Cristo(s)

José Saramago, ateu, escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, livro que lhe alçou ao Nobel de literatura. Nessa obra, um ateu apresenta a sua visão sobre Cristo, onde o Filho do Homem é tratado como um personagem histórico e humano, sem os adjetivos que costumeiramente lhe são atribuídos. Saramago é português e precisava ter extremo cuidado para dar a sua narrativa uma visão que pretendia “humanizar” Jesus sem desrespeitar a fé do seu povo. Conseguiu. A obra é espetacular.

Jesus não é o mesmo personagem divino para Judeus e Muçulmanos. Nestas outras religiões monoteístas, Jesus é um profeta, não o Deus vivo. Essa diferença, provavelmente, é o que faz com que cada uma das crenças se mantenha distinta.

Há um Jesus menos estudado pela maioria das pessoas, um Jesus mais místico, que teria sido casado com Maria de Magdala (Madalena) e com ela teria tido uma filha. Esse Jesus ainda é tratado como um messias e um iluminado, mas menos divino do que a visão católica. Podemos ver essa abordagem no filme (e livro) “O Código Da Vinci”, que é um romance baseado em obras místicas muito antigas e, hoje, retomadas ao debate graças aos Manuscritos do Mar Morto.

Há outro Jesus (e creio que surpreenderei alguns) que é a reencarnação de Buda e Krishna. Ele é tratado na obra “O Redentor”, de Chico Xavier.

Jesus é muito mais do que a Igreja Católica Apostólica Romana pretende e essas abordagens referidas demonstram isso. Mas nenhuma dessas abordagens o desrespeita.

Acho o ateísmo uma soberba, uma imaturidade. Contudo, jamais acharei o ateu uma pessoa menor do que o crente. Todos nós temos aspectos do nosso ser mais ou menos preparados, melhor ou pior desenvolvidos. Digo isso para, primeiro, afirmar que entendo porque alguns não creem em Deus e, segundo, porque acho que isso é aceitável (embora não seja bom). Isso não me dá o direito de debochar, nem ironizar, especialmente de forma pública quem assim pensa.

Numa época em que se brada tanto por aceitação, a melhor forma de aceitarmos o novo é reconhecermos que nem tudo é tão novo, nem tudo é tão velho. As visões de mundo e as reflexões sobre o mundo estão aí há milênios. A cultura humana não chegou até aqui por acaso. O que há de nos diferenciar não são nossas bandeiras, que nos apartam apenas por aspectos externos, mas sim nossas atitudes.

Há muitas visões de Cristo na história e, entre determinados grupos, cada uma delas é debatida e elaborada. Todas são visões de aprofundamento e, de algum maneira, veneração. Os católicos se autodenominam os detentores da verdade sobre Jesus e, para impor sua versão, já fizeram de tudo, desde as Cruzadas à Inquisição. Não o são. Mas isso não faz deles rivais dos demais. Faz deles apenas diferentes. Respeito seu ponto de vista, mas não as suas atitudes de impô-lo no passado.

O que não se compreende é a necessidade dos que não acreditam em Jesus ficarem repetitivamente buscando ofendê-lo e/ou ofender a crença dos que acreditam. É essa a “tolerância” dos nossos dias?! É isso o melhor que se consegue oferecer de oposição ao conservadorismo!?

Jesus é o maior personagem da história humana. Toda menção a ele deve ser feita considerando isso.

 

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Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

Discurso de Formatura FACSUL/Unitins 2010

Em 2010 fui agraciado com o convite para ser paraninfo da Turma de Fundamentos Jurídicos do centro EAD Facsul, vinculado à Unitins. Eis…

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Excelentíssimos integrantes da mesa, especialmente Sra. Núbia Peixoto, representante do Magnífico Reitor… Sra. Medianeira Sutel, Sra. Silvana Santos e Sra. Valéria Monteiro, paraninfas homenageadas… Sra. Rute Fávero, Sr. Antônio Prestes e Sra. Audrew Tatiani, patronos das turmas… Meu grande e querido amigo Marco Antônio Oliveira, aos parentes e amigos presentes e, especialmente, aos meus amigos e amigas formandos.

Muito boa noite!

É para vocês que quero dizer algumas palavras, queridos!

Lembro com muito carinho de quando nos conhecemos, na Turma de Fundamentos Jurídicos, às quartas-feiras à noite. Desde o início sempre admirei vocês por estarem ali, buscando melhorar, lapidando esse presente divino que é nossa capacidade. Sempre os vi como exemplo gratificante de esforço – embora vocês pudessem ter tido um pouco mais de esforço, como sempre se pode. Era um momento da minha vida em que enfrentei severas dificuldades e tanto a Facsul como este grupo serviram-me de alegre intervalo entre as minhas batalhas.

Muito obrigado!

Estudar é algo mágico!

Nenhuma pessoa entra numa academia e sai do mesmo jeito. Lembro que “academia” é uma palavra de origem grega, que servia para referir a escola criada por Platão para ensinar filosofia aos seus alunos. Platão, se me permitem o breve comentário, foi muito mais do que um filósofo. Ensinou, por exemplo, Aristóteles, que ensinou Alexandre o Grande, que dominou o mundo. Ensinou a tantos, que ensinaram os essênios, que ensinaram Jesus, que mudou o mundo.

Ele trouxe reflexões profundas sobre o se portar, o conviver, como ser uma pessoa melhor… pois isso tudo é a chave da felicidade!

Vejam, o estudo é uma das melhores ferramentas para sermos felizes de verdade! E todos sabemos ou precisamos saber que nosso objetivo de vida é a felicidade!

Não se estuda para ganhar uma promoção. Não se estuda para pendurar um diploma na parede. Não se estuda por estudar. Isso tudo não é estudar!

Estudar é refletir e pôr em prática. Estudar é ver a prática e refletir… e voltar para pôr em prática algo melhor. Como vocês podem perceber, isso é algo que não tem fim… e, como já falei, isso é mágico.
A vida tem muitos mistérios. E ela é muito mais rica para aqueles que são mais perspicazes e atentos. Quanto mais atenção dermos às coisas da vida, mais veremos a sua riqueza. Não a riqueza das jóias, dos eletrônicos, das grandes construções – que são boas riquezas. Falo da riqueza maior, a de sentir a vida!

A vida é mágica porque existem certezas que precisamos nos lembrar e isso não é um problema. Vejam:

Sofreremos! Cedo ou tarde.

Perderemos! Muitas vezes.

Erraremos! E pedir desculpas é o mínimo.

Sentiremos raiva… e precisamos aprender a nos achar para, nestes momentos, não nos perdermos.

Sentiremos culpa… e precisamos aprender a nos desculpar para não morrermos cedo demais.

Nós morreremos e, pior que isso… quem nós amamos morrerá… e precisamos aprender a viver e amar enquanto podemos!

Vejam quantas coisas doloridas referi! E ainda assim temos todas as condições de sermos felizes! É só APRENDERMOS. Essa é uma das mágicas dualidades da vida: a certeza de que passaremos por momentos difíceis e, ainda assim, a certeza de que passaremos por momentos felizes. Os momentos felizes são os que dependem de nós, virão apenas se nos esforçamos.

Aprender é a chave! E aprender é algo absolutamente pessoal. Não se transfere, não se doa, não se herda educação. Ou se esforça em tê-la e em vivê-la, ou não se a conhece.

Por isso o orgulho de vocês! Quem busca a educação diante das dificuldades que são naturais em tê-la, está, na prática, tentando ser feliz! É um atestado que diz mais ou menos assim: “atesto para os devidos fins que eu quero algo melhor para mim”.

Vocês estão atestando isso hoje! Por isso estamos todos nós aqui felizes! Viram como o estudo é mágico!

Para quem vai trabalhar com o Direito, seja como operador, como servidor, como policial, como assessor… afirmo: vocês terão muito trabalho pela frente. O Direito tem essa imagem romântica de que serve para regular a vida das pessoas… e é uma imagem parcialmente equivocada, pois quem regula a vida das pessoas é a educação e o livre-arbítrio de cada um. O Direito apenas nos diz o que o Estado – o centralizador das ideias gerais – quer de cada um de nós.

No nosso sistema, muitas vezes torna-se irrelevante o que está na lei: o Direito que se aplica a cada uma das relações do dia-a-dia é o que escolhemos praticar; o Direito que se aplica a cada uma das pessoas que procura o Poder Judiciário é aquele que o Juiz decreta. Viram, nem uma, nem outra alternativa depende exclusivamente da lei… Por isso a importante habilidade de se construir um bom processo, de se formar uma boa base de fundamentos e de se relacionar e se expressar bem. E isso vem, novamente, através do estudo!

Quanto mais elaborada for a função de vocês, quanto mais velhos vocês se tornarem, quanto mais responsabilidades a vida lhes trouxer, mais chances de errar, de perder, de sofrer vocês terão… porque também terão mais chances de vencer, de acertar, de alegrar. Isso é bom demais! Quando vocês superarem essas dificuldades, mesmo sem platéia, mesmo sem recompensa, mesmo sem manchete… vocês se sentirão como Alexandre o Grande… vocês conquistarão o mundo.

Não fujam das grandes responsabilidades, das árduas dificuldades, das dolorosas conversas, do perigoso enfrentamento… Fugir disso é fugir da chance de serem realmente felizes!

Como disse o ex-astronauta Neil Armstrong ao pisar na lua: “esse é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Cada vez que um de nós vencer, a humanidade venceu. Hoje nós todos somos vencedores porque vocês venceram!

Começo a terminar meu discurso aqui, agora, com alguns lembretes:

(1) Não é à toa que os vencedores dizem que precisamos acreditar nos nossos sonhos! Não é à toa.

(2) Tudo que existe no mundo foi criado por alguma mente. Tudo é projeto mental… Tudo que está no mundo material, um dia esteve na idéia de alguém, seja na de um ser humano, seja na de um ser divino.

(3) É muito difícil encontrarmos equilíbrio e felicidade sem quatro grandes pilares: família harmoniosa, corpo saudável, mente rica e alma iluminada. Não esqueçam da alma… é o que tem faltado no mundo de hoje!

(4) Filho de peixe é peixe. Filho de águia é águia. Filho de leão é leão… lembrem-se sempre que somos filhos de Deus.

Que Ele abençoe e ilumine a cada um de vocês! Muito obrigado por esta honra inesquecível que vocês me deram. Boa noite!

Ponto de Vista

Ponto um: eu me cansei de ser genericamente chamado de machista, racista, homofóbico e explorador por ser homem, branco, hétero e empresário. Já faz uns três ou quatro anos que estou farto disso e, para não começar a odiar quem vive repetindo esse discurso pobre e triste, me desliguei.

Ponto dois: é por sentir isso que me compadeço com o que passam os gays, os negros, as mulheres vítimas de seus companheiros e todas as demais pessoas que são desrespeitadas por este ou aquele agressor. É sempre importante reconhecermos que existem sim problemas graves de desrespeito e intolerância. Contudo temos de reconhecer também que a forma de se lidar com tais problemas tem sido muitas vezes retribuir a agressão com outro tipo de agressão, a discriminação com outro tipo de discriminação, a violência com outra forma de violência e o desrespeito com um revide de desrespeitos.

Ponto três: sabendo disso, temos de parar de criar divisões e impor condutas. As pessoas têm todo o direito de serem diferentes e de pensar diferente. Elas têm até mesmo o direito de odiar… desde que se mantenham contidas nessa postura. Chega de ficarmos criticando quem quer mudar ou quem quer continuar sendo como sempre foi.

Ponto quatro: numa época de superexposição, parece importante expor tudo o que somos e pensamos. Nem tudo precisa ser exposto, principalmente aquilo que não vai colaborar, que vai apenas extravasar algo que é nosso e não precisa ser compartilhado. Guarde seu ódio e o leve para seu terapeuta. Trate sua raiva ou sua frustração, seja a de ser hétero, de ser homo, de ser burro, de ser corno, a que for. Tudo tem meios de ser melhorado com a conduta adequada.

A polarização é a falência do raciocínio

Disse Nelson Rodrigues que toda a unanimidade é burra e digo eu que a polarização é pior. Não que a polarização seja necessariamente burra, não o é, mas é pior porque nela a razão foi posta de lado. A polarização transforma o debate em embate, é paixão. O melhor raciocínio não é utilizado para avaliar a pauta, mas para afirmar o seu argumento diante do argumento alheio.

A polarização desconstrói o que foi construído, desvaloriza o oponente como uma disputa de guarda no Direito de Família, como se todo o amor que um dia se possa ter sentido tivesse se transformado em rancor e raiva.

A polarização deixa de lado qualquer possibilidade de entendimento quanto mais se passa o tempo, porque são tantos os ataques e os contra-ataques que, anos depois, não se sabe nem o motivo da disputa. Cada lado se sente o defensor da verdade e usa todo o seu arsenal para defendê-la. É como se alguém te xingasse e você sacasse uma arma e atirasse em revide e depois dissesse: “mas foi em legítima defesa, ele começou”. O tempo não ajuda o debate, o piora. São os debatedores (alguns) que, mais maduros, mudam o jeito de debater.

É a atitude polarizada que afirma que “bandido bom é bandido morto”, que “empresário só pensa em dinheiro”, que “funcionário público só olha pros seus privilégios” e por aí vai. Porque muitas vezes essas frases podem ser verdadeiras a esse ou aquele caso concreto, mas o raciocínio polarizado generaliza a análise e radicaliza a atitude.

Tenho de admitir uma coisa, contudo: a polarização é uma evolução à apatia. Sou dos que acredita que o ser humano jamais deixa um extremo para centrar-se. Ele cambaleia entre os extremos, num movimento pendular, até que esse pêndulo perde a força e acaba ao centro, no meio termo. Assim somos nós e nossas atitudes.

Então, meus amigos e amigas, respeitemos quem ainda não está pronto para debater com maturidade certos temas. Não que tenhamos de aceitar passivos suas impertinências… mas entendamos que tudo tem seu tempo. Chegaremos lá.

O Racionalismo Materialista

A medicina que cuida das emoções, da psiquê, da personalidade tem pouco mais de cem anos. Teve em Freud e Jung os seus protagonistas de maior relevo. Isso no ocidente, claro. Os egípcios, os maias, os chineses sempre associaram a saúde do corpo à saúde da mente, a ponto de influenciar o berço do racionalismo ocidental na Roma e Grécia clássicas, com a máxima “mens sana in corpore sano”. Por séculos os estudiosos do corpo eram filósofos, religiosos, curandeiros, xamãs, que associavam o comportamento à saúde. Com o desenvolvimento do racionalismo foi-se criando um distanciamento entre corpo e espírito e, consequentemente, uma divisão cada vez mais clara entre espiritualidade e ciência. Clara do ponto de vista racional.

O racionalismo tem em Descartes (“penso, logo existo”) em Kant seus protagonistas, sendo fonte do chamado pensamento liberal. Pelo racionalismo clássico tudo tem um propósito, uma finalidade, e essa busca é tarefa da razão.

No século XIX o racionalismo era a corrente filosófica que dominava o pensamento científico, em derrubada ao Iluminismo. Essa visão racional da vida influenciou pensadores de todas as vertentes – e também Marx e Engels. Esses filósofos criticavam o pensamento liberal e buscaram contrapô-lo firmando análises e conclusões racionalistas aos problemas sociais que enfrentavam. Daí surgiu o chamado de Racionalismo Materialista que, de forma sintética, afirma que os modos de produção estruturam a vida social e espiritual. O Racionalismo Materialista é ateu e antirreligioso (leia “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiesvski), postura que desde sempre logrou o repúdio dos religiosos de toda a ordem.

Então Freud e Jung trazem à ciência a ideia de que há efetivamente algo além da matéria e de que a razão não consegue regular e entender toda a análise existencial. Há um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo. Há um subconsciente que nos governa o comportamento (leia “O Poder do Subconsciente”, de Joseph Murphy). Há um manejo da razão feito por nossos instintos e emoções – e vice-versa.  E há uma linguagem simbólica, onde até mesmo do ponto de vista racional analisamos o mundo e a nós mesmos com base em arquétipos.

A história humana é marcada por disputas de poder, pela violência, pela lascívia. E também pelo heroísmo, pela benevolência, pelo altruísmo. Com pequenas exceções, o mesmo ser humano desfruta ora de um comportamento, ora de outro, motivado por senso e sensibilidade. O ser humano que nasce não é o mesmo que morre, mas pode sê-lo. Há um livre arbítrio e uma condição social a moldar seu caminho existencial.

Pois bem, cá estamos a refletir sobre o Racionalismo Materialista, que ainda persiste em nossos dias a influenciar intelectuais, por mais desastroso que tenham sido suas tentativas de implementação. Por que não dá certo? Por que ainda tem simpatizantes?

Primeira resposta: o materialismo é impossível, irreal. O mundo não é material (no sentido filosófico). A humanidade tem mais condições de sobreviver ao fanatismo religioso que converge do que ao materialismo que diverge pontos de vista. A razão tem como limite a razão do outro. É impossível um sistema baseado em algo tão individual conseguir angariar esforço para um propósito por tanto tempo, porque há de divergir em algum momento e enfraquecer-se. A razão não é, como se pretende, definitiva. Sua linguagem é sazonal, pessoal, temporal, limitada. Se o racionalismo tem um limite o racionalismo materialista é ainda mais limitado. E não é que sejam inúteis, nem que estejam errados. É que a “linguagem” racional não é bastante e reconhecer isso faz parte da solução deste problema.

Dito de outra forma, o racionalismo materialista apenas produzirá resultados (ainda que limitados e diversos do pretendidos) naqueles seres humanos que falarem a mesma língua e intentarem os mesmos propósitos. E, sabemos, a humanidade é muito maior que uma corrente filosófica.

Sobre a segunda pergunta: os simpatizantes são aqueles que se identificam com a simbologia (racional) materialista. São os ateus, os antirreligiosos, os materialistas. Não há coerência (racional) em viver uma religião e ser marxista. Não há coerência (afetiva) em acreditar nas leis de causa-efeito e revoltar-se com a vida. Seus simpatizantes são e sempre serão uma minoria em transitoriedade por este pensamento que cerceia qualquer outro pensamento.

O racionalismo materialista tem como limite, por isso, a própria evolução humana. E por isso não acredita nela, por isso combate qualquer filosofia evolucionista. Embora seja escancarado que o ser humano progride, ainda que aos poucos, o racionalismo materialista precisa não reconhecer esta evolução, pois se o fizer contradiz-se.

Jung acreditava que o comunismo era uma patologia. E é.

Dilema Existencial

A humanidade mescla essa coisa de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Todos nós trazemos um pouco disso no nosso âmago. Temos uma diversidade de perfis quase infindável, que produz gente com atitudes divinas e infernais. Na maioria das vezes o ser humano médio carrega ambos perfis.

Darwin disse que estamos fadados à evolução. Dizem alguns que a referência dele é quanto à evolução biológica mas creio que ele falava existencialmente, inclusive do ponto de vista biológico. O Evolucionismo é fato, é lei natural. Quem duvida que a humanidade é melhor hoje do que era há 10.000 anos?!

Sei que muitos duvidam.

O motivo disso é porque alguns fazem a avaliação da evolução humana do ponto de vista meramente comportamental, sem olhar a tecnologia, a construção social. Pensam assim: há mil anos o ser humano matava por dinheiro e ainda mata. Ou: há cinco mil anos tínhamos guerras e ainda as temos.

Sob esse ponto de vista, estão certos. Por isso que somos uma mistura de escola, hospital, parque de diversões e inferno.

A humanidade é composta de gente de todos os níveis morais e intelectuais. É justamente essa mistura que nos causa tamanhos conflitos.

Imagine você que todos nós fôssemos sanguinários e matássemos uns aos outros para conseguir comer, por exemplo. Não nos causaria sofrimento matar o vizinho para roubar-lhe a comida. Acontece que é justamente a diferença de valores que dá à humanidade a condição de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Quando nossos valores forem mais uniformes seremos outra humanidade.

Enquanto isso, os mais evoluídos (digamos assim) sofrem com seus dilemas. Os mais animalescos não têm dilemas; fazem o que lhes dá vontade. Já os mais evoluídos precisam encontrar um equilíbrio entre o que desejam e o que precisam fazer para se proteger dos mais animalescos.

Imagina um antiarmamentista. Ele vive num mundo de gente violenta e armada. Então ele prega o fim das armas esperando que isso diminua a violência, mas não diminui.

Imagina o vegetariano. Ele defende que os animais sofrem ao serem abatidos e que não precisamos mais matar para sobreviver à fome. Mas tem gente, em recantos múltiplos, que ainda não tem o que comer regularmente.

O dilema existencial decorre da diferença de valores no âmago da humanidade. Quanto mais gente houver na Terra, mais diferenças haverão. E sempre haverá o mais bruto, mais violento, em confronto com o mais brando e pacífico. Entre eles estão os humanos que transitam entre o céu e o inferno, levando conhecimento, força e beleza onde isso não existe.

 

 

Presunção de Inocência

Nossa Constituição diz que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Aí vem o STF e inova, dizendo que a partir do julgamento colegiado de segunda instância já se pode executada a pena. Por que isso? Porque a presunção de inocência até o trânsito em julgado faliu. É um método indiscutivelmente gerador de impunidade.

Em tese, o ideal seria efetivamente que qualquer pessoa só fosse considerada culpada depois que não tivesse mais meios jurídicos de provar-se inocente. Isso num sistema ideal onde o Judiciário funcionasse rápido e as instituições não se contaminassem com as eventuais demoras ou com os eventuais reflexos disso.

No nosso caso isso falhou. Somos responsáveis pela sociedade mais violenta do mundo em mortes, seja no trânsito, seja em decorrência da criminalidade.

Nosso país é um continente. Faz fronteira seca e molhada com países que sabidamente são produtores de drogas ilegais para o mundo inteiro. Nas festas da Holanda ou nas boates de Ibiza os riquinhos que não sabem viver com tudo que a vida lhes deu financiam as mortes e a violência nas fronteias de Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil. Compram daqui porque ninguém em sã consciência seria produtor de drogas ilícitas num país sério, com polícia altamente capacitada e repressiva.

Aqui as balelas garantistas nos fazem terreno fértil para todo o perfil criminoso disponível no mercado. Desde a corrupção, até o tráfico, o roubo de cargas, as fraudes estelionatárias, os assaltos a banco e os latrocínios para roubo de veículos… tudo isso é resultado de uma atuação estatal que falha em todos os níveis: na legislação garantista, na interpretação judiciária excessivamente permissiva e costumeiramente omissa, na polícia eventualmente corrupta, no consumidor do crime que adora pagar mais barato sem se preocupar com a origem do que consome.

A sociedade brasileira elegeu o sistema da presunção de inocência até o trânsito em julgado porque é permissiva, porque se identifica com a impunidade e ainda prefere isso ao rigor da lei. Vozes mais lúcidas bradam uma mudança necessária, mas os vendedores de filosofia de apartamento batem pé. Felizmente estão perdendo espaço. A dor ensina a gemer e nossa gente já está cansada de chorar e secar lágrimas ao seu redor.

Meus amigos de infância

Prometi continuar a história da minha casa de infância (leia aqui: https://asluvizetto.wordpress.com/2017/05/25/minha-casa-da-infancia/) em que fui salvo por um amigo da vila onde me criei.

Antes tenho que dizer que dos melhores privilégios que a vida me deu foi ter tido tantos amigos na infância e juventude. Amizades de todas os tipos e intensidades, de todas as formas. Assim são as pessoas e assim são seus vínculos. Mudam, melhoram, pioram e vão se ajeitando.

Na mesma rua em que eu morava, mais pra baixo, perto da bica, bem próximo à casa dos meus avós, morava um amigo. Vou chamar ele de negão C. Naquela época era comum chamarmos nossos amigos negros de negão. Negão C. era um cara alegre, brincalhão e teve uma fase em que era muito brigão. Cresceu e entrou pros Fuzileiros Navais, antes de se tornar professor de história e geografia.

Pois quando tinha lá uns treze ou quatorze anos, minha turma fez um chá de arrecadação de recursos para a viagem de final de ano da 8ª série. Esse chá foi feito no salão de eventos da minha escola, que ficava ao lado da maior escola pública da cidade. Já havia uma rixa entre as duas escolas, como é comum nesse tipo de situação. Eu fui encarregado de cuidar da entrada no salão. Meu trabalho era ver se os visitantes tinham ingresso e orientá-los onde poderiam comprá-lo por uma bagatela que dava direito a comer e beber o que quisesse.

Pois lá pelo meio do evento um grupo de guris da outra escola apareceu e quis entrar. Eu, gentilmente, disse que poderiam adquirir o ingresso por um precinho e que isso dava direito a comer e beber de tudo. Logo vi que o interesse deles, na verdade, era me ou nos provocar. E logo se formou um círculo para brigar comigo porque eu não permiti que eles entrassem sem pagar. Alguns adultos, vendo a confusão, mandaram aqueles guris embora da minha escola. Isso foi num sábado à tarde.

Na segunda-feira seguinte quando eu estava saindo da sala para ir embora, o P.R. veio correndo me chamar: “Leco, tem uns cinquenta caras do Farroupilha lá na rua pra te pegar”. Confesso que não acreditei e paguei pra ver.

Quando cheguei em frente à escola era inacreditável a quantidade de alunos do outro colégio parados em frente ao meu, esperando pra ver a briga que, imagino, deve ter sido alardeada a manhã inteira por lá. Não eram cinquenta, eram mais de cem alunos, com certeza. Como eu ia a pé pra casa, caminhando uns 2km, não tinha alternativa. Tinha de passar pelo entrevero e arriscar a sorte.

Logo apareceu a turma que havia me provocado no sábado e apontaram pra mim. Uns vinte começaram a correr na minha direção e percebi que alguns poucos amigos corajosos, poucos mesmo, dois ou três apenas, iam se prontificar a me ajudar quando surge no meio daquele burburinho o negão C. e diz: “O que?! O cara que vocês querem pegar é o Leco?! Bem capaz! Vão ter de brigar de mano!”. Negão C. era amigo daquela turma e um dos mais influentes, pelo jeito.

Deu a briga. Deu mais umas duas ou três brigas, nos dias seguintes.

Para ter ideia do risco que corri e não sabia: o cara que brigou comigo foi morto ainda jovem; seu irmão, que quis brigar comigo tempos depois, foi preso por homicídio e tráfico; outro, que estava armado com uma garrucha no dia da balbúrdia, foi preso por homicídio em SC.

Tirei muitas lições desse evento e de alguns outros que decorreram. Esses caras, por exemplo, se tornaram meus amigos. Até os atendi como advogado, anos mais parte.

Até hoje não sei até hoje se o negão C. tem noção do quanto me salvou naquele dia. Obrigado cara! Te devo por essa e por aquela outra no Carnaval do Cantegril.

 

A Arma

Nasci numa família de homens armados. Armas de caça e de defesa eram comuns ao meu redor desde que era criança. Lembro de uma vez em que fui pescar com meu tio e primos, peguei seu revólver no porta-luvas do fusca, lá pelos doze anos, e fui severamente reprimido pelo tio na frente de todos por ter feito isso. A presença da arma exige disciplina e cuidado, regras que eu ainda não conhecia sobre a convivência com ela.

Na adolescência me tornei antibelicista. Achava desnecessária a presença das armas. Até meus vinte e poucos anos tive essa convicção fundada em diversas crenças que permeavam minhas reflexões existenciais. Aí, certa vez, já casado, acordei no meio da noite com um cara mexendo em materiais nos fundos do meu pátio. Esposa dormindo, suor na testa e um espeto na mão, cuidando para ver se o interesse do criminoso ia ser também pelo que estava dentro de casa. Ligar para o 190 foi inútil, sequer me atenderam.

Tempos depois, recebi uma ligação da minha esposa no meio da tarde, apavorada. Um cara tentara entrar em casa enquanto ela tomava banho. Gritou por socorro, nenhum vizinho ouviu. O desgraçado não conseguiu entrar porque as grades da janela impediram, mas ele tentou muito e gritou diversas bobagens pra ela.

Meu antibelicismo estava balançado mas ainda não tinha me rendido. E veio a primeira ameaça de morte. Vida de advogado que defende policiais nem sempre é fácil. Ali caiu a ficha de que não há sistema que te defenda da maldade. Não existe isso. Não ao menos nesse mundo de hoje, com os recursos e valores de hoje.

Meu antibelicismo vinha da ideia de que armas só causam dor,  maldades, danos. Projetava na arma apenas seu aspecto destrutivo, sem captar tudo que ela simboliza. Hoje percebo que era uma ideia juvenil e superficial. É a ideia de quem se sente seguro (ou não se sente responsável pela sua segurança), de quem vive em ambientes protegidos. Quando nos tornamos adultos e responsáveis pela segurança da nossa família isso ganha outros contornos.

As pessoas costumeiramente generalizam. Quem vive num apartamento ou numa casa de condomínio em zonas urbanas centrais tende a achar que todos gozam daquela mesma proteção. Ilusão! Devo ter ligado dezenas de vezes para a PM na minha vida. Lembro de uma única vez em que enviaram uma viatura, quando vi um cara no pátio da casa de um vizinho que estava veraneando. Todas as outras (e nelas incluem invasões a casas e estabelecimentos) não fui atendido. Fico imaginando como é em rincões ainda mais isolados, onde sequer se consegue sinal telefônico ou referências geográficas para que uma guarnição da PM te ache, se puderem atender a ocorrência.

Não é só a questão de defender-se de uma invasão a domicílio. É muito mais do que isso. É mais simbólico e representativo. Abdicar do direito de defesa quando se vive num ambiente de insegurança é negligência, covardia. Muito se diz que não se deve reagir e comprometer a vida por causa de um bem material. Acontece que esse discurso de valores (vida x bens) não é relevante ao teu opositor, o criminoso. O criminoso não se compadece com essa filosofia, pelo contrário. Ele se fortalece. Se sente mais seguro para a sua imposição. E isso repetido por anos e décadas cria uma sociedade dividida, onde a cultura da imposição criminosa e da não-reação se encaixam perfeitamente aos interesses do crime.

É óbvio que nem todas as pessoas têm condição de usar armas. Nem todas têm condição de dirigir, de pilotar, de graduarem-se. Essa análise de aptidão é relevante. O que não se pode é restringir o direito de defesa com base em crenças ideológicas, filosofia de apartamento ou teses inócuas. Não é sadio nem maduro viver num mundo que só existe na nossa cabeça. Essa imposição do artificial frente ao real é que nos faz perder cinquenta mil vidas por ano com a violência sem mudar o que dá errado.

Mais humildade! Mais autocrítica! As pessoas precisam enfrentar sua realidade.

Voltando às armas: elas são instrumentos, só isso. Como todos os instrumentos, podem ser usados de diversas formas, para diversos fins.

Imagina que só a bandidagem e os agentes estatais possam usar a internet, andar de carro, portar celulares. Bobo, não é?! Pois é isso que não podemos admitir com relação às armas, que são instrumentos de defesa imprescindíveis no mundo em que vivemos.

Vou adiante: precisamos parar de pautar a vida de todos como se fosse a vida de alguns. Se em determinada igreja não se admite determinado comportamento, pronto. Se em determinados bares se aceita, pronto. O mundo é grande demais para querermos que sejam todos iguaizinhos. Vamos tolerar as diferenças. Vamos aceitar que as crenças (e as necessidades) podem ser distintas e cada uma vivida no seu lugar. E nos lugares comuns, respeito.

Respeito é o que falta para que a criminalidade deixe de existir. Não é problema econômico, não é falta de inclusão, não é disputa de beleza ideológica. É falta de respeito e de instrumentos de imposição do respeito.