polarizada

Caso você se preste a analisar os argumentos das disputas no espectro político-ideológico não terá dificuldade de constatar que há em cada lado o que se acusa no outro.

Veja, por exemplo, a crítica do pessoal de esquerda aos cristãos, de que são armamentistas e, assim, nem tão pacifistas quando seu mestre ensinou deviam ser. Seu mestre, continuam, não julgaria gays e marginais como o fazem.

Do outro lado, a crítica do pessoal da direita aos marxistas de Iphone, grande maioria oriunda de universidades e da classe média, como Marx, que nunca soube o que era trabalho duro e exigia que os ricos dividissem sua própria riqueza, mais não se dispunha nem a criar mais riqueza para fazê-lo, nem a dividir a que já tinha.

Esquerda grita com ódio nos olhos que os brancos e ricos odeiam os negros e pobres.

Direita rebate dizendo com ódio no discurso que os esquerdistas demagogos criam esta disputa por estratégia ideológica, ao invés de provar em atitudes que não são o que lhe acusam.

Há idiotia em qualquer classe social, em qualquer cor de pele, em qualquer orientação sexual. Há ódio e raiva em qualquer alma humana e a capacidade de reverter isso em algo mais nobre também. Não tenho relutância em afirmar que o discurso da esquerda marxista é bobo, imaturo e repleto de incoerências que se provam pela simples impossibilidade de implementação em qualquer época, em qualquer lugar, sempre que se tentou. E no caso sul-americano, o marxismo é tão presente que considera a social-democracia parte da direita… um absurdo. Foi o Partido Social Democrata alemão que transformou Marx no mito que hoje se conhece.

A direita, que é mais madura efetivamente em seu discurso, poderia sê-lo também ao rebater os frágeis argumentos marxistas. Sabem por que não é!? Porque todos temos nossos limites, nossos defeitos. Todos somos dotados de acertos e erros em nossas avaliações, em nossas análises.

A disputa de argumentos vai longe ainda. Poderíamos passar para um outro nível de diálogo, em que a efetividade fosse mais importante.

Dou exemplo (e posso estar errado): sou contra a liberação da maconha, mas sou a favor de liberá-la para que se verifique se a tal liberação ajudará a diminuir a criminalidade. Nos países em que se está tentando, há experiências positivas e negativas. Tenho particular convicção de que não vai, como tive com relação ao desarmamento da população civil. Mas precisamos permitir que certos experimentos sociais sejam implementados e precisamos olhá-los exatamente como experimentos, com atenção e olhar crítico.

Por outro lado, também precisamos acirrar nossa luta contra a impunidade e deixar de lado o discurso permissivo e vitimista. Do jeito que alguns pensam no Brasil, parece que por se ser pobre e vileiro o indivíduo precisa ser criminoso… o que é um sofisma infantil.

Brasileiro é violento, é desrespeitoso, é leviano, é parcial. Mas também é persistente e alegre e empático. Quem nos estuda deve considerar isso ao propor suas teses. Ficar alardeando que aqui se mata mais gays que em qualquer outro lugar do mundo é hipócrita, pois aqui é dos lugares que se mata mais qualquer tipo de gente. É desse tipo de debate que não precisamos.

Há hoje no mundo – não é um privilégio só nosso – uma polarização hipócrita e incoerente. Virou jogo de futebol a discussão política. Quero crer que seja positivo, pois ao menos estamos popularizando o debate. Contudo, o ser humano depende de suas lideranças – crer que a massa das pessoas vai agir com nobreza é algo, infelizmente, impensável. E as lideranças no regime democrático sabem dizer o que a maioria quer ouvir, ainda que seja o lixo. Por isso que aqueles que têm condição de lutar contra essa mesmice, contra essas bobagens, contra a adolescência da humanidade, precisam ajudar o debate a ir adiante.

É do mais preparado que precisamos esperar mais… e os mais preparados têm fugido desta responsabilidade.

 

A Intervenção no RJ

Presidente Michel Temer decretou a intervenção militar na área de segurança pública no estado do RJ. Hoje (19/02/18) o Congresso deverá autorizar a medida.

O Rio de Janeiro é um estado em guerra urbana há décadas. A ausência de Estado que hoje existe nos presídios brasileiros existe há décadas nas favelas e/ou comunidades fluminenses. O que se pode imaginar em termos de políticas públicas já foi testado por lá. Escolas de tempo integral, polícia pacificadora, intervenção militar e policial, a própria permissibilidade e tolerância ao tráfico. De tudo. Tem mais ONG no RJ do que nas outras regiões brasileiras. A renda média do fluminense também é uma das maiores do Brasil. E é inegável que há um abismo social entre a zona sul e as demais regiões cariocas. Assim como é inegável que a classe média carioca e os turistas são os principais financiadores do crime por lá.

Há premissas que se pode exarar sobre a realidade fluminense:

  • leis de restrição ao uso de armas são inócuas para a cultura e a realidade brasileira
  • a corrupção sistêmica instala-se também na cultura e no tecido social
  • o tráfico é o grande gestor da criminalidade e atrai pessoas de todo espectro social
  • não há tropa e estrutura suficiente para combater o que é socialmente tolerado
  • a inteligência das forças de segurança está limitada pela capacidade operacional

Dito tudo isso para afirmar que não há dúvidas de que uma intervenção militar é das poucas (se não a última) alternativa para começar a resolver o problema.

Mas não essa intervenção fajuta deste governo de raposas.

Michel Temer é o Presidente brasileiro com menor aceitação que se conhece. Tão comprometido moralmente como seus antecessores, tem a pecha de golpista e consegue desagradar gregos e troianos, ainda que tenha devolvido a economia brasileira aos trilhos. Temer poderia, com seus resultados econômicos, ser visto como um reconstrutor das ruínas deixadas pela bomba petista, mas não consegue simplesmente porque pertence ao grupo que tem dominado o país há décadas e que soube ardilosamente se livrar dos seus marionetes quando estes passaram dos limites da roubalheira e do idealismo. Assim, desagrada trabalhadores, imprensa e a classe média.

Tudo é tolerado por dinheiro no Brasil. Até a ideologia oponente é tolerada.

Pois Temer percebeu que ia perder a reforma da Previdência Social (outra necessidade brasileira, mas não essa reforma Frankstein) e está cansado de não ser reconhecido como gostaria.

Temer percebeu que há um movimento nacional de apoio aos militares, que chega ao ponto de pedir que se faça um golpe ou uma intervenção.

Temer sabe que Bolsonaro (um direitista) tem reais chances de ir a um segundo turno nas eleições presidenciais.

Temer e seus cabides sabem que a esquerda (a qual pertencem) está comprometida moralmente aos olhos do povo, mas ainda assim o brasileiro se identifica com medidas populistas.

Voulà! Soa como uma ideia genial para seus apoiadores transferir o poder de gestão da segurança do lugar mais deflagrado do país aos militares. Se der certo tornam-se os salvadores da pátria. Se der errado (e vai dar) a culpa será dos militares (como no passado) e se ganha mais uma década de embates entre direita e esquerda (detesto estes esteriótipos, mas é o que se usa).

O Exército Brasileiro vai exercer o melhor possível seu papel neste teatro, tenho certeza. Torço para estar errado quanto aos resultados desta operação, como torci para estar errado com os governos petistas. Mas, ao final, não estava.