Trânsito é fiel

Vivo há dois anos numa cidade litorânea gaúcha com cinquenta mil habitantes que, na temporada de verão, cresce umas seis vezes. É uma cidade tranquila, muito boa pra se viver, onde a violência ainda é pequena, os serviços públicos são bons e as pessoas têm boa qualidade de vida.

Mas uma coisa em especial me desagrada aqui: o trânsito. Para uma cidade turística, me espanta a despreocupação com esse tema. Sequer existe fiscalização.

Sou motociclista e já tive de usar severamente meus freios dezenas de vezes, em situações que poderiam ter me matado. Não se respeita preferência em rótulas, não se sinaliza, não se respeita faixa de pedestres, sequer se respeita o sentido das ruas no centro da cidade. Próximo à escola do meu filho pequeno os veículos andam na contramão, param em fila dupla, estacionam sobre faixa de pedestres e por aí vai.

Mais do que me queixar, quero entender isso.

O trânsito é o resultado da cultura de um local. Ele reflete a educação, o senso de responsabilidade, a atuação das autoridades, o respeito às regras de convivência. Quando vi às 11h da manhã de uma quarta-feira motoqueiros empinando suas motos numa das principais avenidas, onde fica o Fórum e a Câmara de Vereadores, tive certeza de que a cultura de impunidade e da imaturidade estava implementada. Aquilo é típico de um jovem de quatorze anos, mas era realizado por jovens dos seus vinte e cinco que se lixam pro mundo ao seu redor.

Recentemente reclamei de um veículo estacionado em fila dupla pela esquerda do meio fio, na avenida da escola de meu filho, e o motorista me ameaçou de morte. É o sinal da barbárie e da falta de valores elementares, que nos tornam o país que somos. Concluí que não tem outro jeito, se não pensar numa forma de levar educação de trânsito às escolas e plantar uma semente para, quem sabe, meus filhos usufruírem.

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”, M. L. King.

 

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Trânsito

Em 1998 fiz um curso de extensão em direito de trânsito na UFRGS. Um dos meus professores, um PRF, disse textualmente: quando se inicia a ultrapassagem no local permitido e se termina em local proibido, está tudo regular (porque não se pode interromper a ultrapassagem, o que aumentaria o risco da manobra). Eu imediatamente levantei o braço e disse que minha primeira autuação tinha sido exatamente por isso.

Pouco depois ele disse outra: durante a ultrapassagem não se avalia o limite de velocidade (porque quanto mais rápida, mais segura é a manobra). Levantei o braço e, novamente, disse que já tinha sido autuado por isso também. Ambas autuações pela PRF.

Nisso o professor me responde: “mas tu é perigoso, né”!? E eu: “na verdade a PRF é que é mal instruída”.

O trânsito é um reflexo da sociedade. É impossível termos um trânsito seguro e educado praticado por pessoas que são displicentes e ignorantes. Isso vale, como se vê no relato verídico, para todos os operadores e usuários do sistema.

Até hoje me questiono por que as autoridades de trânsito permitem que motocicletas circulem entre veículos, desrespeitando as faixas das respectivas pistas e a distância mínima entre veículos. Presumo que seja porque, no Brasil, a lei não basta. É preciso sempre alguém que solicite/determine seja a lei cumprida. E olha que cerca de 2/3 das vítimas estão em motocicletas!

Aqui em Capão da Canoa, onde moro, o trânsito é caótico. Não pela demanda, como nas grandes cidades, mas pelo total desrespeito à sinalização e à lei. A começar porque se estaciona no bordo esquerdo da principal avenida da cidade sem que haja sinalização autorizando. Como não há autorização da sinalização, vale a lei que impede se estacione na faixa esquerda de avenidas (seria como estacionar no bordo da faixa da esquerda da Av. Ipiranga, em Porto Alegre). Vejamos que também aqui é a autoridade de trânsito que não está agindo de acordo com a lei. É possível dar certo algo se o responsável por fazer dar certo não faz o certo?!

Adoro história e geografia. Adoro física, nem tanto química. Mas muito mais importante do que aprendermos isso é aprendermos a viver nossa vida. Escolas deviam curricularmente nos ensinar sobre nossas condições de vida. Nos ensinar devidamente sobre alimentação, circulação em cidades, atitudes de respeito social e pessoal, separação de lixo, uso consciente de recursos públicos e privados, e também comportamento e cumprimento de regras de trânsito.

Perdemos mais de quarenta mil vidas todos os anos em nossas estradas. A imensa maioria resultado de irresponsabilidades, às vezes por negligência, outras por imprudência. E aí incluem-se as estatais também. Por que isso não é enfrentado?! Porque acreditamos que estamos isentos e protegidos. A dor alheia ainda não nos tocou.

O trânsito é o reflexo mais preciso de uma sociedade. Olhe para o da sua cidade e responda: você realmente acha que o problema do Brasil são apenas seus governantes?!