A morte da ovelhinha

Certa vez meu tio passou na minha casa e me convidou para irmos na área rural da nossa cidade buscar uma ovelha para assarmos. Meu filho, então com cinco anos, e eu embarcamos e rodamos uns 30km até chegarmos num dos tantos criadores da região. Ali em meio a tantas, meu tio escolheu a que mais gostou. O gaúcho criador logo a pegou pelas patas traseiras, a levantou e quando ia estocá-la eu disse: “para, espera…”. Vi que meu filho estava ali assistindo com uma mistura de curiosidade e medo. Tirei-o dali e o serviço foi feito. Voltamos pra casa com pouco mais de onze quilos de carne.

Agora leio algumas manifestações sobre o programa do Rodrigo Hilbert, quando mostraram o abate de uma ovelha. Me confesso cada vez mais assustado com a bolha em que algumas pessoas vivem.

A vida fora das grandes cidades e das áreas urbanas pode ser muito diferente do que alguns tentam impor com suas teorias. Mas não é o desconhecimento disso que me assusta. O que me assusta é a tentativa constante de se impor uma moral absoluta, politicamente correta e artificial.

Ninguém é obrigado a comer carne. Há restaurantes, sites de internet e grupos de estudo que ensinam muito sobre alimentação vegetariana, vegana e naturalista. Creio, sinceramente, que daqui a alguns milênios vamos achar absurda a carnificina que hoje alimenta nossas mesas, como hoje achamos absurdas algumas rotinas da humanidade do passado. Mas esse ainda não é nosso tempo, nem nossa cultura.

Então, por favor, respeitem quem tem outros desejos e valores. Respeite o homem do campo que vive do que cria e abate. Respeitem as pessoas que por opção, por inserção cultural ou por necessidade não podem se adequar à cartilha pós-moderna do politicamente correto.

Ao invés de nos assustarmos com o abate de ovelhas que são criadas para o abate, por que não escolhemos violências cotidianas mais absurdas e incoerentes?!

Quem quiser, que tire o seu filho da sala quando estiver passando o programa do rapaz. E saia junto. É simples assim.

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Democracia em obras!

A democracia é um sistema em constante reforma. Dito melhor, o Estado Democrático de Direito é um sistema em constante reforma.

Nada justifica melhor a existência de um sistema jurídico, baseado em normas previamente estabelecidas e conhecidas, do que saber-se o que pode e o que não pode ser feito. Goethe já dizia que preferia a injustiça à insegurança, o que demanda uma reflexão mais contextualizada do que estava a sustentar: preferia ele saber o que pode ou não fazer, mesmo que isso não seja justo, do que não saber e ser punido por algo que não sabia.

Então o sentido primário do Estado Democrático de Direito é a consciência, é ter ciência. É saber. Quando não sabemos como fazer o sistema tem de nos dizer quem dirá o que fazer. Portanto consciência e segurança. Se fizer o que está estabelecido como certo, não posso ser punido. Se fizer o que não é proibido, não posso ser punido. Dito diferente: posso fazer tudo que não é proibido sem ser punido.

O Estado Democrático de Direito é, portanto, um mantenedor de liberdades através da restrição clara de certas e específicas liberdades individuais. Diz o que não pode ser feito para que saibamos o que pode. E diz quem diz o que pode ou não pode ser feito.

E daí?

E daí que essas regras de convívio pessoal e social não são necessariamente estáveis e atemporais. Costumam mudar com o tempo, com a mudança cultural daquela sociedade. Há cinquenta anos mulheres eram subordinadas aos esposos e o adultério era crime.

A democracia é um sistema que se fundamenta na possibilidade de mudança institucional com base nas mudanças sociais. E vive-versa. Tudo muda, inclusive o governo. Muda a lei, muda o executor da lei, muda o julgador da lei, muda o criador da lei.

Toda vez que você ler algo que sustente ruptura está, genericamente falando, diante de tese antidemocrática.

Mas e quando é justo?! Justo, na democracia, é a combinação daquilo que é autorizado por lei e coerente. Não há justeza naquilo que não pode ser contemplado pela lei ou pela coerência sistêmica do ordenamento jurídico. O que não for contemplado pelo ordenamento jurídico sistemicamente falando é autoritário, porque resulta da percepção de uma pessoa ou grupo de pessoas e não do sistema democrático.

Não aceita a tese de que “neste caso melhor fazer diferente” porque isso á autoritário, por mais que pareça melhor. A não ser que desistamos do sistema democrático… aí são outros quinhentos.

 

 

A interiorização necessária

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Dos lugares mais bonitos que já passei está o litoral norte gaúcho, onde vivo há pouco tempo. É uma planície de alguns poucos quilômetros entre o mar e a serra do mar, repleta de vegetação que, especialmente no outono, fica espetacularmente linda. Na maioria são pequenos municípios e os maiores contam apenas com algumas dezenas de milhares de habitantes. Ainda se cumprimentam os vizinhos na rua, ainda se vê alunos com brincadeiras ingênuas nas escolas e ainda se sente espanto com as coisas que se vê na televisão.

Recentemente uma vizinha do meu condomínio, ela moradora de Porto Alegre, veio a Capão da Canoa e foi assaltada no salão de beleza. No mesmo dia ela voltou à capital assustada. Foi refugiar-se onde se sente segura (?!). O detalhe é que o assaltante foi preso pouco depois pela polícia, como normalmente acontece por aqui. Aqui a polícia tem mais condição de enfrentar uma criminalidade não tão repetitiva, não tão violenta, nem tão preparada.

Morar no interior é o avesso do ideal médio no nosso país. 85% dos brasileiros viviam em zonas urbanas em 2015. Até aí tudo bem, pois nem todo mundo nasceu para viver na roça da atividade rural. Mas precisamos mesmo viver em grandes cidades?! Em aglomerações de milhões de pessoas?! Pra quê?! Por quê?!

Nos Estados Unidos existem mais de 320 milhões de habitantes. Lá apenas nove cidades têm mais de um milhão de moradores.

No Brasil somos perto de 207 milhões de pessoas. 17 cidades têm mais de um milhão de habitantes.

Pra que se tenha ideia, veja algumas grandes cidades americanas que tem próximo de 700.000 habitantes: Boston, Detroit, San Francisco, Washington, Seatle, Memphis. Algo como, no Brasil, falarmos de Natal, Nova Iguaçu, João Pessoa, Uberlândia, Jaboatão dos Guararapes.

É compreensível que a concentração de riqueza seja maior num país em desenvolvimento e isso repercuta na geografia das cidades. Com certeza estamos muito longe de entregar aos moradores dos pequenos municípios os serviços públicos e privados que tornaram-se indispensáveis. A falta de empregos qualificados também é um grande problema, afinal as empresas e os órgãos públicos não estão lá.

Contudo a vida nos centros urbanos brasileiros atinge o nível da insuportabilidade. E precisamos pensar num meio de enfrentar isso.

O Estado naturalmente enfrentaria as grandes mazelas urbanas nacionais se descentralizasse as suas atividades. Por que a universidade federal precisa ficar na capital? Por que as academias de polícia, os arquivos públicos, os centros de formação estatais tem de ficar lá?!

Por que não incentivar a instalação das grandes empresas em locais interiorizados?! Porque demanda do Estado uma melhoria na infraestrutura que não consegue atender. Então a solução é, por certo, conceder benefícios aos empreendedores que se dispuserem a tais investimentos. Interiorizar não é apenas melhorar o interior, mas principalmente melhorar os grandes centros, retirando das metrópoles as pessoas que ali vivem porque precisam e não porque querem.

A interiorização depende da modernização da legislação tributária (permitindo compensações de investimento), da legislação trabalhista (regulando home-office e serviço itinerante ou com escala flexível), dos serviços públicos. Há muito a ser feito, mas precisamos começar de alguma forma e um bom começo é mostrar que se pode viver bem em outros lugares que não em ruas abarrotadas de carros e poluição e barulho.

Interiorizar o Brasil é a solução de quase todos os problemas dos grandes centros. E principalmente dos pequenos. A qualidade de vida agradece.

 

 

 

Tese: por que somos assim

Todo mundo tem a sua, então aqui vai minha tese de por que nós, brasileiros, somos como somos.

Até 1808 o Brasil era o quintal português. Saiu daqui mais madeira, ouro, especiarias, cana-de-açúcar e café do que jamais a Europa tinha tido contato. Tornamos Portugal um país riquíssimo, mas que nunca deixou de ser visto pelos demais vizinhos como corrupto e provinciano. No livro “O império dos homens bons”, o autor português Tiago Rebelo fala dessa postura cultural durante a ocupação portuguesa das colônias africanas e até da dificuldade em se relacionar com outros colonizadores daquele continente em razão disso. É uma história real, vale a leitura.

Em geral, em praticamente todos os países do mundo, a liderança fora constituída por pessoas que se destacavam socialmente, seja por produção, seja por liderança. Então temos, na imensa maioria dos lugares, que aqueles que trabalhavam de forma mais eficaz ou aqueles que criavam ou inventavam algo eficaz ou ainda aqueles que desbravavam novos horizontes, enfim, estes conquistavam condições sociais de liderança e estabilidade.

Não era fácil ser nobre em terras disputadas. Não era fácil ser colonizador em terras inóspitas. Não era fácil ser agricultor em picadas e nem ser artesão em terras industrializadas. Historicamente a aristocracia deixou de ser um título meramente sanguíneo e passou a ser uma herança dos meios de produção. A cultura humana deixou de valorizar a árvore genealógica e passou a dar mais valor a quem realizava algo, efetivamente.

Mas no Brasil as coisas não se deram exatamente assim. Com o bloqueio continental napoleônico de 1808, a nobreza portuguesa inteira veio para o Brasil e deixamos de ser uma colônia para nos tornarmos um império. Aqui, para se impor perante os nativos, passaram a exibir seus títulos e sua condição social, sem precisar de qualquer contraprestação a isso. Enquanto a Europa incorporava gradativamente a cultura de produtividade da era industrial, toda uma casta aristocrática real trazia para nosso país a ideia de que era o sobrenome e os títulos o mais importante e não a sua habilidade em desenvolver ou criar riqueza. Todas as terras daqui, todos os meios de produção, tudo era da aristocracia real portuguesa.

Não é à toa que fomos dos últimos a extinguir a escravidão, a adotar o modelo republicano, a substituirmos o modelo agrário pelo industrial. A cultura elitista a que fomos submetidos tinha como interesse a manutenção de tudo que havia antes da era industrial. A própria investida napoleônica se fundava – ao menos ideologicamente – na ideia de igualdade, liberdade e fraternidade, valores muito distintos daquilo que a coroa portuguesa transmitiu aos brasileiros colonizados.

No mundo, a riqueza se tornava algo decorrente da atividade burguesa, da produção. Mas é óbvio que os antigos aristocratas da realeza não queriam que isso os atingisse aqui. Ser elite num mundo produtivo era muito mais trabalhoso do que sê-la num mundo de títulos e sobrenomes.

Pois bem, ao logo do tempo nossa elite sempre foi dotadas de privilégios inalcançáveis aos demais do povo. Mas isso obviamente não poderia ser assim para sempre. Um dia esses privilégios teriam de acabar, porque é evidente que as transformações do mundo não permitiriam tamanha desproporção entre aquilo que era concedido a uns e outros dentro da mesma sociedade.

Foi aí que o jeitinho luso-brasileiro criou algo absolutamente inédito no mundo: ao invés de acabar com os privilégios, vamos distribui-los ao maior número de pessoas que pudermos e, assim, evitamos que nossas mordomias elitistas acabem.

Sim! Genial!

Então passamos gradativamente a abrir o grupo daqueles que chamamos elite e a distribuir direitos e mais direitos a todos os que conseguiam nele ingressar e, depois, a todos os demais.

Em nenhum país do mundo existem tantos direitos sem lastro como no Brasil. Aqui achamos realmente que o Estado é um ser divino, onipotente e onisciente, que tudo poderá por nós. Essa ideia de girico é integrada ao que acreditamos do mundo e tudo que se tenta fazer para desconstituí-la é tratado como “perda de direitos” ou “exploração”. Nos acostumamos de tal forma aos nossos direitos que se tornou absolutamente irrelevante o custo social necessário para mantê-lo. É como se algo, para existir, bastasse estar determinado numa norma e… pummmm…. que assim seja!

Um dia acordaremos desse nosso sonho que já dura mais de duzentos anos. Até porque o despertador já está tocando há muito tempo… e a tecla snooze já gastou.

O elitismo

Das certezas que tenho na vida, uma das principais é de que o Brasil é um país elitista. Mais do que o racismo, o machismo, do que as divergências religiosas e políticas, do que o excesso de paternalismo, somos treinados, informados, repetitivamente ensinados a aceitar naturalmente as diferenças de classe e seus privilégios. Não de classes sociais… elas não dizem exatamente quem é elite ou não. Os nossos privilégios são para as classes dominantes, as que exercem efetivamente algum tipo de poder, seja pelo cargo, seja pela imposição social ou financeira.

Vamos a alguns exemplos que são tratados como naturais.

O policial civil ingressa na corporação mediante concurso público. Trabalha a vida inteira lá e atinge a função de Comissário de Polícia. Quem manda na corporação?! Delegados de Polícia. Estes ingressam no cargo por concurso público. Por que isso é elitista?! Porque para ingressar neste cargo, nosso sistema entende ser mais importante o conhecimento teórico do que o prático. Conhecimento teórico bom precisa ser bem pago e dispor de tempo para preparo. Quem tem maiores condições disso?!

E nas corporações militares, seja nas forças armadas ou forças auxiliares?! Idem. Não se começa como soldado e chega a oficial comandante jamais. Não é a carreira e o trabalho que te elevam. É aquilo que você pode fazer na juventude, no início da vida laboral que determina onde você chegará. Para ser general, por exemplo, só com AMAN. Quem tem condições de entrar na AMAN?!

Olha a diferença de direitos entre trabalhadores da iniciativa privada e do serviço público. Olha a diferença de estrutura e remuneração entre os professores que dão aula nas escolas públicas e os que dão nas universidades públicas (quem estuda nas escolas públicas e nas universidades públicas?). Olha o foro “privilegiado”. Olha as punições que existem para certas funções públicas e as que existem para seus superiores, pela prática dos mesmos tipos criminais. Olha os benefícios que existem para as altas cúpulas estatais. Olha a quem mais prejudica o sistema de tributação sobre consumo e não sobre a renda que temos.

Elitismo é institucional no Brasil. A nossa própria Constituição prevê privilégios elitistas, ao invés de promover efetiva igualdade.

Imposição x Construção

Todos nós conhecemos a máxima de que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. É uma regra de educação humana e pode ser perfeitamente relacionada a qualquer aspecto da educação humana.

As sociedades são resultado da cultura e, ao mesmo tempo, construtoras da cultura. A cultura pode ser alterada por imposições ou por construções. Estou lendo um livro que fala da história do conhecimento, de como ele foi transmitido ao longo do tempo (A reinvenção do conhecimento, de Alexandria à internet). Os autores trazem de forma didática e interessante que muito do que criticamos foi, na verdade, muito eficaz para a transmissão do conhecimento humano. Um dos exemplo são os mosteiros. A igreja foi por muito tempo considerada a monopolizadora do conhecimento na idade antiga e medieval, como se fizesse isso com ardil e maldade. Na verdade, os mosteiros serviram de abrigo a diversas obras antigas, gregas e romanas na maioria, que se estivessem na mão dos governantes ou de particulares provavelmente teriam sido saqueadas, queimadas ou destruídas como muitas outras foram.

Muito do que se olha sobre a história é tratado de forma negativa e crítica. Faz-se um anacronismo avaliativo e julga-se o passado com os valores de hoje. Quase sempre que isso for feito o resultado vai ser uma avaliação crítica e negativa.

Pois a humanidade é feita de construções. Avança a passos largos ou lentos em direção a algo melhor do que já foi. Sem considerar a avaliação dos que acham que somos iguais ao que sempre fomos, pois evidentemente somos melhores do que o homem das cavernas, as construções realizadas por nossos antepassados funcionam como imposições no nosso tempo.

Não podemos escolher outro idioma, outros algarismos, outra estrutura social, outra cultura. Nascemos sobre condições impostas pela história. Há condições pregressas que não podemos alterar e ponto. Outras são indispensáveis sejam alteradas. A medida desta evolução é o que nos causa os embates de hoje e sempre foi assim.

Há evoluções que não parecem evoluções. Há mudanças que não são percebidas senão ao longo do tempo. A cultura é assim, volúvel, volátil e, ao mesmo tempo, hermética. Há os que mexem na cultura de forma definitiva, como Cristo, cujo nascimento baliza inclusive nossa marcação dos anos (quando viveu, Jesus não era o que é hoje). Há os que ensinam pelo mau exemplo. Somos biliões de almas que já passaram pela Terra, há muito de cada uma delas no que vivemos hoje.

Acredito que o modelo construtivo seja melhor que o impositivo nas relações humanas. Ensinar a construir e acreditar que isso produz resultados é melhor que impor a todos que atinjam tais resultados. E isso serve para quase todas os objetivos, características e valores humanos. Bondade, por exemplo. Ensinar a ser bondoso é muito diferente de impor a bondade. Impo-la cria hipocrisias, falsidades naqueles que ainda não aprenderam a sê-lo. Isso serve a qualquer demanda.

As imposições só devem existir quanto àquelas condutas extremas que, descumpridas, lesam suas vítimas. A violência, por exemplo. Ela precisa ser contida com repressão.

Então novamente voltamos ao grande dilema do equilíbrio entre o que deve ser construído e o que deve ser imposto. A veia dessa construção é a sabedoria. Sabedoria não é ser complacente, benevolente, tolerante. É, muitas vezes, ser impositivo.

O agir por imposição tem como elementos imprescindíveis os valores que se impõe. Quando perdemos essa referência, todo o mais se esvai. Se quero impor a igualdade de gênero, por exemplo, tenho que fazê-lo tratando a todos igualmente. Se quero que respeitem minha crença religiosa ou ideológica preciso respeitar a religião e a ideologia alheia.

Mas isso é dificílimo! E é isso que nos faz sermos tão conflitantes e polarizados.

Não há outra saída entre interesses divergentes que não seja a discussão dos valores que os norteiam. Precisamos construir e impor valores de igualdade, liberdade e fraternidade. Aos que vivem de discursar tais valores mas exercê-los apenas em favor de uns e não de todos, que imponhamos sejam respeitados. Aos que já estão dispostos a concretizar tais valores, que venhamos a construir laços de afinidade.

O que não podemos é permitir nos imponham valores distorcidos, que beneficiam uns e não todos, que criem privilégios, que sejam sustentados por demagogias e hipocrisias.

Os brasileiros são melhores do que têm se dito. Tirando uma turma barulhenta e imatura que pede que os outros façam sua parte, a maioria está na labuta de construir-se melhor a cada dia.

Você sabe onde estoura uma greve?

Você sade onde estoura uma greve? A quem ela prejudica? Quem depende daquilo que deixa de funcionar?

Você sabe qual correspondência deixou de chegar, qual exame médico terá de ser adiado, qual produto faltante adiará a conclusão de um trabalho?

Você sabe como vai se distribuir o leite do tacho, a carne já abatida, o tomate já colhido?

Você sabe como a auxiliar de enfermagem vai fazer para chegar ao hospital? E como ela fará para levar sua mãe doente ao hospital?

Você sabe o que o aluno aprenderá nesse dia?

Você sabe como o dono da padaria fará para compensar o dia sem faturamento no cumprimento das suas obrigações com aluguel e tudo mais?

Você sabe se o agente que causa o dano aos manifestantes está sofrendo com a greve como toda a sociedade sofre?

Você acha que ainda vivemos no Século XIX em que não havia nenhuma outra forma de reivindicar direitos que sequer existiam?

Você acha que a maioria das pessoas pode ficar sem trabalhar sem nenhum tipo de dano nas suas vidas? O agricultor, o marceneiro, o padeiro, o açougueiro, o pedreiro, o mecânico, a diarista?

Você acha que greve resolve problemas que não são resolvidos com trabalho, estudo e negociação?

A greve é um ato terrorista contra a sociedade, contra os pequenos, contra os produtivos. Ela não atinge governos, nem megacorporações. Apenas fortalece sindicatos, movimentos partidários e as pessoas que vivem dessa cultura vitimizada.

No mundo real, esse em que manifestações são menos importantes do que efetividades, as pessoas que não trabalham perdem, sofrem, têm danos irreversíveis.

Quem luta por direitos desrespeitando os direitos alheios é infantil. É como a criança que, para pegar o brinquedo, não olha nada além da sua vontade. Eis o que é a cultura da greve: uma infantilidade terrorista contra todos nós que produzimos e dependemos uns dos outros.

 

 

Mas que raios é isso que estão falando?!

Vivemos numa época em que já sabemos que a vida é melhor quando respeitados certos valores: igualdade, compartilhamento, fraternidade, compaixão, respeito, bondade, justiça, tolerância, dentre outros. O que não sabemos ainda é como fazer isso…

Por exemplo: tolerância. Nos nossos dias a palavra é repetitivamente usada para pedir aos conservadores que tolerem as diversidades, mas ela não é usada pelas minorias para tolerar o pensamento conservador. Vamos falar isso de outra forma: o jovem quer que seu avô pense como um jovem.

Outro exemplo: igualdade. É tratar todos iguais? É considerar todos iguais? É exigir que todos pensemos igual, tenhamos valores iguais, ajamos da mesma forma?

Bondade é um exemplo cujo debate tem me assustado um pouco. É cada vez mais ecoado que não existem “pessoas de bem”, no sentido, penso eu, de afirmar que todos somos passíveis de realizar maldades eventuais. É isso mesmo!?

O caminho que escolhemos está num ponto em que os valores historicamente preceituados estão sendo questionados e reformulados. Isso é bom. O que não é boa é a ideia de que os novos valores devem suplantar os anteriores totalmente. Essa ideia de descontinuidade atesta que a lição não foi aprendida, que apenas se mudou de lado, apenas se defende a mesma coisa de antes mas agora pro outro time.

Não há evolução cultural com a ideia de descontinuidade. A cultura humana é cumulativa, com acertos ou com erros. O que hoje é tratado como machismo e valorado como ruim já foi essencial para sobrevivência de certos grupos.

Veja por exemplo a questão da aceitação das relações homoafetivas. O mundo já a enfrentou de diversas formas ao longo da sua história, dependendo do lugar e da época. Na Grécia antiga de Platão – que dá origem a grande parte dos valores ocidentais – as relações entre homens e jovens garotos era tratada com hipocrisia, existindo uma aceitação velada e eventualmente até incentivada, mais ou menos como hoje tratamos o adultério. Então, esse não é um tema atual, nem novo, muito menos decorrente unicamente de valores religiosos ou moralistas. É um debate da própria condição humana, que se resume por motivos ideológicos.

Sabemos, portanto, os valores que nos permitirão viver melhor. Isso está claro. O que não sabemos é como efetivamente cumprir tais valores. Afinal, como se produz igualdade? Como se lida com o machismo, com o feminismo? Como se ensina a tolerar a diversidade?

A humanidade demonstra nesses seus enfrentamentos que, de maneira geral, melhorou tanto quanto a seus ideais quanto à sua prática, pois efetivamente hoje somos menos violentos, menos hipócritas, mais tolerantes. Mas ainda assim nos acusamos diariamente do contrário, como se todo o processo cultural humano fosse um erro imperdoável, como se apenas o que hoje se propõe como bom efetivamente o fosse.

Ora, se fôssemos tão detestáveis assim não teríamos chegado aqui!

A humanidade está num dilema existencial sobre a efetivação de seus valores como sempre esteve. São nossas lideranças que farão diferença, pois a massa humana é manobrável, frágil moralmente e se dispersa. A democracia não é o melhor sistema porque permite que todos tenham a mesma voz, mas porque permite que todos sejam como quiserem e participem se quiserem. A voz que comanda é daqueles mais preparados efetivamente, daqueles que melhor cativam e se impõe. É da nossa condição, não nos iludamos que podemos pular degraus evolutivos. Enquanto alguns de nós querem simplesmente viver sua vida, muitos vivem de debatê-la. O debate é menos importante que viver a vida, mas estão o transformando na própria existência.

A forma de colocar em prática qualquer coisa que se prega é vivê-la, não debatê-la. O debate é formação. A prática é maturidade.

 

Estabilidade de Emprego – o túmulo do êxito

Por muitos anos o mundo ocidental viveu sem a possibilidade do divórcio. Numa sociedade comandada por homens, as famílias não eram diferentes. Os homens podiam viver como quisessem e jamais suas esposas teriam ousadia de pedir divórcio, pois isso representaria a pecha de “desquitadas”, uma posição social abjeta. Os homens tinham a sua estabilidade matrimonial garantida e isso lhes dava alforria para serem como quisessem. Alguns, os mais depravados ou descompromissados, abusavam dessa condição porque isso não lhes afligia de nenhuma forma.

Mas veio a condição jurídica e social do divórcio e as mulheres passaram a exigir outro comportamento do seu companheiro… se não, tchau! Foi o nascimento da meritocracia matrimonial, o início da busca do êxito nas relações afetivas.

Não é à toa que nosso serviço público seja tão desprovido de efetividade. Há os abnegados e vocacionados servidores e há os que se escoram nesses. É a estabilidade e a cultura comodista do brasileiro que produzem boa parte disto.

Estagiei no Setor de Seguro Desemprego do Ministério do Trabalho. Ali havia cerca de vinte atendentes ao público que ia encaminhar o pedido de seguro desemprego. Sem exagero, cinco pessoas trabalhavam pelo setor inteiro. O resto batia ponto, tomava café e, entre uma conversa e outra, chamava alguém para atender. Na minha sala, uma das minhas colegas ficava o dia inteiro sentada lendo jornal e atendendo telefone, que tocava umas cinco vezes ao dia. Era algo que exigia muito esforço pessoal para não morrer de tédio (um dia vou contar como os estagiários desse setor resolviam os problemas de todos os gaúchos que aguardavam seguro desemprego).

No Brasil de hoje temos um grande número de profissionais de alto quilate que, para viver uma vida mais tranquila, entram nos quadros do serviço público. Ali, o ritmo mais calmo e menos cobrado do serviço tornam a busca pelo êxito, pela excelência, um ideal inatingível e, por isso, esquecido. E começa, depois disso, uma série de reclamações (muitas vezes pertinentes) para justificar a inoperância do setor.

É impossível o desenvolvimento sem o risco, sem a cobrança, sem o “colocar o meu na reta”. É impossível. Esse é só mais um dos motivos pelos quais pagamos tantos impostos e não recebemos serviços públicos satisfatórios. E isso não é culpa do servidor, pois a qualquer pessoa que estivesse nesta condição ocorreria o mesmo. Isso é cultural, é sistêmico e institucional. Para mudar, muita coisa tem de deixar de existir.

Estamos em vias de iniciar uma reforma trabalhista. Nossas leis laborais são retrógradas, paternalistas, protecionistas e antidesenvolvimentistas. Como achamos normal que alguém trabalhe 11 meses e receba 13,33 meses de trabalho? Como achamos bom existir recolhimento de FGTS com a pior taxa de remuneração do país? Como lidar com uma carga tributária de praticamente 30% sobre o faturamento? Isso é bom pra quem além dos acomodados e das corporações? Não é óbvio que seria mais interessante se receber mais e gastar menos com pinduricalhos que sustentam os acomodados de plantão?

Tenho um parente que é professor universitário no Chile. Ele trabalha nas universidades de março a dezembro. Em janeiro e fevereiro não tem aula, os alunos não precisam pagar por isso. E ele não recebe também.

Tudo que se garante em termos de Direito Trabalhista é pago pela sociedade. Por isso tudo nos é caro no Brasil. E é pago pela doméstica, pelo pedreiro, pelo zelador, pelo pintor. Pago inclusive por quem não tem o mesmo direito.

Aliás essa é uma das características do Brasil: muitas diferenças entre os trabalhadores das mais variadas categorias e setores. Nos tornarmos mais iguais nos fará mais jutos.

Marijuana Libre, chegou a hora

É evidente que boa parte da estrutura de repressão estatal se mobiliza para obstar a circulação da maconha e, mesmo assim, há cada vez mais usuários, pessoas de todas as classes sociais, idades, origens. É resultado da falência de muita coisa, principalmente do discurso contrário ao uso.

Criamos, assim, um mundo paralelo e hipócrita e jogamos nesse mundo uma penca de gente que está a financiar constante e pesadamente o submundo do crime organizado. Além de financiá-lo, criam laços com este mundo e tornam a vida marginal interessante e tolerável.

A maconha é tratada com tabu e falo por experiência própria, pois cresci onde alguns viviam de vendê-la e não eram as melhores pessoas da vizinhança. 

Uma das formas de se avaliar a maturidade é o pedido. Sua forma, seu momento, do que vem acompanhado. A sociedade está pedindo a liberação. Boa parte do que a ciência informa dá conta de que o efeito entorpecente e viciante (que serviu de justificativa pro banimento e repressão) não difere de outros agentes legalmente aceitos. É chegado o momento. Temos de nos permitir tratar esse assunto com maturidade.

Que seja um período inicial de teste, com prazo para reavaliar-se o resultado. Cinco anos? Parece um bom prazo. Veremos socialmente e pessoalmente se liberar atinge os propósitos ditos e se há muito do não-dito que merece atenção especial.

Cessar o financiamento do crime organizado, que corre cada vez mais violento e mobilizado, já seria um bom motivo. É evidente que o tráfico ganha com a legalização, mas ganhará também quem tem efetivamente chances de combatê-lo: o comerciante legalmente tutelado. Mesmo porque o traficante não faz o que faz por ideologia, nem por convicção.

Outro bom motivo é dar chance a quem defende a legalização de provar sua tese. Viu-se com o desarmamento que as teorias expostas como argumento de implantação eram balelas.

E há a questão da liberdade, um valor pouco relevante culturalmente no Brasil. Precisamos respeitar o direito das pessoas maiores e capazes de usarem o que quiserem, desde que respeitem a liberdade e os direitos alheios. 

Chegou a hora de enfrentarmos esse debate com maturidade. Uma maturidade que, infelizmente, não tem nos acompanhado.